Pai que mata filho ativista social é expressão de barbárie e de intolerância

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Guilherme Silva Neto, estudante goiano assassinado a tiros pelo próprio pai, ou quando a intolerância política-ideológica vai ao necrotério – Foto/Reprodução jornal O Estado de São Paulo.

Grosso modo e forçando um pouco a mão é possível dizer que gente de esquerda (isso é uma generalização) é mais cordata e pacífica que os de direita (isto também é uma generalização).

Porém, há quem venha, muito a propósito, lembrar-se das atrocidades do Khmer Vermelho [1], da Revolução Cultural maoísta [2], dos gúlacs soviéticos [3] e do paredón cubano [4].

Há quem até tenha se dedicado a intensa pesquisa para escrever “O livro negro do comunismo[5], que não ficou sem resposta, pois também alguém teve a “brilhante” ideia de escrever “O livro negro do capitalismo[6].

Algumas perguntas antes de prosseguir: por que razão a palavra negro/negra sempre aparece para identificar situações negativas como nos dois casos?

Por acaso o que se relata em ambos os livros não foi praticado, em quase sua totalidade, por gente branca?

A essas coisas todas costumo definir, desde a juventude, como “contagem de cadáveres” – “eu tenho em meu caderninho mais cadáveres que você” ou “você matou muito mais gente que eu”.

Trata-se, como se vê, de uma sociopatia – doença mental em que o paciente apresenta comportamento antissocial.

Doutras generalizações

Generaliza-se, à esquerda, que o sistema Liberal ou Capitalista é desumano, transforma o homem (sapiens) em lobo voraz do próprio homem, numa competição individualista, que, ao findar, “não vai dar em nada”, como cantou Gilberto Gil [7].

À direita, a generalização indica que o sistema Socialista/Comunista suprime do homem (sapiens) a liberdade de decidir por si só o destino de sua própria vida.

Ambas as definições (“verdades absolutas”) apenas têm defeitos e nenhuma qualidade.

Não se leva, por exemplo, em consideração que a competição é intrínseca a todos os seres – animais, inclusive à flora.

Ou que foi sim sob as reflexões socialistas-comunistas que se avançou nas lutas sociais, na superação das desigualdades que assolam e oprimem a existência de mulheres, homossexuais e de grupos tidos como minoritários ou vulneráveis.

Das incertezas

Seria correto dizer que boa parte de nós, se vivêssemos em regimes totalitários de esquerda, estaríamos em situação vulnerável, e provavelmente nos tornaríamos em mais uma vítima do sistema.

Mas igual raciocínio pode ser aplicado aos regimes totalitários de direita, o nazismo e o fascismo, e também, como se viu por aqui, durante a ditadura militar.

Mais uma vez, como se vê, as generalizações são injustas, precipitadas e minimalistas, até por que nem todo regime socialista, como nem todo capitalismo é por si só injusto e desumano.

Holanda, Finlândia e Suécia, por exemplo, são países liberais/capitalistas e sobre eles temos pouco ou quase nada a opor.

Cuba tem um sistema de educação formidável, assim como a saúde, que já se tornou, há muito, uma referência, mundial.

A China (atual) fez uma revolução econômica e levou modernidade, segurança social e ganho à quase totalidade de sua população.

Das brasilidades

Os pouco mais de 13 anos de petismo (de tinturas levemente esquerdizantes) não foram capazes de romper as desigualdades regionais e individuais no Brasil.

Nem poderiam!

A eles se contrapunham os mais de 500 anos de injustiça social e de exploração desenfreada da população e dos recursos naturais nacionais.

Há muita coisa a se dizer sobre este breve período (e se diz muito), uma delas que o petismo não proporcionou (em grande medida) o acesso da população ao conhecimento e à história brasileiras, não permitindo assim que cada brasileiro/a entendesse em que fragmento da ordem social se insere, e como superá-lo.

Fruto disso, dizem, surgiu o acirramento de ânimos entre familiares, nas redes sociais, nas rodas de amigos, nos locais de trabalho e nas ruas.

Isso é visível.

Como também é visível uma ruptura feroz entre pessoas, ruptura essa que pode desembocar em casos grotescamente estúpidos como o do pai goiano (Alexandre José da Silva Neto, de 60 anos) que no final de semana assassinou a tiros o próprio filho (Guilherme Silva Neto, de 20 anos), este ativista social, que apoiava (e participavas das) ocupações de escolas.

O grave é que a eventual ignorância de Alexandre por si só não explica a violência e o crime.

Alexandre é produto da história brasileira. Um ser brutal e grotesco; sustentado e estimulado por uma sociedade perversa e desumana, que aposta no confronto final, colocando de lado a possibilidade do diálogo e suprimindo o pouco que resta de nossa civilização.

Se é que já chegamos a esse estágio.

Notas

[1] Seguidores do Partido Comunista da Kampuchea, no Camboja (1975 a 1979), liderado por Pol Pot.

[2] Grande Revolução Cultural Proletária (conhecida como Revolução Cultural Chinesa) – campanha político-ideológica a partir de 1966 na República Popular da China, liderada por Mao Tsé-tung.

[3] Gulag era um sistema de campos de trabalhos forçados para criminosos, presos políticos e qualquer cidadão em geral que se opusesse ao regime da União Soviética.

[4] Esteriotipação das penas de morte em Cuba, durante a presidência de Fidel Castro.

[5] “O livro negro do comunismo: crimes, terror, repressão” (1997) de Jean-Louis Panné, Andrzej Paczkowski, Nicolas Werth, entre outros autores.

[6] “O Livro Negro do Capitalismo” é uma obra coletiva de professores e pesquisadores universitários (1998) como contraponto e paródia do “Livro Negro do Comunismo”.

[7] Parte dos versos finais da música “Se eu quiser falar com Deus”, do álbum “A gente precisa ver o luar” (1981), gravada por Elis Regina e pelo próprio Gil.

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