Reações prosaicas e provincianas marcam premiação de Dylan com Nobel de Literatura

dilijindoA escolha do cantor, compositor, escritor e artista plástico norte-americano, Bob Dylan, para o prêmio Nobel de Literatura deste ano causou reações diversas pelo mundo e, como não poderia deixar de ser, no Brasil.

Aplausos e reconhecimentos eram esperados, assim como críticas e ironias. Nestes particulares (críticas e ironias) parece, no entanto, que o Brasil se esmerou.

O site UOL se apressou, ontem, em ouvir livreiros (editores de livros), poetas e jornalistas que se avolumaram em condenar a escolha da academia sueca.

As “opiniões abalizadas” beiraram o ridículo, o nonsense, com gente afirmando que se era para premiar Dylan então que se premiasse, também, Chico Buarque de Holanda (“O coração tem razões que a própria razão desconhece”? – Blaise Pascal); um engraçadinho (ou tentando ser um) pediu a indicação do escritor moçambicano Mia Couto para o Grammy (latino ou africano?); outro (este o infatigável blogueiro de Veja, Reinaldo Azevedo) que o próximo indicado ao Nobel de Literatura seja a dupla sertaneja Chitãozinho e Chororó, e – não pasmem, que não é o caso – muitos, que a premiação não tinha sentido, posto “música não ser literatura”.

Uau! Uau!

Deixemos de lado todas as ironias e desconhecimentos e fiquemos apenas nesta soberba frase : “a música não é literatura”.

Talvez, antes de falar bobagens dessa magnitude atômica, devessem, ao menos, “dar” um Google, ou consultar a Wikipédia e até mesmo um bom dicionário. Muitas vezes isso resolve!

Mas, pelo jeito não fizeram, portanto faço eu.

A Literatura é a arte de compor e expor escritos artísticos, em prosa ou em verso, de acordo com princípios teóricos e práticos; o exercício dessa arte ou da eloquência e poesia.[1]

A palavra Literatura vem do latim “litteris” que significa “Letras”, e possivelmente uma tradução do grego “grammatikee”. Em latim, literatura significa uma instrução ou um conjunto de saberes ou habilidades de escrever e ler bem, e se relaciona com as artes da gramática, da retórica e da poética. Por extensão, se refere especificamente à arte ou ofício de escrever de forma artística. O termo Literatura também é usado como referência a um corpo ou um conjunto escolhido de texto…[2]” (wp)

Literatura –  “Atividade humana, criadora, que utiliza a linguagem e a língua para fins não somente de comunicação, mas também para fins estéticos e de cultura” (Dicionário Informal)

Literatura (latim litteratura, -ae) “forma de expressão escrita que se considera ter mérito estético ou estilístico; arte literária”. (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

Letra, em música, é o texto contido nas composições vocais para ser cantado ou, às vezes, recitado… Numa partitura para canto, a letra é escrita sob as notas musicais sendo as palavras separadas em sílabas.(wp)

Em Letra de música é poesia?, Antônio Miranda [3] diz que:

Li por aí alguém afirmando que Chico Buarque não é poeta, é letrista. Em sentido contrário, Paulo Henriques Britto (em Azougue 10 anos, 2004, p. 263, em entrevista a Sergio Cohn), afirma: “As letras de Caetano Veloso, Chico Buarque, Torquato Neto e tantos outros me empolgavam por ser poesia e falar das coisas e do tempo em que vivia, no tom exato, com as palavras do meu dia-a-dia, tal como os modernistas haviam falado do mundo deles com um vocabulário e uma sintaxe que antes não eram considerados apropriados à poesia. Estes artistas populares significam a minha fala e as minhas vivências .” É bom frisar que Paulo Henriques, além de poeta, é linguista por formação acadêmica.”

. . . . . . . . . .

Noel Rosa foi ou não foi o poeta da Vila? E que dizer do Cartola? Podemos considerar poeta um Catulo da Paixão Cearense (que era maranhense)? Eram sim, foram, são poetas e pronto. Caetano é um poeta!

Em artigo para a revista Cult (que ontem, aliás, apressou-se em saldar a escolha de Dylan) Francisco Bosco[4] argumentava que “O saldo de um século dessas transas estético-discursivas é, quero crer, a amenização da resistência a se considerar a canção popular como campo cultural capaz de produzir obras de inestimável valor estético, para muito além de um mero entretenimento gerador de mitos pops e movimentador de um mercado milionário…” e que “Como membro ativo da comunidade acadêmica posso atestar a (embora não consensual) aceitação da canção popular nos estudos acadêmicos, não como objeto apenas de interesse sociológico, mas como produção estética de grande valor. Inúmeras publicações, acadêmicas ou não, vêm contribuindo para uma avaliação mais pertinente da canção popular brasileira. É certo que, em meio a isso, ainda espocam, na imprensa como no meio acadêmico, intervenções territorializantes e ressentidas contra a canção popular. O sentido geral costuma ser algo como: a nós, poetas e intelectuais, o prestígio; aos compositores, o sucesso espetacularizado. É importante, contudo, lembrar que a triste situação cultural de esvaziamento do discurso acadêmico não deve conduzir à diminuição do valor da canção, o que só serve para piorar as coisas”.

Das (i)lógicas

A seguir-se a lógica reativa, o inglês William Shakespeare, o romeno Eugène Ionesco e o irlandês Samuel Beckett não poderiam aspirar ao prêmio da academia sueca, posto serem, a rigor, reles autores de teatro, e que, como todos eles sabem muito bem, o texto de teatro é um texto menor que não cabe em papel impresso a ser lido, portanto, não se trata bem de literatura.

Nesse diapasão quem sabe possamos estender a negativa aos próprios poetas (de papel)?

Notas

[1] A poesia, ou texto lírico, é uma das sete artes tradicionais, pela qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos ou críticos, ou seja, ela retrata algo em que tudo pode acontecer dependendo da imaginação do autor como a do leitor. “Poesia, segundo o modo de falar comum, quer dizer duas coisas. A arte, que a ensina, e a obra feita com a arte; a arte é a poesia, a obra poema, o poeta o artífice.”[1] O sentido da mensagem poética também pode ser, ainda que seja a forma estética a definir um texto como poético. A poesia compreende aspectos metafísicos e a possibilidade desses elementos transcenderem ao mundo fático. Esse é o terreno que compete verdadeiramente ao poeta.

[2] Aristóteles. Poética, IX-50

[3] Antônio Lisboa Carvalho de Miranda é membro da Associação Nacional de Escritores;  foi colaborador de revistas e suplementos literários como o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, do La Nación (Buenos Aires, Argentina) e Imagen (Caracas, Venezuela); professor e ex-coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação do Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília; organizador e primeiro diretor da Biblioteca Nacional de Brasília (2007 até o momento); doutor em Ciência da Comunicação (Universidade de São Paulo, 1987), com mestrado em Biblioteconomia na Loughborough University of Technology, LUT, Inglaterra, 1975 com formação em Bibliotecologia pela Universidad Central de Venezuela, UCV, Venezuela, 1970.

[4] Escritor, ensaísta, professor de Teoria Literária e letrista de canção popular. É autor de Da amizade (poesia -7Letras, 2003), além de autor de diversos ensaios, artigos e resenhas publicados em revistas acadêmicas e jornais

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