Revelações da CIA não trazem novidades e não devem mexer com a corrida eleitoral

Ernesto
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As revelações de documentos da CIA (a agência norte-americana) a respeito da responsabilidade do ditador Ernesto Geisel na eliminação de opositores e adversários da ditadura militar não deveriam surpreender ninguém.

Olhando-se pelo prisma da prática repressiva, a ditadura militar brasileira fez um trabalho “perfeito”, tanto que praticamente aniquilou com facilidade e rapidamente os opositores e as guerrilhas rural e urbana, como ainda teve tempo de exportar mecanismos repressivos para países vizinhos – na Operação Condor.

Seria inimaginável, isso sim, que Geisel ou outros ditadores quaisquer não tivessem conhecimento do que ocorria nos chamados “porões da ditadura” e a eles não dessem aval e ordens.

Nesse sentido, é irrelevante o que publicou a Folha de São Paulo, há alguns anos, denominando a ditadura brasileira de “ditabranda” – um neologismo ridículo e provinciano, usado para fazer comparações impróprias com o que ocorreu no Chile, na Argentina e no Uruguai.

Portanto, não creio que, como muito gente está açodadamente já dizendo e escrevendo, a revelação vá servir para desmoralizar o jornal paulista, que cometeu a temeridade de dizer essa estupidez.

Há também, e isso até mesmo dentro da “grande imprensa”, quem veja no fato um detonador para a campanha de Jair Bolsonaro.

Aqui igualmente trata-se de um açodamento bobo e infantil.

Na prática, porém, o fato não deve mexer com um ponto sequer nas pesquisas de intenção de votos que hoje apontam Bolsonaro como líder – sem o Lula.

Mais provável é que as revelações da CIA venham alavancar a candidatura do parlamentar fluminense ou, na pior das hipóteses, a ele serem indiferentes.

A parcela da sociedade que apoia no parlamentar fluminense almeja isso mesmo: que os “inimigos comunistas” sejam eliminados a qualquer custo.

Se Bolsonaro for “esperto” e ”suficientemente cínico” deverá surfar nessa onda.

As esquerdas, por seu turno, deixaram passar uma oportunidade espetacular no mês de junho de 2013, quando se iniciaram os protestos de rua em São Paulo.

Menosprezaram aquela parcela jovem da sociedade brasileira, estigmatizaram a classe média nacional e o resultado não demorou a aparecer; resultado que deverá ter um desfecho bastante indigesto para as esquerdas nas eleições deste ano, correndo-se, inclusive, o risco de a população nacional eleger exatamente um sujeito como Jair Bolsonaro e um congresso pior do que este que aí está. (MTS)

Um passeio pelo centro de São Paulo é muito ilustrativo e um bocado chocante

Moradores de rua
Foto Obvious (alterada)

Visitar a área central de São Paulo (o centro velho e o centro novo) é uma aventura muito interessante, bastante criativa, um bocado ilustrativa e nada edificante.

Trata-se de uma área muito decadente, apesar dos esforços revitalizadores da antiga prefeita petista Martha Suplicy [1].

Nessas áreas a gente vê incêndios, como o da semana passada, no Paissandu [2], e um número inacreditável de moradores de rua, ou vivendo em situação de rua, como gostam de dizer os puristas do politicamente correto, como se mudanças de denominações fossem alterar alguma coisa, e minimizar o sofrimento dessa gente.

Apenas na capital paulista moram de 20 a 25 mil pessoas (estima-se – são dados do ano passado), mas não se sabe ao certo quantas pessoas estão nessas condições em todo o Estado, a tal da locomotiva que puxa o Brasil (pra onde será?) e o Estado mais rico da federação.

No Brasil todo esse número flagela 101 mil pessoas.

Será que podemos dar um viva ao Capitalismo?

Na minha modestíssima opinião esses números estão todos defasados e são um bocado falsos.

Mas vamos trabalhar com o que temos em nossas mãos.

Estive hoje perambulando pela região do Tietê (pela rodoviária) – que não fica na área central da capital paulista – e pela Luz – área contígua ao centro velho e bastante decadente, talvez a mais decadente de todas as decadências paulistanas.

Não percebi, mas passei, ao lado da estação da Luz, por uma moradora de rua bastante jovem.

Isso é a tal da invisibilidade – passamos por essas pessoas e não as percebemos, ou pior: não queremos vê-las.

Quando voltei, fiquei frente a frente com a jovem que estava sentada no chão e visivelmente drogada. [3]

Ela não me pediu, mas piedosamente dei-lhe um dinheirinho – provavelmente para aplacar a minha vergonha por não tê-la visto.

Foi um tiquinho de nada – um real e pouco – não contei.

Ele me agradeceu educadamente, olhou-me com um sorriso nos lábios e perguntou-me se eu a tinha percebido.

Foi um troço chocante, e sem pieguismo algum deixei escorrer algumas lágrimas.

Mais à frente outra moradora de rua – esta negra.

Ela não me viu, pois estava entretida em tossir.

Não sei distinguir uma tosse da outra (tosse é um sintoma), mas me ocorreu que ela pudesse estar tuberculosa, coisa muito comum no meio dessa gente abandonada e submetida a todo tipo de atrocidades não apenas por parte da população, mas também da polícia que deveria zelar por suas seguranças – vulneráveis que são elas.

Tenho observado um número crescente de moradoras de rua, qual seja, de mulheres, coisa que não se via há algum tempo, ou eu, desavisadamente, não conseguia perceber.

Só nesse trajeto da Luz encontrei, como disse acima, duas; aqui em Cotia já contei algumas e. em Brasília, várias.

Sinceramente já pensei em morar com essa gente, pelo menos por algum tempo.

Nunca fiz isso e provavelmente nunca farei.

Creio que não tenha mais resistência para esse tipo de jornada.

De agora em diante só fico com o meu obsoleto papelzinho de pequeno burguês contrito hipocritamente com a condição a que estão submetidos moradores e moradores de rua de São Paulo, do Brasil e do mundo.

Isso, reconheço, é um troço bastante cômodo – estupidamente cômodo.

Márcio Tadeu dos Santos

Notas

[1] Marta Suplicy foi prefeita de São Paulo de 1º de janeiro de 2001 a 1º de janeiro de 2005;

[2] Desabamento de prédio escancara o apartheid habitacional na cidade mais rica do Brasil – El País

[3] Busquei, por razões obvias, não constranger a jovem, fotografando-a

Onda de violência ultrapassa teses de Jair Bolsonaro e seus seguidores

Bolsobra
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Em estacionamento em frente ao fórum de Cotia um sujeito com cara de advogado (mas não me arrisco a garantir que fosse) tentou enganar a garota que o atendia na recepção.

O argumento dele foi que não demoraria mais que 5 minutos dentro do fórum então  não achava justo pagar pelo serviço.

Conversa mole dele, pois até que estacionasse o veiculo, dele saísse e atravessasse a rua defronte ao fórum ele demoraria, com certeza, mais do que esse tempo.

E mais: o estacionamento onde a moça trabalha não prevê esse tipo de alternativa (a gratuidade). Esse tipo de prática é restrita a supermercados e a shopping center.

Diante da recusa da jovem atendente o suposto advogado passou a ofendê-la, constrangendo-a.

Mas azar do sujeito: outra mulher que acabara de estacionar o seu próprio veículo presenciou a cena e passou ela a hostilizá-lo, argumentando que o suposto advogado só fazia aquilo porque a moça era apenas uma atendente.

O bate-boca entre a mulher e o suposto advogado seguiu acirrado, inclusive com uma ameaça de atropelamento, o que acabou não acontecendo dada a quantidade de testemunhas nas proximidades.

Irritada, a mulher disse que chamaria a polícia para denunciá-lo, o que é provável de ter acontecido, embora eu não tenha testemunhado este fato.

As agressões às mulheres são corriqueira e não poupam, por exemplo, nem mesmo uma delegada de polícia, como foi o caso de Anamelka Cadena, titular do Núcleo de Feminicídio do Piauí, vítima de agressão física e verbal após envolver-se em um acidente de carro na capital do estado (veja, por exemplo, aqui: Delegada relata agressão física após discussão no trânsito em Teresina).

Impossível, portanto, separar esse tipo de acontecimento da (infeliz) tradição machista brasileira, assim como descontextualizá-la do atual momento político-eleitoral brasileiro, quando um dos candidatos a presidente da república, Jair Bolsonaro, não satisfeito em hostilizar e agredir mulheres, mantem essa mesma postura contra homossexuais, indígenas, quilombolas, entre outros.

E mais lamentável ainda: há quem o siga e quem prometa nele votar exatamente por esse tipo de discurso e comportamento.

Marcio Tadeu dos Santos

“O ‘anti-imperialismo’ dos idiotas”

Antiimperial

[Uma vez mais, o movimento “antiguerra” ocidental se despertou para mobilizar-se em torno da Síria. Esta é a terceira vez desde 2011. A primeira foi quando Obama contemplou atacar a capacidade militar do regime sírio (mas não o fez) após os ataques químicos em Ghuta em 2013, considerados uma ‘línha vermelha’. A segunda vez foi quando Donald Trump ordenou um ataque que atingiu uma base militar vazia em resposta aos ataques químicos contra Khan Sheikhun em 2017. E hoje, quando os Estados Unidos, o Reino Unido e a França tomam medidas militares limitadas (ataques seletivos contra os ativos militares do regime e instalações de armas químicas) depois de um ataque com armas químicas em Duma que matou ao menos 34 pessoas, incluídos muitos menores que se refugiavam dos bombardeios nos porões.

O primeiro que devemos ressaltar das três principais mobilizações da esquerda “antiguerra” ocidental é que tem pouco que ver com que se acabe a guerra. Mais de meio milhão de sírios foram assassinados desde 2011. A grande maioria das mortes de civis se produziu mediante o uso de armas convencionais e 94% destas vítimas foram assassinadas pela aliança sírio-russa-iraniana. Não há indignação nem se finge preocupação por esta guerra, que seguiu à brutal repressão do regime contra manifestantes pacíficos e em favor da democracia. Não há indignação quando se lançam bombas de barril, armas químicas e napalm em comunidades democraticamente auto-organizadas ou em hospitais e trabalhadores de resgate. Os civis são prescindíveis; as capacidades militares de um regime genocida e fascista não o são. De fato, o lema “Mãos fora da Síria” realmente significa “Não tocar Assad” e geralmente se brinda apoio para a intervenção militar da Rússia. Isto foi evidente ontem em uma manifestação organizada por Stop the War UK, onde se exibiram vergonhosamente várias bandeiras do regime e russas.

Esta esquerda mostra tendências profundamente autoritárias, aquela que coloca aos próprios estados no centro da análise política. Portanto, a solidariedade se estende aos estados (vistos como o ator principal na luta pela liberação) em lugar de grupos oprimidos ou desfavorecidos em qualquer sociedade, sem importar a tirania desse estado. Cegos à guerra social que ocorre dentro da Síria, os sírios (ali onde existam) são vistos como simples peões em um jogo de xadrez geopolítico. Repetem o mantra ‘Assad é o governante legítimo de um país soberano’. Assad, que herdou uma ditadura de seu pai e nunca realizou, e muito menos ganhou, uma eleição livre e justa. Assad, cujo “exército árabe sírio” só pôde recuperar o território que perdeu graças ao respaldo de uma miscelânea de mercenários estrangeiros e com o apoio de bombas estrangeiras, e que estão lutando, em geral, contra rebeldes e civis nascidos na Síria. Quantos considerariam legítimo a seu próprio governo eleito se começassem a realizar campanhas de violação em massa contra os dissidentes? Tal posição só é possível pela desumanização completa dos sírios. É um racismo que vê aos sírios como incapazes de conseguir, e muito menos de merecer, algo melhor que uma das ditaduras mais brutais de nosso tempo.

Para esta esquerda autoritária, o apoio se estende ao regime de Assad em nome do “anti-imperialismo”. Assad é visto como parte do “eixo de resistência” tanto contra o império estadunidense como contra o sionismo. Pouco importa que o próprio regime de Assad tenha apoiado a primeira guerra do Golfo, ou tenha participado no programa de entregas ilegais dos Estados Unidos onde os supostos terroristas foram torturados na Síria em nome da CIA. O fato de que este regime provavelmente tenha a duvidosa distinção de massacrar a mais palestinos que o estado israelense é constantemente ignorado, como o é o fato de que está mais decidido a utilizar suas forças armadas para reprimir a dissidência interna que a liberar o Golã ocupado por Israel.

Este ‘anti-imperialismo’ de idiotas é um que equipara o imperialismo somente com as ações dos Estados Unidos. Parecem ignorar que os Estados Unidos bombardeou a Síria desde 2014. Em sua campanha para liberar Raqqa do Daesh, abandonaram todas as normas internacionais de guerra e considerações de proporcionalidade. Mais de 1.000 civis foram assassinados e a ONU estima que 80 por cento da cidade seja agora inabitável. Não houve protestos contra esta intervenção de parte das organizações que dirigem o movimento contra a guerra, nem chamadas para assegurar a proteção dos civis ou da infraestrutura civil. Ao invés disso, adotaram o discurso da “Guerra contra o Terrorismo”, outrora domínio dos neoconservadores e agora promulgada pelo regime, de que toda oposição a Assad é terrorismo jihadista. Fizeram vista grossa quando Assad enchia seu gulag com milhares de manifestantes seculares, pacíficos e pró-democracia para matá-los por tortura, enquanto liberava militantes islamistas do cárcere. Do mesmo modo, ignoraram os contínuos protestos em áreas opositoras liberadas contra grupos extremistas e autoritários como Daesh, Nusra e Ahrar Al Sham. Não se considera que os sírios possuam a sofisticação necessária para ter uma ampla gama de opiniões. Os ativistas da sociedade civil (incluídas muitas mulheres surpreendentes), os jornalistas cidadãos e os trabalhadores humanitários são irrelevantes. Toda a oposição se reduz a seus elementos mais autoritários ou é vista como um mero correio de transmissão de interesses estrangeiros.

Esta esquerda pró-fascista parece cega a qualquer forma de imperialismo que não seja de origem ocidental. Combina a política identitária com o egoísmo. Tudo o que acontece se vê através do prisma do que significa para os ocidentais: só os homens brancos têm o poder de fazer história. Segundo o Pentágono, atualmente há ao redor de 2.000 tropas estadunidenses na Síria. Pela primeira vez na história da Síria, os Estados Unidos estabeleceu uma série de bases militares no norte controlado pelos curdos. Isto deveria preocupar a quem quer que apoie a autodeterminação síria, ainda que seja pouco em comparação com dezenas de milhares de tropas iranianas e milícias xiitas respaldadas pelo Irã que agora ocupam grande parte do país, ou os criminosos bombardeios realizados pela força aérea russa em apoio à ditadura fascista. Agora, a Rússia estabeleceu bases militares permanentes no país e lhes outorgaram direitos exclusivos sobre o petróleo e o gás da Síria como recompensa por seu apoio. Noam Chomsky uma vez sustentou que a intervenção da Rússia não podia ser considerada imperialismo porque foi convidada a bombardear o país pelo regime sírio. Segundo essa análise, a intervenção dos Estados Unidos no Vietnã tampouco foi imperialista, convidada como o foi pelo governo sul vietnamita.

Várias organizações pacifistas justificaram seu silêncio sobre as intervenções russas e iranianas argumentando que “o inimigo principal está em casa”. Isto os desculpa de empreender qualquer análise de poder séria para determinar quem são realmente os principais atores que impulsionam a guerra. Para os sírios, o principal inimigo está realmente em casa: é Assad o que comete o que a ONU chamou ‘crime de extermínio’. Sem ser conscientes de suas próprias contradições, muitas das mesmas vozes se proclamaram opostas (e com razão) ao ataque atual de Israel contra manifestantes pacíficos em Gaza. Claro, uma das principais formas em que funciona o imperialismo é negar as vozes autóctones. E assim, as principais organizações ocidentais contra a guerra fazem conferências na Síria sem convidar a nenhum palestrante sírio.

A outra tendência política mais importante por ter apoiado o regime de Assad e organizar-se contra os ataques dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França contra a Síria é a extrema-direita. Hoje, o discurso dos fascistas e estes “esquerdistas anti-imperialistas” é praticamente indistinguível. Nos Estados Unidos, o supremacista branco Richard Spencer, o produtor de podcasts da direita alternativa (alt-right) Mike Enoch, e a ativista anti-imigração, Ann Coulter, se opõem aos ataques norte-americanos. No Reino Unido, o ex-líder do BNP (Partido Nacional Britânico), Nick Griffin, e a islamófoba Katie Hopkins se unem ao clamor. O lugar onde convergem com frequência o alt-right e o alt-left (esquerda alternativa) é em torno à promoção de várias teorias de conspiração para absolver o regime de seus crimes. Afirmam que as matanças químicas são bandeiras falsas ou que os trabalhadores de proteção civil são Al Qaeda e, portanto, objetivos legítimos de ataques. Aqueles que difundem tais informes não estão no terreno na Síria e não podem verificar independentemente o que reclamam. Geralmente dependem dos meios estatais de propaganda russos ou de Assad porque “não confiam na mídia” ou nos sírios diretamente afetados. Às vezes, a convergência destas duas correntes aparentemente opostas do espetro político se converte em uma colaboração aberta. É o caso da coalizão ANSWER, que está organizando muitas das manifestações nos Estados Unidos contra um ataque a Assad. Com frequência, ambas as linhas promovem narrativas islamofóbicas e antissemitas. Ambos compartilham os mesmos argumentos e os mesmos memes.

Existem muitas razões válidas para opor-se à intervenção militar externa na Síria, seja por parte dos Estados Unidos, da Rússia, do Irã ou da Turquia. Nenhum destes estados está atuando no interesse do povo sírio, da democracia ou dos direitos humanos. Atuam unicamente por seus próprios interesses. Hoje, a intervenção dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França não pretendem tanto proteger os sírios das atrocidades massivas mas sim fazer cumprir uma norma internacional de que o uso de armas químicas é inaceitável, por temor a que algum dia se utilizem contra os próprios ocidentais. Mas bombas estrangeiras não trarão paz nem estabilidade. Há pouca intenção de expulsar Assad do poder, o que contribuiria para terminar com a pior das atrocidades. No entanto, ao opor-se à intervenção estrangeira, alguém tem que encontrar uma alternativa para proteger os sírios da matança. É no mínimo moralmente repreensível, esperar que os sírios calem e morram para proteger o princípio superior do “anti-imperialismo”. Os sírios propuseram muitas vezes alternativas à intervenção militar estrangeira, que foram ignoradas. E então fica a pergunta, quando as opções diplomáticas falharam, quando um regime genocida está protegido da censura por poderosos apoios internacionais, quando não se consegue deter os bombardeios diários, pôr fim aos cercos por inanição ou liberar os prisioneiros torturados em escala industrial, o que se pode fazer?

Não tenho respostas. Sempre me opus a toda intervenção militar estrangeira na Síria, apoiei o processo liderado pela Síria para livrar seu país de um tirano e respaldei procedimentos internacionais baseados em esforços para proteger os civis e os direitos humanos e garantir a prestação de contas de todos os atores responsáveis de crimes de guerra. Um acordo negociado é a única maneira de terminar esta guerra e isso ainda parece tão distante como sempre. Assad (e seus protetores) estão decididos a frustrar qualquer processo, buscar uma vitória militar total e esmagar qualquer alternativa democrática que sobreviva. Centenas de sírios estão sendo assassinados todas as semanas da maneira mais bárbara imaginável. Os grupos extremistas e as ideologias estão prosperando no caos criado pelo Estado. Os civis continuam fugindo de milhares a medidas que se implementam como mecanismos legais. Como a Lei Nº 10, para garantir que nunca regressarão a seus lares. O sistema internacional em si mesmo está em colapso sob o peso de sua própria impotência. As palavras ‘Nunca mais’ soam ocas. Não há um movimento popular importante que se solidarize com as vítimas. Ao contrário, são caluniados, seu sofrimento é negado ou objeto de burla, e suas vozes, ausentes dos debates ou postas em dúvida por pessoas que estão longe, que não sabem nada da Síria, da revolução ou da guerra, e que arrogantemente creem que sabem o que é melhor. É esta situação desesperada a que faz com que muitos sírios deem as boas-vindas à ação dos Estados Unidos, Reino Unido e França, e que agora veem a intervenção estrangeira como sua única esperança, apesar dos riscos que sabem que isso implica.

Uma coisa é certa: não vou perder o sono pelos ataques dirigidos contra as bases militares do regime e as fábricas de armas químicas que podem proporcionar aos sírios um breve respiro da matança diária. E nunca serei uma aliada daqueles que põem os discursos rimbombantes acima das realidades vividas, que apoiem regimes brutais em países longínquos, ou que promovam o racismo, as teorias da conspiração e a negação das atrocidades./

Leila Al Shami é uma ativista síria britânica que luta pelos direitos humanos e justiça social na Síria e no Oriente Médio desde 2000. Ela foi membro fundadora da rede Tahrir-ICN, ligada às lutas antiautoritárias em todo Oriente Médio, Norte da África e Europa.

Fonte: https://leilashami.wordpress.com/2018/04/14/the-anti-imperialism-of-idiots/

Tradução: Sol de Abril

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Agência de Notícias Anarquistas (ANA)

“O Maio de 68 e o movimento antiguerra: de Londres a Berlim”

Guerra Fria
Berlim Ocidental era a capital da guerra fria

[Na Grã-Bretanha tínhamos decidido formar uma organização chamada Campanha Solidariedade Vietname (Vietnam Solidarity Campaign, VSC). O estado-maior da VSC tinha sido convidado a enviar um representante para discursar no Congresso sobre a guerra do Vietname, que se realizaria em Berlim Ocidental e que era organizado pela Liga estudantil socialista alemã (Sozialistischer Deutscher Studentenbund, SDS). Foi decidido que eu iria como orador e que estabeleceria contacto com representantes dos movimentos do mesmo tipo que a VSC de outros países da Europa.

O movimento antiguerra crescia em todo o mundo. Personalidades democratas dos Estados Unidos começavam a preocupar-se. Enquanto o presidente Johnson e o seu governo prosseguiam a escalada, um candidato defensor da paz, o senador Eugène MacCarthy, tinha-se declarado a favor de um governo de coligação em Saigão, que incluísse a Frente de Libertação Nacional (FLN), o que teria levado ao colapso imediato da estratégia americana na Indochina. Outros senadores, como Wayne Morse e Fulbright em particular, começavam a revelar publicamente as suas apreensões. Morse declarou que esta guerra era “ilegal, imoral” e que era “uma intervenção militar totalmente injustificada”. Fulbright foi mais comedido, mas usou a sua autoridade como presidente do poderoso comité do Senado para os Negócios Estrangeiros para contestar a versão oficial do que estava a acontecer no Vietname do Sul.

Berlim Ocidental era a capital da guerra fria. Alguns anos antes, a realização nesta cidade de um Congresso pelo Vietname seria impensável. No entanto, os acontecimentos de 1967 tinham modificado algumas atitudes. A esmagadora maioria da população era fortemente proamericana, mas uma parte crescente da população tinha rompido com a ideologia dominante. Em 1967, tinha sido organizada pela SDS em Berlim Ocidental uma manifestação contra a visita do xá do Irão, chefe de um regime torcionário que assentava numa polícia secreta, a SAVAK, cujos chefes se gabavam de constituir a rede de repressão mais eficaz desde o desaparecimento da Gestapo.

Oposição à guerra

A polícia recebeu ordem para limpar as ruas e difundiu uma mensagem a dizer que “dois polícias tinham sido agredidos”. Era uma mentira que conduzia inevitavelmente à violência. Um membro da SDS, Benne Ohnesborg, recebeu golpes terríveis e caiu, semi-inconsciente, no pavimento. Enquanto jazia, chegou outro polícia e matou-o a tiro. O presidente da câmara de Berlim Ocidental, um certo Sr. Alberts, ficou profundamente chocado pelo acontecimento e foi ouvir a falsa mensagem de rádio. Deu a conhecer publicamente o seu desacordo, o que era um suicídio político. Foi substituído por um social-democrata insípido chamado Schultz, mas toda a gente em Berlim sabia que o poder estava, de facto, nas mãos do senador Neubauer, responsável pela Administração Interna, que a SDS acusava de ser um “nacional-socialista”. De um autoritarismo extremo, ele estava na extrema-direita do partido social-democrata alemão (SPD).

Foi isto que soube quando cheguei a Berlim em fevereiro para falar no Congresso1.

Fui diretamente para o Clube republicano onde conheci os dirigentes berlinenses da SDS, que me informaram da situação local. A administração social-democrata Schultz-Neubauer proibiu a manifestação prevista, usando o argumento da ameaça à ordem pública. O plano era marchar sobre o setor da ocupação americana e manifestar a nossa oposição à guerra. Em resposta, Schultz tinha declarado que a sua polícia “limparia as ruas com uma vassoura de aço”. A tensão estava ao rubro, enquanto se esperava pela decisão a tomar pelo estado-maior da SDS. Iam desafiar a proibição ou não? Se o fizessem, não havia dúvida que se tornaria uma situação violenta e sangrenta. Os estudantes estavam em cólera. A ferida provocada pelo assassinato de Ohnesborg ainda estava aberta e muitos falavam de vingança. Da minha parte, não tinha percebido que uma manifestação estava planeada e ainda menos que tinha sido proibida.

Proibição

Enquanto escutava o debate – que me era traduzido em simultâneo, por Elsa, favorável à anulação da proibição e que não estava nada inclinada a traduzir de forma entusiasta as posições contrárias; estes últimos aperceberam-se disso e juntaram outra pessoa, partidária do seu ponto de vista – os dirigentes da SDS entraram e apresentaram-se. Eram três: Rudi Dutschke, que tinha deixado Berlim Leste e estudava teologia; Gaston Salvatori, sobrinho do chileno Salvador Allende, estudante em Berlim; e Karl Dietrich Wolf, de Frankfurt.

Levaram-me à parte, para uma sala ao lado, para me explicar a gravidade da situação. Um debate clandestino, que eu desconhecia, abriu-se então. Seria necessário apelar para os tribunais de Berlim Ocidental para pôr em causa a proibição ou então seria considerada como uma capitulação face às instituições que se queria derrubar? Já me tinha recusado a ser arrastado para esse debate da proibição, declarando que para mim era uma questão puramente tática que só poderia ser decidida pelo próprio Congresso. Não houve contestação neste ponto, mas perguntaram-me qual seria a minha proposta. Expliquei gentilmente que não diria nada, dada a minha ignorância de muitas coisas sobre a situação em Berlim Ocidental e que essa seria também, sem dúvida, a atitude da maior parte daqueles que vieram de fora.

Quanto ao recurso aos tribunais, não tinha dúvidas: era preciso um advogado que avançasse um processo contra a administração local. Eles trocaram olhares e sorrisos. Dutschke concordou plenamente comigo. Os outros não disseram nada. No dia seguinte, na abertura do Congresso, foi anunciado que se apresentava um apelo contra a decisão do presidente da Câmara. Não houve quase nenhum murmúrio de protesto na assistência, extremamente numerosa, para minha alegria e surpresa. Havia milhares e milhares de estudantes no interior e no exterior da Universidade livre de Berlim, onde estávamos em sessão.

Uma nova crise eclodiu no conselho municipal. Neubauer disse ao chefe da polícia: “Não importa se houver algumas mortes, é preciso partir um milhar de cabeças”. O chefe da polícia recusou estas ordens e demitiu-se. O seu suplente, um outro social-democrata de direita, substituí-o e declarou que “os atingiria tão duramente que eles iam a correr até Moscovo”. Foi com estes métodos que a social-democracia se preparava para defender a liberdade e a democracia.

SDS, força em crescimento

O nascimento da SDS marcou um ponto de viragem na história da Alemanha. Tradicionalmente, os estudantes apoiavam a direita e os dois principais partidos políticos da Alemanha do pósguerra – a CDU/CSU e o SPD, cujos líderes tinham sido escolhidos pelos Estados Unidos – não ficaram descontentes. A geração nascida durante a guerra ou logo após ela, no entanto, era muito diferente da anterior. Após a guerra, não tinha havido uma verdadeira purga dos fascistas: o novo inimigo era já visível e as velhas inimizades deviam ser ultrapassadas para o enfrentar.

A Alemanha dos anos 50 tinha sido, na aparência, aprovadora e passiva. Mas a memória da guerra não podia ser tão facilmente apagada pelas gerações que coexistiam na República Federal. Nos anos 60, os estudantes dos campus sabiam perfeitamente que os seus pais não tinham conseguido resistir ao ascenso do fascismo. A chegada de Hitler ao poder varreu todos os vestígios da democracia e destruiu os dois maiores partidos operários da Europa, o que deixou a marca política e psicológica nas crianças dos anos 50. Mesmo com o silêncio absoluto que prevalecia nesta questão, eles sabiam profundamente que algo estava errado.

A guerra do Vietname serviu de catalisador. “Somos uma minoria ativa!”, cantavam os militantes da SDS nos comícios e nas manifestações. Foi assim que gritaram a sua desconfiança face a um passado presente no coração de cada família: mais vale uma minoria ativa do que uma maioria passiva, cega perante os crimes cometidos todos os dias. Essa era a mensagem da SDS alemã que, nos anos seguintes, seria retomada por alguns dos seus partidários, num caminho desesperado e autodestrutivo. A “minoria ativa” ia ser, posteriormente, interpretada como a justificação para a “guerrilha urbana” nas cidades alemãs, com consequências trágicas.

A Ofensiva do Tet

Foi no segundo dia que falei no Congresso, sobre a guerra e a solidariedade. A FLN tinha lançado uma nova ofensiva militar no Vietname do Sul para marcar o novo ano vietnamita – o Tet. A ofensiva do Tet tinha começado quando nos preparávamos para começar o Congresso. Cada nova vitória foi anunciada à assembleia no meio de aplausos cada vez mais fortes. Os vietnamitas estavam a caminho de demonstrar, da maneira mais concreta que se pode imaginar, que era possível lutar e vencer.

Foi um elemento decisivo na formação da consciência da nossa geração. Pensámos que a mudança não só era necessária, como era possível. O tema da solidariedade internacional parecia mais vital que nunca e eu ataquei violentamente a cimeira de Glassboro nos Estados Unidos, onde Kossyguine2 e Johnson tinham brindado juntos, enquanto o Vietname era devastado pelos bombardeiros americanos. Declarei que era uma obscenidade. Os discursos, na maior parte, foram aplaudidos e interrompidos aos gritos de “Ho-Ho-Ho Chi Minh!”, que percorreu toda a Europa nesse ano . (…)

Depois Rudi Dutschke levantou-se e fez uma forte intervenção ligando a luta contra os Estados Unidos no Vietname com as batalhas a travar contra a ordem burguesa na Europa. Ele falou sobre estender as bases do movimento estudantil por uma “longa marcha através das instituições”, uma expressão muito utilizada e discutida na SDS. A teoria de Dutschke deriva largamente da de Herbert Marcuse, o veterano filósofo da Escola de Frankfurt de antes da guerra, que tinha uma grande influência entre os estudantes alemães. Esta “longa marcha” não significava “minar por dentro”, mas ganhar experiência em todas as frentes – educação, computadores, comunicação de massas, organização da produção – ao mesmo tempo que se preservava a própria consciência política.

O objetivo da “longa marcha” era construir contrainstituições. Zonas libertadas dentro da sociedade burguesa que seriam o equivalente das zonas libertadas pelos partidários de Mao, na China, durante a longa guerra civil conduzida pelos comunistas chineses. A universidade era um lugar decisivo nessa perspetiva, porque era lá que novos quadros podiam ser educados e preparados para substituir os quadros da classe dominante. (…)

Um dos momentos altos do Congresso foi a subida à tribuna de dois jovens americanos negros, ambos veteranos do Vietname. Mesmo antes de tomarem a palavra, receberam uma ovação da sala de pé. Depois, descreveram brevemente a guerra, explicando a utilização dos negros como carne para canhão. Disseram-nos que a América negra estava à beira de grandes ruturas e, dando os braços, entoaram um canto que nunca tínhamos ouvido, apesar de ser muito conhecida nos Estados Unidos:

“Não quero ir para o Vietname,
Porque o Vietname é onde eu estou,
Diabo não, eu não irei!
Diabo não! Eu não irei”

Os aplausos duraram vários minutos, enquanto os dois veteranos saudavam com o punho erguido.

Todas as pessoas esperavam a decisão do tribunal em relação à manifestação. Eu estava seguro que o juiz tinha recebido informações sobre o estado de espírito e o grande número de participantes no Congresso. O poeta austro-alemão Erich Fried estava a falar quando foi interrompido pela presidência: o tribunal autorizou a manifestação na condição de ela não se aproximar dos soldados ou dos quartéis americanos da cidade. Era uma vitória que foi acolhida como tal, mas nesse momento Rudi Dutschke pediu a palavra e subiu à tribuna. Estava satisfeito com o resultado, mas queria contestar a restrição. Era intolerável que não pudéssemos tentar conversar com soldados americanos. A sua voz ergueu-se:

Mas, camaradas, é precisamente isso que devemos fazer. Se o inimigo define as regras do jogo e nós aceitamos, isso significa, como Herbert Marcuse nos disse muitas vezes, que agimos aceitando as suas regras”.

Desta vez, novamente, o Congresso dividiu-se. Então Fried, ele próprio veterano antinazi, que teve de fugir da Áustria e procurar refúgio em Londres, escreveu uma mensagem para Dutschke: “A nossa vitória é que conseguimos a manifestação. Nenhuma provocação, por favor! Eu disse e salvei a minha alma”. Dutschke parou e leu essa mensagem para si próprio. Depois de uma pausa, informou a assembleia do seu conteúdo e admitiu que a sua própria resposta estava errada. Toda a gente suspirou de alívio.

Manifestámo-nos à tarde. Foi um espetáculo a que Berlim não assistia há mais de trinta anos. 15.000 pessoas, sobretudo jovens, um mar de bandeiras vermelhas e retratos gigantes de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que foram brutalmente assassinados nessa mesma cidade em 1919, sob as ordens dos antepassados políticos de Schultz e Neubauer. Havia também grandes cartazes de Ho Chi Minh e Che Guevara, cuja imagem dominava o nosso cortejo. Descemos o Kurfurstendam marchando e correndo, terminando com uma enorme concentração, em que alguns de nós foram de novo convidados a falar. Levantámos as nossas bandeiras mesmo no coração da Europa dominada pelos americanos.

Rudi Dutschke

A imprensa reacionária de Axel Springer tinha advertido os berlinenses de que haveria violência e sangue, que Dutschke era “o inimigo número um” e que os cidadãos deviam preparar-se para defender Berlim. Mas na realidade a manifestação foi pacífica.

De todas as palavras de ordem gritadas naquele dia, a que parecia mais próxima da realidade era: “A FLN vencerá!”. Quanto à menos provável, havia que escolher, mas “Todo o poder aos sovietes!” parecia a mais distante das probabilidades numa Berlim em que Neubauer tinha uma grande base. (Anos mais tarde ele foi condenado por corrupção em larga escala, envolvido num caso criminal e perdeu o emprego, mas continuou a defender o seu modo autoritário de administrar a cidade). Festejámos o sucesso da manifestação e eu convidei os dirigentes da SDS a enviar ativistas à nossa manifestação no mês seguinte, em Londres.

Mais tarde, numa noite em abril de 1968, recebi um telefonema de Berlim. Era uma amiga da SDS e, durante alguns minutos, ela foi incapaz de falar, porque soluçava sem conseguir controlar-se. Paralisado pela inquietação, pedi-lhe que explicasse o que tinha acontecido. Um fanático de extrema-direita tinha atirado sobre Rudi Dutschke. Ainda está vivo? O ferimento era grave? Onde estava? Estava nos cuidados intensivos, inconsciente. A bala tinha entrado na cabeça e a operação era iminente, mas as possibilidades de sobreviver eram muito pequenas3. A SDS apelou a manifestações em toda a Alemanha e estava a informar os seus amigos em toda a Europa.

Naquela noite, o telefone não parou de tocar. Esta tentativa de assassinato chocou-nos a todos.]

Artigo de Tariq Ali, publicado em contretemps.eu (link is external)4. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Notas

1 Este Congresso teve lugar a 17 e 18 de fevereiro de 1968.

2 Alexis Nikolayevich Kossyguine, soldado do Exército Vermelho em 1919, ingressou no PCUS em 1927, tornando-se funcionário do partido, após as grandes purgas estalinistas em 1938, depois tornou-se membro do Politburo em 1948. Após a queda de Khrushchev em novembro de 1964, ele tornou-se primeiro-ministro soviético no que inicialmente era uma troika com Leonid Brezhnev como secretário-geral do PCUS e Anastase Mikoyan (e depois Nikolai Podgornyi) como presidente. É nessa condição que ele representa a URSS na cimeira de Glassboro nos Estados Unidos. Depois de adoecer, Kossyguine foi destituído do cargo em outubro de 1980 e morreu algumas semanas depois.

3 Rudi Dutschke nunca recuperou completamente deste atentado, após o qual ele se retirou para a Grã-Bretanha, de onde foi expulso, e depois para a Dinamarca, onde morreu em 1979. A nova esquerda alemã perdia assim um dirigente e teórico promissor que, por causa da sua experiência na Alemanha Oriental, poderia construir uma ponte entre as duas alemanhas. Em Paris, no Quartier Latin, por iniciativa da Juventude Comunista Revolucionária (JCR) entre outros, 3.000 manifestantes expressaram a sua solidariedade com a SDS após o ataque contra Rudi Dutschke.

4 Em nota de entrada, o site contretemps.eu(link is external) refere: Tariq Ali, um dos animadores da New Left Review; foi um dos fundadores do Grupo Marxista Internacional (IMG, secção britânica da IVª Internacional) e um dos porta-vozes da nova esquerda britânica nos anos 60 e 70.

Este artigo é um extrato do seu livro Street Fighting Years (“Anos de luta de rua”, título inspirado numa canção de Mick Jagger do verão de 1968: “Street Fighting Man”), que conta o seu percurso de jovem revoltado, nascido no Paquistão, que se tornou militante revolucionário. Este texto apareceu em francês pela primeira vez em Imprecor nº 267 de 6 de junho de 1988.

Termos relacionados 1968 – 50 anos depoisCultura

Outras leituras

Un mundo sin bancos es posible – El Libertario

Tarsila está no MOMA sem a sutileza nem o equilíbrio que merece – El País

Nos 70 anos da Declaração Universal, direitos humanos sofrem ‘brutal ataque’ – Rede Brasil Atual

O Maio de 68 e o movimento antiguerra: de Londres a Berlim – Esquerda Net

“Nos 70 anos da Declaração Universal, direitos humanos sofrem ‘brutal ataque’”

DDHH
Eleanor Roosevelt e a Declaração Universal dos Direitos Humanos: necessidade de avançar na efetiva universalização

[Com a Declaração Universal dos Direitos Humanos prestes a completar 70 anos, essas políticas sofrem “brutal ataque” no Brasil, avaliou o ex-ministro Paulo Vannuchi, também ex-integrante da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que ao lado da atual representante do Brasil na CIDH, Flávia Piovesan, debateu o momento político durante evento promovido pela Associação dos Advogados de São Paulo, sexta-feira (20). “A história dos direitos humanos é marcada por luzes e sombras”, disse Flávia.

Por esse aspecto, há um período de sombra no país. Vannuchi observou que os governos de PT e PSDB, apesar de “antípodas políticos”, tiveram certa continuidade em políticas de direitos humanos. E lamentou que “canetadas” recentes venham destruindo duas décadas de acumulação nesse campo.

Membro da Comissão por quatro anos, até 2017, ele citou as origens da CIDH, criada no contexto da Guerra Fria, em 1959, e lembrou que durante sua permanência buscou se dedicar aos chamados “desc”, sigla para direitos econômicos, sociais e culturais, que enfrentaram resistência de países como os Estados Unidos, por exemplo. Essa resistência ocorreu mesmo no Brasil, observou, dando o exemplo de um direito básico, a alimentação, que alguns não viam, não veem, como assunto da área.

“Sem comida ninguém consegue lutar por nenhum outro direito humano”, afirmou o ex-ministro, que também fez referência à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com “um frei de 80 anos e um Prêmio Nobel deixados ao relento, quando outro preso, Eduardo Cunha, recebe quem ele quer, na hora que ele quer”. Ele fazia menção ao fato de Leonardo Boff e Adolfo Pérez Esquivel terem sido barrados na entrada da Polícia Federal quando tentavam visitar Lula.

“Precisamos construir diálogo e alguma unidade de ação sobre essas desavenças”, defendeu Vannuchi, lembrando ainda dos 30 anos da Constituição brasileira, promulgada em outubro de 1988. “Não pode haver tribunal se chocando com a Constituição, quando ela é clara. Há necessidade de defesa da Constituição, defesa das eleições, e contra a intolerância, ódio que é disseminado no Brasil por poderosos órgãos de mídia. Ou nos unimos por esses patamares mínimos ou estamos correndo riscos graves.”

Políticas públicas

Sucessora de Vannuchi na CIDH, Flávia também manifestou preocupação com o “fortalecimento do discurso do ódio”. “Há no mundo um crescente endosso a alternativas não democráticas”, afirmou.

Mas ela também destacou a importância do Sistema Interamericano de Direitos Humanos “na desestabilização de ditaduras no Cone Sul e na proteção dos mais vulneráveis”. “Devemos a Lei Maria da Penha à Comissão Interamericana. Muitas políticas públicas importantes decorreram do Sistema Interamericano”, exemplificou. Flávia afirmou ainda que é preciso “ampliar a universalidade” dos princípios de direitos humanos na região e aprimorar a implementação de decisões. “Temos de avançar na tríade direitos humanos, democracia e Estado de direito.”

Ambos lembraram que é preciso aprofundar questões relacionadas à memória, para evitar a contínua violação de direitos humanos. Na Universidade de Buenos Aires, por exemplo, o tema é ensinado há décadas, enquanto na Alemanha visitar campos de concentração é base do currículo.

No Brasil, o Ministério Público Federal tem um grupo de trabalho da chamada Justiça de Transição, tentando promover ações de reparação relativas a violações praticadas por agentes do Estado durante a ditadura. E já existem decisões da Corte Interamericana contra o Brasil. Vannuchi lembrou que o também ex-ministro Nelson Jobim chegou a considerar decisões da Corte “irrelevantes” para o país.

“Estamos vivendo um brutal processo de desconstrução. Vamos levar alguns anos para retomar uma estaca zero de alguns anos atrás. O PNDH3 (Programa Nacional de Direitos Humanos), tantos anos depois, é ainda um programa a se cumprir”, afirmou Vannuchi.]

Vitor Nuzzi, da RBA .

Outras leituras

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O Maio de 68 e o movimento antiguerra: de Londres a Berlim – Esquerda Net

“Entrevista especial com Paul Singer”

[Para a revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda. Conduzida por Luiz Bernardo Pericás e Paulo Barsotti, a entrevista foi realizada em São Paulo, no dia 5 de março de 2016, e contou com a transcrição e o apoio técnico de Silvia Letícia Marques. Abaixo, o texto integral; o leitor também tem a opção de baixar a entrevista completa diagramada em PDF clicando aqui.]

Leia na integra no Blog da Boimtempo.

Paul

Os índios bem que insistiram, mas nós não aprendemos nada com eles

Luta_indigena
Xingu (peuple) – Wikiwand- wikiwand.com

O jornalista Washington Novaes conta uma história interessante de quando de sua primeira ida a uma aldeia indígena.

Novaes é hoje um jornalista ambientalista, com ligações com o indigenismo, o que quer dizer mais ou menos a mesma coisa – indigenismo = ambientalismo.

Conta Novaes que quis tomar um banho nessa sua primeira visita, e buscou se dispor que toda parafernália que costumamos usar nessas ocasiões, apenas não abrindo mão da toalha, do sabonete, do calção e do chinelo.

Vale ressaltar aqui que normalmente as “casas de banho” (como se diz em Portugal) indígenas são rios ou lagos e normalmente ficam em áreas mais baixas que os aldeamentos.

Ao descer para o “banho”, o jornalista deparou-se com um indígena que estava subindo, já banhado, todo nu, sem sabonete, toalha, chinelo e calção.

Trata-se de uma cena extraordinária, uma lição sem palavras, sem discursos e sem afetações.

Uma lição dada por quem vive sem pudor, sem os filtros sociais e religiosos que costumamos carregar por nossas vidas.

Numa de minhas primeiras idas a aldeias indígenas (quando ainda atuava no Cimi – Conselho Indigenista Missionário), neófito, portanto, busquei igualmente um lugar para me banhar.

Um dos índios indicou-me o lugar, um lago, mas para minha surpresa banhavam-se no mesmo local meninos e meninas e algumas mulheres.

Meu filtro moral indicou-me que voltasse para a aldeia sem me banhar.

Os indígenas, principalmente os homens, se divertiram um bocado com a história.

A questão indígena e a nossa incapacidade de compreendê-los, no entanto, não se resumem a simples banhos ou festas, como se vê na foto acima.

No link que pode ser acessado aqui (https://www.youtube.com/watch?v=XKxO1Px4F5s&t=495s) o professor Sergio Lessa mostra como o Capitalismo se apropria do conhecimento e das práticas das sociedades primitivas, transformando-as em valor e marginalizando homens e mulheres, pois no sistema capitalista não há lugar para todos.

Abusadamente acrescento um remendo ao que diz o professor Lessa, lembrando que as experiências socialistas, como por exemplo, a soviética e a chinesa, foram pródigas no desrespeito e na violência contra as sociedades primitivas, como foram os casos da violenta repressão à religiosidade xamânica, na URSS, e a invasão do Tibet pela China.

A questão, portanto, parece ser de outra ordem, não de sistema (capitalista ou socialista) mas de modelo (desenvolvimentista).

O que choca, sejam capitalistas, sejam socialistas, é a capacidade que as sociedades primitivas têm de partilhar, de tornar tudo (cultura e bens) “coisas comuns”, a serem comungadas, comunistas, de todos para todos, indistintamente.

Daí ser possível entender a razão dos massacres perpetrados pelos europeus nas Américas, na África, na Ásia e na Oceania.