O porteiro do Grande Hotel

GRande

Otávio chegou às 8h15 ao Grande Hotel. Fazia isso há 57 anos.

Dez minutos depois Otávio já estava com seu uniforme azul e seu quepe.

Mais cinco minutos e foi à copa tomar café e conversar animadamente com seus colegas.

Às 8h45, Otávio foi ao banheiro.

Rigorosamente às 9 Otávio postou-se em frente à portaria do Santa Genoveva. Era esse o nome do hotel, embora ninguém o conhecesse assim.

Às 9h15, Otávio lembrou-se que era porteiro do Grande hotel há 42 anos. Os outros 15 foram gastos como contínuo, copeiro, garçom e até ajudante de cozinha.

“Finalmente acabou”, disse, baixinho, pra si mesmo.

Um mês antes, no dia 13 de setembro, Otávio fora chamado ao RH.

“Parabéns seo Otávio”, disse Rosa, a chefe de RH. “Depois desses anos nos servindo com lealdade, finalmente o senhor vai gozar um descanso merecido… vai poder gozar a vida com a sua família… viajar com a patroa…”

Enquanto dona Rosa falava , seo Otávio lembrou-se de Serginho, um garçom jovem, bonito e mulherengo que pediu demissão há uns dois anos por não aguentar “essa chata da dona Rosa. Ela não para de falar e já me cantou várias vezes. Eu, hein!”.

“O senhor sabe, não sabe seo Otávio?, que o senhor só precisa trabalhar até o dia 12 de outubro… dia das crianças, seo Otávio…”

Seo Otávio não sabia se dona Rosa era casada, se tinha filhos, marido. “Eu nunca quero saber da vida dos outros. Eles lá e eu cá”, filosofava sempre.

“Olhe, no dia 12, seo Otávio, o senhor não precisa trabalhar. Mas venha aqui para a empresa… quer dizer, o senhor sabe… isso aqui não é uma empresa… é uma família da qual o senhor faz parte… E nós vamos fazer uma festinha de despedida… lá pelas 6 da tarde…”

“Se a senhora concordar”, finalmente seo Otávio falou… “eu venho trabalhar sim. Vai ser minha despendida da empresa… quer dizer, da nossa família… e depois a gente faz a festinha…”

“Seo Otávio, seo Otávio”, disse dona Rosa, abrindo um sorriso enorme. “O senhor é a prova do que sempre eu digo para os meus colegas e amigos: mesmo uma pessoa humilde, que nunca estudou, é pobre e mora na periferia… onde é mesmo que o senhor mora, seo Otávio?… ah deixa pra lá… mas como eu ia dizendo, mesmo uma pessoa nas suas condições é capaz de gestos nobres… de bondades que algumas vezes não encontramos em pessoas que conseguiram vencer na vida.”

Enquanto assinava “a papelada da aposentaria” (o sindicato abrira uma exceção ao poder da família Calabrese e tudo fora resolvido ali mesmo no âmbito do hotel) , seo Otávio ainda teve tempo de ouvir dona Rosa lhe dizer que “se não fossem as nossas diferenças sociais e de idade, quem sabe, né seo Otávio… e olhe”, voltando a falar sério “… não vá levar essa brincadeira ao pé da letra, hein… nossa família vai lhe dar um bônus de 5 mil, afinal o senhor dedicou toda sua vida a este hotel”.

Otávio assinou tudo, agradeceu e saiu.

Otávio trabalhava no Grande Hotel das 9 às 18 horas, cinco dias por semana (inclusive nos feriados) e um sábado por mês.

Tirava 2 horas de almoço e duas meias horas para um lanchinho e descanso. “Uma exploração”, diziam seus colegas, amigos e parentes. Mas Otávio não reclamava.

Seus proventos tinham como base dois salários mínimos e meio, “mais 10% por quinquênio”.

Dona Rosa, certa vez, explicara aos “funcionários subalternos” da “nossa família que essa é a política do hotel em reconhecimento aos inestimáveis serviços prestados pelos funcionários que nos são fieis… aonde a gente vai encontrar um bom emprego como esse, vocês não acham?”

Otávio engrossava seu salário com as gorjetas, especialmente nos dias de eventos importantes na cidade, “que em alguns meses chegam a mais de um salário mínimo”, explicou certa vez ao seo cunhado Antônio Pereira. “Mas mesmo em mês ruim, as gorjetas pagam uma feira pelo menos”.

Apesar das cobrança e das insistências de Mariazinha, Maria Pereira, “minha mulher”, Otávio nunca quis fazer “bicos no final de semana para aumentar a renda… Final de semana é pra eu descansar”.

Otávio mal tinha feito 18 anos, trabalhava ainda na cozinha do Grande Hotel, quando conheceu Mariazinha. Seis meses de namoro e os dois estavam casados.

Maria Pereira não podia ter filhos. Ainda menina, 13 anos, caiu de uma árvore, “não lembro mais”, desconversava, “acho que era uma mangueira”.

“O tombo afetou meus ovários”, explicou a Otávio quando este disse que eles deveriam casar. “Então eu não posso ter filho. Se você quiser um a gente vai ter de adotar”.

Otávio nunca levou em consideração a sugestão de Mariazinha, e nem mesmo considerou os seus apelos: “a gente bem que podia adotar uma menina. É mais fácil de educar”.

“É mais fácil nada. Aonde que você ouviu isso? Menina é só dor da cabeça. E de mais a mais, se você não pode ter filho, paciência. Não vamos ter filhos, nem nossos, nem dos outros.”

Com o tempo, numa coisa pelo menos concordaram: a ausência de filhos permitiu ao casal “guardar alguns, construir uma casinha e até comprar um carro”.

Otávio comprou “um carro meia boca” 10 anos antes de se aposentar. Ia todo dia trabalhar de carro, mas o deixava estacionado três ruas distantes do hotel. Otávio explicou a Mariazinha que “não queria dar carona pra ninguém, e nem que os graúdos da empresa saibam que eu tenho um carro”.

Do estacionamento ao hotel, do hotel ao estacionando Otávio cumpria um labirinto – passava por becos e galerias – coisa que se alguém percebesse não entenderia a sua razão.

O Hotel Santa Genoveva, o Grande Hotel, fora construído há mais de 70 anos, quando o centro da cidade “tinha meia dúzia de casas, a Prefeitura, a Câmara de Vereadores, uma Igreja, uma padaria e uma sorveteria”.

O Grande Hotel ainda pertence à família Calabrese, embora os seus construtores e primeiros herdeiros já tivessem morrido.

Hoje, o Hotel Santa Genoveva é “administrado profissionalmente, e “os seus donos atuais vivem por aí torrando o dinheiro que ganham com ele”.

Seo Otávio nunca conheceu “os donos do Grande Hotel… e acho que nem mesmo a dona Rosa viu essa gente um dia na vida”.

Certa vez seo Almeidinha, contador do Grande Hotel até sofrer um infarto e morrer, foi até o refeitório “almoçar com os subalternos“ e acabou por explicar que o hotel se chamava Santa Genoveva em “homenagem da uma tia-avó do patriarca da família”.

Galvão, “carregador de malas do Grande Hotel”, perguntou a Almeidinha se a avó do dono do hotel se chamava Genoveva.

“Não é avó… é tia-avó, seu idiota. E é claro que ela se chamava Genoveva. Se fosse Gertrudes, seria Hotel Santa Gertrudes.”

Galvão não era de se intimar com “um sujeito que tem um cabelinho tão bem penteado” e nem com o seu posto e importância dentro do hotel.

Muito pelo contrário! Galvão já fora preso quatro vezes por arruaça, por ter “batido num guarda”, por esfaquear um vizinho e ter expulsado o namorado de sua filha Rosana de sua casa.

“E essa véia também ajudou a construir do Grande Hotel?”, perguntou, com certo deboche, a Almeidinha.

O contador era cauteloso e se arrependeu do “idiota” que soltara momentos antes: “Não Galvão, a senhora Genoveva, uma mulher da nobreza italiana, já havia morrido quando a família Calabrese veio para o Brasil”.

Almeidinha até pensou em “pedir a cabeça desse marginal”, mas sabia que Galvão era protegido de dona Rosa… “só não entendo por quê?”

Otávio desse tipo de conversa e ouviu tudo quieto. Também não gostava de sair à noite e muito menos de “sair com gente que nem conheço direito”.

Durante esses 57 anos foi “umas quinze vezes” com os colegas “num bar que fica perto do hotel” e em apenas um churrasco “que a empresa dava todo ano na época do Natal” .

Participava apenas das festinhas dentro do próprio estabelecimento, isso se acontecessem “na hora do meu trabalho”.

Preferia a sua casa, a companhia de Mariazinha, de quem “eu sinto uma saudade miserável o dia inteiro”, e dos vizinhos, “pra bater papo, jogar conversa fora. Só não gosto de beber e nem de falar mal da vida dos outros. Quando eles começam com essas histórias eu vou embora”.

Otávio não se considerava um pão-duro, um mão-fechada. Era comedido nos gastos e “tenho os meus planos para o futuro”.

Mariazinha não reclamava do “jeitão do Otávio”, mas não sabia que “planos para o futuro são esses. Acho que nem ele sabe”.

Mas Mariazinha também gostava de Otávio, sentia sua falta durante o dia. “Ele nunca me bateu, nunca quebrou um prato de raiva, nunca gritou, nunca me mandou embora e… pelo menos é isso que eu sei… nunca arrumou um rabo-de-saia”.

Otávio era do tempo do ginasial. Estudou “o que pude estudar”. Fez o primário e o ginasial com um pouco de dificuldade, “e acabei por aí. Não quero mais nada com os estudos”.

Mariazinha seguiu mais ou menos os seus passos. Também fez, igualmente com dificuldades, o primário e o ginasial… “já tá bom, né?”

Diferente de seus parentes e amigos, Otávio e Mariazinha não gostavam de ver TV. Até tinham uma… “velhinha, ainda do tempo da válvula”, costumava ironizar a mulher do seo Otávio, mas que vivia “o tempo todo desligada”.

À noite, quando Otávio estava em casa, Mariazinha gastava o tempo fazendo “tricôs e crochês”, “pra economizar nas compras, né? E vender alguma coisa pra fazer um dinheirinho”.

Durante o dia, Mariazinha cuidava da casa, regava as plantas, cozinhava, lavava e passava, e “quando sobra um tempinho eu leio os livros do Otávio”.

Otávio, quando não estava de conversa na vizinhança, lia bastante. “Gosto de livro de aventura, de umas história de amor… não, nada de religião, nada desses negócios de assombração, bruxa… Acreditar eu não acredito, mas se está escrito em algum livro… vai saber?… é melhor evitar… deixar essas coisas bem longe de casa… bem longe da Maria e de mim”.

Mariazinha e Otávio não eram ateus. Nem agnósticos, palavra, que aliás, nem sequer conheciam.

Acreditavam em Deus, na vida eterna. Otávio era católico e Mariazinha “batista”, embora nunca tivessem lido a bíblia e “nem orassem”.

“Quando a gente casou”, explicou um dia no trabalho, Otávio, “a gente casou apenas no civil. Casar na igreja ia dar uma confusão danada. Ou a gente casava nas duas religiões, ou não casava em nenhuma. Não casamos em nenhuma”.

Desde a sua queda da árvore, aos 13 anos, que Mariazinha sentia “uns incômodos que não sabia explicar”.   Nunca teve as “regras normais”, sentia dores de cabeça quase todas as tardes e “passava algumas noites acordada sem saber por que e nem pra quê”.

Mariazinha nunca entendeu e nunca levou a sério o que “os médicos do posto de saúde diziam. Eles só passavam exames e remédios. Isso vai adiantar alguma coisa, eu perguntava sempre. Talvez, respondiam. Então pra que eu ia atrás disso se nem os doutores tinham certeza?”

Otávio era “um touro. Nem mesmo resfriado o danado pegou. Nunca ficou em casa um só dia. Nunca foi pra caixa. Isso é porque ele não bebe e não fuma”.

Por ser funcionário do Grande Hotel, Otávio era obrigado a fazer avaliações médicas todo ano.

Nunca encontraram nada. Um médico chegou a dizer que Otávio “rejuvenescia a cada ano, ao invés de envelhecer.”

Desde criança Otávio gostava de guardar dinheiro. Primeiro “numa lata de leite”, depois, já adulto, “na poupança”.

A ausência de filhos, o pouco interesse de Mariazinha pela medicina e pelos remédios e a “saúde de ferro” permitiram à família guardar o suficiente para a casa, para o carro e para os “planos do futuro”.

Quando se aposentou, Otávio até poderia desprezar, se quisesse, o “benefício concedido pela Previdência Social”. “Que benefício porra nenhuma (uma raridade, Otávio quase não falava palavrão). A gente se mata de trabalhar a vida inteira e depois, quando a gente já tá um caco, o governo chama essa porcaria de benefício?”

Na primeira segunda-feira após assinar “a papelada da aposentadoria” Otávio saiu do Grande Hotel às 4 da tarde, com a desculpa de ir ao médico “pela primeira vez na vida”.

Chegou em casa mais tarde do que o costume, depois das 10 da noite, e assustou ainda mais uma Mariazinha já assustada com a demora.

“Vendi a casa.”

“Tá louco, homem”, foi a primeira vez que Otávio viu a mulher levantar a voz. “Você vai se aposentar, vende a casa e a gente vai morar aonde? Na rua?”

“Vamos morar por aí. Pela vida. Pelas praias. Pelas estradas. Vou comprar um trailer.”

“Otávio, eu nem sei o que é esse troço de trailer”. O marido tentou interrompeu, mas Mariazinha não deixou. “Vá que isso seja uma coisa boa. Mas nós vamos ‘morar nas praias’ com que dinheiro, homem? Com a porcaria da sua aposentadoria?”

Otávio esperou Mariazinha acabar de falar e se acalmar.

“Já acabou? Pois agora escute. Olhe aqui” – mostrando um extrato bancário. “Esses anos todos eu guardei dinheiro pra gente poder viver pelo menos um pouco.”

Mariazinha tentou falar… “não… agora escute um pouco o seu marido. Olhe aqui… tem mais de 250 mil, e eu ainda vendi a casa por 100 mil. Já viu tanto dinheiro assim?”

“Nunca vi, não Otávio”, respondeu, baixinho, Mariazinha.

“Então mulher? O que nós vamos fazer daqui a um mês? Ficar aqui parado, esperando até a morte levar a gente embora.”

“É…”, considerou a esposa.

“Olhe, Mariazinha”, com mais carinho que costumava usar. “Eu ouvi uma coisa no ginasial, de um colega, que era mais ou menos assim: chega um tempo na nossa vida que a gente dobra o cabo da boa esperança”.

“Não entendi”, resmungou, baixinho, Mariazinha.

“O que ele disse é que a gente envelhece, e fica mais perto da morte ou está indo rapidinho pra ela. O que a gente tem a perder depois de dobrar o cabo da boa esperança? A vida?”

“É… a vida a gente vai perder loguinho, loguinho… Tá bom Otávio, mas me explica o que é esse tal de trailer…”

“Você vai ver o que é”, disse, mais uma vez, carinhoso. “Mas pra você não morrer de curiosidade até lá, vou falar que é um carro que puxa uma casa inteira na sua rabeira.”

Três dias antes de aposentar, Otávio comprou “o tal do trailer”, mandou fazer no dia seguinte uma revisão completa no novo veículo. Vendeu o seu carro “meia boca” e no dia da festa de sua despedida foi trabalhar com a “nova máquina, que, naturalmente, deixou estacionada três ruas distantes do trabalho.

Entre assinar a “papelada da aposentadoria”, vender a casa e o carro “meia boca” e comprar o trailer, Otávio tomou uma providência que achava fundamental para concretizar os “seus planos de futuro”: foi procurar Sérgio Augusto, “aquele menino da informática”, despedido do hotel após furtar um laptop de um hóspede.

“E aí seu Otávio, o que manda?”, saldou Sérgio Augusto que “agora trabalhava em casa”.

O porteiro do Grande Hotel quis saber como seria possível enviar uma mensagem pelo computador para todos os funcionários, clientes e proprietários do Santa Genoveva, “mas que não seja esse negócio de spam” (Otávio sabia uma coisinha ou outra sobre informática).

Sérgio Augusto tentou espezinhar o porteiro: “bem… isso é fácil, o problema são os e-mails. Por acaso o senhor sabe o que são e-mails? Se todo mundo tem um? E o mais: como a gente vai conseguiu esses e-mails todos?”

“É claro que sei o que é um e-mail, Serginho” (Sérgio odiava que o chamassem apenas por um de seus nomes e ainda mais no diminutivo). “E você acha que eu fiz o que esse tempo todo lá? Fiquei roubando laptop de hóspede? Já tenho um por um, tome aqui”, mostrando uma listagem completa e já salva em um pendrive.

Sérgio Augusto não gostou das “inciativas” de seo Otávio, mas rapidamente imaginou uma oportunidade de dar-lhe “o troco” e ainda de tomar “algum dinheiro, mesmo que fosse um pouco, do velho e ignorante porteiro”.

“Tá bom, seo Otávio. Mas vai lhe custar algumas coisa.”

“Quanto, Serginho?”, respondeu seco Otávio.

“Ah… dois… não, dois não… três mil”

“Tá… vou fazer o seguinte”, retrucou Otávio. “Vou lhe pagar cinco mil. Em dinheiro e agora mesmo”, disse tirando as notas de um envelope.

Após Sérgio Augusto contar do dinheiro, Otávio pegou-lhe pelo braço:

“Tem uma coisa. Esses e-mails devem chegar todos às 2 da tarde sem falta. Outra coisa: se um só e-mail não chegar”, blefou Otávio, “eu volto aqui com o Galvão. Você sabe quem é o Galvão, não sabe?”

“Sei sim, seo Otávio”, respondeu um muito assustado Sérgio Augusto. “É aquele das facadas, não é?”

“É esse mesmo. E é ele quem vai checar, não é assim que vocês dizem?, se os e-mails chegaram ou não”.

Otávio e Sérgio Augusto ainda ficaram conversando mais algum tempo, escrevendo a mensagem a ser enviada aos funcionários, aos clientes e aos proprietários do Grande Hotel.

Optaram por um layout em letras vermelhas aplicadas num fundo preto.

Ao arrumar as malas para a viagem aos “planos de futuro” de Otávio foi que Mariazinha descobriu muito mais que romances e livros de aventura.

Descobriu mapas de viagem, manuais de sobrevivência e de mecânica, prospectos de hotéis, pousadas, campings e restaurantes. Facas de todos os tipos, pratos e talheres de plástico e até um revolver.

Na manhã do dia 12 de outubro – “dia das crianças, seo Otávio –, antes de ir para o trabalho, o porteiro recebeu um representante da imobiliário que intermediara a venda da casa, a quem “entregou a chave do imóvel” e a escritura.

Desta vez Mariazinha foi junto “para a cidade’ com o marido. Ficou hospedada em um pequeno hotel na mesma rua onde Otávio deixava o trailer estacionado, enquanto o marido ia para o último dia de trabalho e para a festinha de despedida no Grande Hotel.

Ao meio dia, Otávio informou à direção do Grande Hotel que teria de se ausentar rapidamente para buscar a mulher que fora ao médico, mas que voltaria “até no máximo as três horas” para ficar “zanzando por aí e esperar a festinha de despedida”.

“Pode ir, seu Otávio”, disse Marcelo, o jovem chefe de segurança do Grande Hotel. “Afinal o senhor já está aposentado mesmo e trabalhou esta amanhã toda sem ao menos receber hora-extra por isso. E traga a senhora sua esposa… como é mesmo o nome dela, seo Otávio?”

Seo Otávio não respondeu, e antes de sair do hotel passou na sala de dona Rosa para ver se ela não podia dar “aquele agrado de 5 mil que prometera por conta da sua fidelidade. Sabe dona Rosa, a minha mulher está no médico… teve de fazer uns exames que custam caro e eu estou sem nenhum nesse momento”.

“Ora, seo Otávio”, disse uma sorridente dona Rosa. “Mas é claro. Tome aqui o seu agradinho”, estendendo-lhe um cheque nominal. “É uma pena. Nós iriamos entregar na hora da festinha, mas se o senhor está tão necessitado assim… fazer o que?”

‘Obrigado”, disse seo Otávio.

“Ah, mas não se esqueça de passar no banco para descontar o cheque. A clínica não vai aceitar pagamento com um cheque nominal e ainda tendo de dar o troco…”

Mais uma vez Otávio agradeceu a gentileza e os esclarecimentos de dona Rosa e saiu.

Otávio passou no banco e depositou o cheque em sua poupança, depois “sacou algum para a viagem” e foi para o hotel reencontrar Mariazinha, tomar banho e “trocar de roupa”.

Faltando dez minutos para as 2 horas Mariazinha e Otávio fizeram o check-out. Otávio ainda pediu para fazer, “se possível, uma ligação. É aqui pra cidade mesmo”.

O recepcionista não permitiu a ligação “de graça” e indicou um orelhão no saguão. Como Otávio não tinha cartão de telefone o recepcionista foi gentil e emprestou-lhe o seu.

Otávio ligou para a recepção do Grande Hotel, pediu para a telefonista que “se desculpasse com a dona Rosa e com todo os seus companheiros de trabalho”, mas que não poderia voltar “para a festinha de despedida”, e pediu, “se possível for”, que a telefonista “passasse essa informação pelo sistema de som do hotel”, anunciando, inclusive, que para sanar essa “lamentável falta minha com pessoas que me trataram tão bem esses anos todos” que  estava enviando uma mensagem, por e-mail, a “todos da família do Grande Hotel”.

Luiza, a telefonista, achou o pedido fora de propósito, mas… afinal era o seo Otávio, “gente boa, profissional correto e dedicado ao Grande Hotel”, ela mesma havia comprado “uma lembrancinha para o porteiro e outra para sua esposa, que pena.”

“Então, que mal tem? Não vai tirar pedaço de ninguém mesmo”, ponderou, mais tranquila.

Serginho cumpriu o prometido e às 2 horas todos receberam em suas contas de e-mail a “mensagem de despedida“ do seo Otávio.

As 2h30 Luiza foi despedida por justa causa.

As 4, após diversos telefonemas da família Calabrese, os advogados do Grande Hotel estavam reunidos para ver “que medidas tomar contra esse velho irresponsável”.

Os advogados chamaram a polícia e uma viatura foi deslocada para a periferia, mas os policiais encontraram apenas uma casa vazia e vizinhos que não sabiam “onde o casal estava”.

Seis meses depois ninguém tinha a menor de ideia do que acontecera com seo Otávio e dona Mariazinha.

Apenas Galvão via graça na história, não se ofendera com a mensagem e até reenviava para outras pessoas a mensagem de seo Otávio, em letras vermelhas aplicadas num fundo preto:

“Aí, seus filhos da puta. Enfim estou livre de vocês. VÃO TOMAR NOS SEUS CUS! Assinado, seo Otávio, o porteiro.” (MTS)

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