Rotular nossos adversários políticos de fascistas é impreciso e arcaico

fascismo
Wikipédia

As palavras fascismo [1] e fascista [2] voltaram com toda força ao pobre vocabulário do brasileiro, empobrecendo-o ainda mais.

Dependendo da ocasião os (sic) black bloc [3]são fascistas.

Assim como o são os grupos que, anteontem, em Brasília e no Rio, saudaram o juiz Sérgio Moro e pediram intervenção militar.

O jornalista Reinaldo Azevedo enxerga um fascismo de esquerda, identificando-o nas ações de militantes de organizações sociais como MST [4] e CUT [5].

Azevedo é um velho conhecido criador de neologismos como petralha, que já está, inclusive, dicionarizado.

O jornalista de Veja tem milhares de seguidores que já começam a rotular qualquer esquerdista de fascista “de esquerda”.

Não é incomum (pelo menos neste momento) o uso da expressão de Azevedo nos espaços de comentários de notícias e nas redes sociais como forma de rebater a pecha de “coxinha” e provocar os de esquerda.

A vulgarização do uso de palavras, especialmente que escapam às suas definições originais, as desqualificam e as descaracterizam e as empurram para o desuso.

A rigor as palavras não envelhecem (como algumas pessoas acreditam), mas podem mudar de sentido, como, por exemplo, rapariga (mulher jovem/prostituta); ou sofrerem alterações na grafia, como você (vossa mercê / vosmicê / você) ou mesmo serem resgatadas do ostracismo, como foi o caso de estorvo [6] (estrovo) por Chico Buarque de Holanda.

No início desta semana, uma amiga (real) e de redes sociais me mandou “tomar no cu”, irritada por eu ter discordado de uma de suas postagens.

Não me rotulou de fascista, mas insinuou, ameaçando, inclusive, me deletar de seu grupo de amigos (no Facebook) e de cortar relações.

Um dia depois, outra (agora ex) amiga (só de Facebook) foi mais explícita e em resposta a um comentário meu rotulou-me três vezes de fascista. Em seguida me deletou e me bloqueou na rede.

O comentário que a irritou se deu a uma postagem sua a respeito do recente crime ocorrido em Goiânia, onde um pai assassinou o filho a tiros (depois se suicidou) por conta de diferenças ideológicas.

Na sua postagem (copiada de outra amiga de rede social) a ex-amiga identificava o crime goiano como homofóbico, dizendo que o estudante assassinado postara em seu perfil social (o que não é verdade) texto acusando o pai de obrigá-lo a manter relações sexuais com uma prostituta.

O comentário que fiz e que a irritou foi o seguinte:

De onde você tirou essa história de que o texto PELOS DIREITOS DOS MENINOS é do rapaz morto? Trata-se de uma falsificação grotesca do texto de Sílvia Amélia de Araújo, publicado no blog Preciso Falar, no dia 12 de março de 2013.

As desavenças entre pai e filho foram de caráter político, como testemunham os próprios familiares.

Seria bom pesquisar antes de publicar esse tipo de desinformação nas redes sociais.

Das antiguidades

O uso da violência verbal ou física, como estratégia de ataque e de defesa, indica que (a) não aceitamos que pessoas diferentes pensem de maneira distintas à nossa; (b) a força e a brutalidade devem se sobrepor ao diálogo e à convivência entre os diferentes.

O atual mal-estar que permeia a sociedade brasileira é, normalmente, atribuído a um choque entre concepções ideológicas distintas, quais sejam, de um lado, as de esquerda; de outro, as de direita.

Há quem veja isso superado, e tendo a concordar.

Ao que parece (é o que se vê pelas ruas e pelas redes sociais) o que está a ocorrer é um choque entre cosmopolitas [7] (libertários e liberais) e nacionalistas [8] (conservadores).

Sob esta ótica, portanto, fica indefensável apenas dividir a sociedade entre esquerdistas e direitistas; pelo contrário, é necessário avançar discussões e análises e reconhecer que tanto à esquerda quanto à direita há conservadores-nacionalistas que se opõem a uma crescente camada da população que nega validade ao Estado nacional e às suas idiossincrasias [9].

Leia também:

O grande repórter e os fascistas (blog Lúcio Flávio Pinto)

Já temos palavra do ano:’Pós-verdade’ (Diário de Notícias)

A vitória da pós verdade (Folha de São Paulo)

Notas

[1] Fascismo – movimento político e filosófico ou regime (estabelecido por Benito Mussolini na Itália, em 1922), que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais; governo autocrático e centralizado na figura de um ditador; tendência para ou o exercício de forte controle autocrático ou ditatorial.

[2] Fascista – relativo ou pertencente ao fascismo; partidário ou simpatizante do fascismo.

[3] Black bloc – estratégia, usada em manifestações, nascida na Alemanha, na década de 80, confundida, erroneamente, com grupos organizados.

[4] MST- Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, fundado em 1984.

[5] CUT – Central Única dos Trabalhadores, organização sindical fundada em 1983.

[6] Estorvo – que impede, embaraça; dificuldade, embaraço, obstáculo, estorvamento; pessoa ou acontecimento que causa aborrecimento.

[7] Cosmopolita – quem não se considera cidadão de um único lugar e sim do mundo.

[8] Nacionalista – relativo a nacionalismo; adepto do nacionalismo (tese ideológica surgida após a Revolução Francesa [1789-1799]; sentimento de valorização e de identificação de nação).

[9] Idiossincrasia – Predisposição particular do organismo que faz que um indivíduo reaja de maneira pessoal à influência de agentes exteriores; característica comportamental peculiar a um grupo ou a uma pessoa.

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