Ler tornou-se um tenebroso exercício estafante e quase inútil

Maria Rita
Foto Blog Boitempo

Definitivamente não tenho mais paciência para certas leituras.

Acho isso uma coisa boa, pois assim evito muitos dissabores.

Já me chegam as chatices e as baboseiras às quais tenho de presenciar e de ouvir diariamente.

Agorinha mesmo estava tentando ler um artigo no Blog da Boitempo, de Tals Ab’Saber, a respeito do novo (sic) livro da psicanalista Maria Rita Kehl – A psicanálise diante do quebra-cabeça inacabado do Brasil –, o “Bovarismo brasileiro”.

Até que me esforcei na busca de ler todo texto de Ab’Saber, mas desisti de início.

Sempre achei que Maria Rita Kehl, apesar de esforçadinha e aparentemente honesta, fala da mesma coisa – num inacabável exercício de recorrências.

Precisamos – mas creio que não iremos conseguir – fugir desse tipo de recorrência cansativa e enfadonha.

Minha mãe, cujo primeiro ano de falecimento completa-se neste 27 de maio, não estudou, quer dizer, estudou até o antigo primário; pouco lia,  mas lia, principalmente a bíblia (depois que se tornou evangélica), mas, em contrapartida, era um bocado observadora, como toda boa anarquista que era, embora não soubesse que fosse.

Pois bem: ela  costuma afirmar que gente que estuda muito “acaba ficando doida” e falando bobagens em demasia.

É dela também (embora não originalmente dela) que esse tipo de gente “vive no mundo da lua”.

Queria dizer ela que essa gente se desconecta do mundo real, por preferir viver numa bolha;  habitantes que são de um mundo virtual, que presumem ideal.

Resumindo bem a história na sua essência: a questão a saber é em até que ponto esse blábláblá todo de livros, teses, doutorados, matérias jornalística contribui efetivamente com nós outros; nós,  seres finitos.

Parece que muito pouco ou quase nada, como podemos ver pelos inúmeros desencontros aos quais estamos submetidos e aos quais pensadores (sic) do porte e da importância de  Maria Ria Kehl ajudam a nos afundar nesse lamaçal de incompreensões e de delírios.

No geral, a sapiência de minha mãe indica que está na hora de deitarmos fora esse blábláblá todo para assumirmos, isolada ou coletivamente, as nossas  vidas, aprendendo com os nossos erros e nos regozijando com nossos acertos. (MTS)

As histórias de Zacarias, o Ícaro, de um lugar chamado Cotia

Icaro
Blog do Velhinho

Tivemos por aqui nosso Ícaro.

O seo Zacarias, pai de Alcides, o Alcidão, que por longos anos foi prático da farmácia do doutor Waldemar Albano, na época a única de Cotia, assim como Albano era o nosso único médico e ainda o parteiro da cidade.

Alcidão era pai de Carlinhos, um sujeito mirradinho e precocemente míope.

Numa época que a gente era obrigado a usar bastante o físico (seja para esportes, seja para o trabalho) Carlinhos não servia para absolutamente nada.

A irmã se chamava Cida e herdou de Alcidão a lourice.

Carlinhos puxou a mãe, de cabelos pretos embora de tez branca como leite.

Não sei que fim levou essas pessoas todas. Se estão mortas ou ainda permanecem vivas.

Não sei se Carlinhos e Cida se casaram, se tiveram filhos e netos; se se deram bem na vida; se enriqueceram ou ficaram tão pobres como Alcidão.

Fomos vizinhos de Zacarias na Ernesto Lemos Leite, bastante próximos ao Grupo Escolar Baptista Cepellos onde nós todos estudamos.

Zacarias era bastante velho, de cabelo branquinho, provavelmente mais velho que os meus avós de nasceram no final do século 19.

Ele tinha uma cabra, provavelmente para suprir-lhe de leite, que um dia me derrubou do barranco com uma chifrada.

Cabras e bodes são bichos danados e sempre nos pegam distraídos.

Duvido que alguém com menos de 50 anos já tenha visto uma cabra na vida.

As histórias da epopeia de Zacarias, o nosso Ícaro, são confusas e contraditórias.

Não se sabe ao certo nem se ele tentou voar mesmo e quais consequências de seu feito.

A história oral não registrou essas minudências.

Alguns testemunhos da época dizem que ele tentou o voo construindo asas de madeira.

Se verdadeira isso, deve ter sido uma história espetacular, tanto quanto o tombo que Zacarias certamente levou.

Cotia é cheia de morretes, portanto espaço para essas empreitadas há de sobra.

Os testemunhos sobre o acontecido, porém, são falhos, espécies de fake news daqueles tempos.

Mas são histórias recorrente já que se repetem praticamente em todos os lugares, regiões e países.

Até mesmo agora, na época dos balões, dirigíveis, aviões e foguetes ainda nos deparamos com pessoas querendo, por suas próprias forças, voar.

Tem quem também voe (literalmente) impulsionada por outras forças (a cocaína), como foi o caso de uma amiga, catapultada do 10ª anda rumo ao chão em um edifício de São Paulo.

Hoje em dia são essas histórias bastante recorrentes e muito mais comuns que as de Zacarias.

Ícaro, que é mais lenda que o nosso Zacarias, “era filho de Dédalo, um dos homens mais criativos e habilidosos de Atenas, conhecido por suas invenções e pela perfeição de seus trabalhos manuais, simbolizando a engenhosidade humana.

Um de seus maiores feitos foi o Labirinto, construído a pedido do rei Minos, de Creta, para aprisionar o Minotauro. Por ter ajudado a filha de Minos a fugir com um amante, Dédalo provocou a ira do rei que, como punição, ordenou que ele e seu filho Ícaro fossem jogados no Labirinto.

Dédalo sabia que a sua prisão era intransponível, e que Minos controlava mar e terra, sendo impossível escapar por estes meios. “Minos controla a terra e o mar”, disse Dédalo, “mas não o ar. Tentarei este meio”.

Dédalo projetou asas, juntando penas de aves de vários tamanhos, amarrando-as com fios e fixando-as com cera, para que não se descolassem. Foi moldando com as mãos, de forma que estas asas se tornassem perfeitas como as das aves.

Estando o trabalho pronto, o artista, agitando suas asas, se viu suspenso no ar. Equipou Ícaro e o ensinou a voar. Então, antes do voo final, advertiu seu filho de que deveriam voar a uma altura média, nem tão próximo do sol, para que o calor não derretesse a cera que colava as penas, nem tão baixo, que o mar pudesse molhá-las. 

Eles primeiramente se sentiram como deuses que haviam dominado o elemento ar. Ícaro deslumbrou-se com a bela imagem do sol e, sentindo-se atraído, voou em sua direção, esquecendo-se das orientações de seu pai. A cera de suas asas começou rapidamente a derreter e logo Ícaro caiu no mar.

Quando Dédalo percebeu que seu filho não o acompanhava mais, gritou:

“Ícaro, Ícaro, onde você está?”.

Logo depois, viu as penas das asas flutuando no mar. Lamentando suas próprias habilidades, chegou seguro à Sicília, onde enterrou o corpo e chamou o local de Icaria em memória de seu filho.” (Saber Cultural)

A ânsia por voar me parece, no entanto, bem mais complexa do que simplesmente a vontade por tentar encurtar distâncias.

Parece-me que nós buscamos, a rigor, escapar da finitude do mundo, da finitude da vida, mas sempre nos deparamos com as nossas limitações e nos assuntamos com a grandeza espetacular do universo.

Mas continuamos fazendo de conta que algum dia vamos a alguma lugar, mesmo que sozinhos, e quem sabe para nos encontrarmos como Deus.

Márcio Tadeus dos Santos

Estou perdendo a memória e não sei se isso é bom ou ruim

Memoria
Imperionanet

Na quinta e na sexta-feira (3 e 4 de maio) assisti a dois filmes norte-americanos que tinham como tema caminhadas – um documentário e uma ficção.

Já os havia assistindo há dois ou três meses, mas não me lembrava deles.

Minha memória foi voltado, parcialmente, ao longo das “películas”, mas não me lembrei de todo conteúdo dos dois filmes.

Após o infarto, que aconteceu em dezembro de 2015, minha memória passou a falhar.

Ela nunca foi um primor; sempre me esqueci das coisas com facilidade e, com o tempo, passei a não reconhecer algumas pessoas.

Na avaliação dos médicos isso era mais ou menos natural, dada à gravidade do infarto – muito em função do tempo em que demorei em ser atendido (1 dia, mas por culpa minha que não busquei ajuda imediata) e da forte arritmia da qual fui acometido.

Segundo eles, mas cedo ou mais tarde, e com terapia, a memória voltaria.

Não fiz a terapia, mas a memória começou a retornar aos poucos, isso até recentemente (a cerca de duas semana) quando não apenas voltou a piorar com piorou consideravelmente.

Dúvida

Uma dúvida me assalta, no entanto: não sei ao certo se a perda de memória é necessariamente uma coisa ruim ou uma coisa boa.

Uma boa vantagem, por exemplo, é nos esquecermos de todos os nossos problemas; como também vamos nos esquecer das próprias pessoas que geralmente são muito chatas; não vamos mais ter a consciência da morte (que já é um ganho considerável, convenhamos) e, principalmente, não vamos mais nos lembrar de pagar as nossas contas.

Se podemos usufruir das benesses dos esquecimento, temos também quem procure nos fazer retornar à condição de uma suposta sanidade, e para tanto identificam (até para resolver o suposto problema) sete os motivos para a perda de memória [1]:

Uso de drogas (lícitas ou não)

Não são raros os casos de bebedeira que terminam com alguém que não se lembra da noite anterior. O consumo de maconha pode fazer com que você esqueça coisas que estava para dizer ou mesmo se perder no meio de uma frase. Outras drogas também provocam efeitos semelhantes na memória de curto prazo, pois agem no rebaixamento do sensório (uma região do cérebro), afetando a consciência. Algumas delas também podem aumentar a agitação e, com isso, diminuir a atenção do usuário. Isso sem falar que também podem causar distúrbios na neurotransmissão cerebral, dificultando assim a retenção da lembrança.

Estresse
Alguns cientistas já reconhecem que o estresse é uma das principais causas de perda de memória recente, sendo que sua intensidade e tipo influenciam bastante nesse processo. A exposição às neurotoxinas geradas pode causar uma alteração na atividade normal do sistema nervoso central, resultando até em uma atrofia da estrutura onde as memórias se originam, o hipocampo.

Medicamentos

Quando o medicamento lida diretamente com o sistema nervoso central, há uma chance de ele afetar suas lembranças. Além de reduzir a atenção do paciente, eles também podem causar uma mudança no fluxo normal de neurotransmissão, diminuição da consciência e liberação de neurotoxinas, fatores que podem determinar uma alteração na memória de curto prazo. Vale ficar atento.

Doenças graves
Algumas doenças graves, como insuficiência cardíaca ou doença renal crônica, também podem causar problemas na memória de curto prazo. Elas provocam a liberação de neurotoxinas, redução do sensório e da circulação cerebral, que estão entre os principais motivos para o rápido esquecimento.

Apneia obstrutiva do sono
Esta doença crônica é caracterizada pelo bloqueio parcial ou total das vias respiratórias, o que causa repetidas pausas na respiração durante o sono. Além do ronco, os principais sintomas da apneia obstrutiva são o aumento da agitação durante a noite, uma falta de disposição e a sonolência em excesso durante o dia. Esses três pontos afetam a atenção do indivíduo e, com isso, afetam também a capacidade de funcionamento da memória de curto prazo.

Transtorno do ciclo sono-vigília

O período de sono e de vigília dos seres humanos segue um padrão, conhecido como circadiano. Em condições normais, esse período está sincronizado com fatores naturais e oscila dentro de um período de 24 horas. Algumas coisas, porém, como o jet leg provocado por viagens em fusos horários diferentes, estresse e disfunções hormonais, podem causar alterações nesse ciclo. É aí que aparece aquela famosa insônia ou a sonolência. Da mesma forma que a apneia, este problema pode afetar a atenção por causa da falta de disposição e sonolência, interferindo na memória de curto prazo da pessoa.

Doenças psiquiátricas
O transtorno de ansiedade, transtorno depressivo e outras doenças psiquiátricas podem causar perda de memória recente por diversos fatores, principalmente aqueles envolvendo o sistema nervoso. Elas podem ser responsáveis pela geração de neurotoxinas, provocar a diminuição da capacidade do sistema nervoso em se adaptar ao longo do desenvolvimento ou até mesmo afetar a capacidade de funcionamento dos neurotransmissores. Além da possibilidade do paciente sofrer com déficit de atenção, que também pode afetar a memória.

Acho isso tudo muito confuso e creio que o melhor mesmo é ser desmemoriado.

Márcio Tadeu dos Santos

Nota

[1] https://super.abril.com.br/blog/superlistas/7-fatores-que-podem-te-levar-a-perda-de-memoria-recente/

 

“Inteligência Artificial, novo pesadelo?”

Interligencia
Ilustração: E-Commerce Brasil

[Em “Vida de Galileu”, provavelmente sua peça mais notável, Bertolt Brecht imagina a fala final do grande cientista do Renascimento a seus pares. A obra foi escrita durante o tormento da 2ª Guerra Mundial, em meio os exílios do autor – por isso, o Galileu de Brecht já não compartilha o entusiasmo automático pela Ciência presente em outras obras da tradição iluminista e mesmo marxista. Diz ele, em tom de advertência quase desesperada: “O precipício entre vocês e a humanidade pode crescer tanto que ao grito alegre de vocês, grito de quem descobriu alguma coisa nova, responda um grito universal de horror”. Há duas semanas, a revista britânica Economist publicou um longo estudo sobre os novos avanços a Inteligência Artificial – especialmente seu uso nos locais de trabalho. Diante da leitura, é impossível não sentir de novo o calafrio que assombrou o dramaturgo alemão.

Desenvolver Inteligência Artificial, explica Economist, significa dotar computadores e softwares de capacidade para processar imensos volumes de dados e – principalmente – para encontrar padrões e fazer previsões sem ter sido programados para tanto. Alguns usos podem parecer neutros, ou até benéficos. A Amazon e a Leroy Merlin (rede francesa que vende, no varejo, materiais de construção e de uso doméstico) desenvolveram sistemas que recompõem estoques com enorme precisão e economia. Podem fazê-lo porque seus computadores levam em conta, além da simples reposição do que foi comprado pelos clientes, dados como as previsões de tempo e a ocorrência de feriados (que podem alterar a frequência às lojas). Os algoritmos permitem prever a demanda por milhões de produtos, com até 18 meses de antecedência. Abstraia, por um momento, o interesse nas empresas. Pense nos enormes desperdícios – sociais, ambientais, econômicos – que poderiam ser evitados se fosse possível saber antecipadamente, por exemplo, quantos milhões de toneladas de papel, de tomates ou de alumínio será preciso produzir, num determinado período, para satisfazer às necessidades humanas.

Mas, em sociedades regidas pelo lucro, dinheiro atrai dinheiro – e a tecnologia acaba alocada para os setores em que contribuiu para concentrar riquezas. O Caesar’s, um conglomerado norte-americano de hotéis e cassinos (presente também no Brasil) usa Inteligência Artificial, por exemplo, para identificar os prováveis objetos de consumo de cada cliente e induzir à compra. Os usos mais devastadores, porém, estão no mundo do trabalho.

A Inteligência Artificial permitirá eliminar uma imensa quantidade de empregos. A substituição, nos callcenters, de humanos por sistemas crescerá cinco vezes, até 2021, em todo o mundo. O Metro, um grupo varejista alemão, planeja trocar os caixas de suas lojas por scanners que leem o código de barras dos produtos já no carrinho de compras e fazem a cobrança. A Bloomberg, uma agência global de notícias econômico-empresariais, já desenvolveu programas que, sem necessitar de qualquer auxílio humano, examinam relatórios financeiros de empresas e redigem notícias sobre eles. Convenhamos: são documentos que não requerem análises refinadas. Mas – pergunte a si mesmo – os redatores liberados de tais tarefas maçantes serão redicrecionados para outras mais nobres? Poderão, por exemplo investigar o resultado social da atuação de tais empresas? Ou terminarão ou simplesmente descartados?

Além de desempregar em massa, a Inteligência Artificial poderá estabelecer níveis inéditos de controle sobre quem mantém a ocupação. A relação de novos instrumentos é aterradora. A Amazon acaba de patentear uma pulseira que transmitirá, do pulso dos trabalhadores, informações detalhadas sobre cada passo deles nas instalações da empresa. O mesmo bracelete emitirá automaticamente pequenas vibrações, quando houver sinais de que o desempenho do funcionário não atende a todos os requisitos de produtividade.

É um entre muitos exemplos. O Workday, outro software, cruza constantemente 60 tipos de informação para prever comportamento dos empregados. O Humanyze (sim, os nomes são orwellianos) detecta cada contato dos funcionários com seus colegas e se conecta com suas agendas e e-mails. O Slack, um aplicativo de mensagens, avalia a rapidez dos trabalhadores para cumprir certas tarefas e permite identificar quem esteja divagando, ou em suposta má conduta. Slack, aliás, é acrônimo para “searchable log of all conversation and knowledge” (algo como “registro disponível de toda a conversação e conhecimento”). O Cogito escuta os diálogos telefônicos entre trabalhadores e clientes e estabelece “rankings de empatia”. O Veriato, acoplado a computadores, mede as pausas no trabalho e mesmo a velocidade dos toques no teclado…

A conjuntura favorece as empresas. Num cenário de desemprego muito elevado, lembra o estudo do Economist, os assalariados estão sendo induzidos a assinar contratos de trabalho que autorizam a invasão de sua privacidade. Este retrocesso é viabilizado por dispositivos como a “prevalência do negociado sobre a lei”, presente na contrarreforma trabalhista brasileira.

A Inteligência Artificial é necessariamente desumanizadora? Para autores como o economista norte-americano Jeremy Rifkin, a resposta é, evidentemente, não. Em Sociedade com Custo Marginal Zero: A Internet das Coisas, os Bens Comuns Colaborativos e o Eclipse do Capitalismo, Rifkin imagina um cenário completamente distinto do descrito por Economist – que hoje parece prevalecer. Ele vê, na convergência de três revoluções tecnológicas (da conectividade, das novas energias e dos transportes), a chance de uma brutal economia de recursos. Ela estaria associada, porém, não à concentração de riquezas, mas à garantia do acesso de todos aos bens necessários para uma vida digna, com mínimo consumo dos bens naturais. Uma brevíssima síntese do pensamento do autor (que hoje presta consultoria ao governo chinês) pode ser vista neste vídeo [1].

Há anos, Immanuel Wallerstei não se cansa de alertar: a crise do capitalismo é profunda e provavelmente terminal. Mas isso não é, necessariamente, uma boa notícia. No lugar do sistema hoje hegemônico podem surgir tanto uma sociedade muito mais democrática e igualitária quanto outra, que aprofunde como nunca as marcas de exploração, hierarquia alienação que já vivemos. Os dilemas, esperanças e ameaças da Inteligência Artificial – algo que vale estudar em profundidade – parecem lhe dar toda razão.]

Por Antônio Martins para Outras Palavras

Nota

[1] https://youtu.be/DiNFgRm8jQI

 

“Computação quântica: física abre espaço para nova era”

Quantica
Ilustração WebFrogger

[Desde 1965, quando o fundador da IntelGordon Moore, publicou sua profecia sobre a evolução dos chips, conhecida como Lei de Moore, a indústria dos computadores segue o mesmo ritmo: a cada um ano e meio, o número de transistores dentro de um único chip dobra, aumentando o desempenho das máquinas e reduzindo o consumo de energia. A máxima, porém, está com os dias contados. Os transistores dos chips mais avançados já chegaram ao tamanho de 10 nanômetros e, se diminuírem muito mais que isso, podem parar de funcionar. Isso pode fazer os computadores pararem no tempo pela primeira vez desde que foram criados.

Há uma preocupação de que a computação como conhecemos entre em colapso”, diz o líder do grupo de Computação Quântica do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) e fundador da startup StrangeWorks, o americano William Hurley, o “whurley”, em entrevista ao Estado. “Um dia, a forma como desenvolvemos chips não vai mais funcionar.

A reportagem é de Bruno Capelas e Cláudia Tozetto, publicada por O Estado de S. Paulo, 22-04-2018, reproduzida em IHU-Unisinos.

A academia e a indústria não estão esperando essa crise chegar de braços cruzados. Na última década, pesquisadores de todo o mundo e gigantes de tecnologia, como a IBM e o Google, têm investido milhões de dólares na criação dos chamados computadores quânticos. Quando estiverem prontas, essas máquinas serão capazes de fazer, mais rápido e com menor consumo de energia, alguns tipos de cálculo que mesmo supercomputadores de hoje não dão conta.

A computação clássica é ineficiente para processar cálculo molecular, como analisar o comportamento de uma proteína ou desenvolver uma nova droga”, explica o pesquisador do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) Renato Portugal. Outro exemplo está na meteorologia: hoje, só é possível prever com exatidão o clima para os próximos dois dias. “Depois disso, há muita imprecisão, devido às limitações computacionais”, diz.

Fundamentos

computação quântica funciona melhor para analisar e simular fenômenos naturais, porque se baseia nos conceitos da Mecânica Quântica – ramo da Física que estuda o comportamento de moléculas, átomos, elétrons e outras partículas subatômicas. Na computação clássica, toda e qualquer informação é armazenada ou processada na forma de bits – que podem ser representados por 0 ou 1. Mas, na quântica, os chamados qubits podem assumir inúmeros estados entre 0 e 1, num fenômeno chamado superposição.

Nos computadores quânticos, é como se a corrente pudesse passar por um transistor e não passar, ao mesmo tempo”, diz Ivan Santos, pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e doutor em Física pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. “Esse conceito é algo que vai totalmente contra nossa intuição.” Essa característica faz a velocidade de processamento atingir níveis exponenciais – segundo os pesquisadores ouvidos pelo Estado, não é possível comparar, em termos de medição, o desempenho dos computadores clássicos e quânticos, já que têm naturezas diferentes.

Testes

O desenvolvimento dos computadores quânticos se acelerou desde 2016, quando a IBM anunciou uma máquina com processador de 5 qubits e passou a permitir que pesquisadores de todo o mundo a testem por meio de seu site. Em novembro do ano passado, a companhia liberou o acesso a uma segunda máquina, com processador de 20 qubits – já há um terceiro computador, de 50 bits, em testes internos.

Mais de 3 milhões de experimentos já foram feitos e 75 artigos científicos publicados desde 2016”, diz o diretor do laboratório de pesquisas da IBM Brasil, Ulisses Mello. “As universidades estão usando nossos computadores quânticos por meio da nuvem e agora passamos a permitir o uso também por startups.

O Google, que começou fazendo experimentos com máquinas de terceiros, anunciou em março deste ano a criação de um processador de 72 qubits. Como o computador ainda não está disponível para testes, o anúncio é visto com ceticismo pela comunidade acadêmica. “Uma coisa é falar e outra é entregar”, afirma Portugal. Procurado pelo Estado, o Google não concedeu entrevista sobre o projeto.

Mesmo as máquinas que já estão operando têm uma série de limitações. Por ora, elas só permitem o processamento de simulações e algoritmos simples e que sejam rápidos de processar, já que é difícil manter o computador quântico estável.

Esses computadores têm de ficar num ambiente onde não haja nenhuma interferência, nenhuma troca de energia”, explica Portugal. Além disso, para o sistema funcionar, a temperatura tem de ser mantida muito baixa: -272,99ºC (ou 0,01 miliKelvin), temperatura mais baixa que no espaço. “Somente nessa temperatura é que as propriedades quânticas dos materiais se manifestam”.

Por isso, os computadores quânticos, por enquanto, ficam apenas em laboratórios especializados e não há plano de criar uma versão de mesa ou portátil, como um notebook ou smartphone. O plano das companhias que investem na tecnologia é comercializar a capacidade das máquinas como serviço, como é comum atualmente em serviços de computação em nuvem.

A resolução dos desafios técnicos depende, em grande parte, da própria existência da computação quântica. É por meio dela que pesquisadores vão entender melhor como se manifestam os fenômenos quânticos e, em última medida, como controlá-los. “Eles vão propiciar o estudo de novos materiais, que um dia podem permitir a criação de máquinas que façam na temperatura ambiente o que hoje só é feito em baixíssimas temperaturas”, diz Santos.

Procuram-se desenvolvedores

Não são só desafios técnicos que a computação quântica precisa superar para se tornar realidade. Há quem tema um ‘apagão’ de desenvolvedores, quando ela chegar à fase comercial.

É para resolver isso que o empreendedor americano William Hurley, o “whurley”, fundou, em março, a startup StrangeWorks. A empresa, que tem sete funcionários, se dedica a criar ferramentas para facilitar a criação de programas para os desenvolvedores acostumados a programar para computadores clássicos.

Quero que milhões de pessoas possam ‘brincar’ com essas máquinas”, diz whurley.]

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Meu pai sempre repetia que “ninguém vai ficar para semente”.

Emptiness_Anatta_No_Self

Nunca ouvi a frase antes e nem depois, mas não sei se era original, pois meu pai nunca foi de cunhar frases, especialmente as de efeito, e não era exatamente um sujeito que a gente pudesse dizer que fosse inteligente ou um sujeito de virtù .

Virtù é um conceito teorizado por Niccolò Machiavelli , centrado no espírito marcial e capacidade de uma população ou líder, [1] mas também abrangendo uma coleção mais ampla de características necessárias para a manutenção do estado e “a realização de grandes coisas”.

E há um erro de concepção na oração: perpetuamo-nos sim, deixando sementes quando nós, mulheres e homens, geramos filhos. Aliás, uma das definições de concepção é “ação ou efeito de gerar (ou ser gerado) um ser vivo, em consequência da fusão do espermatozoide com o óvulo; fecundação, geração”, mas não no sentido que usei acima:  “obra da inteligência; produção, criação, teoria”.

Atualmente convivemos com alguns medos, como por exemplo, os da nossa extinção, até, provavelmente, a virada para próximo milênio – como defendem alguns teóricos.

Igualmente tememos um retorno à barbárie proporcionada pela nazi fascismo e pelo comunismo da URSS e da China de Mao Tse Tung – que,  aliás, Marx não previu.

Há quem defenda, entre esses, eu, que a ciência e a tecnologia, enfim, o conhecimento, possa resolver a questão da perenidade de nossa espécie.

Talvez não do sentido da eternidade, mas pelo menos do duradouro, sendo-nos capazes de nos transformarmos (evoluirmos) em outro ser, talvez além de humano (ou supra-humano).

Mas antes que isso aconteça temos de resolver algumas questões importantes e fundamentais ligadas às nossas doenças e ao meio ambiente que nos cerca, questões que aparentam estar imbricada.

Sobre o medo de um retrocesso aos totalitarismos de esquerda e de direita e a seus abusos, estes não me parecem muito assustadores.

Creio que já temos mecanismos nacionais e internacionais eficazes para combatê-los, como também a população mundial hoje está mais apta e mais capacitada para conter esses abusos.

Por mais que pareça que a humanidade viva num pêndulo perpétuo, vale notar que evoluímos, nem sempre a nosso gosto e prazer, mas o certo é que mudamos a maneira de nos enxergarmos e de permanecer na terra.

Trata-se de um caminho irreversível.

Se será eterno ou não, é provável que não o seja. Nada, nem o universo, é eterno.

Brasil enrola, dá calote e é expulso do Observatório Europeu do Sul

Ovservatorio.jpg[Foram ao todo quase oito anos de enrolação, conversa fiada e calotes, mas finalmente o ESO (Observatório Europeu do Sul) decidiu mostrar a porta da rua ao Brasil. Final melancólico e típico do que acontece com grandes projetos internacionais aos quais nosso país se associa e depois não cumpre o que promete.

O anúncio foi feito nesta segunda-feira (12) pela organização internacional — detentora da maior infraestrutura para pesquisa astronômica no mundo — com a fineza que lhe cabe. O título da nota é apenas “Esclarecimento do envolvimento do Brasil”.

O acordo original de adesão entre Brasil e ESO foi assinado nos últimos dias de 2010, pelo então ministro da Ciência e Tecnologia do governo Lula, Sérgio Rezende. Ele previa a entrada do país na organização internacional como membro pleno, a um custo de 270 milhões de euros (mais de R$ 1 bilhão em dinheiro local) parcelados anualmente até o ano de 2021. Parte da negociação previa um desconto para os dois primeiros anos.

Só que levou cinco até que a adesão tramitasse pelo Congresso Nacional, o que se concluiu em maio de 2015 — mais como um desafio à então presidente Dilma Rousseff, já atolada com pautas-bomba e uma economia em frangalhos. Claro que ela não deu a canetada final para fazer valer o acordo internacional. Tampouco o presidente Michel Temer, após herdar a caneta.

Enquanto isso, ao longo desses oito longos anos, o ESO cumpriu fidedignamente sua parte no combinado, mesmo sem a gente pagar nada. Desde 2011, os astrônomos brasileiros têm tido acesso às instalações da organização para realizar pesquisa e empresas brasileiras ganharam o direito de disputar licitações para participar da construção do E-ELT, o telescópio de próxima geração que o consórcio internacional está construindo no Chile.

As conversas de bastidores entre astrônomos brasileiros e as lideranças europeias eram constrangedoras. “Agora está enrolado por causa do carnaval.” “Puxa, este é ano de eleição, difícil.” “É… tá chegando a Copa do Mundo. O país para.” “Fim de ano é complicado, ninguém fica em Brasília.” “Eita, a crise econômica está deixando o governo sem opções.” “Sabe como é, estamos no meio de um impeachment.” E por aí vai. A paciência do ESO finalmente acabou.

Indicando que a finalização do Acordo de Adesão provavelmente não acontecerá no futuro próximo, o Conselho do ESO decidiu suspender o processo até que o Brasil esteja em posição de completar a execução do Acordo de Adesão, possivelmente por meio de uma renegociação. Com o apoio unânime de todos os seus Estados Membros, o ESO permanecerá aberto a receber o Brasil a qualquer momento. Enquanto isso, os arranjos de ínterim serão suspensos a partir de 1º de abril de 2018.

A data é mais que propícia para a suspensão, uma vez que a palavra empenhada do Brasil em acordos internacionais vale menos que uma nota de três reais.

Tecnicamente, o ESO não nos expulsou — apenas suspendeu nossa participação até que paremos com a palhaçada. Mas, para bom entendedor, meia, certo? Estamos oficialmente fora do consórcio, pelo menos até voltarmos à mesa e falarmos sério — provavelmente com um cheque na mão.  O que vai acontecer exatamente nunca.

A entrada do Brasil no ESO caminha para terminar da mesma maneira que a participação nacional na Estação Espacial Internacional. Repare na semelhança do roteiro. Em 1997, o Brasil assina participação na ISS. Nasa cumpre desde já suas obrigações e passa a treinar, em 1998, o astronauta brasileiro, enquanto aguarda a produção dos seis componentes para o complexo orbital designados ao Brasil. Seguem-se anos de enrolação e conversa mole. Em 2005, o governo brasileiro decide pagar aos russos para levarem seu astronauta à estação espacial, sem no entanto cumprir sua parte com a Nasa, mesmo depois de sucessivas renegociações e reduções de escopo da participação nacional. Em 2007, a agência espacial dos EUA perde a paciência e repassa as obrigações do Brasil à indústria americana. A exemplo do que aconteceu agora com o ESO, nunca houve cancelamento formal do acordo entre Brasil e EUA, assinado pelos presidentes de cá e de lá. Apenas o comunicado ao Brasil de que “não precisa mais” e o sumiço da bandeira brasileira na ISS. Pode esperar o sumiço da bandeira brasileira do site do ESO lá para 1º de abril.

É constrangedor. Como brasileiro, sinto-me envergonhado. E volto a repetir algo que já falei antes: não se trata de avaliar o custo-benefício de tais acordos, seja o da estação, seja o do ESO. Essa é uma discussão que precisa acontecer antes de qualquer acerto internacional. O real problema é que quando um presidente da República ou um ministro de Estado assina um acordo, é a palavra do país que está empenhada ali. A nossa palavra, por meio de nossos representantes legalmente constituídos. Mas a palavra do governo brasileiro — anteontem, ontem, hoje e provavelmente amanhã também — vale tanto quanto uma promessa do Zé Carioca.

Se algum país quiser minha opinião sobre como é fazer negócios com o Brasil, minha resposta honesta é: “Nem tente.” E isso é muito triste e embaraçoso para todos os brasileiros que sonham em construir um país sério, próspero e justo, independentemente de quem é o ESO ou a ISS da vez.]

Mensageiro Sideral by Salvador Nogueira ,

“Christian Dunker: ‘Nova biografia investe violentamente contra imagem de Freud’”

Freud.jpg[Acaba de ser lançada uma nova biografia de Sigmund Freud, escrita por Frederick Crews: Freud: The Making of an Illusion (algo como “Freud: a criação de uma ilusão”, ainda sem versão em português).

Focando nos anos de juventude (1884-1900), o autor investe violentamente contra a imagem de Freud, retratado mais uma vez como um egoísta, preconceituoso, desonesto, e novidade, infiel. O texto pretende abalar a comunidade de psicanalistas adoradores do mito fundador da psicanálise e dos seus crentes incautos.

Mas qual seria o interesse de mais uma biografia mostrando que Freud está morto e que a psicanálise é uma fraude anticientífica?

Durante os anos 1990, Crews reuniu uma série de críticas que vinham sendo feitas contra a psicanálise no que ficou conhecida como a “Guerra a Freud”. Tais críticas tinham três procedências: (1) a psicanálise não se enquadra nos critérios propostos por Karl Popper, em 1963, para demarcar o que é uma ciência (2) ela não oferece evidências empíricas de sua eficácia terapêutica, posto que os casos clínicos escritos por Freud apresentassem incorreções e imprecisões, quando comparados com os relatos históricos colhidos junto a ex-pacientes (às vezes 50 anos depois do tratamento) e (3) os conceitos e hipóteses psicanalíticas não são expostos em uma boa forma lógica e não são passíveis de uma prova extra clínica.

O novo livro de Crews acrescenta a estes argumentos uma nova perspectiva: além de tudo, Freud seria um mau caráter, que mantinha relações sexuais com a cunhada. Portanto, seus “maus modos científicos” eram apenas um extensão de sua pessoa desonesta e imoral.

Neste contexto, parece justo aplicar ao próprio Crews os critérios que ele usou para avaliar Freud, certo?

Crews não tem nenhuma formação em teoria da ciência, metodologia ou epistemologia. Como crítico literário, de prestigiadas universidades americanas, agora aposentado, Crews nunca viu um paciente, não tem experiência em psicopatologia, nem qualquer tipo de prática clínica. Menciono isso para que o leitor perceba o quão frágil é o argumento de desqualificar a vida ou os créditos de alguém para tentar derrubar suas ideias. Afinal, uma crítica pode ser boa, mesmo não tendo sido feita por uma autoridade especialista na matéria.

Em 1995, Crews editou um livro chamado A Batalha da Memória, no qual acusava a psicanálise de estar por trás de uma série de processos jurídicos movidos por pacientes contra seus familiares, incentivados por terapeutas, que os “forçavam” a criar falsas memórias de abusos sexuais infantis. Crews foi insensível à constatação de que tais terapeutas não eram psicanalistas, de que não é assim que a psicanálise lida com o abuso infantil (incriminando retrospectivamente os pais) e ao fato que as associações de psicanálise repudiaram este tipo de “terapia indutora de memórias”. O argumento de Crews insistia que a psicanálise era responsável por este mito cultural do abuso traumático de crianças.

Por motivos análogos, Crews intercedeu contra a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, adiando em um ano a exposição sobre o material ali depositado sobre o criador da psicanálise. Certo ou errado, Freud teria sido importante para a cultura ocidental, mas Crews o considera indigno de memória. Muitos veriam aqui traços da mesma desonestidade intelectual de que ele acusa Freud. Procedimento semelhante se encontrará em O Livro Negro da Psicanálise (2005), nas afirmações de Onfray ou no livro de Sokal e Brickman sobre “Imposturas Intelectuais”.

Declarações pirotécnicas são fáceis de fazer. Discussões entre teóricos universitários são chatas e complicadas, cheias de inconclusividades, envolvendo, por exemplo, as famosas 300 páginas de evidências clínico-empíricas produzidas pelos psicanalistas em revistas científicas (sim, um pesquisador deu-se ao trabalho de chegar nesta métrica bizarra). Lembremos que “tamanho não é documento” vale para documento científico também.

Nos anos 1960, Crews usou a psicanálise como um método de crítica literária. Ora, Freud jamais autorizou ou estimulou um procedimento psicobiográfico deste tipo. Como se a grandeza da obra de Shakespeare ou Machado de Assis pudesse ser reduzida à vida que eles levaram (e se, por exemplo, mantinham ou não relações sexuais com a cunhada).

Depois do uso irregular do método psicanalítico, Crews voltou-se contra Freud, remanescendo a prática de fazer anatomia moral do autor para julgar a pertinência de suas ideias.

Dizer que a obra de Freud é melhor ou pior porque se encontrou o registro de uma viagem na qual Mina Bernais teria dividido com ele a intimidade de um quarto de hotel, nos confins da República Tcheca, é muita falta de argumento. A psicanálise merece crítica melhor. Ela existe e está disponível na praça, mas não é tão picante.

Crítica à psicanálise

Vejamos as objeções que Crews comprou de outros autores mais sérios. Nos anos 1990, em meio a descoberta de novos antidepressivos, parecia óbvio que a psicanálise ficaria para trás. Bater em Freud com a vara de marmelo das neurociências era um plano perfeito. Hoje, percebe-se que o efeito de medicações psiquiátricas decresce com o passar do tempo, que faltam marcadores biológicos para os transtornos mentais e que o sonho da felicidade baseada em pílulas científicas está longe de ser realizado (ou, talvez, tenha virado um pesadelo).

Surgiram estudos independentes, feitos por não psicanalistas, mostrando que as psicoterapias psicodinâmicas de longo prazo são bastante eficazes, em muitos casos mais eficazes do que outras psicoterapias. Assume-se que sua combinação com medicação é altamente recomendável para muitas condições. Surgiram provas extra clínicas de que a hipótese do inconsciente é viável conceitualmente. Muitos achados das neurociências corroboram conceitos psicanalíticos (outros não) e a relação entre psicanálise e neurociências é um debate que prospera, com prós e contras, dos dois lados.

Atacar Freud como se a psicanálise tivesse ficado parada em seus modos de pensar e clinicar próprios do seu início é desconhecer os inúmeros avanços e variações que os psicanalistas fizeram depois de Freud. Seria como julgar a cientificidade ou a pertinência da psiquiatria hoje considerando o que ela era no início do século 20.

Finalmente, o problema da demarcação de uma teoria como científica, o tipo de evidência e a teoria da prova requerida por uma disciplina é cada vez mais definido por aquela área. Alguns argumentam que a psicanálise compreende não uma, mas várias ciências, misturando técnicas e métodos muito diferentes entre si. O modelo baseado em uma única estratégia de fundamentação, análogo ao da física, acaba deixando demasiadas ciências fora do crivo.

Não podemos ignorar que o escândalo da falta de cientificidade parece ter migrado para a própria psicologia científica empírica, quando veio à luz que mais de 60% dos experimentos nesta área não eram capazes de confirmar seus dados (isto é, refaz-se o experimento e ele produz um resultado diferente). Neste aspecto, a psicanálise tem desenvolvido várias considerações sobre os limites e particularidades de sua relação crítica com a ciência.

Portanto, ao que tudo indica, o “novo” trabalho de Crews é apenas uma versão requentada, e mais raivosa, feita para aproveitar a controvérsia em torno do ressurgimento da psicanálise. É um trabalho que destoa das sete ou oito biografias de Freud disponíveis em português ao criar um Freud pérfido e devasso, ainda que palatável para o sabor dos tempos de fakenews e pós-verdade.

Se antes Freud estava morto, agora ele parece ter voltado como um zumbi para atormentar ainda mais o sono e a insônia dos que estão atormentados com a cama alheia.]

Christian Dunker é psicanalista e coordenador do Instituto de Psicologia da USP e autor, entre outras obras, de  Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano (2017, Ubu)

Link para o texto original Revista Cult.

“O direito vencendo a ciência!”

Renato
Créditos da foto: Valter Campanato/Agência Brasil – CartaMaior

[Praticamente não existem ciências humanas antes do século XIX. Quer dizer que sociologia, antropologia, ciência política, psicologia e mesmo história, como ciências, têm no máximo duzentos anos. Houve precursores, mas essencialmente o que hoje conhecemos do ser humano é obra recente. Os avanços nessas áreas foram notáveis.

Acontece que, quando você estuda o indivíduo ou a sociedade, você está envolvido no estudo. Podemos ser mais objetivos quando tratamos de física ou química, mas no caso do ser humano nossos interesses ou desejos se envolvem. E isso traz pelo menos um resultado positivo: quem estuda o ser humano, na maior parte dos casos, quer melhorar a vida de nossa espécie. Haverá divergências sobre o que é melhor para nós, mas a vontade de melhorar será forte. Quem usou as ciências humanas para o racismo acabou no lixo da História.

Isso levou muitos cientistas humanos a se tornarem militantes, sem com isso perderem o rigor científico. Antropólogos, por exemplo, defendem direitos de indígenas, negros e de minorias em geral. E por aí vai.

O problema é que, de um tempo para cá, esse ativismo levou alguns a negarem o próprio espirito científico. Vejam Freud: sua principal batalha foi contra a moral, se quiserem, contra o moralismo. Ele revelou a força de pulsões sexuais que, para sua época, eram algo proibido, de que não se falava. (Agatha Christie, em seus primeiros romances, chega a contar que uma moça em começos do século XX perderia a reputação se a vissem sair de um… banheiro).

Acontece que hoje falar, cientificamente, de certos assuntos suscita, em vários meios, uma reação estranha: é como se a simples menção de algo imoral representasse a defesa dessa imoralidade. Pego diretamente uma declaração de uma signatária do manifesto em defesa da cantada (não do assédio!) assinado por cem francesas, e que afirmou que uma mulher pode gozar durante um estupro. Ela disse que pode gozar, não que goza. No entanto, o que ela disse foi entendido como defesa do estupro. (Não confundi-la com outra que disse que queria ter sido estuprada. São duas declarações bem diferentes). O que ela disse foi infeliz, mas quando se vai estudar a sério a sexualidade o que se descobre pode não agradar aos bons costumes, nem aos antigos da opressão e da repressão, nem aos modernos, da igualdade e do respeito ao outro (e à outra).

E aqui temos o abismo entre a militância e a ciência. O conhecimento científico não pode ter barreiras. Ele lida com o horror, eventualmente. Mas sem se conhecer o que há de pior não se conhece o ser humano. Não há ciência sem a disposição de suspender o juízo moral para se conhecer. Mesmo que nosso objetivo seja combater o horror – no caso, o abuso sexual – precisamos entendê-lo.

Como é justamente no que tange o sexo (uso essa palavra de propósito, e não gênero, porque quero enfatizar o lado do desejo, da libido) que há ainda um enorme número de abusos e de preconceitos, o que pretendo enfatizar é simples: conhecer as causas ou as razões de um processo não significa elogiá-las. Não significa tomar o partido delas.

Já vi muita gente criticando quem procurava ver, em nosso sistema eleitoral, o que favorece a corrupção. Recusavam a ideia mesma de que a corrupção tivesse causas; para eles, decorria apenas da desonestidade pessoal. Por isso, paradoxalmente, repudiavam qualquer reforma que tornasse mais honesto o sistema, alegando que a pessoa é honesta ou não, como se as circunstâncias não jogassem nenhum papel. (Se houver um sistema em que seja francamente prejudicial respeitar as regras do jogo, elas tenderão a ser desrespeitadas. Imaginem-se num congestionamento na estrada, com motoristas ultrapassando pelo acostamento. Conheço gente corretíssima que, depois de meia hora se sentindo otária, adere à ilegalidade.). Pois bem, conhecer as causas – das ilegalidades pequenas, dos abusos e problemas sexuais, da corrupção e da violência – exige muitas vezes lidar com o que chamarei, para simplificar, gradações do Mal. Pois sem conhecê-lo não há avanço científico.

Ninguém coloca essa questão quando se pesquisam as causas de uma doença. Se um médico descobre o que causa uma gripe, ou um câncer, alguém o acusará de estar defendendo a moléstia em questão? Mas é o que muitos fazem quando se investiga o que causa condutas humanas desaprovadas.

E é por isso que o direito, o melhor direito mesmo, a defesa das causas “do bem”, vai se intrometendo em áreas que não são dele. Vai aplicando uma série de normas, corretas, justas, do bem, mas que por vezes negam até a possibilidade de estudar fenômenos constatados. O que acaba sendo um tiro no pé. Se não soubermos o que anda na cabeça do pior criminoso, como poderemos enfrentar as causas do crime?]
Por Renato Janine Ribeiro – páginaB! In Carta Maior.

 

“Marxismo, linguagem e discurso”

[Apresentação

Linguagem
Reprodução

Há tempos as classes dominantes dispõem de uma considerável clareza acerca do papel exercido pela língua nos processos de assujeitamento. Nesse sentido, é elucidativa uma passagem do texto de instituição do Diretório dos Índios, de 1755, que diz o seguinte:

Sempre foi máxima inalteradamente praticada em todas as nações que conquistaram novos Domínios introduzir logo nos Povos conquistados seu próprio idioma, […] um dos meios mais eficazes para desterrar dos Povos rústicos a barbaridade de seus antigos costumes; e ter mostrado a experiência que ao mesmo passo que se introduz neles o uso da Língua do príncipe que os conquistou, se lhes radica também o afeto, a veneração, e a obediência ao mesmo Príncipe.

É justamente no século XVIII, com a reconfiguração e centralização do domínio português no continente americano (com destaque para as reformas pombalinas), que a diversidade linguística existente começa a ser estrategicamente combatida, incluindo-se aí a língua tupi (a “língua geral” paulista), gramatizada no final do século XVI pelo padre Anchieta visando à evangelização dos indígenas e a sobrevivência dos enclaves europeus, como também o quimbundo, proveniente de Angola e gramatizado na Bahia pelo padre Pedro Dias no final do XVII com vistas a facilitar o assujeitamento dos africanos escravizados [1]. Por certo e por sorte, a imposição e manutenção de uma língua do Estado não é apenas uma forma de radicar afeto, veneração e obediência às classes dominantes, permitindo também intercâmbios, aquisições e resistências simbólicas variadas dos dominados, como a possibilidade de simular, confundir, ofender e ridicularizar o dominante em sua própria língua!

O ideal do monolinguismo no Brasil chegou pela imposição de uma língua imaginariamente fechada e unitária que asseguraria a integridade dos vastos povos e territórios na América enlaçados nos domínios lusitanos. Esquecidos os propósitos originais, esse imaginário sobre a língua segue servindo na luta das classes dominantes contra os modos de falar das maiorias, em prol de seu silenciamento, e, mais recentemente, como elemento ideológico e político do sub-imperialismo brasileiro, supostamente preocupado com os estrangeirismos e uma presumida desvalorização de nossa língua [2].

Esse fenômeno não é uma peculiaridade da formação social brasileira, e não por acaso, em Sobre o Marxismo em Linguística, Josef Stálin (1950) afirma que a língua russa (como a ucraniana, a tártara, a bielorrussa etc.) não teria sofrido nenhuma modificação séria com o desenrolar do processo revolucionário. Françoise Gadet e Michel Pêcheux (em A língua inatingível, de 1981) mostram que tanto a revolução de 1789 quanto a de 1917 implicaram em profundas transformações nas línguas efetivamente faladas na França e na Rússia. Quando as massas em revolução “tomam a palavra”, passando a falar em seu próprio nome, uma profusão de neologismos e transformações sintáticas induzem na língua uma mexida comparável àquela que os poetas realizam, ainda que em menor proporção.

Na Rússia, os novos funcionamentos linguísticos desencadeados pela proliferação de formas metafóricas, slogans, palavras de ordem, siglas, jogos de palavras,… tudo isso foi sendo paulatinamente freado e domesticado em meio à burocratização e às seguidas “depurações ideológicas” do processo revolucionário: “O pássaro de fogo caiu no quotidiano dos utensílios de cozinha”, escreveu Maïakovski, que, assim como os jovens poetas Blok, Khlebnikov e Essenin, e o escritor Zamiatin, não viveria o suficiente para ver o desfecho da revolução nos anos 1930. A partir daí advém um processo de despolitização das artes (e da sociedade), que dará vazão a uma espécie de neo-classicismo proletário, em que a emoção psicológica, o pitoresco simbólico e o realismo reaparecem, agora pintados de vermelho (Gadet e Pêcheux, op.cit., p. 88). Eliminadas, em tese, a burguesia e a exploração, erigido um Estado de todo o povo, vivendo-se em uma ordem social sem classes hostis e sem contradições (no máximo, “dificuldades de organização”), a revolução poderia então vir de cima segundo Stálin.] ler mais

Textos diversos sobre marxismo e linguagem

Ana Zandwais. Contribuições de teorias de vertente marxista para os estudos da linguagem.

Carlos Henrique Escobar. Introdução ao livro Semiologia e linguística hoje.

Florence Carboni e Mário Maestri. A Linguagem Escravizada

Maurício José d’Escragnolle Cardoso. Sobre a teoria do valor em Saussure, Marx e Lacan.

Nelson Barros da Costa. Contribuições do Marxismo para uma Teoria Crítica da Linguagem

Nildo Viana. Discurso e Poder

________, Linguagem, poder e relações internacionais.

Sírio Possenti. Resenha de Linguística Chomskyana e ideologia social.

Adam Schaff. A gramática generativa e a concepção das ideias inatas.

Adam Schaff. Lenguage y Conocimiento.

Eliseo Verón. Ideología y comunicación de masas: La semantización de la violencia política.

_________,  Semiosis de lo ideológico y del poder.

_________, Discurso-Ideologia e Sociedade

Ferruccio Rossi-Landi. A linguagem como trabalho e como mercado

Françoise Gadet. 1977: Em Torno de Um Momento-chave do Surgimento da Sociolinguística na França

Jean-Pierre Faye. La crítica del lenguage y su economia.

Jean-Pierre Faye. Introdução às Linguagens Totalitárias.

Julia Kristeva. As epistemologias da linguística.

Paul Lafargue. La langue française avant et après la Révolution.

Serge Latouche. Linguística e economia política.

Trân Duc Thao. Estudos sobre a origem da consciência e da linguagem

  1. Os estudos de linguagem na União Soviética e o Círculo de Bakhtin

Ana Zandwais. Formas de apropriação de concepções de Bakhtin/Volochinov por estudos acadêmicos europeus contemporâneos 

Ana Zandwais. O funcionamento da subjetividade: um contraponto entre estudos comparatistas e a filosofia da linguagem russo-soviética. 

Ana Zandwais. O papel das leituras engajadas em Marxismo e Filosofia da Linguagem. http://conexaoletrasufrgs.com/04/AnaZandwais.pdf

Claudiana Narzetti. A filosofia da linguagem de V. Voloshinov e o conceito de ideologia. 

Florence Carboni. Para além do espelho: os problemas das leituras do Círculo de Bakhtin.v http://www.upf.br/seer/index.php/rd/article/view/485/296

Rodolfo Vianna. Marxismo e filosofia da linguagem à luz d’A ideologia alemã http://revistas.pucsp.br/index.php/bakhtiniana/article/download/3368/2238

Craig Brandist. Le marrisme et l’héritage de la Vôlkerpsychologie dans la linguistique soviétique.

Fréderic François. Bakhtin completamente nu.

Iúri Medviédev e Dária Medviédev. O Círculo de M. M. Bakhtin: sobre a fundamentação de um fenômeno.

Mikhail Bakhtin. Estética da criação verbal 

___________. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. 

Patrick Seriot. A Sociolingüística Soviética Era Neo-Marxista?

Serguei Tchougounnikov. O Círculo de Bakhtin e o marxismo soviético: uma “aliança ambivalente” 

Stálin. Sobre o Marxismo na  Linguística  https://www.marxists.org/portugues/stalin/1950/06/20.htm

Valentin Voloshinov. El discurso en la vida y el discurso en la poesía   

Valentin Voloshinov. Marxismo e Filosofia da Linguagem  http://minhateca.com.br/Reinaldo210/Documentos/BAKHTIN/BAKHTIN*2c+Mikhail.+Marxismo+e+Filosofia+da+Linguagem,478819399.pdf

III. Análise do discurso / Michel Pêcheux

Jaqueline Wesselius e Michel Pêcheux. A respeito do movimento estudantil e das lutas da classe operária: 3 organizações estudantis em 1968.

Françoise Gadet e Tony Hak. Por uma Análise Automática do Discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux.

Michel Fichant e Michel Pêcheux. Sobre a História das Ciências

Michel Pêcheux. Semântica e Discurso.

___________, Sobre a (des-)construção das teorias linguísticas

___________, Há uma via para a linguística fora do logicismo e do sociologismo?

____________, Posição Sindical e Tomada de Partido nas Ciências Humanas e Sociais

_____________, Remontemos de Foucault a Spinoza

_____________, El extraño espejo del análisis de discurso.  http://www.magarinos.com.ar/courtine.htm

______________, Delimitações, inversões e deslocamentos.

______________, Ousar pensar e ousar se revoltar. Ideologia, marxismo, luta de classes. http://scholar.oxy.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1072&context=decalages

______________, Análise do discurso: Michel Pêcheux (textos escolhidos por Eni Orlandi)

_______________, Sobre os contextos epistemológicos da AD http://www.labeurb.unicamp.br/portal/pages/pdf/escritos/Escritos4.pdf

_______________, O Discurso: estrutura ou acontecimento. 

Michel Pêcheux e Françoise Gadet. A língua inatingível

Pêcheux e Henry Haroche. A semântica e o corte saussuriano http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao03/traducao_hph.php

Herbert. Observações para uma teoria geral das ideologias.

  1. Confrontos e aproximações entre linhas teóricas

Belmira Magalhães. O sujeito do discurso: um diálogo possível e necessário  http://www.portaldeperiodicos.unisul.br/index.php/Linguagem_Discurso/article/download/247/262

Indursky. Remontando de Pêcheux a Foucault   http://www.ufrgs.br/analisedodiscurso/anaisdosead/1SEAD/Paineis/FredaIndursky.pdf

Gabriela Persio Harrmann. Diálogos possíveis entre o Círculo de Bakhtin e a Análise do Discurso: apontamentos.  http://jararaca.ufsm.br/websites/l&c/download/Artigos11/gabriela.pdf.pdf

Ismael Ferreira-Rosa, Diana Pereira Coelho de Mesquita, Sônia de Fátima Elias Mariano Carvalho. (Re)ler e (res)significar Pêcheux em relação a Althusser  http://seer.fclar.unesp.br/alfa/article/view/4176/3774

Fernando Voss dos Santos. A respeito de Bakhtin e Foucault: aproximações e disparidades entre os conceitos de enunciado.  http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao12/art_04.php

Ludmila Mota de Figueiredo Porto e Maria Cristina Hennes Sampaio. Bakhtin e Pêcheux: leitura dialogada  http://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/polifonia/article/viewFile/619/1112

Maria Virgínia Borges Amaral.  Ideologia e discurso: aproximações da análise do discurso das teorias de Lukács e Bakhtin   http://online.unisc.br/seer/index.php/signo/article/view/522/352

Maria do Socorro Aguiar de Oliveira Cavalcante. O sujeito responsivo / ativo em Bakhtin e Lukács. http://anaisdosead.com.br/2SEAD/SIMPOSIOS/MariaDoSocorroAguiarDeOliveiraCavalcante.pdf

Pedro Guilherme Bombonato. Reflexões sobre ideologia em Pêcheux e Bakhtin http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao05/artigoic_ed05_bombonatopgo.php

Renata Silva. Espacialidade em Bakhtin e Pêcheux: semelhanças e dessemelhanças

Vanice Maria Sargentini. Os estudos do discurso e nossas heranças: Bakhtin, Pêcheux e Foucault. http://www.gel.org.br/estudoslinguisticos/edicoesanteriores/4publica-estudos-2006/sistema06/vmos.pdf

Pedro Karczmarczyk. La relevancia de Wittgenstein para una teoría materialista del discurso. https://www.academia.edu/1199591/_La_relevancia_de_Wittgenstein_para_una_teor%C3%ADa_materialista_del_discurso_

Pedro Karczmarczyk. Materialismo, Ideología y Juegos de Lenguage.   https://www.academia.edu/3494290/Materialismo_ideolog           %C3%ADa_y_juegos_de_lenguaje

  1. Questões sobre a análise do discurso

Ana Cleide Chiarotti Cesário e Ana Maria Chiarotti Almeida. Discurso e ideologia: reflexões no campo do marxismo estrutural 

Ana Zandwais. Como os domínios da filosofia da linguagem e da semântica contribuíram para delimitar o objeto da Análise do Discurso.  http://www.abralin.org/revista/RVE2/2v.pdf

Belmira Magalhães. Ideologia, sujeito e transformação social. 

Claudiana Nair Pothin Narzetti Costa. A formação do projeto teórico de Michel Pêcheux:  de uma teoria geral das ideologias à análise do discurso  http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/93964/narzetti_cnp_me_arafcl.pdf?sequence=1&isAllowed=y

Edmundo Narracci Gasparini. Língua e la langue na análise do discurso de Michel Pêcheux  http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000784368

Eni Orlandi –A Análise de Discurso em suas diferentes tradições intelectuais: o Brasil f

Eni Orlandi. Análise de Discurso: princípios e procedimentos.

Fábio Ramos Barbosa Filho. Althusser, Pêcheux e as estruturas do desconhecimento.

Gílber Martins Duarte. O marxismo revolucionário constitutivo da teoria de Michel Pêcheux  https://socialistalivre.wordpress.com/2013/12/13/o-marxismo-revolucionario-constitutivo-da-teoria-discursiva-de-michel-pecheux-2/

Gisele Toassa, Relações entre comunicação, vivência e discurso em Vigotski: observações introdutórias

__________, Conceito de consciência em Vigotski

Helson Flávio da Silva Sobrinho. Análise do Discurso e a insuportável luta de classes na teoria e na prática.

Helson Flávio da Silva Sobrinho. O Analista de Discurso e a Práxis Sócio-Histórica: um gesto de interpretação materialista e dialético.   http://seer.ufrgs.br/index.php/conexaoletras/article/view/55120

João Marcos Mateus Kowaga. Por uma arqueologia da análise do discurso no Brasil  http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/100084/kogawa_jmm_dr_arafcl.pdf?sequence=1

Lauro Siqueira Baldini e Mónica Zoppin-Fontana. A Análise do Discurso no Brasil. 

Luciana Nogueira e Mariana Jafet Cestari. Análise de Discurso e militância política 

Luís Fernando Figueira Bulhões. O althusserianismo em linguística. http://repositorio.ufu.br/handle/123456789/3090

Luís Fernando Figueira Bulhões. Há uma via para a Análise de discurso fora da gramaticalização e da desmarxização?  http://anaisdosead.com.br/6SEAD/SIMPOSIOS/HaUmaViaParaAAnalise.pdf

Maria Virgínia Borges Amaral. O marxismo da Análise do Discurso: a teoria materialista/revolucionária de Michel Pêcheux 

Maurício Beck e Phellipe Marcel Esteves. O sujeito e seus modos http://www.seer.ufal.br/index.php/revistaleitura/article/view/1152

Maurício Beck e Amanda Eloina Scherer. As Modalidades Discursivas de Funcionamento Subjetivo e o legado marxista-leninista.   http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/letras/article/view/11986

Mónica Zoppi-Fontana. Objetos paradoxais e ideologia http://www.estudosdalinguagem.org/ojs/index.php/estudosdalinguagem/article/view/8/12

Mónica Zoppi-Fontana. Althusser e Pêcheux, um encontro paradoxal. http://seer.ufrgs.br/index.php/conexaoletras/article/view/55118

Roberto Leiser Baronas. Efeito de sentido de pertencimento à Análise de Discurso http://www.ufrgs.br/analisedodiscurso/anaisdosead/2SEAD/SIMPOSIOS/RobertoLeiserBaronas.pdf

Rodrigo Oliveira Fonseca, Maurício Beck e Phellipe Marcel da Silva Esteves. O marxismo de Michel Pêcheux. http://www.ifch.unicamp.br/formulario_cemarx/selecao/2012/trabalhos/7288_Fonseca_Rodrigo.pdf

Rodrigo Oliveira Fonseca. Michel Pêcheux e a crítica aos recalques da história e da língua

Rodrigo Oliveira Fonseca. Uma pedagogia discursiva contra-hegemônica. 

Suzy Lagazzi. Em torno da prática discursiva materialista

Dossiê El discurso político. Reúne os trabalhos apresentados em um colóquio internacional no México, em 1978, com expoentes da Análise do Discurso: Pêcheux, Guespin, Marcellesi, Verón, Robin e outros.       https://www.dropbox.com/s/n6qa40m3vht3t8c/El%20DISCURSO%20POL%C3%8DTICO%20%20-Mario%20Monteforte%20Toledo.pdf?dl=0

Dossiê Revista Décalages

Dossiê Revista Signo y Seña: Análisis del Discurso en Brasil: teoría y práctica. 

Jean-Jacques Courtine. O discurso inatingível: marxismo e linguística (1965-1985).  http://pt.scribd.com/doc/268029163/COURTINE-J-J-O-Discurso-Inatingivel-Marxismo-e-Linguistica#scribd

Pedro Karczmarczyk. Discurso y subjetividad. Michel Pêcheux: hacia una teoría de las garantías ideológicas  

Thierry Guilbert. Pêcheux é reconciliável com a Análise do Discurso? http://www.uesc.br/revistas/eidea/revistas/revista4/eidea4-11.pdf

  1. Análises

Belmira Magalhães. Na fala da vítima o discurso opressor.   http://www.anpoll.org.br/revista/index.php/revista/article/view/490/500

Belmira Magalhães e Helson F. da Silva Sobrinho. Práticas sociais, discurso e arquivo: a mídia e os gestos de leitura subjacentes. 

Fábio Tfouni – Memória e fetichização da mercadoria   http://seer.ufrgs.br/index.php/organon/article/view/30019

Freda Indursky – Lula lá: estrutura e acontecimento  http://seer.ufrgs.br/index.php/organon/article/view/30020/18616

Helson Flávio da Silva Sobrinho. Discurso, velhice e classes sociais: a dinâmica contraditória do dizer agitando as filiações de sentidos na processualidade histórica.  https://www.dropbox.com/sh/lr70wienqxhxuh3/AADwtsWtZ8BHYlohyvPbWF_Da/Discurso%2C%20Velhice%20e%20Classes%20Sociais%20Helson%20Sobrinho.pdf?dl=0

Maria Emília Amarante Torres Lima. A nação e a noção de povo dos discursos de Getúlio Vargas. 

Maria do Socorro Aguiar de Oliveira Cavalcante. Mobilidade do sujeito e dos sentidos no espaço político: processos de identificação/desidentificação http://seer.ufrgs.br/index.php/conexaoletras/article/view/55123/33523

Maria do Socorro Aguiar de Oliveira Cavalcante, Fabiano Duarte Machado
“O rugido das ruas” em 15 de março de 2015, no Brasil: acontecimento, discurso e memória.

Maria Virgínia Borges Amaral. O invisível da responsabilidade social na estrutura polêmica do discurso  

Maria Virgínia Borges Amaral. A unicidade em tempos de guerra: os sentidos dos discursos da gestão empresarial.  

Maria Virgínia Borges Amaral. Evidencias de responsabilidade no discurso do pacto global. 

Mónica Zoppi-Fontana. Identidades (in)formais: contradição, processos de designação e subjetivação na diferença   http://www.seer.ufrgs.br/organon/article/download/30027/18623

Solange Mittmann – Funcionamentos discursivos de saturação e omissão na notícia em rede   http://seer.ufrgs.br/organon/article/view/31364/19482

Rodrigo Oliveira Fonseca (UFSB),  in Marxismo21

[1] Ver Bethania Mariani, Colonização Linguística: línguas, política e religião no Brasil (séculos XVI a XVIII) e nos Estados Unidos da América (século XVIII). Campinas: Pontes, 2004; e Florence Carboni e Mário Maestri, A linguagem escravizada: língua, história e luta de classes. São Paulo: Expressão Popular, 2003.

[2] Ver, de minha autoria, o texto Sonhos com a língua portuguesa, onde discuto os propósitos de Aldo Rebelo e Nizan Guanaes ao defenderem, cada um a seu modo, a língua portuguesa. Em http://resistir.info/brasil/lingua_portuguesa.html