Temer faz jogada de mestre, encurrala o PT e deixa as esquerdas sem saída

Intervem
Sputnik Brasil

Como chamou a atenção em artigo hoje – Temer colocou um abacaxi no colo da esquerda – (Vi o mundo), Ricardo Cappelli – secretário da representação do governo do Maranhão em Brasília e ex-presidente da União Nacional dos Estudantes – o presidente da República encurralou as esquerdas, que, na prática, sequer têm candidato ao Palácio do Planalto, muito em conta do fator Lula da Silva e seu equivocado discurso de vitimista, o que acabou por esvaziar qualquer possibilidade de uma alternativa à esquerda, que não ele próprio.

Em leitura logo pela manhã – “Bolsonaro é favorito para vencer se disputar o segundo turno contra o PT” (El País) – “Maurício Moura, que trabalhou em campanhas nos EUA e no Brasil,  diz que velhos dogmas das eleições brasileiras, como a preponderância da TV, estão em xeque” e que “candidatos com perfil ‘indignado’, como o esquerdista Ciro Gomes e o deputado de extrema direita Jair Bolsonaro, são potencialmente competitivos numa disputa na qual Luiz Inácio Lula da Silva está virtualmente fora…”.

O PT sentiu o golpe e começa a perceber que ficou sem saída, e apenas um fator excepcional pode lhe tirar da enrascada.

Enquanto Temer intervém no Rio de Janeiro e segue dando números (corretos ou falsos [1]) palatáveis à economia brasileira, Fernando Henrique Cardoso trabalha para esvaziar as candidaturas temporãs, tipo o global Huck, visando limpar a trilha para Alckmin e derrotar o PT ou algum outro candidato de esquerda já no primeiro turno.

Nota

[1] Como Viemos Parar Aqui Neste Buraco por Luiz Gonzaga 

 

Anúncios

“Não-eu” – “Anatta”

“Não-eu”

Primeiro texto

Emptiness_Anatta_No_Self

[(Por Ajaan Thanissaro) – Um dos primeiros obstáculos que as pessoas no Ocidente se deparam com frequência quando estão aprendendo acerca do budismo é o ensinamento de anatta, com frequência traduzida como ‘não eu’. Esse ensinamento é um obstáculo por duas razões.

Primeiro, a ideia de que não existe um eu não se encaixa bem com outros ensinamentos budistas, tais como a doutrina de kamma e renascimento. Se não existe um eu, quem experencia os resultados do kamma e renasce?

Segundo, ela não se encaixa bem com a nossa referência judaico-cristã que possui como pressuposto básico a existência de uma alma eterna ou eu. Se não existe um eu, qual o propósito de uma busca espiritual?

Muitos livros tentam responder essas questões, mas se você procurar no Cânone em Pali – o registro mais antigo que existe dos ensinamentos do Buda – você não irá encontrar absolutamente nenhuma referência.

Na verdade, em uma ocasião em que o Buda foi questionado diretamente se existe ou não um eu, ele se recusou a responder. Quando mais tarde perguntado por que, ele disse que acreditar que existe um eu ou de que não existe um eu, significa cair em formas extremas de entendimento incorreto que impossibilitam a prática do caminho budista. Por isso a questão deve ser deixada de lado.

Para entender o que o seu silêncio sobre essa questão informa acerca do significado de anatta, precisamos primeiro entender os seus ensinamentos acerca de como as questões devem ser perguntadas e respondidas e como interpretar as suas respostas.

O Buda dividiu todas as questões em quatro classes: aquelas que merecem uma resposta direta (sim ou não); aquelas que merecem uma resposta analítica, definindo e qualificando os termos da questão; aquelas que merecem uma contra pergunta, devolvendo a bola a quem levantou à questão; e aquelas que devem ser colocadas de lado.

A última classe de questões corresponde àquelas que não conduzem ao fim do sofrimento e estresse. A primeira tarefa de um mestre, quando questionado, é identificar a que classe pertence a pergunta e então responder da maneira adequada. Você por exemplo, não responde sim ou não a uma questão que deve ser posta de lado. Se você é a pessoa que está perguntando e obtém uma resposta, você deve determinar até que ponto a resposta deve ser interpretada. O Buda disse que existem dois tipos de pessoas que distorcem os seus ensinamentos: aquelas que fazem deduções acerca de enunciados dos quais não se deve fazer nenhuma dedução e aquelas que não fazem deduções quando deveriam fazê-las.

Essas são as regras básicas para interpretar os ensinamentos do Buda, mas se olharmos a forma como a maioria dos autores trata a doutrina de anatta, veremos que essas regras básicas são ignoradas. Alguns autores argumentam em defesa da interpretação de não eu dizendo que o Buda negou a existência de um eu eterno ou independente, mas isso equivale a dar uma resposta analítica a uma questão que o Buda mostrou que deve ser posta de lado. Outros tentam fazer deduções de alguns enunciados contidos nos discursos que parecem indicar que não existe um eu, mas com segurança podemos dizer que se alguém força esses enunciados a dar uma interpretação a uma questão que deveria ser colocada de lado, estará fazendo deduções onde elas não devem ser feitas.

Assim, ao invés de responder “não” à questão se existe ou não existe um eu – interconectado ou separado, eterno ou não – o Buda percebeu que a questão estava mal formulada desde o princípio. Por quê? Não importa como se defina a fronteira entre “eu” e “outro“, a noção do eu implica um elemento de auto identificação e apego e, por isso, sofrimento e estresse. Isso vale tanto para um eu interconectado que não reconhece um “outro” como para um eu separado.

Se alguém se identifica com toda a natureza, sofre com cada árvore que cai. Isso também vale para um universo que seja completamente “outro“, em que a sensação de alienação e futilidade se tornaria tão debilitante fazendo com que a busca pela felicidade – a própria ou de outros – se tornasse impossível. Por essas razões, o Buda aconselhou que não se desse atenção a questões como “Eu existo?” ou “Eu não existo?”, pois não importa como elas sejam respondidas, conduzirão ao sofrimento e ao estresse.

Para evitar o sofrimento implícito nas questões de “eu” e “outro“, o Buda ofereceu uma maneira alternativa de como encarar o que experimentamos: as Quatro Nobres Verdades do sofrimento, a sua causa, a sua cessação e o caminho que leva à cessação. Ao invés de ver essas verdades como pertencendo a um eu ou outro, ele disse que se deveria reconhecê-las simplesmente pelo que elas são, em si mesmas e por si mesmas, da forma como são experimentadas diretamente, e então realizar a tarefa apropriada a cada uma delas.

O sofrimento deve ser compreendido, a sua causa abandonada, a sua cessação realizada e o caminho para a cessação desenvolvido. Essas tarefas constituem o contexto no qual a doutrina de anatta pode ser mais bem compreendida. Se você desenvolve o caminho da virtude, concentração e sabedoria até o ponto em que alcança um estado de bem estar tranquilo e utiliza esse estado de tranquilidade para olhar para a sua experiência sob a perspectiva das Quatro Nobres Verdades, as questões que ocorrem na mente não são “Existe um eu? O que é o meu eu?” mas ao invés disso “Estou sofrendo porque estou me apegando a este fenômeno em particular? E isso é realmente parte de mim, meu? Se gera sofrimento mas não é realmente parte de mim, ou meu, porque me apegar?” Essas últimas questões merecem respostas diretas, pois elas auxiliam a compreender o sofrimento e gradualmente eliminar o apego – o sentimento residual de auto identificação – que é a sua causa, até que finalmente todos os traços de auto identificação desapareçam e tudo que reste seja a liberdade sem limites.

Nesse sentido, o ensinamento acerca de anatta não se trata de uma doutrina de não-eu, mas de uma estratégia de despersonalização para se desfazer do sofrimento através do abandono da sua causa, conduzindo à felicidade máxima e imortal. Nesse ponto, questões acerca do eu ou não-eu são colocadas de lado. Uma vez que essa liberdade completa é experimentada, porque haveria qualquer preocupação com quem a está experimentando ou se se trata ou não de um eu?]

Segundo texto

A Essência do Budismo

Emptiness_Anatta_No_Self

[(Por Nyanatiloka Thera) – Farei uma breve exposição da essência genuína do ensinamento do Buda tal como ainda encontramos nas escrituras budistas trazidas até nós na língua pali. [1]

Dentre os ouvintes, muitos não são budistas, o que torna o conhecimento do ensinamento original do Buda algo quase desconhecido. Não é preciso dizer que, para tais pessoas, não é possível adquirir um criterioso e completo entendimento de um tema tão amplo e profundo dentro do espaço de tempo limitado de minha fala. Ainda assim alguns de vocês talvez possam assimilar certas ideias que pareçam importantes; e estas talvez se revelem um estímulo para futuras investigações neste imenso e profundo universo de pensamento. Mesmo que estas palavras não tenham outro efeito além da remoção de pelo menos alguns dos muitos preconceitos e falsas ideias sobre a doutrina do Buda, isto já seria uma grande recompensa.

Não parece irônico que tal doutrina religiosa – a mais sóbria de todas – seja ainda considerada por muitos ocidentais como uma forma de idolatria ou misticismo? O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, vários anos atrás, entendeu e enfatizou a absoluta sobriedade e clareza do Budismo quando afirmou:

O Budismo é cem vezes mais realista que o Cristianismo. É herdeiro da tradição de dispor os problemas com frieza e objetividade. Veio à vida após centenas de anos de desenvolvimento filosófico. A noção de Deus é afastada logo de início. Oração é algo fora de questão. O mesmo vale para o ascetismo. Não há imperativo categórico. Nenhuma coerção, nem mesmo dentro da comunidade monástica. Portanto, não obriga a lutar contra aqueles de fé diferente. É um ensinamento que se volta vigorosamente contra o sentimento de vingança, animosidade e ressentimento.” [2]

Antes de dar início à exposição do ensinamento do Buda devemos nos familiarizar, ainda que brevemente, com a personalidade do Buda. O termo “Buda” significa literalmente “O Iluminado”. Tal nome foi adquirido pelo sábio indiano Gotama quando de sua iluminação aos pés da árvore figueira-dos-pagodes em Bodhgaya na Índia. Ele nasceu como filho de um rei indiano nas fronteiras do atual Nepal, por volta de 600 anos antes de Cristo. Aos 29 anos, ele renunciou a vida mundana e trocou sua carreira de príncipe pela de mendigo sem casa. Após seis anos de intenso esforço ele finalmente alcançou seu objetivo: libertação do ciclo de renascimentos ou Samsara. O Buda descreve este tempo em suas próprias palavras como segue:

Bhikkhus, antes de ter alcançado a plena iluminação, sendo eu mesmo sujeito ao nascimento, decadência, doença, morte, tristeza e impureza eu também buscava o que é sujeito ao nascimento, decadência, doença, morte, tristeza e impureza. E assim bhikkhus, após algum tempo, enquanto ainda jovem, um moço de cabelos pretos, no primor da juventude, tendo recentemente ingressado na vida adulta, contra os desejos de mãe e pai que choravam e se lamentavam, eu cortei o cabelo e barba e, vestido com o manto amarelo, sai da vida de casa para a vida sem lar. Assim consagrado à vida sem lar, eu me esforçava em busca do bem mais elevado, o incomparável caminho para a suprema paz.” [3]

Num primeiro momento o futuro Buda aprendeu com dois grandes yogis que haviam alcançado níveis elevados de mente e poderes psíquicos. Mas nenhum deles o satisfez, pois seus ensinamentos não conduziam à paz infinita e libertação da mente. Então ele os abandonou após ter realizado seus ensinamentos completamente. Depois disso, ele encontrou cinco ascetas, que praticavam as formas mais severas de mortificação e tortura da carne esperançosos de conseguir por este caminho a libertação. O futuro Buda tornou-se um deles. Ele sujeitou-se com máxima perseverança aos extremos do jejum e da auto mortificação até que ficasse parecido com um esqueleto. Completamente exausto, ele sucumbiu, ruiu. Assim, ele veio a entender que a mortificação do corpo é vã e inútil, e nunca irá conduzir à paz do coração e à libertação. Desse momento em diante ele desistiu do jejum e das mortificações, enxergando refúgio no desenvolvimento mental e moral. Com uma mente calma e serena, ele começou a investigar a verdadeira natureza da existência.

Para onde quer que ele voltasse os olhos, via apenas uma realidade: a lei do sofrimento, a insatisfatoriedade de todas as formas de existência. Ele compreendeu que o destino dos seres não é o resultado de acaso cego, nem depende da ação arbitrária de um criador imaginário, mas que nosso destino deve ser traçado de volta até as nossas ações ou kamma. Ele observou o doente e o leproso, e viu em sua miséria e sofrimento apenas o resultado de ações, ou kamma, feitas em vidas anteriores. Ele observou o cego e o aleijado e viu em sua debilidade e desamparo apenas a colheita dolorosa das sementes plantadas por eles em outras vidas. Ele observou o rico e o pobre, o feliz e o infeliz; e para onde quer que voltasse os olhos viu esta lei de retribuição, a lei moral da causa e efeito, o dhamma.

Este dhamma, ou lei moral universal descoberto pelo Buda, pode ser resumido nas Quatro Nobres Verdades: as verdades acerca do domínio universal do sofrimento, sua origem, extinção e o caminho que leva a sua extinção.

(I) A primeira verdade, sobre a universalidade do sofrimento, afirma, de modo breve que todas as formas de existência são necessariamente sujeitas ao sofrimento.

(II) A segunda verdade, sobre a origem do sofrimento, afirma que todo sofrimento está enraizado no desejo egoísta e na ignorância, em tanha e avijja. A causa dessa aparente injustiça se explica afirmando que nada no mundo pode vir a existir sem razão ou causa; não somente nossas tendências latentes, mas nosso destino inteiro, todo açoite e todo pesar, resultam de causas que devemos buscar parcialmente nessa vida, parte em estados anteriores de existência. A segunda verdade ensina além disso que a vida futura, com seu quinhão de açoite e pesar, deve resultar das sementes plantadas nesta e em vidas anteriores.

(III) A terceira verdade, ou verdade acerca da extinção do sofrimento, mostra como, mediante a extinção do desejo e ignorância, todo sofrimento irá desaparecer e a libertação deste Samsara será alcançada.

(IV) A quarta verdade mostra o caminho pelo meio do qual este objetivo é atingido. Trata-se do Nobre Caminho Óctuplo, ou seja, entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta e concentração correta.

A partir dessas Quatro Nobres Verdades iremos esclarecer alguns pontos essenciais para uma compreensão geral do Dhamma. Ao fazer isso, estaremos ao mesmo tempo refutando um grande número de preconceitos largamente espalhados quanto ao ensinamento do Buda.

Antes disso, porém, vamos esboçar o Nobre Caminho Óctuplo, pois este é o caminho de retidão e sabedoria que constitui a essência da prática budista – o modo de vida e pensamento a ser adotado por qualquer seguidor verdadeiro do Buda.

(1) O primeiro estágio do Caminho Óctuplo, como mencionado antes, é o entendimento correto, isto é, entendimento da verdadeira natureza da existência, bem como das lei morais que a governam. Em outras palavras, é o entendimento correto do Dhamma, ou seja, das Quatro Nobres Verdades.

(2) O segundo estágio do Caminho Óctuplo é o pensamento correto, isto é, um puro estado da mente, livre de desejo sensual, má vontade e crueldade; em outras palavras, pensamentos de auto renúncia, bondade e misericórdia.

(3) O terceiro estágio é linguagem correta. Consiste em palavras que não são falsas, ríspidas, nem escandalosas ou frívolas, ou seja, palavras verdadeiras, pacificadoras e sábias.

(4) O quarto estágio é a ação correta, ou seja, abster-se de intencionalmente matar ou ferir seres vivos, abster-se de tomar desonestamente a propriedade de outros, abster-se de cometer adultério.

(5) O quinto estágio é o modo de vida correto, isto é, um meio de vida tal que não traga prejuízo e sofrimento para outros seres.

(6) O sexto estágio é o esforço correto. Trata-se do esforço quádruplo que fazemos para superar e evitar novas más ações do corpo, linguagem e mente; e o esforço feito para desenvolver novas ações de retidão, sabedoria e paz interior e de cultivá-las até a perfeição.

(7) O sétimo estágio é a atenção plena correta, ou vigilância da mente. Trata-se da sempre pronta clareza mental, operando em relação a qualquer coisa que estejamos fazendo, falando e pensando; e de manter em nossa mente as realidades da existência, a saber, impermanência, insatisfatoriedade e fenomenalidade [4] – não-eu, (anicca, dukkha, anatta), de todas as formas de existência.

(8) O oitavo estágio é a concentração correta. Este tipo de concentração se dirige a um objeto moralmente saudável e sempre está ligada com pensamento, esforço e atenção plena corretas.

Portanto, o Caminho Óctuplo é um caminho de virtude (sila), de treinamento mental (samadhi) e de sabedoria (pañña).

A virtude nesse sentido é indicada pela linguagem correta, ação correta e modo de vida correto. O treinamento mental é indicado pelo esforço correto, atenção plena correta e concentração correta. A sabedoria é indicada pelo entendimento correto e pensamento correto.

Assim, este libertador Caminho Óctuplo é um caminho de cultura interior, de progresso interior. Apenas pela adoração externa, cerimônias e preces egoístas nunca se fará qualquer progresso real no caminho da retidão e insight. O Buda diz: “Seja sua própria ilha de refúgio, seja seu próprio abrigo, não busque por nenhuma outra proteção! Deixe que a verdade seja sua ilha de refúgio, que a verdade seja seu abrigo, não busque por nenhuma outra proteção!”. Para que se tenha eficácia real, para assegurar um progresso interior absoluto, todos os nossos esforços devem se basear em nosso próprio entendimento e insight. Todo progresso interior absoluto está enraizado no entendimento correto, sem entendimento correto não há a realização da perfeição e a inabalável paz de Nibbana.

A crença na eficácia moral do mero ritual ou cerimônia (silabbata-paramasa) constitui, de acordo com o ensinamento do Buda um poderoso obstáculo ao progresso interior. Alguém que toma refúgio em práticas meramente externas está no caminho errado. Pois, para que se consiga progresso interior real, todos os nossos esforços devem necessariamente se basear em nosso próprio entendimento e insight. Qualquer progresso real se enraíza no entendimento correto, sem este não há realização da paz e santidade inabaláveis. Além do mais, esta crença cega em práticas meramente externas é a causa de muita miséria e infelicidade no mundo. Conduz a uma estagnação mental, ao fanatismo e intolerância, auto exaltação e desprezo pelos outros, contendas, discórdias, guerra, disputas e derramamento de sangue, como a história da Idade Média dá suficiente testemunho. Uma tal crença embota e enfraquece a capacidade de pensar, sufoca no ser humano qualquer emoção elevada, transformando-o num escravo mental e favorecendo o crescimento de todos os tipos de hipocrisia.

O Buda se expressou de modo claro e positivo quanto a este ponto. Ele disse: “o homem imerso na ilusão nunca irá se purificar pelo mero estudo de livros sagrados ou sacrifícios a Deus, jejuns, dormir no chão, vigílias difíceis e cansativas ou repetição de orações. Tampouco presentes dados a sacerdotes, autoflagelações, execução de ritos e cerimônias podem purificar aquele que é cheio de desejo. Não é pelo consumo de carne ou peixe que o homem se torna impuro, e sim pela embriaguez, obstinação, fanatismo, engodo, inveja, auto exaltação, desprezo pelos outros e más intenções – são estas coisas que tornam o homem impuro.

Existem dois extremos: inclinação para os prazeres sensuais e inclinação para a mortificação do corpo. Tais extremos foram rejeitados pelo Perfeito, que descobriu o Caminho do Meio, que produz visão e conhecimento, que conduz à paz, à penetração libertação e iluminação. Este Nobre Caminho Óctuplo que conduz ao fim do sofrimento, a saber, entendimento correto, pensamento correto, fala correta, meio de vida correto, esforço correto, plena atenção correta e concentração da mente correta.” [5]

Uma vez que o Buda ensina que todo progresso genuíno no caminho da virtude é necessariamente dependente de nossa própria compreensão e insight, todo dogmatismo é excluído do ensinamento do Buda. O Buda rejeita a fé cega em autoridades, algo completamente oposto ao espírito do ensinamento. No Kalama Sutta o Buda diz:

Não sigam meramente por ouvir dizer ou por tradição, pelo que foi trazido a vocês de tempos antigos, por rumores, por mero raciocínio e deduções lógicas, aparências externas, por opiniões e especulações estimadas, por meras possibilidades, e não acreditem somente porque eu sou seu mestre. Mas, quando por vocês mesmos, tiverem visto uma coisa como algo mau e que conduz ao sofrimento e prejuízo, então devem rejeitar isto. E quando perceberem que uma coisa é boa e inofensiva, e conduz a bênçãos e bem-estar, então vocês devem praticar tal coisa.” [6]

O Buda compara alguém que apenas acredita ou repete o que outros descobriram com um cego. Aquele que deseja fazer progresso no caminho da libertação deve experimentar e entender a verdade por si mesmo. Sem o próprio entendimento, progresso algum é possível.

O ensinamento do Buda é, talvez, a única religião que não exige crença em uma tradição, ou em certos eventos históricos. Apela somente para o entendimento de cada um. Onde quer que existam seres capazes de pensar, lá as verdades proclamadas pelo Buda poderão ser entendidas e realizadas, independente de raça, país, nacionalidade ou classe social. Estas verdades são universais, não estão ligadas a um país ou época em particular. E em qualquer um, mesmo no mais humilde, jaz latente a capacidade para ver e realizar estas verdades, e alcançar a mais alta Perfeição. Quem quer que viva uma vida nobre, sente já um gosto da verdade e, em maior ou menor grau, trilha o Nobre Caminho Óctuplo da Paz que todos os nobres e santos trilharam, estão trilhando e trilharão no futuro. As leis universais da moralidade sustentam o bem sem variações em todos os lugares e tempos, independente de alguém se dizer budista, hindu, cristão ou muçulmano, ou qualquer outro nome que seja.

É a condição interna de uma pessoa e suas ações que contam, não um simples nome. O verdadeiro discípulo do Buda se coloca distante de todo dogmatismo. Ele é um livre pensador no mais elevado sentido do termo. Não segue dogmas positivos nem negativos, pois ele sabe: ambos não passam de meras opiniões, visões, enraizadas na cegueira e no autoengano. O Buda disse acerca de si mesmo: O perfeito é livre de qualquer teoria, pois o perfeito viu: assim é a forma, assim ela surge, assim ela se vai; assim é a sensação, assim ela surge, assim ela se vai; assim é a percepção, assim ela surge, assim ela se vai; assim são as formações mentais, assim elas surgem, assim elas se vão; assim é a consciência, assim ela surge, assim ela se vai.

  1. Esta importante verdade da fenomenalidade e vazio de toda existência pode e deve ser entendida por qualquer pessoa, por seus próprios esforços.

De acordo com o ensinamento do Buda a existência individual nada mais é do que um processo de fenômenos físicos e mentais, um processo que acontece desde tempos imemoriais, muito antes deste nascimento aparente, e que vai continuar depois da morte por um período de tempo imemorial. No que segue veremos que os cinco khandas mencionados acima, os grupos da existência, não constituem nenhuma entidade real, ou ego – atta, e que nenhuma entidade-ego existe separada deles, portanto, a crença em uma entidade-ego é uma ilusão.

Aquilo que chamamos de nosso corpo físico é, na verdade, um nome para uma combinação multifacetada de partes componentes que na realidade não constituem uma entidade ou personalidade. Isto é claro para todos, sem necessidade de mais argumentos. Todos sabem que o corpo muda momento a momento, que velhas células estão continuamente morrendo e outras nascendo; em síntese, que o corpo, será completamente outro corpo depois de alguns anos, que nada permanecerá da carne, sangue e ossos, etc. Consequentemente o corpo do bebê não é o corpo do menino e o do jovem não é o corpo do velho de cabelos grisalhos. Logo, o corpo não é um algo que persiste, mas antes um processo contínuo de surgimento e perecimento, consistindo de um perpétuo perecer e surgir de novas células. Aquilo que chamamos de nossa vida mental, por seu turno, é um processo contínuo de mudanças de sentimentos, percepções, formações mentais e estados de consciência. Neste momento um sentimento agradável surge, no seguinte, um doloroso; neste momento um estado de consciência, noutro um novo estado de consciência. Aquilo que chamamos de ser, indivíduo, uma pessoa, não possui por si mesmo, como tal, nenhuma realidade independente. Em sentido absoluto (paramattha) nenhum indivíduo ou pessoa está lá para ser encontrado, tudo que há é a perpétua mudança na combinação dos estados físicos, sentimentos, volições e estados de consciência.

O que chamamos de “carruagem” não tem existência separada e independente do eixo, rodas, cabos etc. O que chamamos “casa” é apenas um nome conveniente para pedras, madeira e ferros, dispostos de uma certa maneira, de modo a cercar uma porção de espaço, mas uma entidade casa como tal, separada, não existe.

Precisamente do mesmo modo, o que chamamos de “ser”, “indivíduo”, “pessoa”, ou de “eu” ou “ele” etc., é apenas a combinação mutante de fenômenos físicos e mentais que não tem existência real, em si mesmo.

As palavras “eu”, “você”, “ele” etc., são apenas termos úteis em nossa fala corrente (vohara) ou convencional que não designam realidades (paramattha-dhamma). Os fenômenos mentais e físicos não constituem uma entidade-ego, nem tampouco existe algo fora desses fenômenos que possa ser chamado de entidade-ego, eu ou alma, que seja possuidor ou dono do corpo. Assim, quando as escrituras budistas falam de pessoas, ou mesmo do renascimento de pessoas, fala-se nesses termos para facilitar o entendimento, não devemos tomar estas afirmações no sentido de uma verdade última. O assim chamado “ser” ou “eu” em sentido absoluto não é nada além de um processo em perpétua mudança. Portanto, falar do sofrimento de uma “pessoa”, é em sentido absoluto incorreto. Pois não se trata de uma pessoa, mas sim de um processo físico-mental sujeito a transitoriedade e sofrimento.

Em sentido absoluto temos apenas processos sem fim, incontáveis ondas de vida no oceano sempre mutável dos estados mentais, sentimentos, percepções, volições e estados de consciência. Dentro destes fenômenos nada há de persistente, nem mesmo pela curta duração de dois momentos consecutivos.

Tais fenômenos possuem uma duração momentânea. Eles morrem a cada momento, e a cada momento novos fenômenos nascem; um morrer e nascer sem fim, um incessante movimento das ondas. Tudo está em perpétuo fluxo; “panta rhei” – todas as coisas estão fluindo – disse o filósofo grego Heráclito. As velhas formas caem em pedaços, novas nascem. Um sentimento desaparece, outro vem em seu lugar. Um estado de consciência existe nesse momento, um outro no momento seguinte. Tudo se encontra numa perpétua mudança de fenômenos mentais e materiais. Desse modo, um momento segue o outro, um dia segue o outro, os anos se seguem uns aos outros, uma vida segue a outra. E assim este incessante processo de mutação prossegue por milhares de anos, mesmo por aeons. Um oceano eterno de sentimentos, percepções, volições e estados de consciência que surgem e perecem, tal é a existência, tal é o samsara, o mundo do surgir e perecer, do crescimento e da decadência, um mundo de tristeza, miséria, lamentação e desespero.

Sem um verdadeiro insight dessa fenomenalidade, ou ausência de eu (egolessness) ou impessoalidade (anatta) de toda existência, será impossível entender apropriadamente as Quatro Nobres Verdades.

  1. Em conexão com isso, voltemos para a segunda nobre verdade, a origem do sofrimento enraizada no desejo egoísta e na ignorância (tanha e avijja). De modo a compreender melhor esta verdade, será preciso falar de uma doutrina frequentemente incompreendida e mal interpretada. Trata-se da doutrina budista do renascimento. Com relação a este ensinamento, o Budismo é frequentemente acusado de ser contraditório. Diz-se que o Budismo, por um lado nega a existência da alma e por outro ensina a transmigração da alma. Nada pode ser mais equivocado do que isso, pois o budismo não ensina transmigração nenhuma. A doutrina budista do renascimento – que em realidade é a mesma lei da causalidade estendida aos domínios moral e mental – nada tem a ver com a doutrina bramanista da reencarnação ou transmigração. Existe uma diferença fundamental entre estas doutrinas.

De acordo com o ensinamento bramanista, existe uma alma independente do corpo que, após a morte, deixa o envelope físico e vai para um novo corpo, de modo semelhante a alguém que joga fora uma roupa velha e veste uma nova. Completamente diferente, entretanto, é a doutrina budista do renascimento. O budismo não reconhece nesse mundo nenhuma existência de mente separada da matéria. Todos os fenômenos mentais são condicionados pelos meios dos sentidos e não podem existir sem eles. De acordo com o budismo, mente sem matéria é uma impossibilidade. E como vimos, os fenômenos mentais, assim como os corpóreos, são sujeitos a mudança e nenhum elemento persistente, ou entidade-ego ou alma está lá para ser descoberto. Logo, onde não há entidade imutável ou alma, não se pode falar em transmigração.

Então como é possível renascimento sem algo que renasça, sem um ego ou alma? Aqui devo mencionar que mesmo a palavra “renascimento”, neste contexto, não é, de fato, correta, mas usada como um mero recurso didático. O que o Buda ensina é, corretamente falando, a lei de causa e efeito operando no domínio moral. Pois, assim como tudo no mundo físico acontece de acordo com leis, como o surgimento de qualquer estado físico depende de um estado precedente como causa, assim esta vida físico-mental presente depende de causas anteriores ao seu nascimento. Desta forma, segundo o budismo, o presente processo vital é o resultado do desejo pela vida num nascimento prévio, e o desejo pela vida neste nascimento é a causa da continuidade do processo vital depois da morte.

Mas, como não há nada que persiste de um momento de consciência para outro, também não há elemento contínuo a existir neste processo vital sempre mutante que passe de uma vida para a outra.

Nada transmigra deste momento para o próximo, nem desta vida para uma próxima. Este processo de ser continuamente produzido e produzir pode ser comparado a ondas no oceano. No caso da onda, não há a menor quantidade de água que viaje de fato pela superfície do oceano. A estrutura de onda que parece correr pela superfície da água, embora crie a aparência de uma mesma massa de água, de fato nada mais é além do contínuo surgir e desaparecer de novas massas d’água. Este surgir e perecer é produzido pela transmissão de força gerada originalmente pelo vento. De modo similar, o Buda não ensina que existe uma entidade-ego ou alma que percorre o oceano do renascimento, mas que na realidade o que temos é somente uma vida-onda que, conforme sua natureza e atividades, aparece aqui como homem, ali como mulher e alhures como um ser invisível.

III. Existe um outro ensinamento do Buda que frequentemente dá origem a sérios equívocos. É o ensinamento de nibbana, ou extinção do sofrimento. Esta terceira nobre verdade aponta que, através da cessação de todo desejo egoísta e toda ignorância, necessariamente todo sofrimento tem um fim, se extingue e novos nascimentos não terão lugar. Pois se a semente é destruída, não pode brotar novamente. Se o desejo egoísta que faz com que nos agarremos convulsivamente à vida é destruído, após a morte não ocorrerá um novo momento, a continuação deste processo de existência, o que se chama de renascimento. Onde não há nascimento, não há morte. Onde não há surgir, não há perecer. Onde não existe vida, não pode haver sofrimento. Agora, devido à extinção do desejo egoísta, todos os fenômenos correlatos tais como presunção, busca de uma identidade, cobiça, raiva, ódio, crueldade também se extinguem. Esta liberdade do apego egoísta significa o mais elevado estado de abnegação, sabedoria e santidade.

Uma vez que, depois da morte do santo, do Arahat, o processo físico-mental não mais continua, é comum interpretar tal evento equivocadamente como significando a aniquilação de um eu, de um ser real, e por isso se diz que o objetivo seria simplesmente a aniquilação. Deve-se protestar enfaticamente contra tal afirmação equivocada. Como é possível falar da aniquilação de um eu, alma, ego, onde tal coisa não se encontra? Vimos que na realidade não existe nenhuma entidade-ego ou alma, portanto, também nenhuma “transmigração” desta coisa para um novo útero.

O novo processo corpóreo que começa no útero da mãe sem dúvida é a continuação de um prévio processo corpóreo, mas somente um resultado ou efeito, causado pelo desejo egoísta e apego pela vida do indivíduo moribundo. Deste modo, aquele que sustenta que a não-produção de um novo processo vital é idêntico à aniquilação de um eu deveria dizer também que abstenção de intercurso sexual é o mesmo que aniquilação de uma criança – o que é, claro, absurdo.

Aqui, uma vez mais, devemos enfatizar que sem uma percepção clara da fenomenalidade ou ausência de ego (egolessness, anatta) de toda existência, será impossível obter uma real compreensão do ensinamento do Buda, especialmente aquele sobre renascimento e nibbana. Este ensinamento de anatta é de fato a única doutrina caracteristicamente budista com a qual todo ensinamento se sustenta ou desaba.

Outra crítica muito ouvida contra o budismo é a de que ele seria um ensinamento melancólico e pessimista. Pelo que foi dito até aqui, tal crítica se revela sem fundamento. Afinal, como foi visto, o Buda não apenas mostra e explica o fato da miséria, ele também apresenta um caminho para que achemos total liberação dela. A partir disto, podemos dizer que o ensinamento do Buda é o mais ousado otimismo proclamado no mundo.

Em verdade, o budismo é um ensinamento que assegura esperança, conforto e felicidade, mesmo para o menos afortunado. É um ensinamento que oferece, mesmo para o mais vil dos criminosos prospectos de perfeição e paz finais. Nada disso com base em fé cega, preces, ascetismo, cerimônias superficiais, ritos e rituais, mas sim por seguir de modo cuidadoso e perseverante o Nobre Caminho Óctuplo para purificação interior, pureza e emancipação do coração que consiste de entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, atenção plena correta e concentração e paz da mente correta.]

Notas

[1] Conferência transmitida pelo rádio em Colombo, 1933.

[2] O Anticristo. Parágrafo 20, excertos.

[3] MN 26.13 – Seguindo a tradução do autor.

[4] Esclarecedor aqui o uso de fenomenalidade (phenomenality em inglês) como tradução para anatta. A palavra fenômeno vem do grego e significa aquilo que é percebido, aquilo que é observado como um dado da experiência. O filósofo Immanuel Kant introduz este sentido de fenômeno e opõe a fenômenos o que ele chama de númeno ou coisa-em-si (Ding an sich). Neste sentido fenomenalidade parece uma boa escolha para anatta, afinal a idéia de anata é de que não há nada por trás daquilo que aparece como sendo uma pessoa, ou seja, uma alma oculta. Não somos um ser mas sim um parecer. Uma epistemologia que não postula entidades absolutas e imutáveis por trás dos fenômenos ou aparências é chamada de fenomenista, termo que frequentemente é associado por estudiosos diversos ao Budismo. (nota do tradutor)

[5] SN LVI.11 – Seguindo a tradução do autor.

[6] AN III.65 – Seguindo a tradução do autor.

Quando se contempla o mundo e pensa-se acerca do destino dos seres, para muitas pessoas parece que tudo na natureza é injusto. Por que, pode-se perguntar, uma pessoa é rica e poderosa e outra pobre e aflita? Por que alguém leva uma vida boa e saudável enquanto outro desde o nascimento é doente e fraco? Por que uns são dotados de aparência agradável, inteligência e sentidos perfeitos enquanto outros são feios e repulsivos, mentalmente deficientes, cegos, surdos e mudos? Por que uma criança nasce em meio à miséria mais completa e cercada de pessoas vis, criada como criminosa, enquanto outra nasce cercada de fartura e conforto, filha de pais de mente nobre, e desfruta todas as vantagens de um tratamento agradável, a melhor educação mental e moral, e vê tão somente boas coisas ao seu redor? Por que alguns, frequentemente sem o mínimo esforço, são bem sucedidos em todos os seus empreendimentos, enquanto todos os planos de outra pessoa falham? Por que alguns vivem no luxo enquanto outros vivem na pobreza e na aflição? Por que uns são felizes e outros infelizes? Por que alguns vivem uma longa vida, enquanto outros são levados pela morte no auge da vida? Por que as coisas são desse modo? Por que tais diferenças existem na natureza?

Dentre todas as circunstâncias e condições que constituem o destino de um ser, nenhuma, de acordo com o ensinamento do Buda, pode vir a existir sem causa prévia e sem a presença de um número de condições necessárias. Assim como, por exemplo, de uma semente podre de manga nunca surgirá um pé de manga com frutos doces e saudáveis, do mesmo modo más ações volitivas ou mau kamma, produzido em nascimentos prévios, são as sementes ou causas-raízes de um destino ruim num nascimento posterior. É um postulado necessário do pensamento que o destino bom e ruim de um ser, bem como seu caráter latente, não pode ser o produto de mero acaso, mas necessariamente tem suas causas num nascimento prévio.

De acordo com o Budismo, nenhuma entidade orgânica, física ou psíquica, pode vir à existência sem uma causa prévia, isto é, sem um estado apropriado precedente a partir do qual se desenvolva. De modo semelhante, nenhuma entidade orgânica pode jamais ser produzida por algo externo a si mesma. [2] Esta pode originar-se apenas de si mesma, isto é, deve existir desde já no embrião. Para ser preciso, além desta causa ou condição-raiz, ou semente, existem ainda muitas condições menores requeridas para seu efetivo surgimento e desenvolvimento, assim como o pé de manga, além de sua causa principal – a semente – requer para que germine, cresça e se desenvolva outras condições como água, terra, luz, calor, etc. Deste modo, a causa verdadeira do nascimento de um ser, junto com seu caráter e destino, remonta às volições kâmmicas produzidas num nascimento anterior.

De acordo com o Budismo, existem três fatores necessários para o renascimento de um ser humano, ou seja, para a formação de um embrião no útero materno. São eles: o óvulo da fêmea, o esperma do macho e a energia-do-karma (kammavega), que nos suttas é chamado metaforicamente de “gandhabba”, isto é, “espírito” ou “alma”. Esta energia do kamma projeta-se do indivíduo moribundo no momento da morte. O pai e a mãe fornecem apenas material físico necessário para a formação do embrião. No que diz respeito aos traços característicos, as tendências e faculdades latentes no embrião podem ser explicadas pelo ensinamento do Buda da seguinte maneira: o moribundo, com todo seu ser convulsivamente apegado à vida, no momento exato da morte emite as energias kâmmicas que, como um raio de luz, atingem o útero pronto para a concepção. Assim, mediante o encontro entre energias kâmmicas, esperma e óvulo, surge a célula-ovo como um precipitado. [3]

Podemos comparar este processo com as vibrações do ar produzidas pela fala, que, ao atingir o órgão auditivo de outro ser humano produzem som, que é uma sensação puramente objetiva. Neste caso, não ocorre uma transmigração do som, mas apenas uma transferência de energia, chamada de vibração do ar. De modo similar, a energia do kamma, emitida pelo moribundo, produz, a partir do material fornecido pelos pais, o novo ser embrionário. Mas nenhuma transmigração de um ser real, ou entidade-alma ocorre nessa ocasião, simplesmente a transmissão da energia kâmmica.

Portanto, podemos dizer que o atual processo vital (upapatti-bhava) é a objetificação do correspondente processo kâmmico pré-natal. Assim, nada transmigra de uma vida para outra. E aquilo que chamamos nosso ego é na verdade apenas o processo contínuo de mudança, de contínuo surgir e perecer. Os momentos, pois, seguem-se uns aos outros, dia após dia, ano após ano, vida após vida. Exatamente como a onda, que aparentemente corre pela superfície do lago, não passa de contínuo surgir e desaparecer de sempre novas massas d’água, cada momento renovado pela transmissão de energia, quando visto de perto e em sentido último, não representa uma entidade-ego que passa pelo oceano do samsara, mas apenas um processo de fenômenos físicos e psíquicos que ocorre sempre de novo, movido pelo apego à vida.

É sem dúvida verdade que a condição mental dos pais, no momento da concepção, tem influência considerável sobre o caráter do ser embrionário, e que a natureza da mãe pode produzir grande impressão no caráter do ser que ela carrega no ventre. A unidade indivisível da individualidade psíquica da criança, entretanto, não pode ser produzida pelos pais. Não se deve aqui confundir a causa efetiva – estado anterior a partir do qual o atual estado surge – com as influências e condições externas. Se fosse realmente o caso que o novo indivíduo, como unidade inseparável, fosse o produto dos seus pais, gêmeos nunca exibiriam tendências totalmente opostas. Em tal caso, crianças e especialmente gêmeos possuiriam, sem exceção, o mesmo caráter dos pais.

Em todos os tempos e países da terra, a crença no renascimento foi sustentada por muitas pessoas; esta crença deriva de um instinto ou intuição que jaz dormente em todos os seres. Em todos os tempos grandes pensadores ensinaram a continuidade da vida após a morte. Desde tempos imemoriais alguns ensinavam acerca da metempsicose [4], ou seja, transformação da alma, ou metamorfose, ou transformação do corpo, etc., como por exemplo, as doutrinas esotéricas do Egito antigo, Pitágoras, Empédocles, Platão, Plotino, Píndaro, Virgílio, bem como algumas tribos africanas. Muitos pensadores modernos também ensinam a continuação do processo vital depois da morte.

O grande cientista alemão Edgar Dacque, no livro The primeval World, Saga and Mankind,” [5] falando acerca da crença difundida entre todos os povos do mundo numa transmigração após a morte, nos dá o seguinte aviso:

Pessoas cultas e familiarizadas com ciência, como os antigos egípcios e indianos, agiam e viviam de acordo com esta crença. Eles abandonaram estas crenças somente depois do surgimento do realismo e racionalismo ingênuo dos gregos e judeus. Por esta razão seria melhor, quanto a este problema, não assumir a atitude fria da pseudo-civilização moderna, mas ao invés disso, adotar uma atitude reverente ao tentar resolver este problema em toda sua profundidade.

Esta lei de renascimento pode tornar-se compreensível mediante a suposição de um fluxo vital subconsciente (em páli, bhavanga-sota), mencionada no Abidhamma Pitaka e explicada em detalhe nos comentários, especialmente o Visuddhimagga. A importância fundamental de bhavanga-sota, ou corrente vital subconsciente, como hipótese para explicação de várias doutrinas Budistas como renascimento, kamma, lembrança de vidas passadas, etc., não foi até agora suficientemente reconhecida ou compreendida pelos estudiosos ocidentais. O termo bhavanga-sota é idêntico aquilo que os psicólogos modernos como Jung, chamam de alma ou subconsciente, não querendo dizer com isso, obviamente a entidade eterna dos ensinamentos cristãos, mas um processo subconsciente sempre em mudança. Esta corrente de vida subconsciente é condição necessária para toda a vida. Nele, todas as impressões e experiências são armazenadas, ou melhor, aparecem como um processo múltiplo de imagens passadas, ou fotografias da memória, que, entretanto, como tais se escondem da consciência completa, mas que, especialmente nos sonhos, cruzam o limiar da consciência tornando-se totalmente conscientes.

O professor James [6] (cujas palavras traduzo aqui a partir da versão alemã) diz: “muitas realizações de gênio têm aqui seu início. Na conversão, na experiência mística e como oração, tal fato coopera com a vida religiosa. Contém todas as reminiscências momentaneamente inativas e fontes para todas as nossas paixões vagamente motivadas, impulsos, intuições, hipóteses, fantasias e superstições; em resumo, todas as nossas operações não-racionais daí resultam. É a fonte dos sonhos, etc.”

Jung, em seu livro “Problemas da Alma em Nossos Dias”, afirma: “da fonte viva do instinto brota toda criatividade.” E em outro lugar: “o que quer que tenha sido criado pela mente humana resulta de conteúdos que são germes inconscientes (ou subconscientes).” E mais: “o termo instinto é, obviamente, nada mais que um nome coletivo para todos os fatores orgânicos e psíquicos, cuja natureza é em grande parte desconhecida para nós.”

A existência de um fluxo vital subconsciente, ou bhavanga-sota, é um postulado necessário de nosso pensamento. Caso tudo que nós vimos, ouvimos, pensamos, experienciamos e fizemos não fosse, sem exceção, registrado de algum modo em algum lugar, quer seja no extremamente complexo sistema nervoso (comparável a um gravador ou disco fonográfico ) ou no subconsciente ou inconsciente, nunca seríamos capazes de lembrar o que estivemos pensando num momento precedente; não saberíamos da existência de outros seres e coisas; não saberíamos quem são os nossos pais, professores, amigos e assim por diante; nem saberíamos como pensar, visto que o pensamento é condicionado pela lembrança de experiências anteriores. Nossa mente seria uma completa tabula rasa, mais vazia que a mente de um recém nascido, mais vazia até que o embrião no útero materno.

Portanto, o fluxo vital subconsciente, ou bhavanga-sota, pode ser chamado de precipitado de nossas ações e experiências anteriores, que deve estar ocorrendo desde tempos imemoriais e deve ainda continuar por um período incomensurável de tempo por vir. Portanto, o que constitui a natureza mais íntima do ser humano, ou de qualquer outro ser, é este fluxo vital subconsciente, do qual não sabemos de onde vem nem para onde vai. Como disse Heráclito: “Nos mesmos rios [7] entramos e não entramos, somos e não somos.” [8] De forma semelhante diz o Milindapanha: “na ca so, na ca anno; nem é o mesmo, nem é um outro (que renasce).” Toda a vida, seja corpórea, consciente ou subconsciente, é um fluxo, um processo contínuo de vir-a-ser, mudança e transformação. Não há elemento persistente a ser descoberto neste processo. Dessa forma, não há um ego permanente, uma personalidade a ser encontrada, somente estes fenômenos transitórios.

Acerca da irrealidade do ego, o psicólogo húngaro Volgyesi em sua Mensagem para um Mundo Nervoso disse:

“Sob influência das mais recentes descobertas, os psicólogos começaram a perceber a verdade acerca da entidade-ego, o valor meramente relativo do sentimento do eu (ego-feeling), da grande dependência deste homenzinho em relação ao complexo de fatores inexaurível do mundo … a idéia de um eu independente, de um livre arbítrio autônomo: devemos abandonar estas idéias e reconciliar-nos com a verdade de que não existe eu real algum. Aquilo que tomamos por nossa sensação de eu não é nada além da mais maravilhosa fata-morgana [9] feita pela natureza.”

Em sentido último, não existem nem mesmo coisas tais como estados mentais, isto é, coisas estacionárias. Sensação, percepção, consciência, etc., são na realidade meros processos de sentir, perceber, tornar-se consciente, etc., dentro dos quais e fora dos quais não se esconde nenhum tipo de entidade separada e permanente.

Posto isto, um entendimento real da doutrina do Buda acerca de kamma e renascimento é possível apenas para aquele que vislumbrou a natureza sem ego, ou anatta, e a condicionalidade, ou idappaccayata, de todos os fenômenos da existência. Desta forma, diz-nos o Visuddhimagga (Cap XIX):

Por todo lugar, em todos os reinos de existência, o nobre discípulo vê somente fenômenos mentais e corporais que operam devido à concatenação de causas e efeitos. Nenhum produtor do ato volitivo ou kamma ele vê, além do próprio kamma, nenhum recipiente do resultado do kamma, além deste mesmo resultado. E ele sabe muito bem que os sábios usam apenas linguagem convencional quando, no que diz respeito ao ato kâmmico, eles falam de um agente, ou com respeito ao resultado do kamma, de um recipiente.

Nenhum agente das ações é encontrado,
ninguém que colha os frutos;
fenômenos vazios prosseguem:
isto apenas é a visão correta.

E enquanto as ações e seus resultados
seguem sempre de novo, tudo condicionando,
não se encontra um princípio,
como com a semente e a árvore.

Nenhum deus, nenhum Brahma, pode ser chamado
o criador desta roda da vida:
fenômenos vazios seguem,
todos dependentes de condições.

No Milindapanha o rei pergunta a Nagasena:

“O que é isto, venerável senhor, que renascerá?”
“Uma combinação psico-física (nama-rupa). Ó Rei.”
“Mas como, Venerável Senhor? Essa seria a mesma combinação psico-física atual?
“Não, Ó Rei. Mas a presente combinação psico-física produz kâmmicamente atividades volitivas saudáveis e prejudiciais, e graças a tal kamma, uma nova combinação psico-física irá renascer.”

Uma vez que em sentido último (paramathavasena) não há uma entidade-ego, ou personalidade, não se pode falar apropriadamente que tal ente renasce. O que nos interessa aqui é este processo psicofísico, que cessa com a morte, de modo a continuar depois em outro lugar.

De modo similar, lemos no Milindapanha:

“O renascimento, Venerável Senhor, ocorre sem transmigração?!
“Sim, Ó Rei.”
“Mas como, Venerável senhor, pode ocorrer renascimento sem o passamento de algo? Por favor, dê-me um símile.”
“Se, Ó Rei, um homem acende uma vela com a ajuda de outra vela, a luz de uma vela passa para a outra vela?
“Não, Venerável Senhor.”
“Assim mesmo, Ó Rei, ocorre o renascimento sem transmigração.”

Além disso, temos no Visudhimagga (Cap. XVII):

Quem quer que não tenha uma idéia clara acerca da morte e não saiba que esta consiste na dissolução dos cinco agregados da existência (i.e. corporeidade, sensações, percepções, formações mentais, consciência) pensa que há uma pessoa, ou ser, que morre e transmigra para um novo corpo, etc. Quem quer que não tenha uma idéia clara acerca do renascimento, e não saiba que este consiste no surgimento dos cinco agregados da existência, pensa que é uma pessoa ou ser que renasce, ou que a pessoa reaparece em um novo corpo. Quem quer que não tenha uma idéia clara de Samsara, o ciclo de renascimentos, pensa ser uma pessoa real que vaga deste mundo para um outro, que vem daquele mundo para este, etc. Aquele que não tem uma idéia clara acerca da fenomenalidade da existência, pensa que o fenômeno é o ego ou algo pertencente ao ego, ou algo permanente alegre ou prazeroso. Aquele que não tem uma idéia clara acerca da origem condicionada dos fenômenos da existência bem como acerca da origem das volições kâmmicas condicionadas pela ignorância, pensa que é o ego que compreende ou que falha em compreender, que age ou provoca a ação, que entra numa nova existência com o renascimento. Ou ele pensa que os átomos ou o Criador, etc., com a ajuda de processos embrionários, moldam o corpo dotando-o com suas várias faculdades; que é o ego que recebe as impressões dos sentidos, que sente, que deseja, que se apega, que entra na existência novamente em outro mundo. Ou ele pensa que todos os seres passam a existir devido ao destino ou ao acaso.

Isso é um mero fenômeno, uma coisa condicionada,
que surge na existência seguinte.
Mas não transmigra para lá de uma vida anterior
e no entanto, não pode surgir sem uma causa prévia.

Quando esse fenômeno físico-mental (o feto) condicionalmente originado surge, diz-se que o ser entrou na (próxima) existência. Entretanto, nenhum ser (satta), ou princípio vital (jiva) transmigrou da existência prévia para esta existência, e ainda assim, este embrião não poderia ter surgido sem uma causa prévia.

Tal fato pode ser comparado com o reflexo do nosso rosto no espelho, ou com o eco de nossa voz. Assim como a imagem no espelho e o eco são produzidos por nosso rosto ou voz sem que haja o passamento do rosto ou da voz, o mesmo ocorre com a consciência-do-renascimento. Caso existisse uma completa identidade ou mesmidade entre a vida anterior e a atual, o leite nunca se tornaria coalhada; e caso ocorresse uma alteridade absoluta, a coalhada nunca poderia ser condicionada pelo leite. Portanto, não se deve admitir nem uma completa identidade, nem uma absoluta alteridade com relação aos diferentes estágios da existência. Assim, na ca so, na ca anno: “nem é o mesmo, nem é um outro.” Como dito acima: toda a vida, seja corpórea, consciente ou subconsciente, é um fluxo, um contínuo processo de tornar-se, mudança e transformação.

Para resumir o precedente podemos dizer: em sentido último não há seres ou coisas reais, nem criadores ou criações; existe apenas este processo de fenômenos corpóreos e mentais. A totalidade desse processo de existência tem um lado ativo e um passivo. O lado ativo ou causal da existência consiste do processo do kamma (kamma-bhava), ou seja, atividade kâmmica benéfica ou prejudicial. O lado passivo ou causado consiste dos resultados do kamma, ou vipaka, o assim chamado processo de renascimento (upapatti-bhava), i.e. o surgimento, crescimento, decadência e passamento de todos esses fenômenos neutros sob o ponto de vista de kamma.

Desta forma, em sentido absoluto, não existe ser real que vague pelo ciclo dos renascimentos, mas meramente o que ocorre é este duplo processo de atividades kâmmicas e resultados kâmmicos. A vida presente é, por assim dizer, o reflexo da passada, e a vida futura é o reflexo da presente. A vida presente é o resultado da atividade kâmmica passada, e a vida futura o resultado da atividade kâmmica presente.

Portanto, não há em lugar algum uma entidade-ego a ser encontrada que possa ser o executor da atividade kâmmica ou o recebedor do resultado kâmmico. Assim, o Budismo não ensina uma transmigração real, visto que em sentido absoluto não há tal coisa como um ser ou entidade-ego, menos ainda a transmigração desta.

Em cada pessoa, como dito antes, parece que jaz dormente a débil noção instintiva de que a morte não pode ser o fim de todas as coisas, mas que algum tipo de continuidade deve existir. Em que sentido pode acontecer isso, entretanto, não é imediatamente claro.

Talvez seja verdadeiro que uma prova direta do renascimento não possa ser dada. Temos, porém, relatos autênticos acerca de crianças em Burma e outros locais que às vezes são capazes de lembrar de modo bastante claro (provavelmente em sonhos) eventos de sua vida anterior. A propósito, aquilo que vemos nos sonhos é em grande parte reflexos distorcidos de eventos e coisas reais experimentados nesta ou em outra vida. E como poderíamos explicar o surgimento de prodígios como Jeremy Bentham, que aos quatro anos era capaz de ler e escrever grego e latim; ou John Stuart Mill, que aos três anos já lia grego e aos seis escrevera uma história de Roma; ou Babington Macaulay, que aos seis escreveu um compêndio de história mundial; ou Beethoven, que aos sete dava concertos públicos; ou Mozart, que compunha antes dos seis anos; ou Voltaire, que leu as fábulas de La Fontaine aos três anos de idade. Não teriam estes prodígios e gênios, que em grande parte vieram de famílias de pais iletrados, construído em vidas anteriores as fundações de suas faculdades extraordinárias? “Natura non facit saltus: a natureza não dá saltos.”

Podemos afirmar corretamente que a doutrina Budista de kamma e renascimento oferece a única explicação plausível para todas as variações e dissimilaridades na natureza. De uma semente de maça pode surgir apenas uma macieira, não uma mangueira; de uma semente de manga somente uma mangueira, não uma macieira. Assim, todas as coisas animadas como seres humanos, animais, etc., provavelmente mesmo as plantas e até os cristais devem, necessariamente, ser manifestações ou objetificações de algum tipo específico de impulso subconsciente ou vontade de viver. Quanto a estes últimos pontos citados o Budismo nada diz; simplesmente afirma que toda vida vegetal pertence a ordem germinal ou bija-niyama.

O Budismo ensina que se em nascimentos anteriores, o kamma corporal, verbal e mental, ou as atividades volitivas, foram más e inferiores e assim influenciaram de modo desfavorável o fluxo vital subconsciente (bhavanga-sota), então também os resultados, manifestos na vida presente deverão ser maus e desagradáveis. O caráter e as novas ações induzidas ou condicionadas pelos quadros e imagens negativas do fluxo mental subconsciente também deverão ser maus e desagradáveis. Se os seres, entretanto, semearam boas sementes nas vidas passadas, irão colher bons frutos na vida atual.

No Culakammavibhanga Sutta (MN 37.3) um brâmane apresenta o problema:

“Mestre Gotama, qual é a causa e condição pela qual os seres humanos são vistos como inferiores ou superiores? Pois, as pessoas podem ter vida curta ou vida longa, podem ser doentias ou saudáveis, feias ou bonitas, sem poder ou poderosas, pobres ou ricas, nascidas em classes inferiores ou superiores, tolas ou sábias. Qual é a causa e condição, Mestre Gotama, pela qual os seres humanos são vistos como inferiores ou superiores?”

O Abençoado respondeu:

“Os seres são os donos das suas ações, estudante, herdeiros das suas ações, nascem das suas ações, estão atados às suas ações, possuem as suas ações como refúgio. É a ação que distingue os seres entre inferiores ou superiores.”

No Anguttara Nikaya III, 40 se diz: Matar, roubar, adulterar, mentir, caluniar, fala grosseira e fútil, quando praticados, cultivados e quando nos engajamos freqüentemente nessas atividades, isto nos conduzirá ao inferno, ao mundo animal ou ao mundo dos fantasmas famintos. E mais: “Aquele que mata e é cruel vai para o inferno ou, caso renasça como humano, terá uma vida curta. Aquele que tortura outros seres, será afligido por doenças. O que odeia será horrendo, o invejoso não exercerá influência, o teimoso ocupará posições inferiores, o indolente será ignorante.” Em sentido contrário, beleza, influência, riquezas, status nobre e inteligência.

George Grimm, no livro A Doutrina do Buda, tenta mostrar como a lei da afinidade pode no momento da morte regular o alcance da ligação com o novo óvulo. Ele diz:

Aquele que é desprovido de compaixão e mata seres humanos ou mesmo animais, carrega dentro de si a inclinação para abreviar vidas. Ele encontra satisfação, mesmo prazer, na vida abreviada de outras criaturas. Óvulos de vida curta têm, portanto, alguma afinidade que faz com que eles sejam conhecidos por tal pessoa após a morte, o que põe o indivíduo no campo de ação de um novo óvulo, para seu próprio prejuízo. De modo semelhante, óvulos que carregam em si a potencialidade de desenvolver um corpo deformado, possuem afinidades com pessoas que encontram prazer em maltratar e desfigurar outros.
Qualquer pessoa raivosa origina dentro de si mesma uma afinidade por corpos feios e seus germes respectivos, pois é marca característica da raiva desfigurar o rosto.
Aquele que é ciumento, avarento, arrogante, carrega dentro de si a tendência de invejar as coisas dos outros e desprezá-los. Em conformidade com isso, os óvulos destinados a se desenvolver em circunstancias externas de pobreza possuem afinidades com tais pessoas.

Gostaria aqui de retificar várias aplicações erradas do termo kamma prevalecentes no Ocidente e afirmar de uma vez por todas: a palavra páli kamma vem da raiz kar, fazer, fabricar, agir, significando, portanto, “ação, feito”, etc. Como termo técnico Budista, kamma é o nome para as volições ou intenções benéficas e prejudiciais (kusala e akusala-cetana), os fatores mentais e a consciência com eles associados, manifestados como ação física, verbal ou mental. Já nos suttas encontramos: “Intenção (cetana), monges, que eu chamo kamma. Mediante a intenção é que se executa o kamma por meio do corpo, linguagem e mente” (cetanaham bhikkhave kammam vadami; cetayitva kammam karoti kayena vacaya manasa). Portanto, kamma é ação volitiva ou intencional, nada mais, nada menos.

Deste fato resultam as três afirmações seguintes:

  1. O termo kamma nunca compreende o resultado da ação, como muitas pessoas no Ocidente, desorientadas pela teosofia, desejariam que fosse. Kamma é a ação volitiva benéfica ou prejudicial e kamma-vipaka é o resultado da ação.
  2. Algumas pessoas consideram cada ocorrência, mesmo nossas novas ações benéficas e prejudiciais, como resultado de nosso kamma pré-natal. Em outras palavras, eles acreditam que os resultados de novo se convertem em causas de novos resultados, e assim sucessivamente ad infinitum. Desta forma eles caracterizam o Budismo como fatalismo; eles chegam a conclusão de que, neste caso, nosso destino não pode ser influenciado ou mudado, e nenhuma libertação pode ser alcançada.
  3. Há uma terceira aplicação errada do termo kamma, que é uma ampliação da primeira visão segundo a qual o termo kamma diz respeito ao resultado da ação. É a suposição de um assim chamado kamma conjunto, kamma de massa, kamma grupal ou kamma coletivo. De acordo com esta visão, um grupo de pessoas, p.ex. uma nação, deve ser responsável pelas más ações praticadas anteriormente pelo “mesmo” povo. Na realidade, entretanto, o povo presente pode não ser constituído pelos mesmos indivíduos que fizeram as ações prejudiciais. Para o Budismo, é verdade que qualquer pessoa que sofra fisicamente, sofre pelas suas ações passadas e presentes. Portanto, cada um daqueles indivíduos nascidos na nação sofredora se está sofrendo fisicamente, tal fato se deve ao mal praticado em outro lugar, aqui ou em alguma das inumeráveis esferas de existência, ele pode não ter nada a ver com as más ações da nação. Podemos dizer que pelo mau kamma ele foi atraído à condição infernal apropriada para si mesmo. Em resumo, o termo kamma se aplica, em cada caso, somente à atividade volitiva benéfica e prejudicial de indivíduos singulares. O kamma, dessa forma, é a causa ou semente da qual os resultados advirão ao individuo, nesta vida ou numa outra. [10]

Conseqüentemente, está nas mãos do ser humano o poder para moldar seu destino futuro mediante a vontade e a ação ou kamma, seja este um destino elevado ou inferior, de felicidade ou miséria. Além disso, o kamma é a raiz ou semente não apenas para continuação do processo vital após a morte, ou seja, o renascimento, mas mesmo nessa vida presente, nossas ações ou kamma podem produzir bons ou maus resultados, bem como exercer influência decisiva em nosso caráter e destino atuais. Assim, por exemplo, se praticamos diuturnamente a benevolência (amor-bondade) em relação a todos os seres vivos, tanto humanos quanto animais, iremos crescer em bondade enquanto o ódio e todas as más ações feitas através do ódio, bem como os estados mentais aflitivos assim produzidos, não irão surgir facilmente em nós; nossa natureza e caráter se tornarão firmes, felizes, pacíficos e calmos.

Se praticarmos altruísmo e liberalidade, a cobiça e a avareza irão diminuir. Se praticarmos amor e benevolência, a raiva e o ódio irão desvanecer. Se desenvolvermos sabedoria e conhecimento, a ignorância e a delusão irão gradativamente desaparecer. Quanto menos cobiça, ódio e ignorância (lobha, dosa, moha) habitarem em nossos corações, menos vezes iremos cometer ações más e prejudiciais com o corpo, a linguagem e a mente. Isto porque todas as coisas más, todos os destinos ruins, na verdade são enraizados na cobiça, no ódio e na ignorância; dessas três coisas, ignorância ou delusão (moha, avijja) é a raiz mestra e causa primeira de todo mal e miséria no mundo. Se não existir mais ignorância, não haverá mais cobiça e ódio, nem renascimento, nem sofrimento.

Tal objetivo, entretanto, em sentido último, será realizado apenas pelos Santos (arahants), quer dizer, aqueles que, de uma vez por todas, se libertaram dessas três raízes; isto é realizado através do insight penetrativo, ou vipassana, em relação à impermanência, insatisfatoriedade e insubstancialidade (anicca, dhukkha e anatta) de todo este processo vital e pelo desapego a todas as formas de existência que dele resultam. Tão logo cobiça, ódio e ignorância se tornem extintas total e completamente, e, portanto, a vontade e a sede pela vida, que produzem um apego convulsivo à existência cheguem a um fim, então não haverá mais renascimento, e terá sido realizado o objetivo mostrado pelo Iluminado, a saber, extinção de todo renascimento e sofrimento. Assim, o arahant não executa mais kamma, isto é, não produz mais ações volitivas kâmmicamente benéficas ou prejudiciais. Ele está livre desta vontade afirmadora da vida expressa em ações físicas, palavras ou pensamentos, livre desta semente ou causa de toda vida e existência.

Agora, aquilo que chamamos de caráter é na realidade a soma dessas tendências subconscientes produzidas em parte pelas atividades volitivas (kamma) pré-natais, em parte por nossas ações volitivas atuais. Tais tendências podem, ao longo da vida, tornarem-se indutoras de atividade volitiva benéfica ou prejudicial do corpo, fala ou mente. Caso, entretanto, a sede pela vida enraizada na ignorância seja completamente extinta, então não ocorrerá a entrada numa nova existência. Uma vez que a raiz de uma palmeira seja completamente destruída, a palmeira morrerá. Da mesma maneira, uma vez que as três raízes más da afirmação da vida – cobiça, raiva, ignorância – forem para sempre destruídas, não ocorrerá o ingresso numa nova existência. Aqui não devemos esquecer que tais expressões relativas a uma pessoa como eu, ele, santo, etc., são meros nomes convencionais para o que em realidade não passa de um processo vital impessoal.

Devo dizer, em conexão com isto, que de acordo com o Budismo, é somente a última volição kâmmica imediatamente anterior a morte, chamada de kamma próximo da morte, que decide quanto ao renascimento que seguirá imediatamente. Nos países Budistas, portanto, é costume fazer com que o moribundo relembre suas boas ações, de modo a que surja nele um estado mental feliz e kâmmicamente puro, como preparação para um renascimento favorável. Ou os parentes mostram a ele coisas belas que serão ofertadas ao Buda para seu bem e benefício, dizendo: “Isto, meu querido, iremos oferecer ao Buda para seu próprio bem e benefício.” Também podem deixar que ele ouça um sermão religioso, ou que sinta o aroma de flores, ou que prove doces ou toque roupas preciosas dizendo: “Isto, meu querido, iremos oferecer ao Buda para seu próprio bem e benefício.”

No Visuddhimagga (Cap. XVII) é dito que, no momento que antecede a morte, como regra, na memória do malfeitor vai aparecer a imagem de qualquer mal por ele cometido; ou que pode aparecer em seus olhos mentais uma circunstância auxiliar ou objeto, chamada de kamma-nimitta, conectada com a má ação, como sangue, uma adaga manchada de sangue, etc.; ou ele pode ver diante de sua mente uma indicação de seu renascimento miserável iminente, gati-nimitta, como chamas ardentes, etc. Para outro moribundo, pode aparecer diante da mente a imagem de um objeto voluptuoso incitador de seu desejo sensual.

Para um bom homem pode aparecer diante de si qualquer ato nobre, kamma, feito antes por ele; ou um objeto presente naquele momento, o kamma-nimitta; ou ele pode ver em sua mente uma indicação de seu iminente renascimento, gati-nimitta, como palácios celestiais, etc.

Encontramos nos suttas a distinção entre três tipos de kamma ou ações volitivas, considerando o tempo de amadurecimento, a saber: (1) kamma que produz frutos nessa vida (ditthadhamma-vedaniya-kamma); (2) kamma que produz fruto na vida seguinte (upapajja-vedaniya-kamma); (3) kamma que produz fruto em vidas posteriores (aparapariya-vedaniya-kamma). As explicações acerca destes tópicos são muito técnicas para o leitor em geral. Elas implicam o seguinte: o estágio do processo chamado de kamma volitivo consiste, na mente, de uma série momentos de pensamento impulsivos, ou javana-citta, que se sucedem em grande velocidade. Destes momentos impulsivos, o primeiro dará resultado nesta vida, o ultimo na próxima e os intermediários em vidas posteriores. Os dois tipos de kamma que dão frutos nessa vida e na seguinte podem por vezes se tornar inefetivos (ahosi-kamma). O kamma, portanto, que dá frutos em vidas posteriores será sempre efetivo, em qualquer tempo e lugar que surja uma oportunidade para que ele produza seu resultado; e enquanto o processo vital continue este kamma nunca se tornará inefetivo.

O Visuddhimagga divide o kamma, de acordo com suas funções, em quatro tipos: kamma gerador, kamma mantenedor, kamma neutralizador e kamma destrutivo, dos quais todos podem ser saudáveis ou prejudiciais.

Dentre estes quatro tipos, o gerador (janaka-kamma) produz no momento do nascimento e ao longo da vida os fenômenos neutros corpóreos e mentais, tais como os cinco tipos de consciência sensória e os fatores mentais a eles associados, como sensação, percepção, impactos sensoriais, etc.

O kamma mantenedor (upatthambhaka-kamma), entretanto, não produz nenhum tipo de resultado kâmmico; mas tão logo qualquer outra volição kâmmica tenha efetivado o renascimento e um resultado kâmmico tenha sido produzido, este kamma mantém ou suporta segundo sua natureza, o fenômeno agradável ou desagradável e faz com que ele prossiga.

O kamma neutralizador (upapilaka-kamma) também não produz resultado kâmmico algum; mas tão logo qualquer outra volição kâmmica tenha efetivado o renascimento e um resultado kâmmico tenha sido produzido ele neutraliza conforme sua própria natureza, o fenômeno agradável ou desagradável e não permite que este continue.

O kamma destrutivo (upaghataka-kamma) não produz resultado kâmmico algum; mas tão logo qualquer outra volição kâmmica tenha efetivado o renascimento e um resultado kâmmico tenha sido produzido ele então destrói o kamma mais fraco e permite apenas seu próprio resultado kâmmico agradável ou desagradável.

No Comentário ao Culakammavibhanga Sutta, o kamma gerador é comparado a um fazendeiro semeando; o kamma mantenedor, com a irrigação, adubação e cuidado com a plantação, etc., kamma neutralizador seria a seca que causa uma colheita pobre e o kamma destrutivo se compara com o fogo que destrói toda colheita.

Outro exemplo é o seguinte: o nascimento de Devadatta numa família real foi devido a seu bom kamma produtivo. O fato de ele tornar-se monge e realizar elevados poderes espirituais deveu-se a seu bom kamma mantenedor. Sua intenção de matar o Buda foi um kamma neutralizador enquanto que o fato dele causar um cisma na Ordem foi um kamma destrutivo, devido ao qual ele renasceu num mundo de miséria. Descrever em detalhe todas as multifacetadas divisões do kamma encontradas nos Comentários é algo que vai muito além do escopo desta breve exposição. O que eu queria deixar claro nesta conferência é o seguinte: a doutrina Budista do renascimento nada tem a ver com a transmigração de uma alma ou entidade-ego, uma vez que em sentido último não existe um tal ego, tão somente um processo continuadamente mutante de fenômenos físicos e mentais. Além disso, foi minha intenção apontar que o processo do kamma e o do renascimento podem tornar-se ambos compreensíveis apenas pela suposição de um fluxo subconsciente de vida por trás de tudo na natureza.

Notas

[1] Palestra, Universidade do Ceilão, 1947. [Retorna]

[2] Tudo que um corpo é está contido, como semente ou possibilidade, no embrião, (nota do tradutor). [Retorna]

[3] Chama-se precipitado ao sólido resultante ou de uma reação química, ou da excessiva saturação de um composto. A metáfora aqui, portanto, consiste em comparar o processo e os componentes do novo ser com uma reação química. [Retorna]

[4] O termo metempsicose é encontrado na filosofia grega, associado principalmente aos nomes de Pitágoras e Platão. Grosso modo metempsicose refere-se a noção de transmigração das almas através de vários corpos, humanos e não-humanos. Outro nome é metensomatose, usado por Plotino. Platão no Fedro atribui a metempsicose um papel purificador, ou seja, depois de um certo número de vidas, retorna-se ao convívio dos deuses, e caso se viva uma vida filosófica, esta purificação pode ser abreviada. [Retorna]

[5] Paleontólogo de renome que pretendia investigar o fundo de verdade presente nas várias tradições míticas da humanidade. Referência: The Scientist and the Fairy Tale, por: E.H. Krauss. In: http://www.theosophy-nw.org/theosnw/world/general/my-kraus.htm [Retorna]

[6] Provavelmente William James em The Varieties of Religious Experience. Tradução publicada pela cultrix: As Variedades da Experiência Religiosa. [Retorna]

[7] Há, aqui um jogo de palavras intraduzível, a palavra stream (fluxo, correnteza) que traduzimos por fluxo (de consciência) também se refere a correnteza de um rio. [Retorna]

[8] Heráclito, fragmento 49a. In: Pré-socráticos, Coleção os Pensadores. [Retorna]

[9] O efeito de Fata Morgana, do italiano fata Morgana (ou seja: fada Morgana), em referência à fictícia feiticeira (Fada Morgana) meia-irmã do Rei Artur que, segundo a lenda, era uma fada que conseguia mudar de aparência, é um efeito de ilusão óptica.
Trata-se de uma miragem que se deve a uma inversão térmica. Objetos que se encontrem no horizonte como, por exemplo, ilhas, falésias, barcos ou icebergues, adquirem uma aparência alargada e elevada, similar aos “castelos de contos de fadas”.
A Fata Morgana mais célebre é a que se produz no Estreito de Messina, entre a Calábria e a Sicília. Com tempo calmo, a separação regular entre o ar quente e o ar frio (mais denso) perto da superfície terrestre pode atuar como uma lente refractante, produzindo uma imagem invertida, sobre a qual a imagem distante parece flutuar. Os efeitos Fata Morgana costumam ser visíveis de manhã, depois de uma noite fria. É um efeito habitual em vales de alta montanha, onde o efeito se vê acentuado pela curvatura do vale, que cancela a curvatura da Terra. Também se costuma ver de manhã nos mares árticos, com o mar muito calmo, e é habitual nas superfícies geladas da Antártida.
Os efeitos de Fata Morgana são miragens ditas superiores, diferentes das miragens inferiores, que são mais comuns e criam a ilusão de lagos de água distantes nos desertos ou em estradas com o asfalto muito quente. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Fata_Morgana. [Retorna]

[10] Devo adicionar aqui que o termo páli vipaka, que geralmente traduzo por efeito ou resultado não é realmente idêntico a estes dois termos. De acordo com o Kathavatthu, ele diz respeito apenas ao resultado mental produzido pelo kamma, tal como a sensação física prazerosa e dolorosa e todos os demais fenômenos mentais primários. Os fenômenos corporais, como os cinco órgãos dos sentidos, etc., não são chamados vipaka e sim kammaja ou kamma-samutthana, ou seja, nascido do kamma ou produzido pelo kamma, (nota do autor). [Retorna]

Nota do Tradutor:

Os textos que apresento aqui traduzidos são quatro conferências dadas pelo Ven. Nyanatiloka em datas e locais diversos. Essas conferências deram origem ao livreto Fundamentals of Buddhism. Não nos enganemos com o nome livreto, o conteúdo está longe de ser no diminutivo. Trata-se, na minha opinião, de uma das melhores e mais ricas apresentações do Budismo que li até hoje. Os principais elementos doutrinais do Budismo Theravada são tratados de forma ao mesmo tempo profunda e acessível, não deixando margem para toda gama de equívocos acerca de Budismo que encontramos mesmo em textos bem intencionados hoje em dia. Meu desejo com esta tradução é que as pessoas tenham um primeiro contato com o Budismo que as ajude de fato a compreender os ensinamentos e mais importante, separar o que é Budismo do que não é, algo que não é tão fácil como aparenta em tempos de internet. Minha intenção era traduzir por completo e apresentar para publicação a alguma editora especializada interessada na idéia. Ainda considero uma possibilidade mas resolvi disponibilizar pelo Acesso ao Insight pois assim chega mais rápido às mãos das pessoas. Sinto que em nosso país não existem textos didáticos para os interessados em Budismo nem traduções publicadas do Cânone Pali. Espero que este pequeno esforço ajude a diminuir esta carência. Que possam todos se beneficiar.

Derley Menezes Alves

 

 

 

 

 

 

“A montanha e a caverna”

O mito

[A montanha, junto com a pedra (forma reduzida desta) e a árvore, com que se encontra associada, é um símbolo natural do “Eixo do Mundo”. Por ser na realidade uma elevação ou protuberância da terra, a estrutura imaginal do homem sagrado vê na montanha um símbolo da sua própria natureza, que aspira verticalmente para o superior ou celeste. Em geral todas as montanhas têm esse significado, mas existem algumas que, devido a certas correspondências espaciais relacionadas com a topografia sagrada estão “carregadas” de influxos espirituais. Estas são as denominadas “Montanhas Santas” ou “sagradas”, morada de entidades espirituais. Por isso, muitos templos e santuários (como é o caso, por exemplo, do Partenon grego) foram construídos nos cumes de determinadas montanhas, ou seja, ali onde a Terra parece tocar o Céu.

Assim a montanha, quanto a sua estrutura, é um arquétipo do templo, o que é especialmente visível nas pirâmides egípcias e pré-colombianas e nos zigurates babilônicos. Relacionado com isto, é significativo o fato de que Dante, na Divina Comédia, situe ao Paraíso Terrenal, ou Jardim do Éden (do qual todo templo é uma imagem simbólica), no cume de uma montanha, que é a “Montanha Polar”, “Celeste” ou “Mítica”, comum a muitos povos tradicionais, como é o caso do monte Meru entre os hindus, o Alborj entre os antigos persas, o Sinai e Moriah entre os hebreus, a montanha Qaf entre os árabes, ou o morro Urulu (ou “Ayers Rock”) entre os aborígines australianos, etc. A vinculação da montanha com o Paraíso nos sugere seu caráter primordial, pois este, ou seu equivalente em qualquer tradição, é considerado como o começo ou origem mítica da humanidade (a “Idade de Ouro”), quando todos os homens sem exceção participavam do Conhecimento e da Verdade. O Paraíso era também a residência da Grande Tradição Universal, conservadora da doutrina e da sabedoria perene, e toda montanha sagrada, como o Éden, é o símbolo do Centro do Mundo. Mas a partir de certa época, e devido às condições cíclicas adversas, o Conhecimento deixou de pertencer à totalidade dos homens, ficando em posse tão só de umas minorias que, para o salvaguardar e o manter através dos tempos, criaram as culturas tradicionais, conformadas pelos ritos e símbolos sagrados. O Conhecimento se repregou no interior de si mesmo, no coração da montanha, ou seja, na caverna, um lugar que por sua situação está oculto e protegido.

Por tal motivo o mundo “supraterrestre” gerou, em certo modo, o “mundo subterrâneo”. Fez-se invisível. Ocultou-se, mas não desapareceu. A vacuidade escura da caverna substituiu à luminosidade da cúspide da montanha. A Verdade, que nos primeiros tempos era espalhada aos quatro ventos e estava na boca de todos, converteu-se num segredo só percebido no mais interno. A caverna (como o ovo) é também um símbolo do Cosmo, um “Centro do Mundo” igualmente à montanha. Porém, assim como nesta [a Verdade] se manifesta em todo seu desenvolvimento e amplitude, à vista de todos, na caverna, o Centro se mantém invisível, virtual e potencial. O templo é igualmente uma caverna, ainda que esta se encontre mais bem representada pela cripta, situada em muitas catedrais debaixo do Altar, ou seja, sobre o mesmo eixo perpendicular que parte da “chave de abóbada”, ou seja, da sumidade. Na caverna sagrada se produzem as hierofanias e se celebram os mistérios da Iniciação, o mesmo que as “revelações” e “aparições” da divindade. Lembremos que Jesus Cristo nasce num estábulo, equivalente da caverna. Por outro lado, o mesmo esquema simbólico tradicional para representar a caverna é idêntico ao do coração e ao da copa, ou seja, um triângulo equilátero com o vértice para baixo, dando a imagem de um recipiente que recolhe os eflúvios espirituais. O símbolo geométrico da montanha é por sua vez um triângulo, mas com o vértice para cima.

Existe aqui uma aplicação deste símbolo, que completa o que se disse até agora, e é que como a caverna está no interior da montanha, podemos ver que a reunião de ambos conforma o símbolo já conhecido do “Selo de Salomão” ou “Estrela de David”. Este é, como já sabemos, o símbolo da analogia, que faz que o de baixo seja complementar com o de cima e vice-versa. Portanto o triângulo invertido é um reflexo do outro, exatamente igual que o microcosmo é um reflexo do macrocosmo, ou que a realidade relativa do manifestado é um reflexo da Realidade Absoluta do imanifestado.]

In Teoria da Conspiração.

Leia também

Domicílio, Exílio, Exaltação e Queda

Macrocosmos e Microcosmos

Metraton

Notas de apoio

O Mito da Caverna

(Extraído de “A República” de Platão . 6° ed. Ed. Atena, 1956, p. 287-291)

Sócrates – Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e só veem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto. Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos bonecos maravilhosos que lhes exibem.

Glauco – Imagino tudo isso.

Sócrates – Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos que se elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam em silêncio.

Glauco – Similar quadro e não menos singulares cativos!

Sócrates – Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do fogo, na parede que lhes fica fronteira?

Glauco – Não, uma vez que são forçados a ter imóveis a cabeça durante toda a vida.

Sócrates – E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras?

Glauco – Não.

Sócrates – Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das sombras que veem, lhes dariam os nomes que elas representam?

Glauco – Sem dúvida.

Sócrates – E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam, não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos?

Glauco – Claro que sim.

Sócrates – Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que desfilaram.

Glauco – Necessariamente.

Sócrates – Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via.

Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam ante os olhos, o obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?

Glauco – Sem dúvida nenhuma.

Sócrates – Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados?

Glauco – Certamente.

Sócrates – Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem reais?

Glauco – A princípio nada veria.

Sócrates – Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.

Glauco – Não há dúvida.

Sócrates – Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol, primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é.

Glauco – Fora de dúvida.

Sócrates – Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

Glauco – É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.

Sócrates – Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de escravidão e da ideia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?

Glauco – Evidentemente.

Sócrates – Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia?

Glauco – Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a viver da maneira antiga.

Sócrates – Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?

Glauco – Certamente.

Sócrates – Se, enquanto tivesse a vista confusa — porque bastante tempo se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade — tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?

Glauco – Por certo que o fariam.

Sócrates – Pois agora, meu caro Glauco, é só aplicar com toda a exatidão esta imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo inteligível está a ideia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos.

– – – – –

Anotações sobre o Mito

No passado, no contexto da cultura ocidental, os gregos foram os que mais  se destacaram no campo da mitologia, além de suas influências culturais em outras áreas do conhecimento. Na cultura ocidental o mito tornou-se, assim, o primeiro instrumento que desvendou os mistérios do mundo e traduziu os primeiros entendimentos do ser humano sobre a realidade. O mito, num primeiro conceito original, consiste numa narrativa fantasiosa, fantástica sobre a realidade, sobre o mundo. A palavra mito, no sentido etimológico, provém do grego e quer dizer contar, narrar, falar, anunciar, conversar. O mito, então se caracteriza, principalmente, por esse discurso imaginário e fictício de buscar explicações sobre os aspectos essenciais da realidade, como por exemplo: a origem do mundo, o funcionamento da natureza, as origens do ser humano e dos valores. O mito passava de geração a geração através da narrativa de uma pessoa, uma autoridade dentro da comunidade que inspirava confiança e fidelidade.

A   mitologia como o conjunto de mitos, lendas e crenças integrantes da cultura de um povo utilizava.  elementos simbólicos e sobrenaturais para explicar a realidade. O apelo ao mistério, ao sobrenatural, ao sagrado, à magia constitui-se em elementos centrais da mitologia. Por exemplo, na mitologia grega, além dos deuses imortais, (Hera, Zeus, Ares, Atena etc.), cultuavam-se heróis ou semideuses, que eram filhos de um deus com uma pessoa mortal. Os gregos criaram numerosas históricas baseadas numa rica mitologia. Para os gregos, os deuses presidiram a origem do universo e geraram semideuses, heróis e monstros. Os grandes deuses habitavam o monte Olimpo e destacam-se os seguintes: Héstia (deusa do lar), Crono e Réia (os primeiros deuses), Hades (deus do inferno), Deméter (deusa da agricultura), Zeus (deus do céu e esse senhor do Olimpo), Hera (esposa de Zeus), Posêidon (deus dos mares), Ares (deus da guerra), Atena (deusa da inteligência), Afrodite (deusa do amor e da beleza), Dionísio (deus do prazer, da aventura, do vinho), Apolo (deus do sol, das artes e da razão), Artemis (deusa da lua da caça e da fecundidade animal). Hefestos (deus do fogo, patrono dos metalúrgicos), Hermes (deus do comércio e das comunicações).

A mitologia grega surgiu para representar algumas funções sociais: a função de explicar e tranquilizar as pessoas diante dos mistérios da natureza e a função de regular e ordenar a ação humana. A explicação mítica, todavia, não justifica, nem se fundamenta nem se presta ao questionamento. O pensamento mítico requer a adesão e a aceitação das pessoas sem qualquer crítica ou correção. Não há discussão sobre os mitos, pois eles são aceitos pela cultura como a própria visão de mundo. Fonte: leitura no tempo., História antiga ;AS PRIMEIRAS  CIVILIZAÇÕES. Revista Mundo jovem 2007, conhecimento especifico

O Mito, Uma necessidade do Homem?

Trabalho Realizado por: Vítor Fragoso – ISMAI – Instituto Superior da Maia

Introdução

O mito apesar de ser um conceito não definido de modo preciso e unânime, constitui uma realidade antropológica fundamental, pois ele não só representa uma explicação sobre as origens do homem e do mundo em que vive, como traduz por símbolos ricos de significado o modo como um povo ou civilização entende e interpreta a existência.

Mito é uma narrativa tradicional de conteúdo religioso, que procura explicar os principais acontecimentos da vida por meio do sobrenatural. O conjunto de narrativas desse tipo e o estudo das concepções mitológicas encaradas como um dos elementos integrantes da vida social é denominado mitologia.

A elaboração deste trabalho pretende no fundo tentar perceber até que ponto o mito é importante ou não para o desenvolvimento social, cultural e psicológico do Homem.

O Mito uma necessidade do Homem? É a questão que procurarei esclarecer no decorrer deste trabalho.

Definição de Mito

Segundo Mircea Eliade, a tentativa de definir mito é a seguinte, “o mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares…. o mito conta uma história sagrada, relata um acontecimento que teve lugar no tempo primordial, o tempo fabuloso dos começos… o mito conta graças aos feitos dos seres sobrenaturais, uma realidade que passou a existir, quer seja uma realidade tetal, o Cosmos, quer apenas um fragmento, uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, é sempre, portanto uma narração de uma criação, descreve-se como uma coisa foi produzida, como começou a existir…”

Mircea Eliade, Aspectos do Mito, pág. 12/13

O mito só fala daquilo que realmente aconteceu do que se manifestou, sendo as suas personagens principais seres sobrenaturais, conhecidos devido aquilo que fizeram no tempo dos primórdios. Os mitos revelam a sua actividade criadora e mostram a “sobrenaturalidade” ou a sacralidade das suas obras. Em suma os mitos revelam e descrevem as diversas e frequentemente dramáticas eclosões do sagrado ou sobrenatural no mundo. É está “intormição” ou eclosão do sagrado (sobrenatural), que funda, que dá origem ao mundo tal como ele é hoje. Sendo também graças à intervenção de seres sobrenaturais que o homem é o que é hoje.

Ainda segundo Mircea Eliade, “o mito é considerado como uma história sagrada, e portanto uma história verdadeira, porque se refere sempre a realidades. O mito cosmogónico é verdadeiro porque a existência do mundo está aí para o provar, o mito da origem da morte é também verdadeiro porque a mortalidade do homem prova-o…e pelo facto de o mito relatar as gestas dos seres sobrenaturais e manifestações dos seus poderes sagrados, ele torna-se o modelo exemplar de todas as actividades humanas significativas”.

Mircea Eliade, Aspectos do Mito, pág. 13

A Necessidade do Mito

Muitas histórias mitológicas conservam-se na mente das pessoas, dando uma certa, perspectiva daquilo que acontecia em suas vidas.

“Essas informações provenientes de tempos antigos têm a ver com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, construíram, civilizações e formaram religiões através dos séculos, e têm a ver com os profundos problemas interiores, com os profundos mistérios, com os profundos limiares da nossa travessia pela vida…”

Joseph Campbell, www.geocities.com/viena/2809/mitos.html

Aquilo que os seres humanos têm em comum revela-se no mito. Segundo Campbell, eles são histórias da nossa vida, da nossa busca da verdade, da busca do sentido de estarmos vivos. Os mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana, daquilo que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente. O mito é o relato a experiência da vida. Eles ensinam que nós podemos voltar-nos para dentro.

Assim sendo os mitos têm como tema principal e fundamental que é a busca da espiritualidade interior de cada um de nós.

“Os mitos estão perto do inconsciente colectivo e por isso são infinitos na sua revelação”.

Joseph Campbell, www.geocities.com/viena/2809/mitos.html

As Características do Mito

A narração mitológica envolve basicamente acontecimentos supostos, relativos a épocas primordiais, ocorridos antes do surgimento dos homens (história dos deuses) ou com os “primeiros” homens (história ancestral). O verdadeiro objecto do mito, contudo, não são os deuses nem os ancestrais, mas a apresentação de um conjunto de ocorrências fabulosas com que se procura dar sentido ao mundo. O mito aparece e funciona como mediação simbólica entre o sagrado e o profano, condição necessária à ordem do mundo e às relações entre os seres. Sob sua forma principal, o mito é cosmogônico ou escatológico, tendo o homem como ponto de intersecção entre o estado primordial da realidade e sua transformação última, dentro do ciclo permanente nascimento-morte, origem e fim do mundo.

As semelhanças com a religião mostram que o mito se refere — ao menos em seus níveis mais profundos — a temas e interesses que transcendem a experiência imediata, o senso comum e a razão: Deus, a origem, o bem e o mal, o comportamento ético e a escatologia (destino último do mundo e da humanidade). Crê-se no mito, sem necessidade ou possibilidade de demonstração. Rejeitado ou questionado, o mito se converte em fábula ou ficção.

Tipos de Mito

Mitos cosmogônicos

Dentre as grandes interrogações que o homem permanece incapaz de responder, apesar de todo o conhecimento experimental e analítico, figura, em todas as mitologias, a da origem da humanidade e do mundo que habita. É como resposta a essa interrogação que surgem os mitos cosmogônicos. As explicações oferecidas por esses mitos podem ser reduzidas a alguns poucos modelos, elaborados por diferentes povos.

É comum encontrar nas várias mitologias a figura de um criador, um demiurgo que, por ato próprio e autónomo, estabeleceu ou fundou o mundo em sua forma atual. Os mitos desse tipo costumam mencionar uma matéria preexistente a toda a criação: “o oceano, o caos (segundo Hesíodo) ou a terra (nas mitologias africanas). A criação ex nihilo (a partir do nada, sem matéria preexistente) já reflecte algum tipo de elaboração filosófica ou racional. A cosmogonia chinesa, por exemplo, atribui a origem de todas as coisas a Pan Gu, que produziu as duas forças ou princípios universais do yin e yang, cujas combinações formam os quatro emblemas e os oito trigramas e, por fim, todos os elementos”.

No hinduísmo, o Rigveda descreve graficamente o nada a original , no qual respirou o Um, nascido do poder do calor.

A água é o elemento primordial mais frequente das cosmogonias, sobretudo nas mitologias asiáticas e da América do Norte. A consolidação da terra faz-se pela acção de um intermédio (espírito ou animal) que a retira do fundo da água e introduz no mundo um elemento de desordem ou mal.

A criação a partir do nada, aparece unicamente pela palavra de deus facto que aparece claramente no livro do Génesis.

Mitos escatológicos

Ao lado da preocupação com o enigma da origem, figura para o homem, como grande mistério, a morte individual, associada ao temor da extinção de todo o povo e mesmo do desaparecimento do universo inteiro.

Morte. Para a mitologia, a morte não aparece como fato natural, mas como elemento estranho à criação original, algo que necessita de uma justificação, de uma solução em outro plano de realidade. Três explicações predominam nas diversas mitologias. Há mitos que falam de um tempo primordial em que a morte não existia e contam como ela sobreveio por efeito de um erro, de castigo ou para evitar a superpopulação. Outros mitos, geralmente presentes em tradições culturais mais elaboradas, fazem referência à condição original do homem como ser imortal e habitante de um paraíso terreno, e apresentam a perda dessa condição e a expulsão do paraíso como tragédia especificamente humana. Por fim, há o modelo mítico que vincula a morte à sexualidade e ao nascimento, analogamente às etapas do ciclo de vida vegetal, e que talvez tenha surgido em povos agrícolas.

Já Platão anunciava a reencarnação e a imortalidade da alma na sua obra “Fédom”, acreditando, que as almas dos seres virtuosos iam para junto dos Deuses bons, e no momento da morte a alma separava-se do corpo, permanecendo imperecível. O corpo simbolizava o cárcere da alma, e só a morte a poderia libertá-la desse cárcere, daí a serenidade de Sócrates no momento da sua morte.

Destruição escatológica Os mitos retractam frequentemente o fim do mundo como uma grande destruição, de natureza bélica ou cósmica. Antes da destruição, surge um messias (“ungido”) ou salvador, que resgata os eleitos por Deus. Esse salvador pode ser o próprio ancestral do povo ou fundador da sociedade, que empreende uma batalha final contra as forças do mal e, após a vitória, inaugura um novo estágio da criação, um novo céu e uma nova terra.

Os mitos da destruição escatológica manifestaram-se tardiamente, na literatura apocalíptica judaica, que floresceu entre os séculos II a.C. e II d.C., e deixou sua marca no livro do Apocalipse, atribuído ao apóstolo João. Exemplo típico de mito de destruição (embora não no fim dos tempos) são as narrativas a respeito de grandes inundações. É bastante conhecido o episódio do Antigo Testamento que descreve um dilúvio e o apresenta como castigo de Deus à humanidade. Esse tema tem origens mais remotas e provém de mitos mesopotâmicos.

Mitos sobre o tempo e a eternidade

Os corpos celestes sempre atraíram a curiosidade e o interesse humano, em todas as culturas. A regularidade e precisão inalteráveis do movimento dos astros foram com certeza uma imagem poderosa na formação de uma ideia de “tempo transcendente”, concebido como eternidade, em contraste com o mundo de incessantes alterações e os acontecimentos inesperados vividos no tempo terreno. O retorno cíclico dos fenómenos siderais e de processos naturais terrestres projectou-se, em algumas culturas, na concepção cíclica do tempo.

Nas escrituras hinduístas e budistas, elaborou-se um complexo sistema de mundos que desaparecem e ressurgem, sempre num total de quatro. Essa concepção cíclica determinou a adaptação de relatos védicos anteriores e o desenvolvimento de uma doutrina que explica a formação e absorção periódicas do universo como fases de actividade e repouso de energia. Os ascetas e os maias acreditavam que o mundo actual. Havia sido precedido de outros quatro, o último dos quais teria sido destruído por um cataclismo; ambos os povos desenvolveram um complicado calendário, a cujo estudo se dedicavam vários sacerdotes astrónomos.

A concepção linear e progressiva de tempo (oposta à repetição cíclica) é característica das chamadas religiões históricas — judaísmo, cristianismo, islamismo –, que afirmam a intervenção de Deus na história, num acontecimento único e irrepetível, e a existência de uma meta final de salvação da humanidade.

Mitos de transformação e de transição

Numerosos mitos narram mudanças cósmicas, produzidas ao término de um tempo primordial anterior à existência humana e graças às quais teriam surgido condições favoráveis à formação de um mundo habitável. Outras grandes transformações e inovações, como a descoberta do fogo e da agricultura, estão associadas aos mitos dos grandes fundadores culturais. Nos mitos, são frequentes as transformações temporárias ou definitivas dos personagens, seja em outras figuras humanas ou em animais, plantas, astros, rochas e outros elementos da natureza.

As mudanças e transformações que se dão nos momentos críticos da vida individual e social são objecto de particular interesse mitológico e ritual: nascimento, ingresso na vida adulta, casamento, morte – acontecimentos marcantes para a pessoa e sua comunidade -são interpretados como actualizações de processos cósmicos ou de realidades míticas.

O Eu Transcendente

O mito está directamente ligado à necessidade do ser humano se transcender através da sua espiritualidade, das suas crenças, das suas fés. O mito surge então como um guia, como um exemplo, que acalma os “espíritos” mais descontentes com a realidade, ajudando-os a adaptarem-se à sua realidade. Por isso resolvi transcrever o excerto seguinte de Mihaly Csikszentmihalyi, que penso que descreve bem a transcendência do eu, e a necessidade do eu transcendente e da espiritualidade Humana:

“Na maior parte das culturas que atingiram a complexidade de civilização, as qualidades tidas em mais alta estima são as envolvidas nos processos mentais de um caracter particular a que, à falta de melhor palavra chamaremos “espiritual”. As competências espirituais incluem a habilidade de controlar directamente a experiência, manipulando os menes (herança cultural, transmitida ao longo dos séculos), que aumentam a harmonia entre os pensamentos, emoções e vontades da pessoa. Aqueles que exercem estas competências são chamados Xamãs, sacerdotes, filósofos, artistas e homens, ou mulheres, sábios dos mais variados tipos. São respeitados e recordados, e mesmo que não lhes sejam concedidos poder ou dinheiro, os seus conselhos são ouvidos, e a sua própria existência é acarinhada pelas comunidades em que vivem.

À primeira vista, é difícil compreender por que razão as contribuições espirituais são consideradas tão importantes pela maioria das sociedades. De um ponto de vista evolutivo, poderia parecer que não têm qualquer valor prático em termos de sobrevivência. Os esforços dos agricultores, construtores, comerciantes, cientistas, etc…produzem benefícios óbvios e concretos; e a actividade intelectual o que produz?

O que é comum a todas as formas de espiritualidade é a tentativa de reduzir a entropia na consciência. A actividade espiritual visa produzir harmonia entre desejos contraditórios, esforça-se por encontrar significado nos acontecimentos casuais da vida e tenta reconciliar os objectivos humanos com as forças que se lhes opõem a partir do meio. Aumenta a complexidade ao clarificar as componentes da experiência individual, tais como o bom e mau, amor e ódio, prazer e dor. Procura expressar estes processos em menes que sejam acessíveis a todos e ajuda a integrá-los uns nos outros, bem como , no meio exterior.

Estes esforços para levar harmonia à mente baseiam-se frequentemente, mas não sempre, numa crença em poderes sobrenaturais. Muitas “religiões” orientais, e filosofias estóicas da antiguidade, tentaram desenvolver uma consciência complexa sem o recurso a um ser supremo. Algumas tradições espirituais, com o ioga hindu ou o taoismo, concentram-se exclusivamente em conseguir harmonia e o controlo da mente sem qualquer interesse a entropia social, outras, como a tradição confuciana, visavam primariamente estabelecer a ordem social. Em todo caso, se a importância atribuída a estas tentativas pode servir de indicador, a redução do conflito e da desordem através de meios espirituais parece ser muito adaptativa. Sem elas é provável que as pessoas ficassem cada vez mais desencorajadas e confusas, e que a guerra hobbesiana de “todos contra todos” se tornasse uma característica mais proeminente da paisagem social do que já é.

Mihaly Csikszentmihalyi, Novas Atitudes Mentais, pág. 227/228

Mito e religião

Alguns especialistas, como Mircea Eliade, estudioso de história comparada das religiões, atribuem importância especial ao contexto religioso do mito. Com efeito, são muito frequentes os mitos que versam sobre a origem dos deuses e do mundo (chamados, respectivamente, mitos teogônicos e cosmogônicos), dos homens, de determinados ritos religiosos, de preceitos morais, tabus, pecados e redenção. Em certas religiões, os mitos formam um corpo doutrinal e estão estreitamente relacionados com os rituais religiosos — o que levou alguns autores a considerar que a origem e a função dos mitos é explicar os rituais religiosos. Mas tal hipótese não foi universalmente aceita, por não esclarecer a formação dos rituais e porque existem mitos que não correspondem a um ritual.

O mito, portanto, é uma linguagem apropriada para a religião. Isso não significa que a religião, tampouco o mito, conte uma história falsa, mas que ambos traduzem numa linguagem plástica (isto é, em descrições e narrações) uma realidade que transcende o senso comum e a racionalidade humana e que, portanto, não cabe em meros conceitos analíticos. Não importa, do ponto de vista do estudo da mitologia e da religião, que Prometeu não tenha sido realmente acorrentado a um rochedo com um abutre a comer-lhe as entranhas, nem que Deus não tenha criado o ser humano a partir do barro. Religião e mito diferem, não quanto à verdade ou falsidade daquilo que narram, mas quanto ao tipo de mensagem que transmitem.

A mensagem religiosa geralmente exige determinado comportamento perante Deus, o sagrado e os homens, e é, muitas vezes, formulada de forma compatível com conceitos racionais e em doutrinas sistematizadas. O mito abrange maior amplitude de mensagens, desde atitudes antropológicas muito imprecisas, até conteúdos religiosos, pré-científicos, tribais, folclóricos ou simplesmente anedóticos, que são aceitos e formulados de modo menos consciente e deliberado, mais espontâneo, sem considerações críticas.

Mito e sociedade

Como forma de comunicação humana, o mito está obviamente relacionado com questões de linguagem e também da vida social do homem, uma vez que a narração dos mitos é própria de uma comunidade e de uma tradição comum. Não se conseguiu definir, no entanto, a natureza precisa dessas relações. Alguns linguistas admitem explicitamente a necessidade de uma ciência mais abrangente, como por exemplo uma nova ciência geral da semiologia, cuja tarefa seria estudar todos os signos essenciais à vida social, e uma nova psicologia, que caracterizaria inicialmente vários sistemas do conhecimento e da crença humanos. O estudo da sociedade e da linguagem pode começar apenas com os elementos fornecidos pela fala e pelas relações sociais humanas, mas em cada caso esse estudo se confronta com uma coerência de tradições que não está directamente aberta à pesquisa. Essa é a área em que atua a mitologia.

Algumas concepções mitológicas podem exemplificar a complexidade e a variedade das relações entre mito e sociedade. A tribo lugbara (do noroeste de Uganda e do Congo) utiliza um sistema conceptual para relacionar sua ordem sociopolítica a dois heróis ancestrais, relacionados, em contrapartida, à criação do universo. As narrações sobre a evolução da tribo a partir de seus heróis ancestrais são apresentadas na forma de saga, embora a “história” mais primitiva seja contada em mitos. É notável, porém, que o único esquema conceptual do sistema social dos lugbara relacione o passado mítico e o genealógico (não mítico) e que, em seu conjunto, seja expresso mais em categorias espaciais do que histórico-temporais.

Como a Psicologia vê o Mito?

Mito e psicologia

Freud deu nova orientação à interpretação dos mitos e às explicações sobre sua origem e função. Mais que uma recordação ancestral de situações históricas e culturais, ou uma elaboração fantasiosa sobre fatos reais, os mitos seriam, segundo a nova perspectiva proposta, uma expressão simbólica dos sentimentos e atitudes inconscientes de um povo, de forma perfeitamente análoga ao que são os sonhos na vida do indivíduo. Não foi por outra razão que Freud recorreu ao mito grego para dar nome ao complexo de Édipo: para ele, o mito do rei que mata o pai e casa com a própria mãe simboliza e manifesta a atracção de carácter sexual que o filho, na primeira infância, sente pela mãe e o desejo de suplantar o pai.

“Não será verdade que cada ciência, no final das contas, se reduz a um certo tipo de Mitologia?”

Sigmund Freud

Carl Gustav Jung – A Psicologia Analítica e a Justificação do Mito – “Desenvolver a fantasia significa aperfeiçoar a Humanidade”- Jung

Para Carl Gustav Jung, discípulo de Freud e seu colaborador por muitos anos, os mitos seriam uma das manifestações dos arquétipos ou modelos que surgem do inconsciente colectivo da humanidade e que constituem a base da psique humana. A existência do inconsciente colectivo permite compreender a universalidade dos símbolos e dos mitos, pois que estes se revelam em todas as culturas e em todas as épocas de modo idêntico.

A Importância dos Mitos para a Psicologia

O papel dos Mitos é extremamente importante na constituição da cultura, independente do local que se originou – se pertence ou não a um povo – o mito contribuiu para o desenvolvimento individual e colectivo. Os mitos permitem a tomada de consciência sobre a vida instintiva, possuem a capacidade de gerarem padrões de comportamento que garantem a evolução psicossocial (como também defende Mihaly Csikszentmihalyi), e a atitude criativa perante a vida (nos diferenciando dos animais). Eles não deixam de representar a história da nossa humanidade, dando um sentido à nossa existência afectiva e espiritual. Como diz Joseph Campbell: “aquilo que os seres humanos têm em comum revela-se nos mitos. Eles são histórias da nossa vida, da nossa busca da verdade, da busca do sentido de estarmos vivos. Os mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana, daquilo capazes de conhecer e experimentar interiormente”.

Segundo Italo J. Furletti os mitos em suas acções estruturantes, possibilitam referências (consciente ou inconscientemente), a um padrão mais adequado de comportamento, como por exemplo: quando uma pessoa se sente envolvida por uma temática do herói, trata-se de um indicativo de qualidades ainda não definidas, ou reflectem simbolicamente, o comportamento que é necessário ser desempenhado pelo sujeito em alguma área da sua vida, factor muito importante e comum nos adolescentes. Em suma pode-se dizer, que os heróis possuem a função de reportar ao comportamento adequado para introduzir ou corrigir o indivíduo na perspectiva da sua totalidade.

Ainda segundo o mesmo autor, no processo de análise psíquica, eles são extremamente úteis como mecanismos de amplificação de focos psicológicos; principalmente, quando esses focos estão carregados de energia afectiva. Ou seja o ser humano possui uma enorme dificuldade em perceber seus comportamentos, principalmente os não benéficos, mesmo as pessoas autodepreciativas e a maioria dos comportamentos, de certa forma não apropriados, possuem um ganho secundário cujo benefício para o sujeito é da ordem do inconsciente. Isto não deixa de se ir concentrando numa enorme carga afectiva que tende cada vez mais a aglomerar energia psíquica. Assim pode evoluir tanto, ao ponto de criar um complexo afectivo. Independentemente de chegarem a esse ponto os mitos, por serem expressão de arquétipos (Jung) – padrões de comportamento da herança da humanidade, permitem à pessoa se rever neles (consciente ou inconscientemente) e assim se pode remodelar as suas posturas.

A acção do mito funciona tal qual um sonho, como defendia o próprio Freud, “os mitos são uma expressão simbólica dos sentimentos e atitudes inconscientes de um povo, de forma perfeitamente análoga ao que são os sonhos na vida do indivíduo”, os mitos estão para a sociedade, assim como os sonhos estão para o indivíduo. Ambos através das suas mensagens promovem a saúde, independentemente ou não de se entender o seu significado simbólico, eles possuem uma eficácia por si mesmo. Se for possível compreender o desempenho do arquétipo no mito, ou, entender a acção arquetípica no sonho, isso permitirá uma maior liberdade decorrente do mundo instintivo, com também, uma maior liberdade de acção, um desprendimento da inserção e imposição sociocultural.

O mito devido à sua riqueza simbólica quando corresponde a um comportamento, serve para ampliar o conteúdo afectivo. Quando não facilita a percepção do que era inconsciente, pelo menos, envolve o sujeito em outros parâmetros de comportamento, possibilitando uma reformulação das acções numa perspectiva de uma postura mais saudável de viver, ou apenas, amenizando o sofrimento.

Bibliografia:

Rivière, C. Introdução à Antropologia, Edições 70, Lisboa (2000).

Eliade, M. Aspectos do Mito, Edições 70, Lisboa

Csiksentmialyi, M. Novas Atitudes Mentais, Circulo de Leitores (1998)

Pesquisa na Internet:

www.geocities.com/viena/2809/mitos.html

www.mithos.art.br

http://sites.uol.com.br/mdimpo/

http://psicoforum.br.tripod.com/index/artigos/mito1.htm

 

Caminhar é uma boa, então pé na estrada, ou na trilha, ou na rua mesmo

Bota
Reprodução / Modelo de botas para caminhada

Aprendi a caminhar com um médico canadense – cujo nome me escapa. Ele era um senhor já passado na idade, provavelmente com a minha atual (perto dos 70), enquanto eu tinha míseros 9 ou 10 anos.

Não o conheci e ele, portanto, não me ensinou a rigor a andar. Com aquela idade, o aprendizado ficou, obviamente, a cargo de minha mãe.

O trabalho pesado de casa – e bote pesado nisso! – sempre fica com as mulheres.

Ocorre que acabei por ler um pequeno texto do médico canadense onde ele defendia a tese de que as pessoas nasceram para andar (caminhar) e não para correr.

Atualmente alguns cientistas defendem exatamente isso, exceção feita, obviamente, aos atletas de alta performance. Mas, a rigor, a nós, simples mortais, o recomendado é mesmo uma boa caminhada.

Ele fazia, se me lembro bem, uma concessão à natação, nas defendia mesmo as caminhadas, quer fossem as curtas, quer fossem as médias, quer fossem as longas.

Não sei como a gente dimensiona isso, mas para mim caminhadas curtas são as inferiores a 10 mil metros (10 km); acima disso e até mais ou menos 30 mil metros (30 km), as médias. Para além dos 30, e a perder de vista ou enquanto nosso fôlego aguentar, as longas.

Obviamente que isso não é nenhuma ciência exata e cada um que fique à vontade para criar os seus próprios parâmetros.

Alguns truques para uma boa e conformável caminhada já são nossos velhos conhecidos: roupa confortável e larga (eu prefiro as de algodão); proteção para a cabeça; hidratante e protetor solar (eu não costumo usar nenhum dos dois, mas é bom usar) e um bom calçado com meias.

Muita gente não usa meias, mas é inconveniente para os médios e longos percursos.

Sobre o calçado há que defenda o uso de tênis.

Sou um velho caminheiro, caminhante, andante ou seja lá que nome se dê a isso: para trajetos curtos, especialmente em parque, ruas e calçadas, o tênis pode ser até uma boa opção, mas para os trajetos mais longo é conveniente usar aquelas botas feitas para as caminhadas.

No Brasil já temos algumas boas botas, mas nos países andinos, especialmente no Chile e na Argentina, você vai encontrar um produto de melhor qualidade.

Muito gente usa aquelas bebidas que contêm eletrólitos – que dão, supõem-se, mais energia e mantém a pessoa hidratada – e as bebidas sem açúcar.

Prefiro água mesmo.

Imagine que por milênios muita gente caminhou muito tempo e apenas tomou água.

Então não há muito que pensar a esse respeito. Caminhe mais e seja menos modinha.

Mas é importante alimentar-se direito, especialmente antes do inicio da caminhada.

Se conseguir alimentar-se ao longo do trajeto – especialmente nos longos – é bastante conveniente .

Se não existir uma trilha onde você está e/ou mora – caminhantes gostam de trilhas – crie você mesmo a sua trilha. Use a sua criatividade.

Você pode caminhar mesmo somente dentro de seu bairro.

Só cuide para não ser atropelado ou assaltado ou as duas coisas simultaneamente.

OBS. Muita gente que me conhece mais de perto deve estar se perguntando a propósito de que esta minha falação toda sobre caminhada, já que enfartei há cerca de 14 meses.

Pois então, enfartei, não morri (ainda) e estou caminhando em média 10 km por dia.

Mais devagar, mas caminhando.

Outras leituras

Crônica da Rússia, à beira da revoluçãoOutras Palavras

Opiniões de um pequeno burguês – CartaMaior

“Segurança global é a mais instável desde o colapso da URSS” – DW

Prêmio Nathan Reingold laureia trabalho de pós-graduando sobre história da ciência e suas influências culturais – História Ciência Saúde Manguinhos

Jornalistas são guardiões da notícia diz o Papa Francisco – Observatório da Imprensa

Enroladinha

A presidente do PT, Gleise Hoffman, fala um bocado, coisas cada vez mais sem sentido. Só não explica as falcatruas das quais é acusada, que vão do IPVA à conta de luz pagas, supostamente, com dinheiro oriundo da corrupção.

Inocente ou culpada, Gleise Hoffmann tem a obrigação moral de explicar que rolo é esse.

Gleise
istoe.com.br