‘As bases e o ‘habitat’ da nova direita’

lUCRO[O Instituto Liberal, entidade presidida pelo economista e ex-colunista da revista Veja Rodrigo Constantino e que tem Bernardo Santoro como diretor-executivo, é tido como um dos principais think tanks brasileiros. A expressão inglesa designa as organizações ou instituições que produzem e divulgam conhecimento com o objetivo de influenciar mudanças sociais, políticas e econômicas. O papel desempenhado por entidades como Instituto Millenium, Mises Brasil e Estudantes pela Liberdade ajuda a entender melhor o atual estágio do liberalismo no país e as suas bases.

Na página de abertura do site Estudantes pela Liberdade (EPL) há um ícone onde se lê: “Receba recursos do Fundo Donald Stewart Jr”. O atraente convite tem potencial para desenrolar um extenso novelo sobre a origem, o desenvolvimento e o crescimento da ideologia liberal no Brasil. Apesar do nome em inglês, Donald Stewart Jr. foi um engenheiro civil carioca, fundador do Instituto Liberal, em 1983, a primeira entidade a divulgar de modo sistemático as ideias desse campo no país.

“O trabalho inicial do Instituto se concentrou por algum tempo na tradução, edição e publicação de livros e panfletos, já que eram muito poucos os textos sobre liberalismo existentes no Brasil”, explica o próprio site do Instituto Liberal. Em 1984, nasceu no Rio Grande do Sul o Instituto de Estudos Empresariais (IEE), organização composta na ocasião por jovens empresários, entre eles William Ling, do grupo Évora. Apenas quatro anos depois, em 1988, o IEE criou o Fórum pela Liberdade, tradicional evento de debate político e econômico que, em 2017, realizou sua 30° edição tendo como astro o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB).

Wiston Ling, também do grupo Évora e irmão de William, é o fundador do Instituto Liberdade do Rio Grande do Sul, entidade que nasceu como uma expansão regional do Instituto Liberal de Stewart Jr. e depois passou a ter vida própria. Seu filho, Anthony Ling, é por sua vez um dos fundadores do Estudantes pela Liberdade, ao lado de Juliano Torres e Fábio Ostermann. O grupo surgiu em 2012 com a missão de “desenvolver nos estudantes seu potencial máximo de liderança”.

Em junho de 2013, a efervescência das manifestações que tomaram conta do país também mexeu com o brio dos membros do Estudantes pela Liberdade (EPL). Porém, como a entidade recebia financiamento de organizações estrangeiras, seus integrantes não podiam levar às ruas a bandeira EPL. Para contornar o empecilho, tiveram então a singela ideia de criar uma marca apenas para participar das manifestações que sacudiam o Brasil: nascia assim o Movimento Brasil Livre (MBL).

“Quando teve os protestos em 2013 pelo Passe Livre, vários membros do Estudantes pela Liberdade queriam participar, só que, como a gente recebe recursos de organizações como a Atlas e a Students for Liberty, por uma questão de imposto de renda lá, eles não podem desenvolver atividades políticas. Então a gente falou: ‘Os membros do EPL podem participar como pessoas físicas, mas não como organização para evitar problemas. Aí a gente resolveu criar uma marca, não era uma organização, era só uma marca para a gente se vender nas manifestações como Movimento Brasil Livre. Então juntou eu, Fábio [Ostermann], juntou o Felipe França, que é de Recife e São Paulo, mais umas quatro, cinco pessoas, criamos o logo, a campanha de Facebook. E aí acabaram as manifestações, acabou o projeto. E a gente estava procurando alguém para assumir, já tinha mais de 10 mil likes na página, panfletos. E aí a gente encontrou o Kim [Kataguiri] e o Renan [Haas], que afinal deram uma guinada incrível no movimento com as passeatas contra a Dilma e coisas do tipo. Inclusive, o Kim é membro da EPL, então ele foi treinado pela EPL também. E boa parte dos organizadores locais são membros do EPL. Eles atuam como integrantes do Movimento Brasil Livre, mas foram treinados pela gente, em cursos de liderança”, disse Juliano Torres, diretor-executivo do Estudantes pela Liberdade (EPL), em entrevista concedida à Agência Pública em 2015.

As organizações Atlas e Students for Liberty citadas por Juliano Torres como financiadoras do Estudantes pela Liberdade são dois think tanks estadunidenses de peso na propagação da ideologia liberal não só nos Estados Unidos como na América Latina e em diversos países, incluindo a formação de novos e jovens líderes. “São poucos os analistas que conhecem o papel dos think tanks, mas são eles que facilitam a circulação de recursos, espaços físicos e mesmo virtuais, não só recursos financeiros como pessoais, muitas vezes com gente de fora, dos Estados Unidos, da Alemanha, Espanha”, explica Camila Rocha, doutoranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).

O fio do novelo que envolve essas organizações, movimentos e partidos da nova direita, chega até o argentino Alejandro Chafuen, presidente da Atlas Network. Em 2015, ele passou por Porto Alegre e participou das manifestações pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Na ocasião, publicou no Facebook uma foto ao lado de Fábio Ostermann. Naquele ano, ao lado do colombiano Plinio Apuleyo Mendoza, coautor do livro Manual do perfeito idiota latino-americano, Chafuen participou do Fórum da Liberdade, em Porto Alegre.

Foi no mesmo Fórum da Liberdade, em 2006, que foi lançado o Instituto Millenium, desde então uma das organizações mais influentes do liberalismo brasileiro. Em sua página na internet, o instituto se define como “entidade sem fins lucrativos e sem vinculação político-partidária com sede no Rio de Janeiro. Formado por intelectuais e empresários, o think tank promove valores e princípios que garantem uma sociedade livre, como liberdade individual, direito de propriedade, economia de mercado, democracia representativa, Estado de Direito e limites institucionais à ação do governo”.

Entre seus patrocinadores estão a Gerdau, a Pottencial Seguradora, a editora Abril, o Bank of America Merrill Lynch e o grupo Évora. Hélio Beltrão, do grupo Ultra, também é um dos fundadores do Instituto Millenium, ainda que o empresário tenha a sua própria entidade, o Mises Brasil, “associação voltada à produção e à disseminação de estudos econômicos e de ciências sociais que promovam os princípios de livre mercado e de uma sociedade livre”, segundo o próprio site do instituto.

É como decorrência das teorias econômicas de Ludwig von Mises, da chamada Escola Austríaca, que surgiu a frase muitas vezes vista nas manifestações pró-impeachment e proferida por alguns líderes dos novos movimentos direitistas: “Menos Marx e mais Mises”.]

Confira aqui a primeira matéria

Até onde vai a ‘nova direita’?

‘A internet e o discurso anticorrupção como “elemento unificador”’

[Uma das principais características dos movimentos que levaram milhões de pessoas a manifestações, especialmente em 2015, é o uso da internet como ferramenta de articulação. “A direita sempre teve presença nas redes sociais no Brasil, desde o Orkut já havia comunidades que reuniam grupos direitistas”, conta o sociólogo e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Sergio Amadeu. Segundo ele, um ponto importante na trajetória dos grupos direitistas foi a polêmica em torno da questão do aborto, explorada pela campanha do candidato do PSDB José Serra contra Dilma Rousseff (PT) na eleição de 2010, quando páginas e perfis de direita se fortaleceram no embate.

Amadeu também destaca outro fato, ocorrido após os protestos de junho de 2013, a apropriação de símbolos que marcaram aquele período, com outro viés. É o caso, por exemplo, da criação do MBL, cujo nome é “inspirado” no Movimento Passe Livre (MPL), e o Vem Pra Rua, grito dos manifestantes usado para chamar mais pessoas para protestarem contra o reajuste das tarifas de transporte público. “É o uso de uma tática antiga da direita totalitária, como quando a extrema direita alemã adotou a expressão ‘nacional socialismo’. É uma batalha semiótica por vários termos, envolvendo desde coletivos construídos a dedo até alguns menos coesos”, aponta o professor da UFABC.

“Em 2013 havia a ideia de que as manifestações não podiam ser lideradas por alguém, uma crítica explícita à liderança política tradicional. Houve a quebra de uma estética tradicional e aquilo animou uma parcela da população. Mesmo que as manifestações tenham começado com um movimento de esquerda, o Passe Livre, a base central era a desconfiança da política”, analisa o professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo Rodrigo Estramanho de Almeida. “Houve também uma nova estratégia de comunicação via internet utilizada por diversos setores, um divisor de águas na forma de se fazer política e que abriu espaço para o protagonismo de jovens e de novos grupos.”

Para o professor, é possível traçar paralelos entre esses novos grupos e movimentos ocorridos em outros países nos quais o meio virtual também foi fundamental para o trabalho de articulação. “Essa nova forma de comunicação pela internet é algo ligado ao espírito do tempo, que se relaciona com a Primavera Árabe anos antes, algo que vem acontecendo com muita força e é uma tendência. E até hoje os partidos políticos estão completamente perdidos em como se comunicar com a sociedade, não conseguem usar as novas formas”, observa Estramanho. “Na última eleição tivemos inclusive alguns políticos novos eleitos graças às redes sociais. Há um aprendizado com essas novas formas de se comunicar e fazer política, estamos vivendo um momento de mudança social, nem sempre pra frente.”

O que de certa forma amalgamou segmentos que ainda têm muitas diferenças entre si e os fortaleceu na internet, trazendo militantes e simpatizantes para suas páginas e perfis, foi o discurso anticorrupção, associado ao antipetismo, que ganhou força no âmbito das investigações da Operação Lava Jato. “A direita faz uso do discurso da corrupção contra a esquerda no mundo todo. Nas redes, para reproduzir esse discurso, adota o mais raso senso comum”, afirma Sergio Amadeu.

A falta de um “inimigo” que unifique os diversos segmentos que transitam na chamada nova direita poderia explicar, por exemplo, o fracasso das manifestações convocadas pelos movimentos que trabalharam pelo impeachment de Dilma no dia 26 de março. Mas não é o único fator. “Faltou um inimigo unificador. Mas é preciso considerar quatro coisas a mais: primeiro, o objetivo principal desses movimentos foi alcançado com o impedimento da presidente Rousseff, logo, o ‘fora PT’ foi vitorioso; segundo, é impossível para qualquer grupo manter um estado de mobilização constante, esses refluxos são esperáveis e esperados; terceiro, as últimas passeatas foram convocadas em nome de bandeiras muito abstratas, como uma questão técnica de legislação eleitoral, o que não é o mais excitante dos temas; e, por fim, há a percepção que a Operação Lava Jato anda e que (ainda) não está ameaçada”, reflete Adriano Codato.

Uma mostra do tsunami direitista nas redes sociais é um estudo feito no início de março pela ePoliticSchool (EPS) em 150 páginas de influenciadores, partidos, veículos de mídia e partidos avaliou que o número de interações em páginas de direita alcançou 14,7 milhões no período analisado, enquanto nas páginas de esquerda o número chegou a pouco menos da metade desse total, 7,1 milhões. O levantamento ainda aponta que 60,5% dos fãs das páginas estudadas eram ligados a tendências da direita.

O sociólogo ainda alerta para uma espécie de “jogo sujo” que já estaria sendo utilizado por grupos direitistas nas redes sociais e que pode ganhar ainda mais amplitude com os recursos financeiros mobilizados que costumam anabolizar algumas páginas. “Na campanha de Donald Trump houve uma estratégia que pode ser reproduzida aqui, mobilizando uma espécie de novo fascismo”, observa Amadeu. “Com essa estratégia operacional, que alguns chamam de estratégia da pós-verdade, quando se desmente um fato, existe outro sendo produzido. É uma tática já usada no Brasil e que vai ser ainda mais sofisticada, exigindo uma ação mais contundente em relação a essa despolitização que privilegia não o factual, mas a ideia da ‘convicção’”, aponta.

Facebook: ambiente polarizado

Levantamento realizado pelos pesquisadores Esther Solano (Unifesp), Pablo Ortellado e Marcio Moretto (USP) em uma manifestação pró-impeachment da presidenta Dilma em 12 de abril de 2016 mostrou que 47,3% dos entrevistados diziam se informar muito sobre política no Facebook, e 26,6% o faziam por WhatsApp, o que dá uma dimensão da importância das redes sociais no debate.

No mês anterior, março, os pesquisadores coletaram uma amostra de 6,2 mil postagens de 66 mil páginas brasileiras relacionadas à política. O mesmo elemento organizador constatado nas manifestações aparece de novo aqui: é a figura do PT que está no centro da dinâmica da rede, formando um bloco antipetista, de um lado, e outro com páginas petistas e também de esquerda críticas ao petismo, mas contrárias ao impeachment.] (Por Glauco Faria e Luciano Velleda, para a RBA publicado 15/05/2017 19h35, última modificação 15/05/2017 19h40)

Confira aqui a primeira matéria:

Até onde vai a ‘nova direita’?

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