Nas lutas sociais é preciso ser esperto para não ser surpreendido

Renascer
Reprodução

O sacerdote Aldo e eu fomos a uma área alagada do Mato Grosso do Sul, creio que em 1979, onde o governo federal, bem mais tarde, construiu uma ponte ligando o estado ao Paraná.

Não guardei outras referências do religioso católico, apenas que era italiano, mas não sei de que ordem. Poderia chutar que fosse salesiano, mas não tenho certeza.

Ele, sacerdote progressista, era ligado à Teologia da Libertação; eu, leigo não–católico, atuava na Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Nunca alguém me cobrou o fato de eu ser um não-cristão à época, embora houvesse sido alguns anos antes (católico).

Tratava-se de uma enorme área devoluta (algumas pessoas a identificavam como “o pequeno pantanal”) que estava sendo “grilada” por, pelo menos, dois fazendeiros “paulistas”.

Seria uma boa terra para destinarmos aos lavradores sem terra (à época o MST ainda não havia “nascido”).

Na primeira tentativa que fizemos para chegar à área, o “fusquinha” de padre Aldo não conseguiu vencer os diversos bancos de areia que se acumulavam pelas estradas.

Tivemos de pedir a ajuda de madeireiros que transitavam livremente pela região.

Eles amarravam uma corrente no “fusquinha” e o puxavam com aqueles enormes caminhões, mas depois a gente caia mais à frente em um novo banco de areia.

Depois da terceira tentativa desistimos da empreitada antes que “fusquinha” de padre Aldo se desintegrasse.

Alguns dias mais tarde, padre Aldo descobriu que alguns “senhores” iriam para a área e melhor, eles tinham uma caminhonete e estavam dispostos a nos dar carona.

Só tinha um problema: os “senhores” trabalhavam para um dos “paulistas” que grilavam a área que queríamos destinar aos trabalhadores sem terra.

Padre Aldo veio me perguntar se aceitávamos ou não a oferta.

Eu lhe respondi que sim, desde que os “senhores” garantissem o nosso retorno.

Aceitamos!

Um dos rapazes (creio que todos eles fossem mais do que trabalhadores e empregados) ficou encarregado de preparar a nossa “bóia” (comida).

O trajeto era longo e passaríamos o dia todo no local.

No chão, usando gravetos e madeira e equilibrando a única panela disponível, o sujeito preparou-nos um “arroz de carreteiro” como nunca mais encontrei na vida.

O cara podia até não ser trabalhador rural, mas sim pistoleiro, mas o danado cozinhava bem demais.

Escoltados por eles (que não nos perguntaram nada e de nossa parte também não dissemos coisa alguma – mas ninguém era besta para não saber o que um e outro fazia naquelas paragens) vasculhamos toda a área.

Voltamos ao fim tarde quando não se enxerga claramente as coisas e… uma surpresa: pistoleiros ligados ao outro “grileiro” apareceram de supetão, o que causou um enorme mal estar.

Ninguém pegou em armas, mas as armas estavam visivelmente postas e dispostas no ambiente.

Padre Aldo me olhou, me interrogando com os olhos: “e agora? O que fazemos?”

Cinicamente lhe respondi que a partir daquele momento a história era com ele, um sacerdote católico, embora muitas daquelas pessoas não fossem católicas.

Ele titubeou um pouco, mas acabou aceitando o desafio; antes eu ainda o autorizei a revelar minha condição de jornalista – quem sabe essa revelação servisse para alguma coisa?

Padre Aldo, mais calmo e menos assustado, foi hábil, conversou com os dois grupos, serenou os ânimos e pudemos sair sãos e salvos da enrascada.

Só tempos depois racionalizei além daqueles acontecimentos: o que os dois grupos ganhariam se atritando e se matando um ao outro?

E mais: me pareceu também que o grupo que nos levou não teve intenção alguma de nos hostilizar e de nos interrogar.

Essas pessoas são espertas e precavidas, e sabem que o futuro que os aguarda não é dos mais alvissareiros.

Então, quem sabe nesse futuro eles não tenham precisão de se socorrer de uma igreja qualquer ou da própria Teologia de Liberação?

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