O tempo urge, mas as esquerdas brasileiras teimam em discutir miolo de pote

Projeto Calha Norte
Reprodução

O programa Calha Norte[1], de meados anos 80, causou bastante desconforto ao governo ditatorial, aos governos estaduais, compreendidos em sua área, e às esquerdas nacionais.

A ditadura teve de conviver com a desconfiança de países vizinhos (expansionismo territorial), mas também (internamente, principalmente) desconfiava-se que o governo federal não seria capaz de enfrentar a empreitada, seja pelas extensas fronteiras brasileiras, seja pela precariedade logística, seja pela falta de pessoal qualificado.

Os governos estaduais ficaram atônitos, não sabendo ao certo a que se destinava o projeto (os militares nunca foram muito de dar satisfações aos civis) e, por fim, que parte da tarefa caberia a eles.

As esquerdas, como sempre, surpreendidas e desinformadas, resgataram o seu velho discurso da invasão do capital internacional no interior do Brasil (entreguismo), nunca se dando conta de que são as esquerdas (no mundo) quem mais defendem uma integração dos povos e a derrubada das fronteiras nacionais.

Tempos mais tarde, uma ala do PT reconheceu o equívoco, mas já era tarde, pois se perdeu, mais uma vez, uma boa oportunidade para uma discussão madura e adulta sobre um interesse nacional.

A discussão sobre o Calha Norte me lembrou de outra, esta do final dos anos 50 inicio dos 60, sobre uma ligação que “cortava” o Brasil ao meio, de norte a sul, qual seja a rodovia Belém- Brasília.

As esquerdas também daquela vez se adiantaram em críticas à rodovia (governo Juscelino Kubitschek), temendo que estavam, igualmente, do avanço do capital pelo interior do Brasil.

Como se vê, o discurso esquerdista muda muito pouco,ou quase nada.

Trabalhei por 10 meses no município amazonense do Envira, que estava compreendido no interior do Projeto.

Num dia qualquer (de 1985), sem que o prefeito e o vice estivessem presentes, nos apareceu no Envira cinco militares (dois do exército e três a aeronáutica) e eu tive de recepcioná-los.

Tentei não externar as minhas críticas nem minhas desconfiança com o projeto, mas essa gente é bastante experiente, e logo supuseram que eu fosse “de esquerda”.

Não houve nenhum embate ideológico entre eles e eu e a única preocupação que externaram (além de buscar um bom campo de pouso para as aeronaves do projeto) foi com o nascente Partido dos Trabalhadores, que já naquela época causava preocupação e desconfiança.

Os esquerdistas parecem esquecer que os militares brasileiros são extremamente nacionalistas e em muitos momento mais nacionalista, por exemplo, que Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, vide o caso do marechal e indigenista Cândido Mariano da Silva Rondon [2], um positivista [3], que inclusive influenciou fortemente os sertanistas irmãos Villas-Boas [4] e o antropólogo Darcy Ribeiro [5] .

Márcio Tadeu dos Santos

Notas

[1] O Programa Calha Norte (PCN) foi criado em 1985 pelo Governo Federal diante de uma preocupação dos militares sobre a causa amazônica. Naquela época, se propagava a cobiça internacional sobre as reservas naturais estratégicas do país.

Desde 1999 sob a coordenação do Ministério da Defesa, o Calha Norte tem o propósito de promover a ocupação e o desenvolvimento ordenado e sustentável da região amazônica. O programa abrange 379 municípios, distribuídos em oito estados: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul (faixa de fronteira), Pará, Rondônia e Roraima.

Ao todo, são quase nove milhões de brasileiros beneficiados, incluindo 46% da população indígena – em uma área que corresponde a 44% do território nacional.

Link: https://www.defesa.gov.br/index.php/programas-sociais/programa-calha-norte

[2] Cândido Mariano da Silva Rondon, mais conhecido como Marechal Rondon (Santo Antônio de Leverger, 5 de maio de 1865Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1958), foi um militar e sertanista brasileiro.

De origem indígena por parte de seus bisavós maternos (Bororó e Terena) e bisavó paterna (Guará), Rondon tornou-se órfão precocemente, tendo sido criado pelo tio e, depois de sua morte, transferiu-se para o Rio de Janeiro para ingressar na Escola Militar desta cidade,[1] pois além dos estudos serem gratuitos, os alunos da escola recebiam, desde que assentassem praça, soldo de sargento.

Alistou-se no 3º Regimento de Artilharia a Cavalo em 1881. Dentre outros estudos, cursou Matemática e Ciências Físicas e Naturais da Escola Superior de Guerra.[1]

Ainda estudante, teve participação nos movimentos abolicionista e republicano. Foi nomeado chefe do Distrito Telegráfico de Mato Grosso.[1] Foi então designado para a Comissão de Construção da linha telegráfica que ligaria Mato Grosso e Goiás.

Link https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A2ndido_Rondon

[3] Sistema criado por Auguste Comte 1798-1857 que se propõe a ordenar as ciências experimentais, considerando-as o modelo por excelência do conhecimento humano, em detrimento das especulações metafísicas ou teológicas; comtismo.

Link https://www.google.com/search?q=Positivismo&ie=utf-8&oe=utf-8&client=firefox-b-ab

[4] Os Irmãos Villas-Bôas: Orlando (1914-2002), Cláudio (1916-1998) e Leonardo Villas-Bôas (1918-1961), foram importantes sertanistas brasileiros.

Orlando, Cláudio e Leonardo tomaram parte desde as primeiras atividades da vanguarda da Expedição Roncador-Xingu criada pelo governo federal no início de 1943 com o objetivo de conhecer e desbravar as áreas mostradas em branco nas cartas geográficas brasileiras. O índio apareceria, mais tarde, diante da expedição como um “obstáculo”.

Posteriormente foram designados chefes da expedição. Em face disso foram acelerados todos os trabalhos em andamento, possibilitando assim que fosse vencida a grande e difícil etapa (Rio das Mortes – Alto Xingu). A segunda etapa, ainda mais longa (Xingu – Serra do Cachimbo – Tapajós), deixou no roteiro uma dezena de campos de pouso. Alguns desses campos – Aragarças, Barra do Garças, Xavantina, Xingu, Cachimbo e Jacareacanga, foram mais tarde transformados em Bases Militares e em importantes pontos de apoio de rotas aéreas nacionais e transcontinentais pelo Ministério da Aeronáutica. Outros campos intermediários como o Kuluene, Xingu, Posto Leonardo Villas-Bôas, Diauarum, Telles Pires e Kren-Akôro, tornaram-se postos de assistência aos índios.

Link https://pt.wikipedia.org/wiki/Irm%C3%A3os_Villas-B%C3%B4as

[5] Darcy Ribeiro, antropólogo, educador e romancista, nasceu em Montes Claros (MG), em 26 de outubro de 1922, e faleceu em Brasília, DF, em 17 de fevereiro de 1997. Eleito em 8 de outubro de 1992 para a Cadeira nº 11, sucedendo a Deolindo Couto, foi recebido em 15 de abril de 1993, pelo acadêmico Candido Mendes de Almeida.

Diplomou-se em Ciências Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1946), com especialização em Antropologia. Etnólogo do Serviço de Proteção aos Índios, dedicou os primeiros anos de vida profissional (1947-56) ao estudo dos índios de várias tribos do país. Fundou o Museu do Índio, que dirigiu até 1947, e colaborou na criação do Parque Indígena do Xingu. Escreveu uma vasta obra etnográfica e de defesa da causa indígena. Elaborou para a UNESCO um estudo do impacto da civilização sobre os grupos indígenas brasileiros no século XX e colaborou com a Organização Internacional do Trabalho na preparação de um manual sobre os povos aborígenes de todo o mundo. Organizou e dirigiu o primeiro curso de pós-graduação em Antropologia, e foi professor de Etnologia da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (1955-56).

Diretor de Estudos Sociais do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais do MEC (1957-61); presidente da Associação Brasileira de Antropologia. Participou com Anísio Teixeira, da defesa da escola pública por ocasião da discussão de Lei de Diretrizes e Bases da Educação; criou a Universidade de Brasília, de que foi o primeiro reitor; foi ministro da Educação e chefe da Casa Civil do Governo João Goulart. Com o golpe militar de 64, teve os direitos políticos cassados e se exilou.

Viveu em vários países da América Latina, conduzindo programas de reforma universitária, com base nas idéias que defendeu em A Universidade necessária. Professor de Antropologia da Universidade Oriental do Uruguai; foi assessor do presidente Salvador Allende, no Chile, e de Velasco Alvarado, no Peru. Escreveu nesse período os cinco volumes dos estudos de Antropologia da Civilização (O processo civilizatório, As Américas e a civilização, O dilema da América Latina, Os brasileiros – 1. Teoria do Brasil e Os índios e a civilização), nos quais propõe uma teoria explicativa das causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos.

Ainda no exílio, escreveu dois romances: Maíra e O mulo, aos quais acrescentou, mais tarde, Utopia selvagem e Migo. Publicou Aos trancos e barrancos, que é um balanço crítico da história brasileira de 1900 a 1980. Publicou também a coletânea Ensaios Insólitos e um balanço da sua vida intelectual: Testemunho. Editou, juntamente com Berta G. Ribeiro, a Suma etnológica brasileira. Publicou, pela Biblioteca Ayacucho, em espanhol, e pela Editora Vozes, em português, A fundação do Brasil, um compêndio de textos históricos dos séculos XVI e XVII, comentados por Carlos Moreira e precedidos de longo ensaio analítico sobre os primórdios do Brasil.

Em 1976, retornou ao Brasil, e foi anistiado em 1980. Voltou a dedicar-se à educação e à política. Participando do PDT com Leonel Brizola, foi eleito vice-governador do Estado do Rio de Janeiro (1982). Foi cumulativamente secretário de Estado da Cultura e coordenador do Programa Especial de Educação, com o encargo de implantar 500 CIEPs no Estado do Rio de Janeiro. Criou também a Biblioteca Pública Estadual, a Casa França-Brasil, a Casa Laura Alvim e o Sambódromo, em que colocou 200 salas de aula para fazê-lo funcionar também como uma enorme escola primária.

Em 1990, foi eleito senador da República, função que exerceu defendendo vários projetos, entre eles uma lei dos transplantes que, invertendo as regras vigentes, torna possível usar os órgãos dos mortos para salvar os vivos. Publicou, pelo Senado Federal, a revista Carta, onde os principais problemas do Brasil e do mundo são analisados e discutidos.

Entre suas atividades conta-se haver contribuído para o tombamento de 98 quilômetros de belíssimas praias e encostas, além de mais de mil casas do Rio antigo. Colaborou na criação do Memorial da América Latina, edificado em São Paulo com projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. E mereceu títulos de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, da Universidade de Copenhague, da Universidade do Uruguai, da Universidade da Venezuela e da Universidade de Brasília (1995).

Entre 1992 e 1994, ocupou-se de completar a rede dos CIEPs; de criar um novo padrão de ensino médio, através dos Ginásios Públicos; e de implantar e consolidar a nova Universidade Estadual do Norte Fluminense, com a ambição de ser uma Universidade do Terceiro Milênio.

Em 1995, lançou seu mais recente livro, “O povo brasileiro”, que encerra a coleção de seus Estudos de Antropologia da Civilização, além de uma compilação de seus discursos e ensaios intitulada O Brasil como problema. Lançou, ainda, um livro para adolescentes, Noções das coisas, com ilustrações de Ziraldo, considerado, em 1996, como altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Em 1996, entregou à Editora Companhia das Letras seus Diários índios, em que reproduziu anotações que fez durante dois anos de convívio e de estudo dos índios Urubu-Kaapor, da Amazônia. Seu primeiro romance, Maíra, recebeu uma edição comemorativa de seus 20 anos, incluindo resenhas e críticas de Antonio Callado, Alfredo Bosi, Antonio Houaiss, Maria Luíza Ramos e de outros especialistas em literatura e antropologia. Ainda nesse ano, recebeu o Prêmio Interamericano de Educação Andrés Bello, concedido pela OEA.

Link http://www.academia.org.br/academicos/darcy-ribeiro/biografia

 

 

 

No Brasil temos invasão de cobras e vacas que voam

A cobra
A cobra verde nas vizinhanças (MTS)

Por favor, nenhuma analogia com a jararaca do Lula ou suas estripulias para se safar da prisão, pois hoje é Dia do Trabalho e Lula permanece encarcerado em Curitiba, de onde, parece, não sairá tão cedo, embora eu, particularmente, ache isso uma injustiça.

Não por “tudo que Lula fez pelo Brasil e pelos pobres”, como dizem os petistas, especialmente os fanáticos, que aparentam cada vez mais insanidade, o que é seguramente um perigo porque é tênue a linha que separa a vida da morte, mas sim porque não gosto nada, nada da justiça e muito menos do Estado, que acho uma desnecessidade.

A história da vaca voadora me foi contada no século passado por uma educadora bastante jovem, bastante competente e bastante bonita.

Ao pedir aos seus petizes (será que eu teria de falar petizos e petizas?) que identificassem uma caraterística dos animais que ela ia citando, tudo corria normalmente: o gato – MIA, o cachorro – LATE, o pintinho – PIA até que se chegou à vaca. Em uníssono os pequenos gritaram a plenos pulmões – VOA.

Obviamente que não se tratava de crianças ignorantes, de pais desnaturados e estúpidos mas de crianças cujo único contato com uma vaca era via uma caixinha de leite.

Mas o que explica o voo da vaca?

Simples também!

Fazia sucesso na tevê o desenho da vaca voadora.

Por falta tempo (por conta as labutas diárias pela sobrevivência) os pais dessas crianças delegaram o encargo de educá-las às emissoras de TV.

A serra e a cobra

Cotia fica dentro daquilo que eu tomo a liberdade de chamar de “escarpa interna” da Serra do Mar.

A escarpa externa da Serra naturalmente é voltada para o mar, qual seja, o Oceano Atlântico.

Dia desses estava conversando com um velho amigo cotiano, advogado , e ele, como eu, aliás, reclamava de que o município de Cotia, “tão bonito”, dizia ele (com o que eu concordo) estava ficando totalmente desfigurado pela especulação imobiliária, não apenas aquela voltada à construção de residência, mas, igualmente, pelos chamados parques industriais.

Aqui mesmo em Cotia, ainda no início dos anos 90, abri uma discussão a respeito da responsabilidade dos cotianos na desfiguração do município, com a atração não apenas das indústrias, mas muito especialmente das favelas, o que é e sempre foi o resultado mais visível da industrialização.

Essas especulações todas (aqui vale sim o plural) fizeram desaparecer não apenas parte da Mata Atlântica, mas, igualmente e como seria naturalmente indesejável, a sua suntuosa e rica fauna.

Por exemplo, onde estão as capivaras que ocupavam os banhados das terras baixas, se nem banhados temos mais?

E cadê a Cutia, ou Acoti, ou Acuti de onde o município emprestou o seu nome?

Onde estão os bugios? Os micoestrelas? Os tatus? Os serelepes?

Mas ainda restam as cobras, algumas delas, é verdade. Mas mesmo assim “Ora, viva”.

Na casa vizinha ontem apareceram duas (por estas bandas conhecidas como cobra d´água), aquelas cobras verdes, lindas, que não fazem mal a ninguém, a não ser a ratos, alguns pássaros menores e certos insetos – todos precisam de proteínas como se vê.

Em casa mesmo apareceu uma cobra coral (coral falsa, bem entendido) muito bela e ousada, dentro de residência.

Que folgada!

Tive de colocar porta a fora a intrusa.

Mas a história mais bacana aconteceu quando minha mãe ainda estava viva.

Estávamos todos sentados numa lateral da casa: minha mãe, meu pai, eu e ainda os dois cachorros.

Pois não é que uma cobra coral falsa desfilou calmamente entre nós todos e sem que nenhum de nós lhes prestasse atenção ou reverência?

Pois então, com tantos problemas de desmatamento, de destruição da Mata Atlântica, de desfiguração do município onde nasci e de especulação imobiliária desenfreada eu ainda vou me preocupar com um cara que está preso em Curitiba? (MTS)

“Pesquisa com geoglifos indica que Amazônia teve uso sustentável há milhares de anos”

acreanas[O desmatamento no leste do Acre para a expansão da pecuária tem revelado, nos últimos 30 anos, centenas de grandes estruturas geométricas de terra construídas por povos pré-colombianos.

Tais estruturas são chamadas de geoglifos. O fato de terem sido construídas pelo homem implica a existência de um grande povoamento na região há milhares de anos, assim como sugere que, no passado, a floresta havia sido parcialmente derrubada para o uso da terra pela agricultura.

A arqueóloga inglesa Jennifer Watling, atualmente bolsista de pós-doutorado da Fapesp, estudou em seu doutorado – defendido na University of Exeter, no Reino Unido – qual teria sido o impacto ambiental das populações pré-históricas decorrente da construção dos geoglifos.

Ela estudou dois locais com geoglifos, o Sítio Arqueológico Jacó Sá e a Fazenda Colorada. O trabalho foi publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences e ganhou imediatamente visibilidade internacional, com reportagem publicada em veículos como The New York Times.

Saindo de Rio Branco, a capital do Acre, pega-se a BR 317 em direção a Boca do Acre (AM). Leva-se cerca de uma hora de carro para percorrer os 50 quilômetros até o sítio Jacó Sá. Ao longo do trajeto a estrada passa por pastos com gado nelore onde antes havia Floresta Amazônica primária, cujas franjas ainda são visíveis dos dois lados da rodovia lá na linha do horizonte.

Toda aquela porção do extremo ocidental do Acre era coberta por floresta primária até os anos 1980 e vem sendo desflorestada para a criação de gado. Metade da cobertura florestal na região já se perdeu.

Por ironia, não fosse o aumento da ocupação humana no Acre, os mais de 450 geoglifos pré-históricos hoje catalogados continuariam ocultos pela mata. A floresta evidentemente esconde muitos outros. Os geoglifos se espalham pelos vales dos rios Acre, Iquiri e Abunã, entre Rio Branco e Xapuri, e também ao norte de Rio Branco, na direção do Estado do Amazonas.

Do solo não é possível visualizar suas formas nem as suas dimensões. Em um avião, voando a 500 metros do solo, os geoglifos se tornam visíveis. Eles têm o formato de círculos, quadrados, retângulos, círculos concêntricos ou ainda círculos circunscritos no interior de grandes quadrados.

As dimensões são colossais: variam de 50 a 350 metros de diâmetro. No solo, os geoglifos são como grandes valas de até 11 metros de largura por 4 metros de profundidade. É impressionante o imenso volume de terra que teve que ser removido para a sua construção, o que implica um grande contingente populacional.

No sítio de Jacó Sá há dois geoglifos, ambos na forma de quadrados com cerca de 100 metros de lado, sendo que um deles tem um círculo perfeito circunscrito em seu interior. Quem quiser pode usar o Google Maps e entrar com as coordenadas 9°57′38″S 67°29′51”W para apreciar os dois geoglifos das alturas.

Watling queria entender como seria a vegetação naquela região na época em que os geoglifos foram construídos. O local, antes do desmatamento, era dominado por bambuzais.

Watling se propôs a responder uma série de questões. “Será que a floresta de bambu predominava antes de haver geoglifos? Qual foi a extensão do impacto ambiental associado à construção dos geoglifos?”, pergunta a arqueóloga.

Será que a região era coberta por florestas antes da chegada dos povos que construíram os geoglifos ou seria originalmente uma região de cerrado? Se era floresta, por quanto tempo as áreas desmatadas permaneceram abertas? O que aconteceu com a vegetação quando os geoglifos foram abandonados? Como foi o processo de regeneração da floresta?”, são outras questões levantadas.

Manejo florestal

Watling atualmente se dedica ao pós-doutorado, sob orientação do arqueólogo Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).

A pesquisadora passou seis meses escavando nos sítios do Acre, entre 2011 e 2012. Usou técnicas de paleobotânica para obter respostas. Suas escavações em Jacó Sá e na Fazenda Colorada demonstraram que o ecossistema de bambuzais existe no local há pelo menos 6.000 anos, o que sugere que o bambu não foi introduzido pelos índios, mas fazia parte da composição paisagística original.

A presença do homem no local data de pelo menos 4.400 anos atrás. Já a presença de partículas de carvão, principalmente a partir de 4.000 anos antes do presente, implica a intensificação do desmatamento e/ou do manejo florestal pelos índios.

O maior acúmulo de carvão coincide com a época da construção dos geoglifos, entre 2.100 e 2.200 anos atrás. Apesar da relativa facilidade com que se removem bambuzais (quando comparado a mognos e castanheiras, por exemplo), Watling não achou evidências de desmatamentos significativos em qualquer período.

Segundo ela, isso quer dizer que os geoglifos não ficavam dentro de uma área totalmente desmatada. “Ao contrário, eles eram cercados pela copa das árvores. A vegetação local jamais foi mantida completamente aberta durante todo o período pré-Colombiano. Esta dedução é consistente com evidências arqueológicas indicando que os geoglifos eram usados em bases esporádicas em vez de continuamente habitados”, disse Watling.

As escavações arqueológicas não revelaram grande quantidade de artefatos, o que indica que os geoglifos não eram locais de habitação permanente. Os índios não moravam lá”, disse.

Outra constatação é que os geoglifos não foram construídos sobre floresta virgem que foi derrubada. Os dados paleobotânicos coletados por Watling sugerem que as estruturas foram erigidas em terrenos previamente ocupados, ou seja, em florestas antropogênicas, que foram derrubadas ou tiveram sua composição alterada pela ação humana ao longo de milhares de anos.

Isso faz sentido quando agora se sabe que a região era ocupada desde há 4.000 anos. Em outras palavras, seus habitantes tiveram 2.000 anos de manejo da floresta antes da construção dos geoglifos. Graças às pesquisas em outros geoglifos sabe-se que o povo que construía aquelas enormes estruturas cultivava milho e abóbora.

Os dados coletados por Watling indicam que a derrubada da floresta por meio de queimadas realizada entre 4.000 e 3.500 anos atrás foi seguida pelo aumento significativo da quantidade de palmeiras na composição da floresta.

Não existe nenhuma explicação natural para o aumento da quantidade de palmeiras, já que o clima na região era (e continua sendo) úmido e, portanto favorável à colonização por parte de árvores de grande porte e o consequente adensamento da mata. A proliferação das palmeiras está ligada, segundo Watling, ao aumento do uso da terra pelo homem, o que é corroborado pelos depósitos de partículas de carvão.

As palmeiras têm diversos usos. Seus cocos são alimento, seus troncos servem para construir ocas e suas folhas para cobri-las. Segundo Watling, isso sugere que, após a limpeza da mata pelos primeiros habitantes da região, eles teriam passado a permitir a proliferação apenas das espécies vegetais que faziam uso. Em outras palavras, os antigos habitantes do local fizeram uso de técnicas primitivas de manejo florestal por milhares de anos.

A ausência de carvão a 500 metros de distância dos geoglifos significa que seu entorno não foi desmatado. “Isso sugere que os geoglifos não foram projetados para ser visíveis à distância, mas para ficar escondidos da vista, o que não deixa de ser uma conclusão inesperada”, disse.

Geoglifos

Os geoglifos estudados por Watling e colegas do Brasil e do Reino Unido foram abandonados há cerca de 650 anos, portanto antes da chegada dos europeus nas Américas. Em concomitância com o abandono dos geoglifos observa-se o declínio da participação de palmeiras no meio ambiente.

Os geoglifos impressionam pela beleza e precisão de suas linhas. Qual foi o povo responsável pela construção daquelas estruturas? Que técnicas usaram para erigir formas tão perfeitas?

A primeira imagem que vem à mente é a dos animais esculpidos no solo do deserto de Nazca, no Peru. Descobertos em 1927, eles teriam sido feitos há 3.000 anos. Vistos do solo, as figuras peruanas parecem linhas sem-fim que se perdem no horizonte.

Só de bem alto, a 1.500 metros de altura, suas formas começam a fazer sentido. Compõem um beija-flor, uma abelha e um macaco. Tais figuras ficaram famosas nos anos 70, quando o escritor suíço Erich von Daniken publicou o livro – que vendeu milhões de exemplares e foi transformado em filme – Eram os Deuses Astronautas?.

Von Daniken defendia a teoria de que certas civilizações, como a dos astecas, teriam sido visitadas por alguma forma de vida extraterrestre inteligente. Daí a justificativa de figuras que só fazem sentido quando vistas de grandes altitudes.

Contam os antropólogos, porém, que a intenção dos índios autores daquelas obras de arte milenares era enternecer os deuses, convencendo-os a fazer chover. Os geoglifos acreanos situam-se mil quilômetros a nordeste do desértico vale de Nazca. E no Acre, como se sabe, a falta de chuva não é um problema.

No pós-doutorado, Watling também estuda o impacto exercido sobre a floresta de um povoamento indígena no sítio arqueológico de Teotônio, na região do Alto Rio Madeira, em Rondônia. “Teotônio possui algumas das datações mais antigas da pré-história amazônica. Foi ocupado por pelo menos 5 mil anos”, disse.

O artigo Impact of pre-Columbian “geoglyph” builders on Amazonian forests (doi: 10.1073/pnas.1614359114), de Jennifer Watling, José Iriarte, Francis E. Mayle, Denise Schaan, Luiz C. R. Pessenda, Neil J. Loader, F. Alayne Street-Perrott, Ruth E. Dickau, Antonia Damasceno e Alceu Ranzi, publicado pela PNAS, pode ser lido por assinantes em: www.pnas.org/content/114/8/1868.abstract

Peter Moon, Agência Fapesp.

“Projeto vai coletar dados sobre comportamento de espécies na floresta amazônica”

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Credito da foto: Observatório do Clima

[Uma rede de sensores com microfones e câmeras será instalada sob a copa das árvores para coletar informações sobre o comportamento das espécies no interior da floresta amazônica, de forma contínua. A tecnologia reduzirá a presença humana e os custos das expedições de campo e vai identificar as espécies por imagem e som e transmissão remota de dados. As informações serão transmitidas por satélite em tempo real para os pesquisadores.

Composto por três fases, o projeto Providence é coordenado pelo Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), em parceria com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO), o The Sense of Silence Foundation e o Laboratório de Aplicações Bioacústicas da Universidade Politécnica da Catalunha (UPC).

Dez sensores serão instalados, neste mês, em diferentes pontos da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na interior da Amazônia. Na primeira fase do projeto, iniciada em outubro de 2016 e com duração de 18 meses, os pesquisadores vão avaliar se a rede de sensores terá capacidade de captar sons e imagens de animais a partir de amostras. Para isso, foram escolhidas dez espécies, entre elas a onça-pintada, o macaco-guariba e o boto-cor-de-rosa. A escolha desses animais foi feita por causa dos sons característicos, da abundância na região e do carisma. O projeto tem US$ 1,4 milhão em recursos da Fundação Gordon and Betty Moore.

Os dados coletados pelos sensores servirão para preencher lacunas no monitoramento da fauna da região amazônica. De acordo com o ministério, as informações levantadas são utilizadas em estratégias de conservação de espécies e criação e gestão de unidades de conservação. A expectativa é de que o projeto, ao final, tenha mil aparelhos espalhados pela floresta.]

Agência Brasil.

“Plataforma brasileira permitirá diagnóstico sobre biodiversidade”

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Credito na foto: Biogil – biodiversidade brasileira

[A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) lançará na próxima terça-feira (21) a Plataforma Brasileira sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, na sigla em inglês).

O sistema permitirá a elaboração do Diagnóstico Brasileiro sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, o primeiro do gênero voltado para subsidiar o processo de decisões ambientais no Brasil.

A ferramenta terá como foco principal a importância dos serviços ecossistêmicos para a qualidade de vida das pessoas. A biodiversidade da Mata Atlântica, por exemplo, protege os recursos hídricos essenciais para cerca de 130 milhões de brasileiros, além de manter uma alta diversidade de polinizadores, indispensáveis para a produtividade agrícola nacional.

O documento vai integrar o diagnóstico global sobre desenvolvimento sustentável para apoiar decisões políticas em conservação, restauração e uso de recursos naturais.

O Diagnóstico Brasileiro vai utilizar os mesmos conceitos, metodologias e indicadores dos quatro diagnósticos regionais que estão sendo desenvolvidos pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), entidade internacional criada em 2012 para oferecer informações científicas visando a tomada de decisões políticas.

Diagnóstico Global de Biodiversidade

Os diagnósticos regionais envolvem as Américas, África, Ásia e Pacífico, Europa e Ásia Central e servirão de base para o Diagnóstico Global de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos a ser publicado em 2019.

A maior parte dos responsáveis pela estruturação e coordenação da plataforma brasileira está envolvida nos diversos grupos de trabalho da similar intergovernamental.

Para reunir esses dados, a coordenação da BPBES está fazendo reuniões com representantes do governo federal e representantes de organizações não governamentais e do setor empresarial.

“Estamos procurando todos os diferentes setores da sociedade para que possamos chegar a um diagnóstico que sirva de base de uma forma realista, que integre realmente as políticas de tomada de decisão na área, não mais isoladamente, como são as políticas ambientais hoje, mas que elas façam parte do planejamento estratégico do país”, disse o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Joly, coordenador da BPBES e dirigente do Painel Multidisciplinar de Especialistas da IPBES.

Composta por 28 pesquisadores de diversas instituições em todas as regiões brasileiras, em áreas como ecologia da conservação, economia ecológica, conhecimento tradicional e desenvolvimento sustentável, a BPBES é um Grupo de Trabalho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, com apoio do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Programa Biota-Fapesp e da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável.]

Ludmilla Souza, repórter da Agência Brasil; edição, Kleber Sampaio.

Link : http://agenciabrasil.ebc.com.br/pesquisa-e-inovacao/noticia/2017-02/plataforma-brasileira-permitira-diagnostico-sobre-biodiversidade

Cortes de Temer são “A nova ameaça aos índios isolados”

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Índios que compõem o que a Funai denominou como o “povo do Rio Xinane”, contatado em 2014. (Foto: Divulgação Funai)

[Não bastassem as ameaças nos cortes de recursos da Saúde e Educação das ações para os povos indígenas do país, o presidente Michel Temer (PMDB) colocou em cheque a sobrevivência e a segurança dos índios isolados, grupos que têm pouca interação ou nenhuma relação com a chamada sociedade nacional. Muitos vivem em regiões de fronteira na Amazônia.

No decreto no. 8.859, que limitou o orçamento dos órgãos federais e bloqueou recursos para 2017, vigorando desde o dia 26 de setembro, o presidente Temer cortou 38% dos recursos para custeio e investimento da Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão subordinado ao Ministério da Justiça. A redução vai atingir a Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém Contatados (CGIIRC), que atua com os povos isolados.

Um memorando interno elaborado neste mês de outubro pela CGIIRC, ao qual a Amazônia Real teve acesso, consta que a coordenação teve bloqueados R$ 1,2 milhão pelo decreto de Michel Temer. Com apenas R$ 166 mil em caixa (recursos de uma emenda parlamentar) e mais o recurso que já havia sido empenhado antes do bloqueio, a CGIIRC diz no documento que seis das 12 Frentes de Proteção Etnoambiental estão sob ameaça de desativação por falta de dinheiro ainda em 2016. São elas: Envira, no Acre; Madeira-Purus e Vale do Javari, no Amazonas; Yanomami/Yekuana entre o Amazonas e Roraima; Awá Guaja, no Maranhão; e Madeirinha-Juruena, no Mato Grosso.]

Siga lendo no site Amazônia Real ou em Outras Palavras.

“Fundos de conservação do meio ambiente miram setor privado para driblar a crise”

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Os recursos privados serão capazes de salvar alguma coisa? / foto: mundogeo.com

[Em um período de crise financeira em várias partes do mundo, os setores responsáveis pela administração de recursos para conservação ambiental na América Latina pensam em estratégias para garantir financiamentos para a área. Uma saída parece ser inovar para captar mais recursos do setor privado.

Durante 18ª Assembleia da Rede de Fundos Ambientais da América Latina e Caribe (RedLAC), feita esta semana em Brasília, líderes em administrar financiamentos para conservação e proteção da biodiversidade discutiram o assunto, participaram de painéis e palestras. O setor público é o principal financiador do fundo, mas a crise econômica não oferece uma estimativa de aumento nesse apoio.

Segundo Rosa Montañez, presidente da RedLAC, o financiamento para conservação ambiental deverá sair de uma junção de recursos públicos, parcerias privadas, mecanismos de mercado e contribuições individuais. Ela disse que ainda que o fundo trabalha com “mecanismos de financiamento permanente”, mas começa a investir em outras iniciativas.

“Estamos agora começando a desenvolver iniciativas com o setor privado a nível local e também a nível internacional, conectando os mercados e ainda começando a nos mover na direção de fundos de larga escala para atuar em questões de conservação em todo o mundo que possam criar impactos e lidar com os grandes desafios”.

O evento, encerrado hoje (4), foi patrocinado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), organizado pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e teve palestras do fotógrafo Sebastião Salgado e do cineasta Fernando Meirelles.

Meirelles organizou e dirigiu a cerimônia de abertura da Olimpíada 2016. A cerimônia, bastante elogiada mundo afora, adotou um tom sustentável e preocupado com o meio ambiente. Aos participantes da assembleia da RedLAC, disse ter sido um “eco-chato para 3 bilhões de pessoas”, mas enfatizou a importância de conscientizar a sociedade sobre a preservação ambiental. “A gente tem um futuro muito perigoso e esta informação tem que chegar às pessoas com uma carga emocional”.

Sebastião Salgado, por sua vez, está empenhado em levantar recursos para um fundo de recuperação da mata ciliar do Rio Doce, impactada pelo vazamento dos resíduos da barragem da Samarco em Mariana (MG). “Podemos refazer o que nós destruímos”, disse o fotógrafo. Nos anos 90 a fazenda de sua família, às margens do Rio Doce, foi restaurada com apoio da Funbio e hoje tem o status de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).]

Marcelo Brandão – Repórter da Agência Brasil

“Embrapa lança site sobre Código Florestal”

FlorestasA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) lançou o site Código Florestal: contribuições para adequação ambiental da paisagem rural, um canal de informações para produtores rurais e técnicos ambientais com informações sobre como adequar as propriedades às exigências do novo Código Florestal (Lei nº 12.651).

O serviço traz orientações técnicas para a recuperação de áreas degradadas, dicas de boas práticas agropecuárias e explica as características e as dimensões das áreas protegidas pela lei ambiental: as Áreas de Preservação Permanente (APP), as Áreas de Reserva Legal (ARL) e as Áreas de Uso Restrito (AUR), de acordo com a Agência Embrapa de Notícias.

As estratégias de recuperação, proteção e manejo apresentadas no site resultam de estudos e testes realizados por pesquisadores e analistas da Embrapa e de instituições parceiras, entre elas universidades e institutos federais e estaduais.

Consultas de espécies nativas por bioma e mapas dos viveiros e produtores de sementes espalhados pelo Brasil também estarão disponíveis aos usuários do site. Até o momento é possível consultar apenas as espécies nativas do Cerrado e os viveiros do Estado de Minas Gerais.

“Temos que dar alternativas para o produtor. Estamos trabalhando há mais de quatro anos nesse desafio de procurar onde estavam essas informações dentro e fora da Embrapa e fazê-las chegar a quem precisa”, disse José Felipe Ribeiro, pesquisador da Embrapa e colaborador do projeto, em nota divulgada pela instituição.

Mais informações: www.embrapa.br/codigo-florestal.

Agência Fapesp.

Exploração intensiva de ouro anuncia nova catástrofe ambiental e social na Amazônia

“O espectro da tragédia de Mariana. Depois de Belo Monte, Belo Sun é a nova ameaça à Volta Grande do Xingu. Entrevista especial com Carolina Reis”

Ao analisar o EIA-Rima de Belo Sun, foi possível calcular que, em 12 anos, a estimativa é que serão extraídas 600 toneladas de ouro pela empresa. Ao final da exploração, a iniciativa prevê deixar duas pilhas gigantes de material estéril que, somadas, terão 346 hectares, com altura média de 205 metros e 504 milhões de toneladas de rochas. Uma montanha duas vezes maior do que o Pão de Açúcar, recheada de material quimicamente ativo, à beira do Rio Xingu”, afirma a advogada do Projeto Xingu do Instituto Socioambiental.

O Projeto Volta Grande, da empresa canadense Belo Sun, “pretende ser a maior mina de exploração de ouro no país”, com a extração de minérios no município de Senador José Porfírio, no estado do Pará, a cem quilômetros de distância do Rio Xingu, que já teve sua “vazão reduzida em 80% devido ao barramento e desvio da água destinada às operações da hidrelétrica de Belo Monte”, informa Carolina Reis à IHU On-Line.

Segundo ela, a mina a ser explorada, caso o projeto seja aprovado, “encontra-se a apenas 9,5 km da Terra Indígena Paquiçamba e a 13,7 km da TI Arara da Volta Grande do Xingu”.

De acordo com Carolina, a Belo Sun está realizando pesquisas no país desde 2008, mas ainda não há previsão para o início da instalação da mina, embora o Projeto Volta Grande já possua uma Licença Prévia emitida pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará. “Espera-se que a licença só seja emitida após a atualização do Estudo de Impacto Ambiental – EIA-Rima, com uma revisão dos estudos que contemple a sinergia e acumulação de impactos com Belo Monte, já que isso não foi considerado nos estudos”, diz.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, a advogada do ISA também chama atenção para a “grande transformação social que a Volta Grande já vem sofrendo com a implantação de Belo Monte” e que poderá se agravar com a instalação da mina. A Vila da Ressaca, relata, “no município de Senador José Porfírio, onde o projeto de Belo Sun pretende se instalar, terá que ser removida para a construção da mina. (…) Cerca de 300 famílias moram no povoado, que tem parte do território definido como projeto de assentamento rural da reforma agrária. Além da atividade do garimpo, os moradores dependem da roça e da pesca para subsistência, esta já bastante alterada pela instalação de Belo Monte”.

Carolina Reis diz ainda que a empresa pretende instalar uma mina de ouro com uma barragem de rejeitos, mas “não informa suas possíveis consequências para índios e ribeirinhos”, apesar de a barragem possivelmente conter “altas concentrações de arsênio, chumbo e cianeto, componentes não inertes quimicamente, que podem reagir com o meio ambiente e deixar prejuízos incalculáveis”. E adverte: “O eventual rompimento da barragem de rejeitos de Belo Sun poderia ser pior do que o acidente de Mariana, pois a lama que vazaria é mais perigosa. O risco de um desastre sem precedentes no Rio Xingu é alarmante e causa grande preocupação à população da Volta Grande e à sociedade civil”.

Carolina Piwowarczyk Reis é advogada e responsável pelo setor de monitoramento do impacto das obras de infraestrutura da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no Programa Xingu, desenvolvido pelo Instituto Socioambiental – ISA.

O Programa Xingu visa contribuir com o ordenamento socioambiental da Bacia do Rio Xingu, através da articulação de parcerias e promoção de diálogos inter setoriais para o desenvolvimento de projetos voltados à proteção e sustentabilidade dos 26 povos indígenas e das populações ribeirinhas que habitam a região, à viabilização da agricultura familiar, à adequação ambiental da produção agropecuária e à proteção dos recursos hídricos.

Confira a entrevista.

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Belo Sun e (o jogo de) sete erros que podem acabar de vez com a Volta Grande do Xingu

Ainda sobre a insensibilidade e a estupidez de Geraldo Alckmin

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Geraldo, o “picolé de chuchu”, segundo Zé Simão, de insensibilidade que faz jus ao apelido forum.clickgratis.com.br

Semanas antes do afastamento da presidente Dilma Rousseff da presidência da república estive no prédio do Ibama, em Brasília, para discutir com alguns técnicos e especialistas do Instituto que rumo dar a um projeto de manejo florestal do qual faço parte com um grupo de amigos no Estado do Amazonas.

O projeto está sendo desenvolvido no município de Autazes, nas proximidades de Itacoatiara e a cerca de 113 quilômetros de Manaus, a capital do Estado.

Tive de aguardar um pouquinho, pois os técnicos do Instituto estavam atendendo a uma senhora paulista que desenvolve projeto parecido na Serra do Mar, ao lado da Rodovia dos Imigrantes [1], que liga a capital paulista à baixada santista.

Talvez o governador Geraldo Alckmin não saiba dessa história e de outras que acontecem em seu Estado, e que são de iniciativa de particulares, mas, em sua maioria, de comunidades ditas tradicionais [2].

Já volto já, já para falar um pouco do que seja manejo florestal e quais as implicações desse tipo de projeto no meio ambiente e nas comunidades compreendidas por ele.

Dos exemplos

No início dos anos 90 amigos ligados a uma ONG ambientalista que, desconfio, não existe mais, chamada Pró Juréia, me convidaram para desenvolver um projeto de difusão de informação ligada obviamente à preservação do local.

Parte da Juréia (no litoral sul de São Paulo) é área já preservada e com a presença de comunidades indígenas (guarani) e de posseiros.

A projeto não consistia em estratégias e pressões para a retirada dos posseiros da área, muito pelo contrário, era uma tentativa de conscientização da necessidade de se usar a Mata Atlântica respeitando-se não apenas o meio ambiente, mas, principalmente as comunidades indígenas.

Infelizmente o projeto não foi avante por problemas que escaparam à capacidade da ONG em realizá-lo.

Duas coisas chamavam atenção:

– a forte resistência de moradores das proximidades contra os índios, os posseiros e as reservas ambientais;

– a ocupação de parte da Mata Atlântica por sítios de famílias, que, a rigor, moravam na região metropolitana de São Paulo, e os usam para “passar finais de semana e férias”.

A ocupação e a destruição da Mata Atlântica [3] tem história longa que remonta à chegada dos portugueses ao Brasil em 1500 e, no caso de São Paulo, à fundação de São Vicente [4].

Um dos maiores crimes ambientais da história brasileira ocorreu durante o regime militar com a conclusão da ligação entre Rio de Janeiro e São Paulo, pelo litoral, naquilo que é hoje conhecido como Rodovia Rio-Santos [5]·.

As preocupações com a conservação da Mata Atlântica e de outros biomas brasileiros (Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa, Floresta Amazônica etc.), no entanto, são mais recentes.

Daí ser esta uma luta dura, mas oportuna, coisa que parece o governador de São Paulo não entender.

Dos manejos

Seja qual for a intenção da senhora paulista com seu projeto de manejo na Mata Atlântica, há de se entender que se ele, de um lado, visa o lucro e a geração de riqueza, de outro necessariamente contempla a preservação e a recuperação da floresta e , ao mesmo tempo, de sua fauna.

É igual a nossa motivação em Autazes, acrescentando-se ao nosso caso tratar-se de uma área não degradada, sem a presença de comunidades indígenas, com reserva legal já estabelecida e contemplando a participação de ribeirinhos que por lá moram, na qualidade de parceiros do projeto.

Das sustentabilidades

Manejo Florestal ou, mais propriamente, Manejo Florestal Sustentável “ é a administração da floresta para obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras, de múltiplos produtos e subprodutos não-madeireiros, bem como a utilização de outros bens e serviços florestais[6].

Das intenções

Ora, ora, não parece ser esta a intenção do senhor governador Geraldo Alckmin (Ibid.) com seu projeto de lei 249  (2013) às portas de ser sancionado.

Talvez o senhor governador Geraldo Alckmin queira mais do que simplesmente abrir as comportas do meio ambiente paulista para a exploração capitalista.

Talvez sonhe ele em transformar essas áreas em grandes parques de diversões variadas, com direito à pipoca, carrossel, sorvetes, refrigerantes, fontes luminosas, sistemas de sons; quem sabe, parques de caça para exterminar ainda o que resta da fauna da Mata Atlântica.

Notas

[1] Também conhecida como SP-160, é uma rodovia do estado de São Paulo. Tem 44 viadutos, sete pontes e catorze túneis, em 58,5 km de extensão, de São Paulo a Praia Grande, no litoral sul paulista. É a principal via de acesso da cidade de São Paulo à Baixada Santista e ao litoral sul paulista, e possui um tráfego intenso de veículos, sobretudo durante o verão e em feriados. A Rodovia dos Imigrantes faz parte de um complexo de estradas denominado Sistema Anchieta-Imigrantes, dos quais fazem parte também as seguintes rodovias: Anchieta, Padre Manoel da Nóbrega e Cônego Domênico Rangoni. Fonte: https://portogente.com.br/portopedia/76315-rodovia-dos-imigrantes

[2] Geraldo Alckmin deveria pegar prisão perpétua por excesso de estupidez e insensibilidade

[3] A Mata Atlântica é formada por um conjunto de formações florestais (Florestas: Ombrófila Densa, Ombrófila Mista, Estacional Semidecidual, Estacional Decidual e Ombrófila Aberta) e ecossistemas associados como as restingas, manguezais e campos de altitude, que se estendiam originalmente por aproximadamente 1.300.000 km2 em 17 estados do território brasileiro. Hoje os remanescentes de vegetação nativa estão reduzidos a cerca de 22% de sua cobertura original e encontra-se em diferentes estágios de regeneração. Apenas cerca de 7% estão bem conservados em fragmentos acima de 100 hectares. Mesmo reduzida e muito fragmentada, estima-se que na Mata Atlântica existam cerca de 20.000 espécies vegetais (cerca de 35% das espécies existentes no Brasil), incluindo diversas espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. Essa riqueza é maior que a de alguns continentes (17.000 espécies na América do Norte e 12.500 na Europa) e por isso a região da Mata Atlântica é altamente prioritária para a conservação da biodiversidade mundial. Em relação à fauna, os levantamentos já realizados indicam que a Mata Atlântica abriga 849 espécies de aves, 370 espécies de anfíbios, 200 espécies de répteis, 270 de mamíferos e cerca de 350 espécies de peixes. (Fonte: http://www.mma.gov.br/biomas/mata-atlantica)

[4] São Vicente foi a primeira vila fundada pelos portugueses na América, em 1532. Veja em: Fundação da Vila de São Vicente – fonte: http://www.saovicente.sp.gov.br/conheca/historia/relindios.asp e São Vicente (São Paulo) – fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Vicente_(S%C3%A3o_Paulo)

[5] Rodovia Rio—Santos. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rodovia_Rio%E2%80%94Santos

[6] Ministério do Meio Ambiente (MMA) http://www.mma.gov.br/florestas/manejo-florestal-sustent%C3%A1vel [Conheça mais sobre o assunto no site do Serviço Florestal Brasileiro.]