Lula é o problema, não a solução

“O lulismo é um sintoma da atual crise do sistema político, não sua solução”

uladaSilkva[Rodrigo Guimarães Nunes (PUC-Rio) pertence a uma jovem geração de intelectuais não imbricada com os resquícios de uma forma de enxergar e fazer política que, aos poucos, vai exigindo uma mudança de postura analítica e conceitual. Com uma cabeça bem formada, própria daqueles que extraem da filosofia ótimos exercícios para o pensar, não titubeia quando desafiado a utilizar essa capacidade para analisar a conjuntura brasileira. Foi com essa disposição que, no último dia 06 de maio, apresentou o tema A crise da representação política e os dilemas da esquerda brasileira, pelo ciclo de debates Brasil: conjuntura, dilemas e possibilidades, promovido pelo Cepat, em parceria com o Núcleo de Direitos Humanos da PUC-PR, Cáritas Regional Paraná, e apoio do IHU, na cidade de Curitiba.

Com grande versatilidade, Nunes transitou de um tema a outro de sua abordagem, estabelecendo relações e limites, desde um quadro mais global da atual crise da representação política até a especificidade das questões internas que o país brasileiro atravessa. Quando precisou, foi contundente na análise dos dilemas da esquerda brasileira.

A crise da representação política é uma realidade na maioria dos países, provocada por uma fissura, que só tem aumentado, entre os desejos da sociedade e as alternativas viáveis oferecidas pelo mercado eleitoral. Em termos de posições políticas, vive-se um desmoronamento do centro, que atinge muito mais a esquerda que a direita. Os quadros da direita são mais voláteis e mais ou menos se equivalem. Já a esquerda, diante da instauração de uma crise, necessita de maior tempo para sua regeneração, pois possui uma base social organizada, que demanda um trabalho articulado das forças sociais. Contudo, a crise faz crescer os dois polos radicais, o da extrema-esquerda e, do outro lado, o da extrema-direita, cuja ascensão mundial já se fez notória.

Os cidadãos representados vivem o dilema entre insistir em “optar pelo mal menor” ou rejeitar totalmente o sistema, na expectativa de uma futura reforma do mesmo. Tal questão vai além da crise de um projeto político, pois esta se resolve com a alternância de poder, ao passo que a crise da representação demora muito mais tempo para se resolver, dado o corporativismo da classe política, que engessa as possibilidades.

Muito cauteloso em suas análises, Nunes evita as ciladas de uma leitura simplista da realidade dos representados. No caso brasileiro, é categórico ao rejeitar as comparações fáceis entre a sociedade brasileira e o Congresso Nacional, como se o último fosse simplesmente uma expressão simétrica da primeira. Inclusive, constata que muitas análises fazem bastante confusão com adjetivações à sociedade, que facilmente passa a ser considerada de direita, conservadora, liberal, etc. A realidade social é muito mais complexa e os agentes nela envolvidos se movem a partir de diferentes enfoques, nem sempre coincidentes com as rápidas análises de momento. Nesse sentido, é um erro analítico enxergar a movimentação política como o simples resultado de uma ascensão conservadora na sociedade brasileira, pois oferece uma visão distorcida da realidade, tratando como fato consumado o que ainda está em disputa e retira da esquerda sua parcela de responsabilidade sobre a atual conjuntura.

É preciso lembrar que a maioria da população é contra o programa antipopular do atual governo pós-impeachment, que só fez aumentar a descrença no sistema político. Há uma quantidade expressiva de pessoas que defendem a universalização da qualidade dos serviços públicos e que são liberais nos costumes. Além disso, a grande maioria das pessoas não tem uma noção ideológica definida, estando muito mais preocupadas com os possíveis resultados da gestão pública.

Para tentar elucidar o atual momento político, Nunes retomou as Manifestações de Junho de 2013, afirmando que as mesmas escancaram uma crise da representação política que já existia e que, nesse momento, persiste em grau agravado. Nelas atuaram cinco atores ou forças sociais:

1) Uma nova geração política à esquerda do Partido dos Trabalhadores (PT);
2) Uma pequena direita ideológica, mas muito bem organizada;
3) Pessoas que não eram de direita, mas que naquele momento comungavam com suas aspirações, por exemplo, com o antipetismo, que parece ser um significante vazio que congrega por aproximação à direita;
4) Os governistas que chegaram tarde demais, mas que interferiram por fora;
5) Por fim, um grande número de pessoas, novos atores políticos, que nunca tinham ido às ruas, mas que se manifestaram amplamente, de diferentes maneiras, empunhando suas bandeiras.

Nesse cenário ímpar, a nova direita foi a que mais soube se beneficiar com as manifestações, encontrando interlocutores dentro do sistema político. Para Nunes, enquanto os jovens da direita foram recebidos com tapetes vermelhos pelos representantes do sistema político, os jovens da esquerda apanharam da polícia, com uma rigorosa repressão. Hipoteticamente, o desfecho ideal daquele momento político do país deveria ter sido o encontro entre a nova geração militante à esquerda com aqueles inéditos atores políticos que, infelizmente, desde a sua irrupção em 2013, não se tem mais notícias.

Para Nunes, o momento atual oscila entre o cinismo e a revolta dos cidadãos. A questão é: persistirá a descrença generalizada, arrastando a crise ou haverá um novo episódio ‘selvagem’ como foram as Manifestações de Junho de 2013? Não há clareza a respeito de quem e como será possível mobilizar este mal-estar generalizado.

A curto prazo, parece que o lulismo se beneficiará da atual conjuntura, mas isso não significa, de forma alguma, uma solução para a crise, ao contrário, é justamente o sintoma da crise. Para Nunes, o fato de Lula (alguém que pode ser preso a qualquer momento) aparecer como o salvador da lavoura, e talvez do sistema político como um todo, é a prova sintomática da crise que se vivencia. O lulismo foi dependente de condições econômicas e políticas que já não existem mais. Tal saída é apenas paliativa, em um arranjo que busca uma acomodação do sistema a curto prazo, mas que é incapaz de estancar a atual hemorragia. É bem provável que, com o passar do tempo, o lulismo saia de cena e sem o mesmo, na opinião de Nunes, o próprio PT estará morto.

A crise da representação é uma crise do poder constituído, que não pode contar com a solução por ele próprio (por dentro do sistema). Em se tratando da esquerda como um todo, um de seus desafios é quebrar o monopólio da representação política do PT. Utilizando uma linguagem metafórica, Nunes considera que a esquerda possui uma relação monogâmica com o PT, mas, ao contrário, o PT não possui uma relação monogâmica com a esquerda. Em sua opinião, este momento abre a possibilidade para que a esquerda tenha uma relação de promiscuidade virtuosa com diferentes grupos e faça diferentes experimentações. Como exemplo de uma experimentação, citou o caso da eleição da vereadora mais votada em Belo Horizonte, na última eleição, Áurea Carolina, negra e feminista, pelo movimento Cidade que queremos, a partir de diversos grupos que negociaram a candidatura utilizando a legenda do PSOL.

Nunes listou uma série de possíveis iniciativas que, a seu ver, poderiam melhorar a relação entre representante e representado. Entre elas, acabar com o monopólio dos partidos políticos, possibilitando candidaturas independentes e a criação de plataformas cidadãs; criar instituições que garantam o controle dos representantes pelos representados, já que não se deve esperar chegar o dia em que todos os políticos serão honestos; instituir condições de revogabilidade de todos os mandatos; colocar limites para o número de mandatos, não permitindo que o indivíduo seja carreirista na política; ampliar o debate sobre a reforma política e reforçar as bases organizadas.

Se a experiência das Manifestações de Junho de 2013, em certa medida, trouxe elementos traumáticos, Nunes não hesita em defender a necessidade de superação, construindo bases, voltando à organização popular, consciente que somente o burburinho pelas redes sociais não constrói compromisso coletivo. As redes socais possuem muitas possibilidades, mas junto a elas é preciso criar condições para que se tenha bases organizadas e estratégias comuns. Nesse sentido, a ideia de ecologia organizacional, com a valorização da complementaridade, parece ser valiosa. Diferente da perspectiva que busca unificar tudo, onde todos fazem o mesmo, esta vê como benéfico para o processo de transformação social tudo o que ocorre de favorável nos diferentes grupos e movimentos, que se complementam. Como bem salientou Nunes, todo movimento é uma ecologia e uma ecologia deve ser preservada.]

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Por: Jonas Jorge da Silva (09 Maio 2017), em IHU/Unisinos.

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