A “civilização” que não deu certo por aqui e nem tinha como dar

Havia uma garota na nossa turma da faculdade de jornalismo que eu sempre teimo identificá-la como Margarida, mas não creio que tenha sido este o seu nome.

Enfim, a história dela era a seguinte: a jovem se rebelava contra os dizeres “não pise da grama“, assim como defendia que os caminhos feitos pelos seres humanos em parque e bosques deveriam ser defendidos a qualquer custo, e não aqueles que o paisagista ou o administrador houvesse decidido que assim seria.

Renascer
Reprodução

Anos depois, no estado do Amazonas, conheci um sujeito que se orgulhava de ter ido à Disneylândia, com a esposa e os filhos, e não ter obedecido as filas disciplinadoras impostas pelo parque, ignorando-as e furando-as.

Não que neste caso não tenha outras recordações a respeito da nossa indisciplina, mas, pelo menos, isso foi o que me ficou de mais marcante.

É certo que exista uma miríade de texto sobre indisciplina (direta ou parcialmente), e como isso nos afeta como povos e como nação, mas gostaria, aqui e agora, de dar duas sugestões de leitura: a) “Por que as nações fracassam – as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (de Darom Acemoglu e James Robinson, editora Campus [está também em versão e-book no site Le Livros]) e b) “Civilização: Ocidente X Oriente” (de Niall Fergunson, Editora Planeta do Brasil Ltda., e também em versão digital).

Por que o Egito é tão mais pobre que os Estados Unidos? Quais são as restrições que impedem os egípcios de alcançar maior prosperidade? Será a pobreza do país imutável ou poderá ser erradicada? Uma maneira natural de começar a refletir a respeito é examinar o que os próprios egípcios dizem dos problemas que enfrentam e dos porquês de terem se insurgido contra o regime de Mubarak.” (in “Por que as nações fracassam”).

“… por que, começando por volta de 1500, algumas pequenas organizações políticas no extremo ocidental do continente eurasiático passaram a dominar o restante do mundo, inclusive as sociedades mais populosas e, em muitos aspectos, mais sofisticadas do Leste da Eurásia? Minha pergunta subsidiária é: se conseguirmos pensar em uma boa explicação para a supremacia do Ocidente no passado, será que seremos capazes, então, de fazer um prognóstico de seu futuro? Estamos realmente vivenciando o fim do mundo ocidental e o advento de uma nova época oriental?” (in “Civilização”).

São perguntas bastante oportuna e já bastante antigas.

‘ … a teoria econômica apresentada em A Riqueza das Nações (Adam Smith, tomos 1 e 2) é essencialmente uma teoria do crescimento econômico cujo cerne é clara e concisamente apresentado em suas primeiras páginas: a riqueza ou o bem-estar das nações é identificado com seu produto anual per capita que, dada sua constelação de recursos naturais, é determinado pela produtividade do trabalho “útil” ou “produtivo”— que pode ser entendido como aquele que produz um excedente de valor sobre seu custo de reprodução — e pela relação entre o número de trabalhadores empregados produtivamente e a população total.’

Há quem aponte para as religiões, especialmente para o cristianismo, aquilo que deferência o progresso do subdesenvolvimento.

Não seria tão crédulo assim, pois exatamente no cristianismo é que se dá a origem o Renascimento (1) e, podemos dizer ainda, a liberação das ciências dos destinos dos deuses – sejam eles quais forem.

A discussão sobre a “neutralidade” ou não da ciência é outra coisa antiga, mas que não cabe nesta discussão aqui.

Certamente não veremos essa recomposição ou redesenho da influência do mundo, que muita gente almeja e prega – mais por questões ideológicas do que por lucidez.

São ilusões, na verdade.

O correto é que estamos presos a algum tipo de amarra letárgica – seja ela cultural, seja ela ideológica, seja ela religiosa (provavelmente tudo isso junto), que não nos deixa evoluir e progredir, de forma que possamos tratar-se de beneficiar a todos nós.

Os exemplos citados no início do texto dão uma boa mostra disso.

Gostamos mais de contrariar e de discordar, e, porque não?, de nos rebelar (não se sabe bem contra o que e nem pra que) do que buscar uma evolução e um progresso consistente, ou seja, verdadeiramente revolucionário.

Pior para nós.

Nota

(1) O humanismo pode ser apontado como o principal valor cultivado no Renascimento. Baseia-se em diversos conceitos associados: neoplatonismo, antropocentrismo, hedonismo, racionalismo, otimismo e individualismo. O humanismo, antes que um corpo filosófico, foi um método de aprendizado que passava a dar um maior valor ao uso da razão individual e à análise das evidências empíricas, ao contrário da escolástica medieval, que se limitava basicamente à consulta às autoridades do passado, principalmente Aristóteles e os primeiros Padres da Igreja, e ao debate das diferenças entre os autores e comentaristas. O humanismo afirma a dignidade do homem e o torna o investigador por excelência da natureza. Na perspectiva do Renascimento, isso envolveu a revalorização da cultura clássica antiga e sua filosofia, com uma compreensão fortemente antropocêntrica e racionalista do mundo, tendo o homem e seu raciocínio lógico e sua ciência como árbitros da vida manifesta. (wp)

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