“Brasileiros e alemães discutem liberdade de expressão em seminário na UnB”

[Na Europa e na América Latina, a expansão da tecnologia digital trouxe um grande desafio para a mídia: a busca por um modelo de produção, distribuição e acesso à informação de qualidade. Por outro lado, o acesso à internet também pode significar um estímulo à prestação de contas dos veículos de comunicação e de seus profissionais ¿ sugestões, reclamações e comentários chegam rapidamente às redações via e-mail e pelas redes sociais, aponta Fernando Oliveira Paulino, diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB).

Paulino é um dos pesquisadores que farão parte do seminário ¿Mídia, Accountability e Liberdade de Expressão na Europa e na América Latina¿, organizado em parceria com o Centro Alemão de Ciência e Inovação (DWIH-SP), a Universidade Técnica de Dortmund (TU) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Durante uma manhã de debate, marcada para 21/06, cientistas e profissionais da Alemanha e do Brasil vão discutir questões relacionadas à liberdade e prestação de contas da mídia europeia e latino-americana. Um dos objetivos da troca de experiências é abordar o papel da imprensa para o fortalecimento da democracia e da diversidade.

Em países da América Latina, problemas já conhecidos estão de volta à tona. Pesquisas apontam um alto índice de concentração de propriedade da mídia, tentativas de interferência nos conteúdos veiculados pelo poder público e pouca prestação de contas das empresas do ramo.

Paulino cita ainda um outro perigo: ¿Existe um significativo grau de paralelismo político, ou seja, interesses cruzados entre proprietários de mídia e grupos políticos¿. A Europa também não está livre de dificuldades: a liberdade de expressão de grupos formados por refugiados e imigrantes, o funcionamento do sistema público de comunicação em alguns países são exemplos de temas em discussão.

A alemã Mariella Bastian, pesquisadora do Instituto de Jornalismo da TU Dortmund, vai apresentar resultados de uma análise feita no Brasil, Argentina e Uruguai. Ela investigou a relação entre imprensa e criação de sistemas de media accountabity como ombudsman, códigos de ética, conselhos de imprensa, blogs sobre mídia ou espaço para correção de erros. ¿É importante não ter uma perspectiva eurocêntrica. Muitas vezes, no mundo acadêmico, adota-se uma perspectiva da Europa ou dos Estados Unidos sem se levar em consideração as condições em outras regiões¿, comenta Bastian sobre seu estudo.

Por isso, a pesquisadora elaborou um modelo com diferentes fatores que influenciam esse cenário, como a relação entre mídia e política, liberdade de expressão, situação econômica, formação dos jornalistas entre outros.  Durante o seminário, Bastian vai apresentar ainda os instrumentos de transparência e que garantem participação do público existentes nos três países da América Latina onde concentrou sua pesquisa.

Dentre os debatedores está Susanne Fengler, diretora do Instituto Erich Brost para Jornalismo na Europa. A instituição faz parte do projeto Media Accountability e Transparência na Europa, uma pesquisa comparativa focada na prestação de contas dos veículos europeus. Carina Zappe, do Observatório Europeu do Jornalismo, também participa do Seminário.

Compõem ainda a programação Josenildo Guerra, professor da Universidade Federal de Sergipe, e Marcos Santuário, docente da Universidade Feevale. Eles fazem parte da Rede Nacional de Observatórios da Imprensa, criada em 2005 para reunir estudos e monitorar a mídia brasileira.]

Serviço: Seminário: Mídia, Accountability e Liberdade de Expressão na Europa e na América Latina

Dia: 21/06

Início: 8h20

Local: Auditório Pompeu de Sousa da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (Campus Universitário Darcy Ribeiro – Asa Norte – Brasília)

Fonte: DWIH-SP

CNPq

“Comércio digital: a nova fronteira da barbárie?”

Intenert
Ilustração: Workana

[As empresas transnacionais (ETN) norte-americanas focadas em tecnologia de ponta representam atualmente cinco das sete maiores empresas do mundo, com domínio em informação (com o Google em segundo lugar), mídias (Facebook em primeiro lugar), varejo (Amazon em sexto lugar) e tecnologia (Apple em primeiro lugar e Microsoft em terceiro lugar).

Um dos melhores investimentos que estas empresas e outras podem fazer é mudar as normas sob as quais funcionam, para extrair mais lucros da economia mundial e evitar que os competidores tenham igualdade de condições.

Há muito tempo, elas utilizam os tratados de livre-comércio para impor normas que favorecem seu “direito” a obter lucros e limitar a capacidade dos governos para regulamentar o interesse do público, de uma maneira que torna incapaz de avançar por meio de canais democráticos normais.

Agora, as empresas por trás da promoção das normas de comércio eletrônico estão buscando um fórum de conveniência e levarão sua lista de pedidos à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que publicou orientações políticas sobre diversos temas relacionados, e ao G20, que acaba de publicar uma Declaração ministerial sobre a economia digital [PDF]. Entretanto os acordos entre os membros dessas instituições não são vinculatórios para os governos. Para conseguir normas sobre comércio eletrônico que sejam obrigatórias, as empresas se dirigem à Organização mundial do Comércio (OMC).

Desde julho de 2016, o comércio eletrônico é o principal tema que impulsiona os países desenvolvidos nas negociações da OMC. As discussões têm como resultado um mandato de negociação, e as novas normas submeteriam os 164 países membros da OMC a medidas de grande alcance, com potencial de impedir o desenvolvimento, destruir postos de trabalho e modificar o mundo.

Portanto, aqueles que se preocupam com condições dignas de trabalho, com o ambiente que compartilhamos, com o desenvolvimento, com a desigualdade e com o interesse público, devem se opor às novas negociações das normas sobre o comércio eletrônico por 12 motivos:

  1. As negociações sobre comércio eletrônico tiram do foco a agenda de desenvolvimento que poderia reduzir drasticamente a pobreza. Milhões de pessoas pobres, entre elas, agricultores, poderiam melhorar suas vidas se houvessem mudanças nas normas existentes sobre agricultura no da OMC, sobre o qual já escrevi aquiaqui(em inglês).

A Rede Internacional “Nosso mundo não está à venda” (OWINFS, em inglês), que conta com a adesão de diversos grupos da sociedade civil, promove, há bastante tempo, uma agenda para mudar esta realidade, através de chamadas semelhantes ao seu nome. Mas esta agenda tem tido pouca visibilidade, pois toda a atenção está voltada para o comércio eletrônico no Acordo da OMC deste ano.

Provavelmente, os países desenvolvidos exigirão que as negociações sobre comércio eletrônico comecem, como forma de pagamento por concordarem em cumprir com as promessas que não cumpriram desde 2001, quando teve início a Rodada de Doha de Desenvolvimento.

  1. As propostas para a área de comércio eletrônico implicam poder regulamentar. As empresas estadunidenses pretendem reescrever a normativa mundial com o objetivo de fixar seu domínio atual na área. Apesar da supremacia na área de tecnologia de ponta, essas empresas desejam barrar o ressurgimento da China no panorama mundial, já que o país está investindo bilhões no desenvolvimento de setores de tecnologia de ponta como parte do plano “Made in China 2025” (Fabricado na China 2025).

As empresas estadunidenses também pretendem deixar de fora possíveis competidores futuros. Para isso, estão pressionando os 164 membros da OMC para negociar este assunto antes que a maioria dos países possa compreender suas possíveis consequências. Os países em desenvolvimento com frequência têm pouca experiência nas tecnologias em questão e não sabem qual é a melhor prática para um leque amplo de atividades.

O “Informe de Desenvolvimento Mundial 2016: Dividendos Digitais” do Banco Mundial observou que os benefícios em relação ao desenvolvimento das tecnologias digitais ficam para trás por causa da sua rápida propagação, e que poucos países em desenvolvimento contam com acesso à banda larga necessária e outros tipos de infraestrutura, como marcos regulatório, capital humano e instituições confiáveis para poder obter benefícios.

Vários informes publicados recentemente pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) demonstram que a maioria dos países em desenvolvimento não tem estrutura legal adequada em comércio digital, governança da internet ou segurança cibernética. Até as normas dos Estados unidos e da União Europeia sobre estes assuntos ainda precisam ser melhoradas.

Os benefícios de digitalização poderiam ser grandes para todos, mas se as normas se inclinam para o lado dos poderosos, não serão. Por esse motivo, o Grupo africano da OMC se opôs a um mandato sobre normas do comércio eletrônico em outubro. Do ponto de vista do desenvolvimento, é uma loucura criar tratados legais internacionais aplicáveis e vinculatórios sobre as áreas emergentes com dinâmicas diferentes da economia de transformação tecnológica.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico acabam com os postos de emprego. As tecnologias por trás da “quarta revolução industrial” pretendem desestabilizar os mercados trabalhistas, já que a flexibilidade é a chave para a “inovação”. Os empregos com bons salários e benefícios são substituídos por empregos informais sem proteção social ou estabilidade.

As empresas transferem o risco do mercado a contratantes individuais ou “trabalhadores autônomos”, que recebem salários inferiores e não contam com benefícios sociais, como licença médica, seguro médico, aposentadoria, muito menos estabilidade no emprego.

Como no caso do Uber, em que os esforços da empresa para alcançar uma posição dominante no mercado se encontram no sentido oposto da capacidade dos trabalhadores para aumentar seus salários.

E, apesar do exagero sobre o perigo dos robôs roubarem os postos de trabalho, muitos trabalhos serão substituídos pela automatização. Um informe de Desenvolvimento do Banco Mundial de 2016 calcula que 47% dos empregos nos Estados Unidos corre o risco de virar automatizado; na Argentina, a porcentagem é de 65%; na China, 77%; e, na Etiópia, a cifra chega a 85%.

Outro informe recente do grupo UBS observou que os países em desenvolvimento “enfrentarão a ameaça da Quarta Revolução Industrial que comprometerá os empregos pouco qualificados através da automatização extrema, mas talvez não tenham a capacidade tecnológica para usufruir dos benefícios relativos que podem se redistribuir através de uma extrema conectividade”.

As propostas relativas ao comércio eletrônico não geram essa mudança, mas aceleram seu ritmo e dificultam que os governos mitiguem os impactos negativos.

Em vez de consolidar os direitos das empresas transnacionais (ETN) de acesso ao mercado para intensificar sua desestabilização, como pretendem fazer as propostas atuais de comércio eletrônico, os países deveriam poder usar ferramentas políticas para oferecer bons empregos, proteções sociais e – especialmente nos países em desenvolvimento – a transformação estrutural das suas economias.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico intensificariam a desigualdade entre os países. Na África subsaariana, 62,5% da população não têm acesso à eletricidade, 87% não têm acesso a Internet e a maioria não tem acesso a serviços postais nas casas.

Os países ricos deixaram claro que suas inquietações incluem a ampliação do acesso à energia, à Internet e a outros tipos de tecnologia de informação e comunicação para diminuir a exclusão digital, maior infraestrutura para a logística, incluindo transporte e os serviços postais; marcos legais e regulatórios; acesso a financiamento e capacitação sobre as tecnologias para ajudá-los a se preparar para se beneficiarem do comércio eletrônico. Mas estes assuntos geralmente não se refletem nas propostas dos países desenvolvidos nem são propostos pelas empresas transnacionais (ETN) de comércio eletrônico mais importantes. Enquanto isso, as propostas dos países em desenvolvimento tem como resultado promessas não vinculatórias de assistência futura que poucas vezes se cumprem. [1]

O fato de a China ser protagonista no comércio eletrônico, através do Alibaba, não serve para mitigar as desigualdades estruturais que se consolidariam entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento. As propostas relativas ao comércio eletrônico ampliariam o grande protecionismo que favorece as empresas com sedes nos países desenvolvidos na forma de patentes e direitos autorais para as tecnologias e para o conteúdo, cujo resultado é o aumento dos lucros transferidos do sul para as empresas do norte.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico no Acordo da OMC poderão fazer com que nos sintamos menos seguros. A proposta da União Europeia sobre comércio eletrônico no Acordo da OMC inclui uma moratória ao acesso ou divulgação obrigatória dos códigos-fonte para todos os membros da OMC. Os governos, inclusive o dos Estados Unidos, exigem frequentemente que se publiquem os códigos-fonte para poder avaliar a vulnerabilidade a ataques hackers.

Isso será cada vez mais importante já que algumas projeções estimam que haverá 50 bilhões de dispositivos conectados à Internet em 2020, incluindo dispositivos domésticos da “Internet das coisas”, como refrigeradores e televisores inteligentes (que estavam entre os milhares de dispositivos utilizados em ataques hackers massivos em 2014 e, novamente, em 2016).

A possibilidade de que dispositivos médicos, como marca-passos e sistemas eletrônicos de automóveis, possam ser hackeados implica sérios riscos na área de saúde e seguridade.

À medida que as casas se tornam “casas inteligentes” e as cidades se tornam “cidades inteligentes”, a ameaça de que seja possível hackear softwares secretos e exclusivos coloca todos nós em risco.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico promoveriam uma maior desigualdade ao reduzir a concorrência e promover um comportamento monopólico e oligopólico.

O controle de informação, dos meios e das vendas no varejo por parte de três empresas – Google, Facebook (Instagram, WhatsApp e Messenger) e Amazon – tem consequências para o interesse público, para a inovação e para a democracia. Estas empresas transnacionais são capazes de investir em novos mercados ainda que sem muitos sem ganhos durante anos para estabelecer seu domínio no mercado, como Uber [3] e Amazon [4] na Índia e muitos outros mercados nos quais operam.

Sem leis anticompetitivas fortes, as empresas se consolidam ainda mais nos setores através da aquisição: “Google compra AdMob e DoubleClick, Facebook compra Instagram e Whatsapp, Amazon compra, para nomear somente alguns, Audible, Twitch, Zappos e Alexa”, disse Jonathan Taplin. Além disso, se um país se preocupa com as atitudes anticompetitivas, seus tribunais com frequência vão exigir que se divulguem os códigos-fonte.

Mas há exceções na proposta sobre comércio eletrônico da União Europeia para os casos nos quais os tribunais exigem que se revelem os códigos-fonte. As propostas também exigem que as empresas dominantes possam expandir sua capacidade para influir na regulamentação das suas operações sob o disfarce da “transparência para as partes interessadas”.

Como esperar que as pequenas e médias empresas se estabeleçam em um setor que limita a capacidade dos governos de implementar atitudes anticompetitivas e oferece às empresas consolidadas a vantagem de fazer as normas?

  1. As propostas sobre o mercado de comércio eletrônico ameaçam o futuro dos países ao exigir a livre transferência de um dos seus recursos mais valorizados: a informação. O bem mais valioso da Uber não são os automóveis nem os motoristas, mas a informação sobre como as pessoas se movem. Uma vez que a empresa domine o setor, será capaz de processar os dados brutos e convertê-los em inteligência: poderá manter seu domínio para excluir os competidores, como expressou recentemente o The Economist em seu artigo “O recurso mais valioso do mundo já não é o petróleo, é a informação.” [5]

Os serviços “gratuitos” das nuvens como os do Google e do Amazon são capazes de acessar mais dados do que imaginamos e podem transformá-los em inteligência que podem ser vendidas ou alugadas para outras empresas com o fim de obter mais lucros.

Entretanto, quase todas as propostas de comércio eletrônico incluem o mandato de promover a transferência transnacional de dados, como “livre circulação de dados”, ao proibir que se restrinja a localização desses (tais como os usos militares dos Estados Unidos, que insistem que seus dados se mantenham nos servidores norte-americanos) e outras normas.

Por que os países em desenvolvimento deveriam entregar este recurso tão valioso? Uma estratégia de industrialização digital deveriam incluir a criação de centros de dados nacionais e regionais, como criaram a China e a Suécia e que podem se converter em pontos importantes para dar início a indústrias de software, de jogos, indústrias relacionadas com a internet e outras baseadas em dados.

Como disse Parminder Jeet Singh (2017):

“Se nos deixamos levar pelas tendências atuais, o nível de dependência estrutural dos países em desenvolvimento no contexto da sociedade digital será maior do que nunca, fenômeno que foi chamado de ‘colonização digital’. Os fluxos e o comércio mundial destes recursos vitais devem se basear em termos justos, garantindo benefícios econômicos nacionais e proteções sociais e culturais devidas. Enquanto isso devemos deixar claro que não defendemos uma desglobalização digital. O que buscamos é um espaço justo para os países em desenvolvimento de interesse público na ordem digital mundial emergente.” [6]

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico são uma ameaça para a nossa privacidade pessoal e para a proteção de dados. Não só os países em desenvolvimento deveriam estar preocupados com circulação dos dados transnacionalmente, a chamada ”livre circulação dos dados”.

Somos testemunhas de uma explosão de demandas por parte dos consumidores que descobriram que seus dados por compras de produtos e uso de serviços, desde compras de fones de ouvido e de brinquedos sexuais à gestão de e-mails, foram vendidos a outras empresas, em geral, sem o conhecimento ou o consentimento do consumidor. Isso significa que os dados pessoais foram roubados ou explorados; portanto, talvez essa “circulação de dados” deveria ser chamada de “tráfico de informação roubada”.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico promoveriam a evasão fiscal e a perda de receita pública, o que resultaria em uma monopolização adicional à custa do interesse público de todos os países, mas particularmente nos países em desenvolvimento.

À medida que as empresas obtêm direitos através das normas de comércio eletrônico que propõem para deslocar mão de obra, insumos, capital e dados entre fronteiras, passam a ter capacidade de aumentar suas práticas de preços de transferência e localizar as operações em países com menor supervisão fiscal e com impostos mais baixos, exacerbando a evasão fiscal e os fluxos financeiros ilícitos que, segundo a Global Financial Integrity tiraram entre $620 e $970 bilhões de dólares estadunidenses ao mundo em desenvolvimento em 2015, principalmente através de práticas de fraude comercial.

Esta perda de dinheiro tira a possibilidade de governos de países em desenvolvimento, especialmente da África, de fazer investimentos necessários para proporcionar sistemas de saúde, educação, infraestrutura e o futuro desenvolvimento das suas economias. Se não se exige que uma empresa tenha presença local, como se pode estabelecer os impostos de renda dessas empresas de modo preciso?

Ao mesmo tempo, há uma pressão para ampliar a moratória existente no Acordo da OMC sobre tarifas de comércio eletrônico. Eliminar a obrigação de taxas alfandegárias no comércio transnacional coloca as empresas de comércio físico em desvantagem em relação às empresas de comércio eletrônico e, em termos econômicos, representa um subsídio público para as empresas virtuais, sem nenhum benefício social evidente.

Visto que os países em desenvolvimento dependem muito mais de suas taxas alfandegárias como fonte de ingressos (para pagar pela educação, saúde e infraestrutura), já que os países em desenvolvimento têm sistemas avançados de ingressos, vendas e impostos empresariais, eliminar as taxas alfandegárias do comércio eletrônico permanentemente não representaria somente uma grande desvantagem para as empresas de comércio físico, mas afetaria gravemente a capacidade dos países em desenvolvimento de alcançar as necessidades de investimento público, atrasando seu desenvolvimento futuro e aumentando a probabilidade de sofrer com a crise de dívidas.

  1. 10. As propostas sobre comércio eletrônico poderiam impulsionar as possibilidades de uma crise financeira mundial. Permitir um comércio transacional sem limites de dados financeiros e de transações financeiras poderia ter amplas consequências inesperadas.

Apesar do caos gerado pela crise financeira mundial, o setor dos serviços financeiros continua exigindo um acesso ilimitado aos mercados para produtos inovadores (que evadem as regulamentações) e fluxos financeiros sem restrições.

No Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP, na sigla em inglês), o Departamento de Tesouro dos Estados Unidos afirmou que o direito de manter os dados no estrangeiro não deveria incluir os dados financeiros, pelas lições aprendidas com a crise financeira mundial, mas Wall Street conseguiu pressionar para que estes dados sejam incluídos no Acordo no Comércio de Serviços (TISA em inglês) e, presumivelmente, na OMC.

As normais atuais da OMC obrigam os países a permitir o pagamento e a transferência de serviços sem restrições nos países que já acordaram, no Acordo das disciplinas da OMC. Mas para os países interessa garantir um controle regulatório adequado para este setor, inclusive a respeito do comércio digital transnacional.

Os governos exigem com frequência que os dados financeiros “sensíveis” sejam mantidos dentro das suas fronteiras para garantir que se tomem medidas adequadas sobre privacidade e segurança cibernética, de tal modo que os dados estejam sujeitos a um controle regulatório nacional, que estejam ao alcance dos reguladores financeiros em caso de emergência. Por exemplo, na África do Sul, se exige que os dados financeiros sejam armazenados no país para que as autoridades possam analisar os ativos relacionados com alguma quebra, já que as práticas fraudulentas e depredatórias se estendem no setor financeiro.

Se não for exigido que os provedores dos serviços financeiros tenham uma presença local, uma gestão local ou armazenamento local dos dados, como poderão exigir a prestação de contas diante de um crime ou de uma crise financeira? À medida que a economia mundial se torna cada vez mais voltada para os serviços e aumenta o comércio digital transnacional, o poder dos provedores de serviços financeiros como Visa e Paypal crescerá, já que com frequência atuam como câmaras de compensação para transações internacionais que evadem a soberania financeira dos bancos centrais.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico prejudicariam o desenvolvimento ao reduzir o espaço político e limitar a capacidade de atuação dos países em desenvolvimento na industrialização digital, reduzindo as estratégias que comumente são usadas para impulsionar o comércio e os empregos.

Os grupos de lobby das empresas deixaram claro que pretendem que se proíba os requisitos de localização, como os que exigem uma presença local no país para realizar transações comerciais; que contratem trabalhadores locais; o uso dos servidores e instalações informáticas locais nas quais tenham investido; o uso de conteúdos ou insumos locais. Mas os países em desenvolvimento aproveitam estes requisitos para garantir que, ao permitir que as transacionais operem em suas economias, poderão utilizar os ingressos para dar início a indústrias incipientes e avançar no desenvolvimento.

A proposta da União Europeia também inclui incorporar as compras públicas, um tema que foi excluído da rodada atual da OMC. Incorporar as compras públicas (através da promoção da privatização através de associações público-privadas) colocaria as pequenas e médias empresas que são favorecidas em tais contratos em desvantagem em relação às empresas transnacionais estrangeiras (que, geralmente, possuem vantagens de alcance e investimentos públicos anteriores), o que significa que mais dólares de impostos serão destinados a empresas estrangeiras ao invés de impulsionar a economia nacional.

As disposições sobre o comércio eletrônico propostas também limitam o espaço político ao exigir dos países, inclusive dos países menos adiantados (PMA), que assumam novos compromissos além dos que são exigidos atualmente no Acordo da OMC. Atualmente, não se exige dos PMA que assumam compromissos sobre as Medidas de Investimentos Relacionadas ao Comércio (TRIMS) na OMC, nem tampouco no acordo sobre os Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (ADPIC).

As propostas para proibir o requisito de divulgar os códigos-fonte são consideradas “TRIMS mais” porque proíbem efetivamente os requisitos de transferência de tecnologia (nos quais o código-fonte é uma tecnologia) que os membros da OMC podem permitir atualmente no Acordo das normas do TRIMS.

Em geral, quando um governo amplia as proteções sobre as patentes, o titular da patente está obrigado a divulgar a invenção e todo os códigos-fonte, como compensação pela intervenção do governo para proteger sua invenção.

Finalmente, muitas das novas propostas impediriam os países em desenvolvimento de participarem dos grupos de integração regional, algo essencial para seu desenvolvimento, tal como se pode ver, na agenda de 2023 da União Africana.

  1. Talvez este seja o mais atroz: as propostas sobre comércio eletrônico exigiriam não submeter os serviços futuros a nenhuma regulamentação, mais além das regulamentações sobre os serviços que não são digitais atualmente. No Acordo da “regulamentação nacional” no Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (AGCS), os bens são, cada vez mais, considerados como serviços. Os produtos estão integrados com o software que transforma sapatos em “serviços de fitness” ou automóveis em “serviços de transporte”. As propostas nas negociações de regulamentação nacional incluem uma suposta “neutralidade tecnológica” em que os serviços devem ser executados de acordo com normas e listas de compromissos que os países acordaram antes que a nova tecnologia seja inventada.

O plano é assumir compromissos preparados para o futuro, mesmo que a tecnologia não esteja disponível no momento que o país assumiu estes compromissos. Muitos governos dos países do Sul deixaram claro que não aceitarão esta determinação. Restringir o controle público das possíveis “implicâncias” das tecnologias interessa àquelas empresas que buscam favorecer somente as regulamentações que proíbem outras regulamentações.

Estas empresas estão fazendo um esforço coordenado para garantir que este seja o principal objetivo da próxima conferência ministerial da OMC, que acontecerá entre os dias 11 e 14 de dezembro de 2017 em Buenos Aires. Portanto, este é o momento para sindicatos, ativistas pelos direitos digitais e privacidade, defensores do desenvolvimento e grupos da sociedade civil colocarem suas inquietações e preocupações para os seus respectivos governos e dedicar atenção a esta ameaça.

As transformações positivas que a era digital oferece para um maior desenvolvimento, oportunidades de emprego, inovação e conectividade estão ameaçadas pelos esforços monopólicos e antidemocráticos das empresas mais poderosas do mundo, que querem reescrever as normas da economia mundial futura a seu favor.

Para alcançar um futuro em um mundo digitalizado que dê lugar ao desenvolvimento comum e trabalho digno, devemos garantir que as normas sejam redigidas por e para todos e não apenas por alguns.]

Notas

[1] Uma proposta dos Amigos do Comércio Eletrônico para o Desenvolvimento provavelmente terminará da mesma forma, ao mesmo tempo em que legitimará as negociações no Acordo da OMC. Ver: http://unctad.org/en/pages/newsdetails.aspx?OriginalVersionID=1477 y http://www.twn.my/title2/wto.info/2017/ti170501.htm.

[2] Manjoo, Farhad, 2017. “Uber Wants to Rule the World. First It Must Conquer India.” The New York Times. https://www.nytimes.com/2017/04/14/technology/uber-india.html

[3] Bloomberg. 2016. “Amazon to Spend $5 Billion to Dominate India E-Commerce.”

[4]N. da T. Jonathas Taplín é autor do livro “Move Fast and Break Things: How Google, Facebook and Amazon Cornered Culture and Undermined Democracy“. Em português: “Aja rápido e quebre coisas: como Google, Facebook e Amazon encurralaram a cultura e solaparam a democracia.”

[5] The Economist. 2017. “The World’s Most Valuable Resource Is No Longer Oil, but Data: The Data Economy Demands a New Approach to Antitrust Rules.”  http://www.economist.com/news/leaders/21721656-data-economy-demands-new-approach-antitrust-rules-worlds-most-valuable-resource

[6] Singh, Parminder Jeet. 2017. “Developing Countries in the Emerging Global Digital Order – A Critical Geopolitical Challenge to which the Global South Must Respond.” IT for Change. https://www.itforchange.net/Developing-Countries-in-the-Emerging-Global-Digital-Order

– Deborah James é Diretora do Programa Internacional do Centro de Pesquisa em Economia e Política (www.cepr.net) e coordenadora da Rede Internacional “Nosso Mundo Não Está à Venda” (OWINFS, em inglês).

Texto em português adaptado do artigo de Deborah James, publicado na página da ALAI, em espanhol, publicado originalmente em inglês no The Huffington Post, em inglês.

Por Deborah James, na Alainet , tradução: Luiza Mançano, no Brasil de Fato

Edição: ALAI, tradução: Luiza Mançano ocara Outras Palavras.

Leia também:

https://www.brasildefato.com.br/2017/06/11/doze-razoes-para-se-opor-as-normas-relativas-ao-comercio-digital-no-acordo-da-omc/

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“A bolha está se formando e, quando estourar, será o pior “crash” da minha vida, alerta Jim Rogers”

JIm Rogers

[O mercado acionário americano vai colapsar e isso não vai demorar muito – algo entre o final de 2017 e 2018, alerta o lendário gestor Jim Rogers – famoso não apenas por sua presciência em relação ao colapso econômico global e ao “boom” das commodities, mas por retornos miraculosos no hedge fund Quantum Fund de 4.200% em seus primeiros dez anos de vida, contra apenas 47% do índice S&P 500 no mesmo período. Para ele, algumas ações dos Estados Unidos estão entrando em uma bolha e, quando estourar, as bolsas vão desabar e será o pior “crash” dos seus 74 anos de vida. A informação é publicada por InfoMoney, 12-06-2017.

Em entrevista ao programa “The Bottom Line”, da Business Insider, Rogers disse que a enorme acumulação de dívidas e as avaliações de ativos injustificadamente altas tornaram a economia global ainda mais vulnerável do que em 2008, e que o próximo “crash” será o maior da sua vida.

Segundo ele, os bancos centrais incentivaram esse comportamento através de uma expansão sem precedentes de seus balanços, citando que o balanço do Federal Reserve aumentou sozinho em cinco vezes desde a crise de 2008.

Ele comentou também sobre crescimento explosivo da dívida da China, segunda maior economia do mundo. “Em 2008, os chineses economizaram muito dinheiro para um dia chuvoso. Começou a chover. Começaram a gastar o dinheiro. Agora, os mesmos chineses têm dívidas e a dívida é muito maior (…) Vai ser o pior crash da sua vida – da minha vida também. Preocupe-se”, disse o gestor durante a entrevista.

Questionado sobre o que poderia ser feito, Rogers comenta que o Fed vai tentar aumentar um pouco mais as taxas de juros. Mas, “quando as coisas começam a ficar realmente ruins, as pessoas vão ligar e dizer: ‘Você deve me salvar. É civilização ocidental. Ele vai entrar em colapso’. E o Fed, formado por burocratas e políticos, dirá: ‘Bem, é melhor fazer alguma coisa’. E eles vão tentar, mas não vai funcionar. Não vai funcionar dessa vez”.

Ele complementa: “Você vai ver os governos falharem. Você vai ver os países falharem, desta vez. A Islândia falhou na última vez. Outros países falharam. Você vai ver mais disso (…) Você vai ver instituições que existem há muito tempo – Lehman Brothers tinha cerca de 150 anos – desaparecerem”.

A análise de Rogers soma-se ao coro pessimista de outros grandes nomes do mercado. Na semana passada, Marc Faber, que apontou para a formação de uma “bolha” nas bolsas americanas; e Bill Gross disse que o risco do mercado acionário é o mais alto desde o pré-crise de 2008.]

IHU/Unisinos.

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“Instituições mostram preocupação com veto à emenda que auxilia ICT”

Ciencia[A Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (Abipti) e outras cinco instituições acadêmicas, de ciência e tecnologia assinaram uma carta enviada para ministros, senadores, deputados e governadores sobre as preocupações com possíveis vetos a uma emenda no Projeto de Lei de Conversão (PLV 13/2017), que auxilia empresas e Instituições de Ciência e Tecnologia (ICT).

O PLV 13/2017, originário da Medida Provisória (MP) 757/2016 e aprovado pelo Senado em 23 de maio, instituiu duas novas taxas a serem cobradas pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). Contudo, durante a votação na Comissão Mista da Casa, foi acolhida uma emenda, mediante articulação suprapartidária, que permite que empresas e ICT beneficiadas pela Lei de Informática possam propor plano de parcelamento e de reinvestimento das glosas relativas a não comprovação dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D). O texto seguiu para sanção presidencial em 31 de maio.

“Tomamos conhecimento de que o esforço suprapartidário, em prol do desenvolvimento da inovação e da indústria no campo das tecnologias da informação e das comunicações [TIC] no Brasil, sofre grave risco de veto”, apontaram as entidades na carta.

Conforme explicam no documento, a alegação para o veto seria de que o benefício concedido às empresas e ICT fere a Lei de Responsabilidade Fiscal. “Tal argumento não se sustenta, conforme registram pareceres jurídicos do Ministério do Desenvolvimento e Comércio Exterior (MDIC) e do Ministério da Ciência, Tecnologia, Comunicações e Inovações (MCTIC), além de parecer no mesmo sentido da Associação Brasileira da Indústria Eletro- Eletrônica [Abinee]”, argumentam.

O documento foi enviado aos ministros da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, da Fazenda, de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, de Planejamento, Orçamento e Gestão, para os deputados, senadores e governadores. Veja a carta na íntegra aqui.

Morosidade e burocracia

As instituições apontam que a emenda “vem corrigir um legado histórico decorrente da própria morosidade dos órgãos do governo”, seguidas vezes sinalizado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), na análise dos relatórios demonstrativos de investimentos anuais (RDA), elaborados e transmitidos tempestivamente pelas empresas. “Este legado determinou a existência de pendências ao longo de muitos anos, tendo como consequência o acúmulo expressivo de processos e das respectivas glosas.”

De acordo com o vice-presidente da ABIPTI pela região Norte e presidente da Tap4 Informática Ltda., André Tapajós, uma das maiores dificuldades para a ciência, tecnologia e inovação (CT&I) em sua região tem sido a burocracia. Para ele, as regras impostas pela Suframa têm sido prejudiciais às instituições locais que desenvolvem P&D.

“Em vez de focar na qualidade da inovação, a gente está perdendo tempo com papel, comprovante, pura burocracia, que não ajuda em nada o processo de inovação e expõe o no hall dos desenvolvedores das tecnologias”, comentou Tapajós, ao tomar posse na diretoria da associação.

Além da Abipti, assinam a carta a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Associação Brasileira de Reitores de Universidades Estaduais e Municipais (Abruem), a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), o Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de CT&I (Consecti) e o Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (Fortec).

Agência Abipti, com informações do Jornal da Ciência.

Todo mundo diz que eu preciso parar de trabalhar… então, bora, parandooooo

IMG_20141011_134100277Hoje pela manhã encontrei um sujeito na fila daquelas farmácias que existem dentro de postos de saúde e de hospitais onde você pega medicamentos de graça.

Conversamos um bocado. Ele estava lá pegando remédios (disse ele) para sua mãe que infartou (assim como eu), colocou marca-passo (como vou ter de colocar) mas precisa, mesmo assim, tomar uma porção de medicamentos até os fins de seus dias (e eu também).

Não era um sujeito (assim como eu) que necessitasse pegar remédios de graça, mas como isso virou um direito, pegamos.

Aliás, fiquei surpreso por descobrir que muita gente (mas muita gente mesmo) que, em tese, poderia pagar pelo próprio medicamento se socorre dessas farmácias em postos e hospitais públicos, bem como das “farmácias populares”, onde você consegue bons descontos e em alguns casos (como ocorre como um dos remédios que sou obrigado a tomar) até grátis – lembrando que essas farmácias são privadas, e não públicas.

Das distorções

Essas (entre muitas outras) iniciativas, digamos assim populares (outros quererão dizer: populistas) são uma das muitas coisas da “Era Lula” que o Temer promete acabar.

As farmácias populares (que são privadas – lembremos sempre) devem ser “descontinuadas” em agosto ou setembro – não sei ao certo quando.

Segundo Temer, o programa será passado para os estados e municípios.

Já sabemos, portanto, o que vai acontecer com o programa “populista” da “Era Lula”.

Nunca provoquei (meu índice de perversidade não chega a tanto) mas é mais ou menos fácil perceber que gente (de todas as classes sociais) que se valeu dos “populismos” petistas bateu panela contra a Dilma, pediu e pede a prisão de Lula e reza pela extinção do Partido dos Trabalhadores.

Do trabalho

A questão aqui, no entanto, não é política ou ideológica (embora eu sempre passe por elas), mas de trabalho, ou melhor, da desnecessidade do trabalho como desculpa para que sobrevivamos.

O sujeito em questão – citado acima – disse o mesmo que o cardiologista que me acompanha, assim como disse a psicóloga que cuida da minha conturbada cabeça: deixe de trabalhar. Você nem precisa mais disso, então está trabalhando a toa. Hora dessas você vai ter uma novo infarto e morrer.

Eu sempre trabalhei por obrigação – não por obrigação moral – mais sim por ter que colaborar – “ajudar em casa” – ou mesmo sustentar algumas pessoas.

Ovos todos fritos, eu sempre achei uma chatice desumana ter de trabalhar; e – ao pé da letra e da lógica – sempre encarei o trabalho como um troço vergonhoso e desnecessário.

Mas parece que aí, também, somos frutos de nosso meio e, portanto, das nossas circunstância.

Tenebroso saber disso.

Teríamos sim outras formas de viver, por exemplo, pescando e caçando e esperando que alguma coisa nasça para poder, por exemplo, comer.

O trabalho é insano e eles – o neo amigo, o cardiologista e a psicóloga – têm razão: deveria eu para de trabalhar é viver de tédio, até mesmo do ócio não criativo.

Mesmo que fosse pra morrer de preguiça.

“Voz mais suave para diminuir conflitos”

shutterstock_125649437 [Convertido]
Ilustração: Shutterstock
[Não raro, os desencontros se dão muito mais pela forma como falamos do que pelo conteúdo do que é dito. A intenção – ou a “energia” – que permeia nossas frases expressa mais do que as palavras em si. E o interlocutor percebe isso, pois o modo de falar de cada pessoa tem uma musicalidade própria, com variação de tom e ritmo, conhecida como prosódia, que transmite emoções. Um estudo realizado por cientistas da Universidade do Sul da Califórnia sugere que pessoas com entonação de voz mais melodiosa estão mais predispostas à empatia.

Usando exames de ressonância magnética funcional, os pesquisadores mediram a atividade cerebral de voluntários enquanto falavam ou ouviam vozes com entonações de felicidade, tristeza, interrogação ou neutralidade. Assim, descobriram que a área de Broca, que funciona como centro da fala no cérebro, era ativada quando o voluntário ouvia ou falava algo com entonação animada. Participantes com nível mais alto de atividade nessa área apresentavam maior empatia.

Ao contrário do que ocorre com a gramática, a semântica e outras propriedades do idioma, a prosódia é universal entre as culturas e espécies. “Animais de estimação, por exemplo, entendem comandos pela entonação da voz, não pelas palavras em si”, observa a neurocientista Liza Aziz-Zadeh, principal autora do estudo. Alguns pesquisadores acreditam que a prosódia, essencial para a comunicação, pode ser suavizada quando colocamos a intenção de falar com delicadeza e respeito ao outro.]

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de junho de Mente e Cérebro, disponível em: 

Impressa: 

http://bit.ly/2q3yTJH
Digital:

http://bit.ly/mcappandroid – Android
http://bit.ly/mecapple – IOS
http://bit.ly/mcappweb – versão web

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Um controle remoto na sua cabeça – Esqueça leitura de voz ou reconhecimento de gestos. Em breve gadgets poderão se conectar diretamente ao cérebro

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“El reto de una teoría anarquista en antropologia” “El reto de una teoría anarquista en antropologia”

Antropoanarquia[En los últimos años, se han sucedido los estudios acerca de las relaciones entre antropología y anarquismo, así como el estudio sobre las sociedades anárquicas. Son trabajos decisivos para comprender lo que es la sociabilidad humana y, en cuestiones políticas, ayudan a reactivar las propuestas del anarquismo moderno y a orientar los movimientos sociales actuales tan inspirados en las ideas libertarias.

Desde el ámbito antropológico, las sociedades anárquicas son aquellas en las que las normas de conducta se producen sin ningún aparato de gobierno, jerarquía ni poder político. Tal y como sostiene Macdonald, esta definición implica también conceptos extraños a una sociedad ordenada como son los de “inminencia, aleatoriedad, imprevisibilidad y complejidad” [1] . El anarquismo moderno, por su parte, busca una sociedad sin Estado, ni ningún tipo de dominación, basada en el acuerdo libre y en el apoyo mutuo.

La antropología se ha visto estancada desde hace décadas, de tal manera que solo ha concebido la sociedad humana desde una perspectiva evolucionista; de ese modo, se produce la conocida secuencia banda-tribu-jefatura-reino-Estado. La nueva generación de antropólogos ha propuesto echar un nuevo vistazo a las sociedades que hasta ahora se han considerado simples, como son la de cazadores-recolectores y horticultores, bajo un prisma diferente; así, lo que puede parecer simple, con una análisis profundo aparece con una complejidad que puede ayudar a comprender nuestro pasado y, consecuentemente, lo que es nuestra moderna sociabilidad [2] . Si el marxismo y la antropología han intercambiado ideas e información desde que Marx y Engels utilizaron, sobre todo, el trabajo de Lewis Henry Morgan, en el caso del anarquismo no se ha producido tanto interés, a pesar de algunas excepciones. El nombre de Pierre Clastres es usualmente asociado a una teoría anarquista en antropología; lo que diferencia el trabajo de Clastres en los años 70 de las ideas vigentes en aquellos momentos no es la afirmación de que las sociedad primitivas carecían de Estado, algo conocido y aceptado, sino la aseveración de que la sociedad primitiva se mostrada activamente orientada a prevenir la emergencia del Estado [3]. .

La sociedad contra el Estado

El gran prejuicio del etnocentrismo es que el Estado sería un término necesario a toda sociedad según una manera de entender la evolución. La sociedades primitivas serían pobres residuos de antaño, determinadas negativamente por sus carencias: sin Estado, sin escritura, sin historia, y determinadas también en lo económico al tener una mera economía de subsistencia e ignorar la economía de mercado. Clastres se pregunta qué hay de cierto en todas estas afirmaciones. El gran pretexto para desdeñar ciertas sociedades arcaicas se encuentra en su presunta inferioridad técnica. Pero Clastres realiza una definición de técnica en la que entiende ésta como el conjunto de procedimientos con que se proveen los hombres, no para asegurarse el dominio absoluto de la naturaleza, sino para asegurarse un dominio del medio natural. De ningún modo las sociedades “primitivas” han sido incapaces de realizar tal propósito. Si esas sociedades tienen una economía de subsistencia, cosa que Clastres entrará enseguida a cuestionarse, no es a falta del saber-hacer técnico. Dos axiomas caracterizarían a la civilización occidental, que “la sociedad verdadera se da a la sombra del Estado” y el imperativo categórico de que “es necesario trabajar”. Pero la supuesta economía de subsistencia no implica la búsqueda angustiosa, a tiempo completo, del alimento; habría una compatibilidad de la limitación del tiempo para las actividades productivas. No existe un miserabilismo, como implica la idea de la economía de la subsistencia, el hombre “salvaje” no está sujeto a una condición de supervivencia, sino que en un tiempo corto obtiene un resultado productivo y algo más (lo que serían excedentes) [4] .

Según Clastres, la relación política de poder precede y funda la relación económica de explotación. La aparición del Estado marcaría la gran división entre “salvajes” y “civilizados”, el corte que transforma el tiempo en Historia. Para Clastres, lo decisivo es el corte político y no el cambio económico, niega que la gran revolución se produjera en el Neolítico, ya que deja intacta la antigua organización social; el cambio decisivo sería la revolución política, que supone la muerte de las sociedades primitivas, y llegaría con el Estado. El cambio a partir de la base económica sería imposible, ya que para incrementar la producción es necesario bien un acuerdo de los hombres para hacerlo o bien una coacción externa. En las sociedades “primitivas” no existe la división de clases, ya que la capacidad igual para todos de satisfacer las necesidades materiales lo impide; de igual modo, al no existir el intercambio de bienes y servicios se impide la acumulación de propiedad privada, lo que hace imposible el deseo de poder o de poseer y parecer más que el vecino. El jefe de este tipo de sociedades no lo es de un Estado, no posee autoridad ni poder coercitivo; su finalidad es acabar con los conflictos entre personas, familias o linajes, y ese reconocimiento se lo concede la sociedad por prestigio (atribución separada tajantemente de lo que sería el poder). La sociedad impide que la capacidad técnica que se la ha concedido al jefe se transforme en autoridad política, ya que existe un control estricto que impide que la persona vaya más allá en sus funciones [5].

No obstante, el riesgo de que el jefe se extralimite en sus funciones y quiera imponer su proyecto individual a la tribu existe por supuesto; si esto se cumpliera, si la sociedad se pusiera al servicio del líder, y no al revés, nacería el poder político (el Estado). Pero el poder político es casi imposible en la sociedad primitiva, ya que no hay un vacío que el Estado pueda llenar. Clastres considera que hay un campo que escapa al control absoluto de la sociedad para impedir la formación de un poder político, se trata de la cuestión demográfica. El aumento de la densidad poblacional conmocionó a la sociedad primitiva, ya que solo funcionaría ésta en el caso de ser poco numerosa. La articulación de lo demográfico con lo político es meta que el antropólogo considera más apropiada para el estudio sociológico.

Otra teoría interesante, a propósito del derrumbamiento de este mundo salvaje, es la de que los profetas de estas sociedades, conscientes de esta catástrofe sociocósmica, “decidieron dejar el mundo de los hombres y ganar el de los dioses”. Identificaron el nacimiento del Mal con la unidad, algo que en ellos tenía un sentido metafísico, pero que podía muy bien entroncar con la tradición de lucha contra el poder político (y su concreción, que sería el Estado). Clastres afirma que jefatura y lenguaje están muy ligados en la sociedad primitiva, pero si bien pudiera parecer la palabra opuesta a la violencia en el jefe salvaje (por inocente), enseguida plantea el interrogante de que la sociedad primitiva pudiera empezar a escuchar otro discurso (la palabra profética, el discurso del poder). Ahí puede encontrarse el origen del poder, el comienzo del Estado en el Verbo (la palabra profética, que se concretó en nuestra cultura en el cristianismo). Irónicamente, y contestando nada menos que a Marx, Clastres dice que si la historia de los pueblos que tienen una historia es la historia de la lucha de clases, la historia de los pueblos sin historia es la historia de su lucha contra el Estado [6].

La visión de Clastres implica, por lo tanto, una guerra permanente de ciertas sociedades primitivas contra el poder político impidiendo la aparición del Estado. Si ciertas tendencias anarcoprimitivistas observan esas comunidades arcaicas de un modo ideal, como pacificas y exentas de ningún tipo de violencia, la evidencia arqueológica y etnográfica apunta a todo lo contrario. Los estudios de Clastres, junto a otros más recientes [7], confirman que la violencia y la guerra son mecanismos importantes para enfrentarse a la lógica estatal al mismo tiempo que actúan como factores sociales de cohesión; el Estado monopoliza la violencia, según la visión clásica de Max Weber, por lo que al enajenar a la sociedad de su uso también la desestructura según estos trabajos antropológicos. Otras autores emprendieron su trabajo en la línea de Clastres, como es el caso de Harold B. Barclay, cuyo libro People Without Government se anticipa a la antropología anarquista mostrando también numerosas sociedades que funcionan sin poder político e interrogándose acerca del surgimiento del Estado para contemplar la posibilidad de su derrocamiento [8]

Los provocadores fragmentos de Graeber

David Graeber, recientemente, ha estimulado el interés acerca de qué podría ser una antropología anarquista proponiendo una serie de ideas, haciendo provocativas preguntas y analizando en diversos ámbitos problemas sobre los que la antropología oficial no da respuestas. Este autor considera, en respuesta a por qué existen tan pocos académicos interesados en el anarquismo, que las propuestas libertarias de anticipación sobre una vida futura no encajan demasiado bien en una institución arcaica como la universitaria. A pesar de ello, hay que dejar claro que los anarquistas no están en contra de la teoría, por lo que son necesarias las herramientas adecuadas para el conocimiento y el análisis intelectual. El estudio antropológico del mundo ácrata concluye que el esfuerzo se dirige más en encontrar proyectos concretos fortalecidos por las diversas propuestas y no en demostrar que una u otra teoría es errónea. El trabajo de Graeber parte de dos premisas: la de que es posible otro tipo de sociedad en la que las instituciones coercitivas se eviten, y la de que cualquier teoría anarquista debe renunciar a cualquier tentativa de vanguardia al rechazar el papel de que una minoría actúe como dirigentes de las masas. En base a estas dos premisas, Graeber reactiva el papel de la utopía libertaria, tan denostada por el statu quo, y rechaza los acontecimientos históricos como inevitables. Un considerable número de investigadores han demostrado ya la existencia de multitud de sociedades autogobernadas y con una economía dirigida a satisfacer a sus miembros, nada que ver con el Estado y el capitalismo. El proyecto intelectual propuesto por Graeber puede tener dos momentos: uno etnográfico, dirigido a proporcionar un modelo de cómo funcionaría una práctica revolucionaria no vanguardista, y otro utópico en el que la imaginación adopte un papel como principio político; ambos momentos se encontrarían en constante diálogo. McDonald considera excelente el trabajo de Graeber, aunque considera que no llega a proporcionar un conjunto bien articulado de principios sobre los que desarrollar una antropología anarquista; con total seguridad, tampoco pretende hacerlo y sí lanzar unos atractivos fragmentos sobre la cuestión [9]. Otro influyente autor actual en la antropología anarquista es Brian Morris, cuyo trabajo junto al de Graeber pone de relieve la importancia de las ideas libertarias en los movimientos sociales actuales, algo que también está afectando al ámbito académico [10].

Todavía hoy, existen en diversos lugares del mundo comunidades anárquicas que pueden verse como remanentes de lo que pudo haber sido el paradigma dominante de sociabilidad entre los seres humanos; el mismo se basa en una diversidad de lazos débiles y, de manera paralela, en una serie de circunstancias que posibilitaban la cooperación. Tal y como lo describe McDonald [11], se trataba de una vida social imprevisible, de una creación de grupos aleatoria y de una cultura compleja; esas comunidades eran pequeñas por necesidad, basadas en las relaciones personales y multientrelazadas, muy probablemente pacíficas y con seguridad igualitarias. Esas comunidades anárquicas no tenían, algo que cambiaría con cierta probabilidad el paradigma de la sociabilidad, es la invención de la corporación y de fuertes lazos personales basados en la dependencia. Esos lazos, convertidos en la base de la estructura social, pudieron ser transferidos a una corporación, una entidad abstracta, trascendente y colectiva, como es el caso de la nación.

Así, la existencia de corporaciones a las que los seres humanos prometen lealtad es central en la actual vida económica, política, social y moral. A pesar de ello, los paradigmas sobre la sociabilidad humana, y consecuentemente sobre la posibilidad de comunidades más libres e igualitarias, continúan siendo objeto de la investigación antropológica. Es por eso que es más necesario que nunca seguir trabajando por una teoría antropológica de la anarquía que revitalice el anarquismo moderno, nos dé una nueva perspectiva sobre nuestra historia social y oriente a aquellos movimientos sociales que caminen hacia la autonomía y la autogestión de la sociedad.]

[Tomado de http://lapeste.org/2017/06/capi-vidal-el-reto-de-una-teoria-anarquista-en-antropologia.]

Publicado no blog El Libertario (Capi Vidal).

Leia também

¡Que viva la Anarquía! [Tomado de http://comunicacionsocial.org.ar/que-viva-la-anarquia.]

Notas

[1].- Charles J.-H. McDonald, “Antropología de la anarquía”, en Germinal. Revista de Estudios Libertarios núm. 10 (julio-diciembre 2012).

[2].- Ibidem.

[3].- Pierre Clastres, La sociedad contra el Estado (Virus, Barcelona 2010).

[4].- Ibidem.

[5].- Ibidem.

[6].- Ibidem.

[7]-Augusto Gayubas, “Pierre Clastres y las sociedades contra el Estado”, en Germinal. Revista de Estudios Libertarios núm. 9 (enero-junio 2012).

[8].- Harold B. Barclay, “El poder: una visión antropológica”, dentro de Anarquismo y antropología, VV.AA., coordinado por Beltrán Roca (LaMalatesta, Madrid 2008).

[9].- David Graeber, Fragmentos de antropología anarquista (Virus, Barcelona 2011).

[10].- Brian Morris, “Antropología y anarquismo: afinidades electivas”, dentro de Anarquismo y antropología… op. cit.

[11].- Charles J.-H. McDonald, “Antropología de la anarquía”… op. cit.