Palavras são apenas palavras e a civilização é muito mais do que isso

Empoderar
VIX

Há quem tenha uma antipatia visceral (eu, entre tantos outros) pela palavra “empoderamento”.

Empoderamento, a rigor, é conquistar o poder, especialmente coletivamente.

A palavra não cabe ser usada quando se refere a um único indivíduo, seja ele homem, seja ela mulher.

Um dos embaraços que contempla “empoderamento” está justamente nesse detalhe, qual seja: ela só faz sentido quando se refere ao coletivo e não a indivíduos.

Coisa de comunista, diriam conservadores de direita e até mesmo liberais.

Conheci uma pessoa que disse ter sido ela a “criadora” do “neologismo empoderamento”, mas não acreditei na sua história. Há algumas referências anteriores que a desmentem.

Quando Chico Buarque usou a palavra “estorvo[1], muita gente (mais velha) já a tinha esquecido, e pessoas mais jovem não sabiam sequer de que se tratava.

Isso não quer dizer – nem o compositor e cantor reivindicou para si – que ele tenha “criado” um neologismo.

Aliás, já citei isso em outros textos: em algumas regiões diz-se “estrovo”.

Aí entramos numa outra seara (que não quero entrar neste momento) qual seja a de que as palavras ficam velhas.

Se puxarmos pela memória e pela história, pelo menos naquilo que se refere ao mundo chamado de civilizado e ocidental, vamos ver que a luta por “empoderamento” iniciou-se há alguns milênios, por exemplo, na Grécia Antiga [2], ou posteriormente com o judaísmo e mais recente durante o Império Romano [3].

Então se tratam de histórias e lutas velhas, mas sempre se apoiando (não se perca isto de vista) em ações coletivas, e não individuais, como se disse acima.

A modernidade da expressão “empoderar” pode, sim, estar ligada às lutas de negros, de mulheres e de gays (nos EUA), que se desenvolveram mais intensamente a partir daquilo que conhecemos como pós-guerra, quer dizer, após os confrontos contra o nazismo alemão.

Porém, temos alguns referenciais importantes anteriores, como a Revolução Francesa [4]e a Independência dos Estados Unidos [5], mas um foro importante de “empoderamento“ foi a carta de direitos humanos da ONU (Organização das Nações Unidos ou simplesmente Nações Unidas) [6].

Apesar de lutas antigas, abrasadas mais modernamente no pós-guerra, como a carta da ONU, persiste um desconforto que se expressa em forma de resistência da aceitação e do reconhecimento do direito das chamadas minorias (mesmo aquelas que são apenas sociológicas, mas não de fato) , qual seja, índios, negros, mulheres, gays e pobres em geral.

Aparentemente há, inclusive, um recrudescimento da resistência anti-empoderamento, como estamos vendo atualmente, a partir, por exemplo, de 2013, no Brasil (mas não só aqui), e igualmente o crescimento surpreendente do nazi fascismo na Suécia [7].

Há quem se sinta ameaçado (isso já é senso comum) pela ascensão das minorias, mas a questão é saber que tipo de ameaça é esta.

Seria apenas uma ameaça social (de classe, por exemplo)? Mas muita gente tida como minoritária, como milhares de mulheres, por exemplo, já fazem parte da burguesia, assim com o milhares de homossexuais masculinos e feminismo.

Tememos os negros e as negras por serem negros e negras?

Isso não faz muito sentido num mundo cada vez mais miscigenado.

O capitalismo, para o bem ou para o mal, diminuiu enormemente o número de pobres de todo o mundo, bem como facultou a eles um melhor acesso aos sistemas de educação e de saúde.

Portanto aqui também não faz sentido o temor pelos pobres – até porque parte considerável das classes médias (alta, média e baixa) originou-se nas estratificações pobres da sociedade.

Uma explicação melhor não estaria na nossas intransigência em não reconhecer no outro como um sujeito de direito (e de fato)?

Portanto, nos sentiríamos, isso sim, e à revelia das classe sociais e das nossas origens, incomodados por quem nos é diferente? [8]

Mas daí, diriam alguma pessoa, como a minha conhecida citada acima: estaríamos naturalizando as diferença, o que não seria desejável pois assim acabaríamos por perpetuar a opressão.

Mas será que, de outro lado, não estaríamos apenas preguiçosa e comodamente fugindo do confronto; escusando-nos de buscar saída e soluções, até por parecer esse de enfrentamento de impossível.

Parece, portanto, estarmos buscando um mundo ideal, singelo e harmonizado – como se isso fosse possível e desejável – sem grandes esforços e com paliativos.

Mas este ideal não pertence mais os campos da ciência e do direito, mas sim da religião.

Notas

[1] Estorvo é o primeiro romance de Chico Buarque, foi escrito no Rio de Janeiro, finalizado em Paris em 1990 e publicado em novembro de 1991 pela editora Companhia das Letras. Wikipédia

[2] Grécia Antiga é o termo geralmente usado para descrever o mundo antigo grego e áreas próximas. Tradicionalmente, a Grécia Antiga abrange desde 1 100 a.C. até à dominação romana em 146 a.C., …Wikipédia

[3] O Império Romano foi o período pós-republicano da antiga civilização romana, caracterizado por uma forma de governo autocrática liderada por um imperador e por extensas possessões territoriais em volta do mar Mediterrâneo na Europa, África e Ásia. Wikipédia

[4] Revolução Francesa foi um período de intensa agitação política e social na França, que teve um impacto duradouro na história do país e, mais amplamente, em todo o continente europeu. Wikipédia

[5] A Guerra de Independência dos Estados Unidos, Guerra Revolucionária Americana, Guerra Americana da Independência, ou simplesmente Guerra Revolucionária nos Estados Unidos, foi um conflito armado entre o … Wikipédia

[6] Organização das Nações Unidas (ONU), ou simplesmente Nações Unidas, é uma organização intergovernamental criada para promover a cooperação internacional. Uma substituição à Liga das Nações, a organização foi estabelecida em 24 de outubro de 1945,

[7] Apoio a extrema-direita dobra na Suécia, ‘porto seguro’ de refugiados http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/01/140119_suecia_xenofobia_cv_an

[8] Café Filosófico: Leviatã de Hobbes e as lógicas da força e da punição com Yara Frateschi https://www.youtube.com/watch?v=JiNyz9I5MYE&t=16s

 

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