O resumo é este:
O Google sabe o que você procura, o Facebook sabe o que você gosta. A partilha é a norma e o sigilo não é tido em conta. Quais são as consequências psicológicas e culturais do fim da privacidade?
Eis algumas ideias fortes:
Chegámos ao fim da privacidade, as nossas vidas privadas, ao contrário das dos nossos avós, passaram para o domínio da vergonha e do segredo.
Através de muitas pequenas concessões que fomos fazendo progressivamente, destruímos direitos e privilégios pelos quais gerações anteriores lutaram, minando, assim, as bases da nossa personalidade.
Chegámos a um ponto em que a maioria de nós aceita que as interacções sociais, financeiras e, até, sexuais ocorram pela internet e que alguém, em algum lugar, assista. Na verdade, tudo o que fazemos aí é impulsionado por fórmulas matemáticas complexas, que são invisíveis e misteriosas.
Quando tomamos alguma consciência disto, sentimos uma nova forma de inquietação: estamos a ser investigados, processados e manipulados por via de uma inteligência artificial que tem por trás a inteligência humana.
Um exemplo é o projecto DRIP (Retenção de Dados e Investigações) no Reino Unido, que obriga as empresas que recolhem informações dos seus clientes a retê-las e armazená-las, podendo a polícia e o governo solicitá-las.
Em geral, a princípio, observamos horrorizados este tipo de iniciativas, mas depressa passamos ao cinismo, pois temos ideia de que qualquer protesto da nossa parte será inútil.
Importa perguntar: qual é o impacto pessoal e psicológico dessa perda de privacidade? Que protecção legal é oferecida a quem deseja defendê-la?
Talvez seja tarde demais para fazer essa pergunta, pois chegámos a um momento em que o nosso quotidiano ultrapassou a ficção, ultrapassou as distopias, ultrapassou o “e, se…”.
Recordemos, Yevgeny Zamyatin que concebeu, no seu romance We, de 1921, um “one state”, uma sociedade transparente sem privacidade. Seguem-se Orwell, Huxley, Bradbury, Atwood e outros que elegeram a usurpação da privacidade como um dos principais “ingredientes” do futuro totalitário. O romance The Circle, de Dave Eggers publicado em 2013, pinta um retrato de uma América sem privacidade: um império assente na internet pesquisa e controla a vida de todos, confiando na adesão ao seu lema: “Segredos são mentiras, compartilhar é cuidar e privacidade é roubo”. A heroína acaba por se desintegrar sob a pressão do escrutínio, tornando-se uma das hordas obedientes e sem rosto. Um outro romance recente – Meatspace, de Nikesh Shukla, publicado em 2014 – que explora a fusão das esferas do privado e do público, começa com as seguintes palavras da personagem principal, um escritor solitário cuja única ligação ao mundo é a internet: “a primeira e última coisa que faço todos os dias é ver o que estranhos estão dizendo sobre mim”.
O nosso pensamento vai no sentido de julgar como suspeita qualquer coisa que se mantenha longe do olhar público, de modo que, menos alguns de nós, não querendo ser vistos como suspeitos, aceitam “partilhar” o que é privado.
Mas talvez haja a razão mais importante que nos leva a ceder a essa “partilha” não seja, como alguns defendem, sermos dóceis ou ignorantes, incapazes de ver a complexa teia de interesses, sobretudo comerciais, que nos enredam; talvez seja porque entendemos perfeitamente a transacção que está em jogo. Ou seja, queremos manter a internet gratuita e sabemos que as empresas ganham dinheiro com algo que estamos dispostos a dar em troca, a nossa privacidade. Trocamos a privacidade pela riqueza de informações que a internet nos oferece, pela conveniência das compras on-line, pela aldeia global dos media.
Essa troca leva-nos a aceitar o efeito normalizador da vigilância. Há uma auto-verificação do nosso comportamento quando sabemos que estamos sendo vigiados. É o “panóptico” de Jeremy Bentham, um modelo para as cadeia onde um único guarda podia observar uma prisão inteira, não importava se o guarda estava ou não a observar, a mera possibilidade de estar seria suficiente para garantir o cumprimento da norma.
É neste ponto que nos encontramos, sob uma vigilância que pode parecer benigna, mas que denota um poder sombrio e controlador sobre todos.
A mensagem subliminar que passa é se queremos mesmo manter algo privado, devemos tratá-lo como um segredo, mas de um modo semelhante ao que a personagem de 1984, Winston Smith, fez: “Se quiser manter um segredo, deve escondê-lo de si mesmo”.
Aqui reside o maior risco de invasão da privacidade, desvalorizado por aqueles que aceitam alegremente os tentáculos da corporação entre as empresas, os media e os estados. Recorrendo a Don DeLillo, no seu livro de 2010, Point Omega, “você precisa saber de coisas sobre si que os outros não sabem. É o que ninguém sabe sobre você que permite que você se conheça”.
Negando-nos o acesso aos nossos próprios mundos internos, desistimos daquilo que nos eleva acima da mera sobrevivência, daquilo que nos torna humanos.
Perguntei a Josh Cohen por que precisamos de privacidade na nossa vida, a sua resposta foi um aviso: “precisamente porque a privacidade garante que nunca somos totalmente conhecidos pelos outros ou por nós mesmos, a privacidade constitui um abrigo para a liberdade, para a imaginação, para a curiosidade e para a auto-reflexão. Portanto, defender o eu privado é defender a própria possibilidade de vida criativa e significativa”.]
Publicado em De Rerum Natura.