Não já ingenuidade nas fake news; apenas interesses desonestos

Ehfaklsidade
Reprodução/internet

O mundo parece estar vivendo um grande impasse com a proliferação daquilo que atualmente chamamos de fake news, ou seja, das notícias e informações falsas (ou parcialmente falsas) que se proliferam pelas redes sociais e por sites blogues.

Uma das vítimas das fake são as ciências.

Segundo Anna Carla Goldberg, do hospital israelita de São Paulo, “a divulgação de notícias falsas na área é ainda mais grave, porque há um descrédito geral no potencial de ajuda e de desenvolvimento que a ciência traz para a população”.

Para o jornalista Marcos Pivetta, editor de ciência da Revista Pesquisa Fapesp, o leitor deve, ao se deparar com uma informação qualquer, buscar checar se a informação é correta ou não e descobrir em que a instituição um pesquisador, por exemplo, atua e se há registro de que realmente a informação proceda.

A sugestão de Pivetta propõe um caminho árduo ao leitor comum, aquele que, por exemplo, não é cientista (seja de que área for) e não tem porque e nem como aprofundar esse tipo de pesquisa.

Anna Carla não abre sequer uma sugestão de como o consumidor de informação deva proceder.

O uso do fake news (das notícias e informações falsas) guarda alguma lógica, algumas delas de mercado, outras de política e ideológica e outras tantas visando desestabilizar grupos sociais, sociedades inteiras e até mesmo de países.

As saídas, difíceis de serem encontradas – é verdade, de combate as notícias falsas, no entanto, não passam pelo acomodamento expresso acima, tanto por Anna quanto por Pivetta.

É necessário, isso sim, fazer muito mais do que nisso, e não apenar educando e esclarecendo as pessoas sobre os perigos que representam as notícias e as informações falsas, como, igualmente, usando de meios coercitivos às praticas, mesmo que isso, em algum momento, possa parecer autoritarismo e cerceamento de liberdades.

Trata-se de um risco que a sociedade e os governos devem e têm de correr.

Márcio Tadeu dos Santos

Estratégia pune o PT mais uma vez

Abogado
Advogado argentino que supostamente ia entregar um terço abençoado pelo papa a Lula – http://www.jb.com.br

Essa história de o papa Francisco ter enviado um  terço para Lula a Curitiba foi, desde o começo, uma história mal contada e que acabou como (mais um) um enorme vexame do Partido dos Trabalhadores, pego este na mentira.

O interlocutor, um advogado argentino, de pronto já não inspirava a menor confiança, mas não se pode culpar a sua nacionalidade, como fez a Vera Magalhães, da Jovem Pan, pela falseta.

Dificilmente o Vaticano correria o risco de confrontar as leis brasileiras embarcando nessa história irreal de que Lula é um “preso político”.

Se assim fizesse, o Vaticano correria sério risco de desgastar ainda mais o já combalido catolicismo e se chocaria com o Estado brasileiro.

Por que iria o Vaticano iniciar uma guerrinha  com o Estado brasileiro? Com que propósito?

Nas muitas diversas vezes em que dirigi redações de jornais e de agências de notícias sempre defendi que nós jornalistas não poderíamos ser ingênuos e deveríamos ser bastante bem informados, bem acima da média do população, para não cairmos nas armadilhas que a informação e as notícias nos preparam.

Sei, obviamente, que a massa de fanáticos petistas foi estimulada pelos  veículos de informação do PT, alguns deles com ares de independência, o que, obviamente, não é o caso.

A ideia era uma só: pegar um aventureiro qualquer,  que se dispusesse a praticar a armação, e, assim, difundir ao máximo a historieta  junto à massa fanática de petistas, que não se vexaria a dar amplitude à mentira, até porque esse tipo de gente, dogmática, acredita nas coisas mais bizarras e estranhas que saem “das bocas petistas”,  não se importando, nem um pouco, em checar a origem da informação.

Mas ocorre que mesmo nesses casos, a mídia petista deveria ter um mínimo de responsabilidade para não alimentar esse tipo de farsa (fake, factóide), até porque esse tipo de mentira é facilmente desmascarada, o que apenas contribui para a desmoralização do PT.

Costumo repetir em várias de minha postagem que “o PT já foi melhor do que isso”.

Mas também entendo (embora isso não se justifique) que a ideia do PT é salvar a “honra” de Luiz Inácio Lula da Silva e atacar (demonizar) a do juiz Sérgio Moro.

Ocorre, no entanto, ser fácil perceber quem está goleando quem nessa guerra bizarra e sem sentido.

Márcio Tadeu dos Santos

“A sociedade dos empregos de merda”

Trabalho
Reprodução

[Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes previu que, no final do século 20, países como os Estados Unidos teriam – ou deveriam ter – jornadas de trabalho de 15 horas semanais. Por que? Em grande medida, a tecnologia tiraria de nossas mãos tarefas sem sentido. Claro, isso nunca ocorreu. Ao contrário, muitíssimas pessoas, em todo o mundo, estão submetidas a longas jornadas como advogados corporativos, consultores, operadores de telemarketing e outras ocupações.

Mas enquanto muitos de nós julgamos nossos trabalhos muito aborrecidos, algumas ocupações não fazem sentido algum, segundo o escritor anarquista David Graeber. Em seu novo livro, “Bullshit Jobs: A Theory” [“Trabalhos de Merda: Uma Teoria”], o autor argumenta que os seres humanos consomem suas vidas, muito frequentemente, em atividades assalariadas inúteis. Graeber, que nasceu nos EUA e que já havia escrito, entre outras obras, Dívida: Os Primeiros 5000 anos e The Utopia of Rules [ainda sem edição em português] é professor de Antropologia na London School of Economics e uma das vozes mais conhecidas do movimento Occupy Wall Street (atribui-se a ele a frase “Somos os 99%”).

A “Vice” encontrou-se há pouco com Graeber para conversar sobre o que ele define como “emprego de merda”; por que os trabalhos socialmente úteis são tão mal pagos, e como uma renda básica assegurada a todos poderia resolver esta enorme injustiça.

Em primeiro lugar, o que são empregos de merda e por que existem?

David Graeber: Basicamente, um emprego de merda é aquele cujo executor pensa secretamente que sua atividade ou é completamente sem sentido, ou não produz nada. E também considera que se aquele emprego desaparecesse, o mundo poderia inclusive converter-se num lugar melhor. Mas o trabalhador não pode admitir isso – daí o elemento de merda. Trata-se, portanto, em essência, de fingir que se está fazendo algo útil, só que não.

Uma série de fatores contribuiu para criar esta situação estranha. Um deles é a filosofia geral de que o trabalho – não importa qual – é sempre bom. Se há algo em que a esquerda e a direita clássicas frequentemente estão de acordo é no fato de ambas concordarem que mais empregos são uma solução para qualquer problema. Não se fala em “bons” trabalhos, que de fato signifiquem algo. Um conservador, para o qual precisamos reduzir impostos para estimular os “criadores de emprego”, não falará sobre que tipo de ocupações quer criar. Mas há também partidários da esquerda insistindo em como precisamos de mais ocupações para apoiar as famílias que trabalham duro. Mas e as famílias que desejam trabalhar moderadamente? Quem as apoiará?

Até mesmo os empregos de merda garantem a renda necessária para que as pessoas sobrevivam. No fim das contas, por que isso é ruim?

Mas a questão é: se a sociedade tem os meios para sustentar todo mundo – o que é verdade – por que insistimos em que os trabalhadores passem sua vida cavando e em seguida tapando buracos? Não faz muito sentido, certo? Em termos sociais, parece sadismo.

Em termos individuais, isso pode ser visto como uma boa troca. Mas, na verdade, as pessoas obrigadas a tais trabalhos estão em situação miserável. Podem considerar: “estou ganhando algo por nada”. Bem, as pessoas que recebem salários bons, muitas vezes de nível executivo, certamente de classe média, quase sempre passam o dia em jogos de computador ou atualizando seus perfis de Facebook. Quem sabe, atendendo o telefone duas vezes por dia. Deveriam estar felizes por ser malandros, certo? Mas não são.

As pessoas contratadas para tais trabalhos relatam, regularmente, que estão deprimidas. E se lamentarão, e praticarão bullying umas contra as outras, e se apavorarão com prazos finais porque são de fato muito raras. Porém, se pudessem buscar uma razão social no trabalho, uma boa parte de suas atividades desapareceria. As doenças psicossomáticas de que as pessoas padecem simplesmente somem, no momento em que elas precisam realizar uma tarefa real, ou em que se demitem e partem para um trabalho de verdade.

Segundo seu livro, a sociedade pressiona os jovens estudantes para buscar alguma experiência de emprego, com o único objetivo de ensiná-los a fingir que trabalham

É interessante. Chamo de trabalho real aquele em que o trabalhador realiza alguma coisa. Se você é estudante, trata-se de escrever. Preparar projetos. Se você é um estudante de Ciências, faz atividades de laboratório. Presta exames. É condicionado pelos resultados e precisa organizar sua atividade da maneira mais efetiva possível para chegar a eles.

Porém, os empregos oferecidos aos estudantes frequentemente implicam não fazer nada. Muitas vezes, são funções administrativas onde eles simplesmente rearranjam papéis o dia inteiro. Na verdade, estão sendo ensinados a não se queixar e a compreender que, assim que terminarem os estudos, não serão mais julgados pelos resultados – mas, essencialmente, pela habilidade em cumprir ordens.

E os empregos tecnológicos ou na mídia. Seriam, também, de merda?

Certamente. Por meio do Twitter, pedi às pessoas que me relatassem seus empregos mais sem sentido. Obtive centenas de respostas. Havia um rapaz, por exemplo, que desenhava bâners publicitários para páginas web. Disse que havia dados demonstrando que ninguém nunca clica nestes anúncios. Mas era preciso manipular os dados para “demonstrar” aos clientes que havia visualizações – para que as pessoas julgassem o trabalho importante.

Na mídia, ha um exemplo interessante: revistas e jornais internos, para grandes corporações. Há bastante gente envolvida na produção deste material, que existe principalmente para que os executivos sintam-se bem a respeito de si próprios. Ninguém mais lê estas publicações.

A automação é vista, muitas vezes, como algo negativo. Você discorda deste ponto de vista, não?

Certamente. Não o compreendo. Por que não deveríamos eliminar os trabalhos desagradáveis? Em 1900 ou 1950, quando se imaginava o futuro, pensava-se: “As pessoas estarão trabalhando 15 horas por semana. É ótimo, porque os robôs farão o trabalho por nós”. Hoje, este futuro chegou e dizemos: ”Oh, não. Os robôs estão chegando para roubar nossos trabalhos”. Em parte, é porque não podemos mais imaginar o que faríamos conosco mesmo se tivéssemos um tempo razoável de lazer.

Como antropólogo, sei perfeitamente que tempo abundante de lazer não irá levar a maioria das pessoas à depressão. As pessoas encontram o que fazer. Apenas não sabemos que tipo de atividade seria, porque não temos tempo de lazer suficiente para imaginar.

Pergunto: por que as pessoas agem como se a perspectiva de eliminar o trabalho desnecessário fosse um problema? Deveríamos pensar que um sistema eficiente é aquele em que se pode dizer: “Bem, temos menos necessidade de trabalho. Vamos redistribuir o trabalho necessário de maneira equitativa”. Por que isso é difícil? Se as pessoas simplesmente assumem que é algo completamente impossível, parece-me claro que não estamos em um sistema eficiente.

Um dos pontos mais interessantes do livro são suas observações sobre como os empregos socialmente valiosos são quase sempre menos bem pagos que os empregos de merda.

Foi uma das coisas que, pessoalmente, mais me chocou na fase da pesquisa. Comecei a tentar descobrir se algum economista havia observado o fenômeno e tentado explicá-lo. Houve antecedentes, na verdade. Alguns eram economistas de esquerda; outros, não. Alguns eram totalmente mainstream.

Mas todos chegaram à mesma conclusão. Segundo eles, há uma tendência: quanto mais benefícios sociais um emprego produz, menor tende a ser a remuneração – e também a dignidade, o respeito e os benefícios. É curioso. Há poucas exceções e não são tão excepcionais como se poderia pensar. Os médicos, é claro, são um caso notório: é evidente que são pagos com justiça e oferecem benefícios sociais.

Porém, há um argumento recorrente: “Não seria bom que pessoas interessadas apenas em dinheiro ensinassem as crianças. Não se deve pagar demais aos professores. Se o fizéssemos, teríamos gente gananciosa na profissão, em vez de professores que se sacrificam”. Há também a ideia de que se um trabalhador sabe que sua atividade produz benefícios, isso pode ser o bastante. “Como, você quer dinheiro, além de tudo?” As pessoas tendem a discriminar qualquer um que tenha escolhido um emprego altruísta, sacrificante ou apenas útil.

Aparentemente, você é pouco favorável à ideia de garantia de trabalho, defendida entre outros por Bernie Sanders [candidato de esquerda à presidência dos EUA], por preferir a garantia de renda cidadã.

Sim. Sou alguém que não quer criar mais burocracia e mais empregos de merda. Há um debate sobre garantia de trabalho – que Sanders, de fato, propõe, nos EUA. Significa que os governos deveriam assegurar que todos tenham acesso ao menos a algum tipo de trabalho. Mas a ideia por trás da renda universal da cidadania é outra: simplesmente assegurar às pessoas meios suficientes para viver com dignidade. Além desse patamar, cada um pode definir quanto mais deseja.

Acredito que a garantia de trabalho certamente criaria mais empregos de merda. Historicamente, é o que sempre acontece. E por que deveríamos querer que os governos decidissem o que podemos fazer? Liberdade implica em nossa capacidade de decidir por nós mesmos o que queremos e como queremos contribuir para a sociedade. Mas vivemos como se tivéssemos nos condicionado a pensar que, embora vejamos na liberdade o valor mais alto, na verdade não a desejamos. A renda básica da cidadania ajudaria a garantir exatamente isso. Não seria ótimo dizer: “Você não tem mais que se preocupar com a sobrevivência. Vá e decida o que quer fazer consigo mesmo”?]

David Graeber, entrevistado por Eric Allen Been, na Vice,  tradução: Antonio Martins, para Outras Palavras.

Siga sempre o líder e seja infeliz para sempre

Desobedeca
A Luz é Invencível – WordPress.com

Nós todos conhecemos aquele sujeito que não tem ideias próprias.

Ele está sempre seguindo aquilo que alguém disse, muitas vezes discretamente, mas noutras tantas com uma fidelidade canina, a ponto de transformar o dizer do outro num dogma.

Claro está que o ser humano construiu, desde os primórdios da criação, um saber (conhecimento) que nos é muito útil, especialmente para saber que rumo poderemos tomar.

Perceba: o verbo não é “dever” (tomar), mas sim “poder” tomar.

É claro que não há problema algum em seguir aquilo que já foi dito e ensinado anteriormente.

Mas a questão não é exatamente essa, mas sim que há certo tipo de pessoa que molda toda a sua existência em “verdades” que já passaram há muito tempo para o campo da obsolescência.

Moldar toda a vida dessa forma é, além de tudo, um perigo, posto que esteja no senso comum a sedimentação das ideias arraigadas das quais se originam os preconceitos e as intolerâncias.

Fico a imaginar o desconforto pelo qual passou o escritor e filósofo norte-americano Henry Thoreau com a mesmice que se apossou do mundo, o que poderíamos classificar de uma pandemia.

Entre os muitos escritos do Thoreau há alguns muito importantes e essenciais: “Walden” e “Desobediência Civil”, por exemplo – ambos estão também em suas versões e-book e podem ser encontrados facilmente na internet (são gratuitos).

Para quem não é familiarizado com a leitura ou não gosta ler (“porque ela dá sono” – muita gente dá essa desculpa bastante esfarrapada) recomendo no YouTubeWalden; ou, A Vida nos Bosques” e “Thoreau por Daniel Puglia”.

Uma dica: ao pesquisar, fuja daqueles vídeos de gente jovem, especialmente aqueles que começam a falar em “minimalismo”.

Uma lembrança (referência) importante: Thoreau influenciou profundamente Martin Luther King e Mahatma Ghandi, e, obviamente, toda contra-cultura norte-americana (hippie) que transformou o lago Walden num santuário, o que certamente teria irritado o filósofo – caso fosse vivo na época.

Trechos

“Aceito com entusiasmo o lema “O melhor governo é o que menos governa”; e gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente. Levado às últimas conseqüências, este lema significa o seguinte, no que também creio: “O melhor governo é o que não governa de modo algum”; e, quando os homens estiverem preparados, será esse o tipo de governo que terão. O governo, no melhor dos casos, nada mais é do que um artifício conveniente; mas a maioria dos governos é por vezes uma inconveniência, e todo o governo algum dia acaba por ser inconveniente. As objeções que têm sido levantadas contra a existência de um exército permanente, numerosas e substantivas, e que merecem prevalecer, podem também, no fim das contas, servir para protestar contra um governo permanente. O exército permanente é apenas um braço do governo permanente. O próprio governo, que é simplesmente uma forma que o povo escolheu para executar a sua vontade, está igualmente sujeito a abusos e perversões antes mesmo que o povo possa agir através dele. Prova disso é a atual guerra contra o México, obra de um número relativamente pequeno de indivíduos que usam o governo permanente como um instrumento particular; isso porque o povo não teria consentido, de início, uma iniciativa dessas.”

Primeiro Parágrafo de “Desobediência Civil” (Henry Thoreau)

= = = = =

“Por simples ignorância e equívoco, muita gente, mesmo neste país relativamente livre, se deixa absorver de tal modo por preocupações artificiais e tarefas superfluamente ásperas, que não pode colher os frutos mais saborosos da vida.”

Walden – A vida nos bosques (Henry Thoreau)

PRA FRENTE BRASIL! Um país partido em três pedaços

Torcida
Foto: http://www.sbie.com.br/blog/o-impacto-emocional-causado-pela-torcida-brasileira-nas-olimpiadas/

O Brasil vai à copa da Rússia, que se inicia daqui a pouco, dividido.

Na verdade não dividido – o que, a rigor, pressupõe partido em dois, em dois pedaços – mas fraturado ou trincado em três pedaços disformes.

De um lado estão aqueles que irão torcer pelo selecionado, desbragada ou discretamente.

Esse povo eufórico com os feitos da seleção tem diminuído bastante – e não é de hoje – na medida contrária em que cresce o número dos discretos, que muitas vezes, porém, se cansam e deixam de torcer para “Neymar e Cia”.

O que nós estamos presenciando nos últimos tempos – e não é apenas após os eventos de junho de 2013 – é um brasileiro, embora ainda perdido, sem saber que rumo irá tomar mais crítico, mais cético e mais cínico.

Creio que em algum momento do passado recente nós perdemos a nossa inocência.

Quem sabe tenha sido durante a ditadura militar, mas isso é impossível de se saber sem que se façam estudos profundos sobre nosso comportamento, o que me parece ninguém tenha ainda feito, pelo menos que eu saiba.

A outra banda dessa fissura é formada por aqueles que garantem não torcer – de jeito nenhum – e até torcer contra pelo selecionado nacional.

É fácil perceber quem é essa gente, até porque ela faz questão de afirmar-se.

Trata-se de esquerdistas(e)petistas humilhados pelas ofensas dirigidas a então presidente  Dilma Rousseff momentos antes do início da copa disputada no Brasil em 2014.

Mais há mais outra razão mais severa e mais impactante: as acachapantes derrotas para a Alemanha (7 a 1) e para a Holanda (3 a 0).

Sem medo de copiar bisonhamente uma ideia velhíssima vinda do século passado, a esquerda(e)petista reconstruiu uma teoria  da conspiração (lá na França, contra a França; aqui no Brasil contra a Alemanha e depois contra a Holanda) garantindo que o Brasil “vendeu” a copa do mundo para poder derrubar mais facilmente a Dilma da presidência, como se com “venda” ou “não-venda” a presidente tivesse alguma condição de permanecer no Palácio do Planalto.

A terceira parte, que parece de longe a maior das três, é indiferente não apenas à própria copa do mundo como ao próprio futebol.

Argumentam as esquerdas(e)petistas que esse desinteresse, desencanto, que beiraria os 70%, é o resultado  do eles chamam de golpe contra a Dilma e agora contra o principal ídolo das esquerdas(e)petistas, qual seja Luiz Inácio Lula da Silva.

Trata-se de um argumento que  não se sustenta,  pois historicamente  60% dos brasileiros não “apreciam” futebol.

Se esse índice “cresceu” 10 pontos percentuais não é exatamente uma surpresa, principalmente sabendo-se  que muitos dos críticos do selecionado tendem a  engrossar esta terceira fatia.

E é anda  de se observar duas questões:

(1) parte dessa torcida “contra” deverá passar a torcer pelo Brasil, mesmo que discretamente – aliás, como é de costume;

(2) o índice de indiferentes pela copa (60%? 70%?) tende a cair ao longo do torneio, especialmente se o Brasil for avançando (o que deverá acontecer) até se classificar para a final.

“Mudanças na lógica da acumulação capitalista precisam de uma crítica a partir da periferia”

Miguez
Pablo Míguez – foto: Ricardo Machado – IHU

Destaque-se abaixo entrevista com Pablo Míguez [1] para a Revista IHU On-line, realizada por Vitor Necchi com tradução de Henrique Denis Lucas (“A apropriação privada do ‘general intelect’. As mudanças na lógica da acumulação capitalista precisam de uma crítica a partir da periferia. Entrevista especial com Pablo Míguez”).

[Ao destacar governos alinhados ao pensamento de esquerda na América Latina no século 20, o professor Pablo Míguez cita a Revolução Cubana, o governo de Allende e experiências mais localizadas, como a Revolução Sandinista, e avalia que as duas primeiras “conviveram com ditaduras militares no seu entorno e com o peso dos Estados Unidos apoiando-as politicamente”, enquanto as outras “perderam peso com a queda da União Soviética e a ascensão do neoliberalismo”. A partir dos anos 80, “com o conhecido retrocesso da ideologia esquerdista, após a queda do Muro de Berlim e o aparente sucesso do capitalismo como o único sistema econômico sustentável, a esquerda teve de esperar pela crise do neoliberalismo, no final dos anos 90, para ter opções reais de formar um governo novamente”.

No século 21, Míguez cita a chamada “nova esquerda latino-americana“: Chávez, na Venezuela, Lula, no Brasil, e Kirchner, na Argentina, com “processos que se mantêm à esquerda do espectro ideológico, pela oposição às reformas neoliberais que os três países sofreram na década anterior”. Depois, em outro momento, Correa, no Equador, e Morales, na Bolívia. “Todas são experiências distintas, embora compartilhem de uma ideologia de redistribuição de renda e do reconhecimento de direitos a setores desfavorecidos, camponeses e indígenas”, observa. Aponta que esses governos tiveram, no início, grande apoio de movimentos sociais, mas, ao final do ciclo progressista, a adesão enfraqueceu devido aos próprios erros dos governos. “Depois de mais de uma década de governos progressistas, é inadmissível que o saldo seja um enfraquecimento do campo popular ao invés do seu fortalecimento”, destaca.

Após o fim do ciclo de governos progressistas, para Míguez, “há grande dificuldade em separar uma ideia de ‘esquerda’ dos processos estatais, corruptos e ineficientes, pensamentos que as direitas são responsáveis por difundir, baseadas em alguns fatos concretos, por mais que seja parte de um ataque ideológico por demais previsível”.

Mesmo com o enfraquecimento da esquerda, Míguez entende que ela “seguirá questionando as pessoas porque as desigualdades do capitalismo não param de crescer, e a crítica a partir da esquerda permite pelo menos compreender o sentido dos avanços dessas dinâmicas”. No contexto atual, entende que é uma oportunidade para o pensamento de esquerda “lançar novamente sua mensagem, não permanecendo imobilizado diante de um evidente avanço das novas direitas na América Latina”. No entanto, “será fundamental fazer uma autocrítica sobre os aspectos que foram funcionais para a reprodução da ordem e resistir às políticas mais agressivas contra o campo popular que surgiram no horizonte”.]

Veja a integra da entrevista em http://www.ihu.unisinos.br/579642-a-apropriacao-privada-do-general-intelect-as-mudancas-na-logica-da-acumulacao-capitalista-precisam-de-uma-critica-a-partir-da-periferia-entrevista-especial-com-pablo-miguez .

Nota

[1] Pablo Míguez é natural de Lanús, Província de Buenos Aires. Doutor em Ciências Sociais e licenciado em Economia e em Ciência Política pela Universidade de Buenos Aires (UBA). É pesquisador da Universidade Nacional de San Martín (UNSAM) e docente da Universidade Nacional de General Sarmiento (UNGS) e da Universidade de Buenos Aires (UBA).

E se as nossas lembranças não servirem para nada?

Novas mocas
MTS

Já me cansei de ouvir a mesma história sobre mim mesmo: você precisa escrever suas memórias; elas são muito ricas; devem conter muitos ensinamentos e experiências variadas.

Nunca hostilizei ninguém por me fazer esse pedido-sugestão quase agressivo e um tanto pornográfico.

Permaneço, na minha medida, com minha educação precária, mas não respondo malcriadamente como seria de se esperar de minha parte, ao abusado.

Recebi uma nova solicitação nesse sentido e esse novo assediador era um novato com o qual tive, até agora, parcos e exíguos contatos.

No primeiro parágrafo sai-me com um “sobre mim mesmo”.

Não necessitava formular a oração daquele jeito.

Bastar-me-ia usar ”sobre mim”, posto que eu estivesse falando de um interlocutor e não apenas de “mim” para “mim”.

Mas quis usar assim!

Firulas, reconheço.

Mas voltando à questão ou à proposição em si não vejo essa necessidade toda, nem sei se tenho o que falar/dizer e , principalmente, explicitar e/ou exemplificar.

Tenho preguiças!

“Macunaimicamente” sou um preguiçoso e sei de pronto que sou um sujeito parcial, “pela metade”, que nunca terminou nada começado.

Isso é literal e real (acreditem).

Então falar o que? Do quê? Sobre o quê?

Creio que não existam aí razões e eu nem as encontro.

Talvez devesse me impor a lógica de buscar agulha num palheiro. Quem sabe?

Creio que vez ou outra, meio confusamente, pincelo uma coisa ou outra a meu respeito e sobre aquilo que presumi ter visto ou penso ter visto.

Mesmo assim tenho a consciência (pelo menos isso!) de que são relatos parciais, medianos, medíocres, sem importância, dos quais ninguém sentirá falta

Fragmentos precários de partes apenas apanhadas por aí .

“Questões levantadas nas lutas dos anos 1960 permanecem atualíssimas”

Maio de 68
Créditos da foto: ElUniverso

[Rio de Janeiro – Um dos maiores estudiosos do país sobre a trajetória da esquerda e dos movimentos revolucionários e libertários no Brasil e no mundo, o historiador Daniel Aarão Reis insere os acontecimentos do Maio Francês em uma série de movimentos que, nos anos 1960, sacudiram vários pontos do planeta. A importância da luta dos estudantes na França, e também em outros países como os Estados Unidos, pode ser medida, segundo ele, pelo legado em forma de novas bandeiras progressistas que viriam a alimentar nos anos seguintes os movimentos ambiental, feminista, de jovens, negros, povos originários e gays, entre outros.

Professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), Aarão Reis, em conversa exclusiva com Carta Maior, diz que as lutas daquela década – sobretudo no histórico ano de 1968 – deram origem a movimentos e pensamentos políticos complexos: “A díade esquerda-direita, chave para muitas reflexões sobre lutas sociais e políticas, sofreu um profundo desgaste”, analisa. Mesmo com a passagem de cinco décadas, o que aconteceu na França e no mundo naquele ano, diz o professor, forneceu as bases para o que viria em seguida: “Embora as lutas tenham sido derrotadas no curto prazo deixaram questões fundamentais fermentando e tais questões, em não pequena medida, permanecem atualíssimas”.]

Leia a seguir a íntegra da entrevista em Carta Maior (Por Maurício Thuswohl).

A psicologia de massas do fascismo ontem e hoje: por que as massas caminham sob a direção de seus algozes?

Blog da Boitempo

Por Mauro Luis Iasi.

“o fascismo, na sua forma mais pura, é o somatório
de todas as reações irracionais do caráter do homem médio”
W. Reich

“queriam que eu falasse do agora
mas, o presente que procuro
está preso em um passado
que insiste em ser futuro”
M. Iasi

O psicólogo marxista Wilhelm Reich (1897-1957) escreveu o livro Psicologia de massas do fascismo em 1933 (o estudo se estendeu de 1930 até 1933), no contexto da ascensão do nazismo na Alemanha. O autor se refugiou em Viena, depois Copenhagen e Oslo, onde iniciou seus estudos sobre as couraças e depois do que denominou de “energia vital”, levando-o a teoria do “orgon”. Desde 1926 acumulava divergências com Freud, com o qual trabalhou como assistente clínico, e em 1934 seria expulso da Sociedade Freudiana e da Associação Psicanalítica Internacional, sairia da Noruega em direção aos EUA, onde seria também…

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“Ciclo progressista chegou ao fim e está em crescimento uma nova direita”

Rzaul
Raúl Zibechi | Foto: Susana Rocca – IHU

[O ciclo progressista na América do Sul chegou ao fim e está em crescimento uma nova direita, “mais ofensiva e militante que as anteriores”, entende o uruguaio Raúl Zibechi. Ele elenca três fatores para se chegar a esta conjuntura: citando Noam Chomsky, afirma que “os Estados Unidos já não possuem a força para impulsionar golpes e acabam por apoiar as direitas de cada país”; sob governos progressistas, as direitas se tornaram mais fortes; por fim, a incompreensão da esquerda após a crise de 2008 e a reativação dos movimentos populares, e, conforme Zibechi, “quando a esquerda não compreende, põe a culpa na direita, no império e nos meios de comunicação”.

Ao avaliar as possibilidades para um projeto político de esquerda, aponta que o principal limite é o Estado. “O poder estatal é um problema grave que transforma os revolucionários em uma nova burguesia de gestores, que não são proprietários dos meios de produção, mas, a partir do poder, os administram em benefício da nação e de si mesmos”, avalia em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. No seu entendimento, “as possibilidades da esquerda começariam a surgir se a derrota do 1% que está no topo fosse discutida seriamente. Sem isso, não há nada a ser feito”.

Na atual conjuntura, observa que “a esquerda necessita de um projeto de transformação da sociedade que não passe necessariamente pela ocupação do Estado”. Para Zibechi, “ser de esquerda é assentar as bases éticas e organizacionais para que os movimentos populares perdurem no tempo, ainda que sejam derrotados, o que não é algo negativo”. Ele sugere que a esquerda se desfoque “das agendas eleitorais, algo que está muito longe de passar pela mente dos dirigentes sindicais e dos partidos de esquerda”.

Para Zibechi, o ciclo progressista se caracteriza pelos altos preços das commodities, “que permitiu que os governos pudessem melhorar a situação dos pobres, sem tocar nos interesses dos ricos”. Durou pouco tempo. Ele estima que entre 2008 e 2010, “e a partir desse momento, com a queda dos preços das exportações, toda a estrutura começou a ranger, pois, não havendo mais superávits, os recursos para seguir melhorando a situação dos setores populares começam a ficar escassos, e a direita toma a dianteira”.

Na sua visão, uma nova direita está emergindo no mundo e também na América Latina. Ela “tem uma profunda rejeição a negros e pobres, ainda que aceite a maconha e os gays”. Seu projeto é “muito elitista, muito mais do que a direita de 64, porque aquela queria domesticar os pobres e esta – eles não comentam – quer exterminá-los”. De outro lado, “a esquerda não está nada preparada para enfrentá-la, nem no terreno militante, nem no ideológico”.]

Veja  entrevista especial na íntegra com Raúl Zibechi em IHU.Unisinos.