O ser humano usa a mentira como muleta para esconder sua insignificância e frustração

bovari
Capa de Madame Bovary, de Gustave Flaubert (obra escrita entre 1851 e 1856) – reprodução http://www.lereperigoso.pt

Moro em um prédio pequeno, na verdade um conjunto de dois edifícios de três andares cada e dois apartamentos por andar.

Há quase dois anos foi iniciada uma reforma total das duas edificações que não parece prestes a acabar e que, como era de se esperar, gerou e gera muita poeira e muito barulho.

Dia desses conversando a respeito reclamei que a obra estava demorando muito a ser concluída (por etapas) e que parecia com catedral de Brasília, que, desde que moro por aqui no DF, já foi reformada três vezes.

Um dos moradores, um sujeito baixinho (eu nunca confiei nos baixinhos, em gente com menos de 1,60 m de altura) contestou minha reclamação e me “esclareceu” que a catedral de Brasília somente foi concluída na década de 90 do século passado, graças à contribuição das mulheres (donas de casa, disse ele) que foram obrigadas a doar mensalmente R$ 1,00 para a conclusão da obra.

Quando vim a Brasília pela primeira vez, no início da década de 70, um dos locais visitados foi exatamente a catedral, que, na verdade, foi inaugurada em 31 de maio de 1970, ainda sem aqueles vitrais de seu teto. No ano em que visitei a catedral, eles já estavam lá.

Há outros furos na história do baixinho: 1) quem obrigou as donas de casa a doarem R$ 1,00 por mês para a conclusão das obras da catedral; 2) por que outras mulheres (que não as donas de casa e os homens) igualmente não foram obrigadas a doar R$ 1,00 por mês e 3) como foi possível doar R$ 1,00 por mês quando o Real sequer existia?

Mas como sou sempre curioso fui pesquisar a história do baixinho e me deparei com dois fatos: 1) oficialmente essa história nunca ocorreu e 2) nas redes sociais (esse amplo campo para fofocas, mentiras e factoides) ela não tem qualquer registro.

Resumo da ópera, o baixinho ou inventou a história na hora ou é coisa que ele ouviu em algum lugar e guardou como verdade, sem se dar ao luxo de checar a sua veracidade.

Das razões

As razões que levam as pessoas a mentir são muitas. Há explicações de todo tipo: desde as filosóficas até as religiosas, passando, obviamente, pelas clínicas.

O franciscano João Carlos Romanini diz que “a arte de mentir nasceu junto com a humanidade”; é “filha do pecado” e que “é improvável que desapareça algum dia[1].

Em a “História Universal da Mentira“, Roland Fischmann afirma que “a mentira é fascinante porque é profundamente humana. Todo ser humano mente, para o bem ou para o mal. Aliás, lutamos a vida inteira para sermos verdadeiros com nós mesmos, para nos realizarmos, tanto pessoalmente quanto profissionalmente. Todos nós sofremos do mesmo mal“.

Platão defendia que a mentira pode ser aceita em determinadas situações; já Aristóteles, Santo Agostinho e Kant a condenam em qualquer situação ou por qualquer razão.

Dos efeitos

Sob o ponto de vista clínico, o uso recorrente da mentira é uma compulsão, qual seja, mitomania: uma exteriorização de crenças (crenças [individuais/pessoais] decorrentes) do que a medicina chama de “angústia subjacente”, que, por sua vez, podem (as crenças) ter origem em angústia profunda, em um transtorno obsessivo-compulsivo, numa depressão, ou, ainda, em transtornos de ansiedade ou de humor.

Em casos considerados mais graves podem incluir uma enorme diversidade de assuntos e a própria pessoa tem dificuldade em lembrar o que é verdade e o que é invenção” (wp).

O mentiroso contumaz “tem necessidade de contar histórias falsas para se sentir bem consigo mesmo, caracterizando, nestes casos, um fenômeno psicológico denominado bovarismo” (ibd.).

Para a psicologia, o bovarismo é “uma alteração do sentido da realidade, na qual uma pessoa possui uma deturpada autoimagem… se considera outra (de características grandiosas e admiráveis) que não é” (ibd.).

Quem primeiro racionalizou sobre o bovarismo foi o filósofo francês Jules de Gaultier, em seu estudo Le Bovarysme, la psychologie dans l’œuvre de Flaubert (1892), no qual se refere ao romance Madame Bovary de Gustave Flaubert.

Não colocaria meu vizinho baixinho na mesma categoria de Emma Bovary e muito menos na de Flaubert.

Ele é apenas um pobre coitado que tenta encobrir os malfeitos e os malefícios da reforma de nossos prédios com invencionices.

Mas ele não é o único que precisa dessa muleta existencial.

Segundo frei João Carlos Romanini, pesquisa acadêmica realizada nos EUA (veja na Nota abaixo) indica que 91% dos norte-americanos admitem já ter mentido (uma ou várias vezes).

E esse não é um retrato onde caiba apenas os Estados Unidos.

Nota

[1]  Cinco razões para mentir

 

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