“Kotodama” – o espirito das palavras

Kodama
Teoria da Conspiração

[Kotodama, do japonês, literalmente, “espírito da palavra”, mais comumente traduzido como “poder da palavra”, é conhecido popularmente como a crença japonesa no poder das palavras, que pode alterar ambientes, afetar objetos e todo aquele hocus pocus que vocês já devem estar acostumados…

Que as palavras têm poder, nós já iremos chegar lá, mas vejamos os kanji, primeiro:

Imagen 01

Quanto a “gen”, o seu significado é o de palavra oral.

O processo de formação dos kanji é muito interessante. Basicamente, há kanji que são chamados de ‘básicos’ ou ‘originários’, os quais serão utilizados como radicais na composição de kanji mais complexos. Dessa forma, “kuchi”, que significa “boca”, é um desses, vejam só:

Imagem 02

Muito parecido com a parte inferior do kanjigen”, certo? Errado! Eles são exatamente o mesmo! Agora vocês perguntam: “o que são aqueles ‘risquinhos’ ali em cima”? Oras, o que vocês acham que são?

Sim, os japoneses são nerds e já sabiam física há milhares de anos atrás. Os risquinhos nada mais são do que a representação das ondas sonoras, a verbalização da palavra.  Basta procurar qualquer dicionário pictográfico de kanji. Eles explicam como é que os kanji se formaram a partir de imagens que ilustram o sentido da palavra.

Imagem 03

Para os que ainda desconfiam que “gen” significa a palavra verbalizada, tal kanji é usado como radical na composição da (e de várias outras) palavra “go”, que significa “idioma” ou “língua” (no sentido de ‘language’).

Já “rei”, o significado é “espírito”, “fantasma”, “alma penada”. Contudo, não podemos confundir com “tamashii”, cujo kanji é diferente e cujo significado é “alma”, “espírito”. Explico: enquanto “tamashii” significa a alma humana, “rei” é a essência espiritual propriamente dita.

Só para vocês terem uma idéia de como o buraco é mais embaixo, o kanjitamashii” também é pronunciado como “kon”, que é um dos quatro elementos do xintoísmo. “Kon”, no shinto, também é chamado de “waketama”, ou seja, “almas separadas individualmente”, outra forma de dizer “crianças do kami”, ou seja, nós, os seres humanos. A alma (kon) é chamada dessa forma (waketama) porque ela é composta de quatro partes, quais sejam, “aramitama”, ou a coragem, “nigimitama”, ou a amizade, “sachimitama”, ou o amor, e “kushimitama”, ou a sabedoria.

É óbvio que o significado de cada uma dessas palavras é muito mais complexo e intrínseco, mas essa explicação fica para outra oportunidade…

Voltando ao significado de “rei”, que é o que importa nesse momento, no shinto, “rei” é outro dos quatro elementos.

Podemos associar “kon” ao intelecto que só os seres humanos possuem (a alma intelectiva de São Tomás de Aquino) e ao plano mental, enquanto “rei” é a manifestação do espírito e corresponde ao plano espiritual.

Após esse breve estudo etimológico, podemos finalmente conceituar Kotodama como a arte de animar através da verbalização da palavra.

Aoi Kuwan , para Teoria da Conspiração.

E uma merda mas é minha merda

Contos

 

Sumido há meses, Gervasão foi bater lá em casa logo cedo.

“Cê viu, meu?”, foi logo perguntando.

“Viu o que, Gervasão?”, respondi.

“O Brasil, pô!”,  Gervasão parecia surpreso com a minha ignorância.

“Você está falando de que? De que Brasil? Do Brasil varonil? Do Brasil-seleção ou do Brasil de Pelotas?”, tentei ironizar, para me defender da desconfiança de Gervasão.

“Bão… ia falar do Brasil varonil, mas já que tocou no assunto podemos falar também do Brasil- seleção. Hum… desse tal de Brasil de Pelotas nunca ouvi falar não”, respondeu, didático

“Pois então fale da seleção”, implorei.

“Porra! Tá ruim pra cacete”, vociferou.

“Não exagere! Não está tão ruim assim”, ponderei.

“É… até que não tá mesmo”, disse um Gervasão mais ponderado.

“Então qual é o problema pra você estar ranzinza assim?”, protestei.

“O Brasil brasileiro está uma merda”, exagerou.

“Não está gostando de que exatamente?”, inquiri.

“Tô gostando de nada não. Aqui nada funciona”, disse um Gervasão mais exagerado ainda.

“E você sugere o que?”, provoquei.

“Arrumar uma namorada”, simplificou, complicando.

“Está querendo namorar comigo?”, me surpreendi.

“Não porra! Estou querendo arrumar uma namorada”, esclareceu, raivoso.

“A última vez que você namorou, e já faz um bocado de tempo, a sua namorada era feia pra cacete”, espezinhei.

“Era feia, mas era minha namorada, porra!”, reagiu.

“Isso é escapismo, porque você está mesmo é reclamando do país. Além de namorar, você quer fazer exatamente o que para arrumar esta merda de país?”, estava eu tentando ser sarcástico.

“Fazer porra nenhuma! Bora tomar um vinho. Eu trouxe dois litros”, disse Gervasão, mudando o rumo da conversa.

“Estou vendo. Mas este vinho é uma merda também”, continuei, provocativo.

“Uma merda, mas fui quem trouxe, meu!”, jogou, Gervasão, na minha cara.

“Então vamos nessa, com merda ou sem merda”, cedi, vencido.

(MTS)

Os três mandamentos da lei de Deus

Deus
Blog Espírita Canoro – (imagem alterada)

Deus veio me visitar ontem.

Isso mesmo. Em carne e osso, se é possível se referir a Deus dessa forma.

Eu estava na sala, sentado no sofá, tentando assistir TV.

O Senhor sentou-se ao meu lado.

– E aí, Marcião? Muita gente me chama assim, por que Ele não chamaria?

Tentei não acreditar. Me belisquei. Me dei tapa na cara. Gritei

– Não adianta,  disse-me Ele. Relaxa cara! Isto é só entre nós.

– Então o que o Senhor quer? – perguntei preocupado e assustado.

– Está surpreso? Não se preocupe. Vou lhe ditar os meus mandamentos – revelou.

– Mas o Senhor já não tinha feito isso antes? – ponderei.

– Aquilo foi uma experiência. Tanto que escolhi Moisés, o mais burro dos judeus – disse o Senhor.

– Judeu burro não existe Senhor – ponderei de novo.

– Deixe de ser puxa-saco – reagiu.

– Os caminhos de Deus são retos – pensei.

– É isso mesmo. Mas nem pense em me entender. Cuide da sua vidinha que já terá feito um grande negócio – avisou.

– Vidinha! – reagi.  O Senhor vem aqui e me escolhe para ditar as suas leis e chama a minha vida de vidinha! – reclamei.

– Preste atenção, idiota! Primeiro eu não vim aqui e o escolhi. Eu o escolhi e depois vim aqui. E não vim aqui ditar lei nenhuma. Vim ditar os meus mandamentos. Eu posso e Eu mando. Deu pra entender? – esbravejou.

– Tá bom, não precisa se irritar. Mas podemos conversar um pouco antes. Gostaria de saber algumas coisas – solicitei inseguro.

– Vá em frente. Tenho todo o tempo do mundo. Nunca se esqueça de que Eu sou o Senhor do tempo – esclareceu mais uma vez.

– Sim, Senhor, doutor… – brinquei provocativo.

– Olha o respeito. Na sua terra chamar alguém de doutor não é exatamente um elogio – disse, fuzilando-me com os olhos.

– Desculpe – roguei-lhe.

– Então vamos, pergunte – falou, impaciente.

– Onde o Senhor esteve estes anos todos depois que ditou as le… os mandamentos para Moises? Isso faz tempo pra cacete! – gaguejei.

– Eu não ditei coisa alguma. Eu escrevi numa pedra. Nunca se esqueça de que Eu sou o Senhor de tudo o que é sólido. Você não pensa não? – irritou-se de novo.

– E como eu iria ditar alguma coisa se o sujeito era analfabeto? – disse mais irritado ainda.

Compreendi o quanto Deus é sábio.

– E não faz tempo pra cacete coisa alguma. Foi agorinha mesmo – disse ainda bravo.

– Mas dizem que isso foi a sete mil, oito mil anos! – me admirei.

– Mas o que é o tempo para mim, Marcião? Nada! O tempo não existe. Eu sou o Senhor do tempo e posso dispor dele da forma que Eu quiser – disse mais compreensivo,

– Posso ser franco com o Senhor? – perguntei baixinho.

– Vá em frente – estimulou.

– Mas que merda é essa que o Senhor fez? Um mundo miserável. Cheio de gente pobre, doente, passando fome. Guerras. Futricas. Roubos… – açulei, destemido.

– Ah, quer dizer que sou o responsável por essa merda toda? – me interrompeu.

– Deixo dois caras pelados no Paraíso, debaixo de uma árvore cheia de frutos e uma cobra para eles brincarem, eles se enrolam todo e Eu é que sou o culpado? – esbravejou.

– Tá certo. O Senhor tem razão. Mas não poderia ter criado mais alguma coisinha. As roupas? Um automóvel? – ponderei contrito.

– Eu estava com pressa. Queria sair de férias. Fui dar uma voltinha. Uma desopilada. Uma espairecida. Ou você pensa que fazer o universo todo do nada é trabalho fácil? – reclamou, indignado.

– Concordo. Mas só não entendo porque demorou tanto tempo para voltar. Que férias longas – apontei com cautela.

– Já lhe disse que o tempo não existe. Pode até existir para você, que, aliás, nem sabe o que fazer com ele. Mas pra mim… – não concluiu acusador.

Achou que eu tivesse entendido, mas não entendi nada.

– Mais alguma coisa? – perguntou irônico.

– Depois que a gente morre… pra onde a gente vai? – perguntei, aflito e temeroso.

– Pra lugar nenhum. Vai ficar por aqui mesmo, apodrecendo em algum buraco. Isso se alguém não resolver lhe queimar o corpo e jogar suas cinzas num rio qualquer – esclareceu secamente.

– Poxa, mas isso não é justo – choraminguei.

– Quem decide o que é justo ou não sou Eu, o Todo Poderoso. Pois pra mim é justo. Justíssimo – rebateu tranquilo.

– Mas o que então a gente está fazendo na Terra?- inquiri surpreso.

– E eu sei lá! Vocês estão aqui e não sabem o que estão fazendo e querem ainda por cima que eu saiba – reagiu sem muita convicção.

– Mas não foi o Senhor que nos colocou aqui? – retruquei.

– Não coloquei vocês aqui coisa nenhuma! Coloquei apenas dois caras pelados e uma cobra no Paraíso– esbravejou retumbante.

– Tá bom. Pode ditar os seus novos 10 mandamentos – desisti.

– Obrigado por me permitir ditar meus mandamentos – aprendi que quando quer Deus sabe ser sarcástico.

– Mas não são 10, são 3 – emendou.

– Só!?!?- me surpreendi.

– Só! Pra que mais? Os mandamentos de Deus não são a constituição brasileira, com suas centenas capítulos, parágrafos, incisos… E, aliás, vocês nem sabem o que fazer com aquilo tudo – ironizou.

– É verdade – pela primeira vez eu concordava integralmente com Deus.

– Posso ditar? – perguntou inquisidor.

– Pode – respondi eufórico.

– Só uma coisa antes. Serão só três artigos, mas vão ter notas explicativas – esclareceu.

Eu estava gostando cada vez mais de Deus

– Mas eu posso acrescentar algumas observações, com a Sua anuência, naturalmente – e quando for necessário . O Senhor é quem decide se é ou não é oportuno ou não? – perguntei-lhe humilde e bajulador.

– Poder, poder, não pode. Mas como atrapalhei seu programa de TV vou lhe fazer uma concessão. Pode sim – concedeu, benevolente.

Agradeci e esperei embevecido.

– Primeiro Mandamento: trepar todos os dias.

– Trepar? – reagi. Não seria melhor fazer amor ou transar?

– NÃO! – trovejou.  Amor é outra coisa.  Vocês nunca entenderam isso direito. E transar é muito vulgar. Se fossem vocês e não Eu quem tivessem criado o mundo isto aqui já teria acabado numa grande esbórnia. Deixe trepar mesmo. É mais plástico – esclareceu, irritado.

– E a nota explicativa? – saí de fininho do puxão de orelhas.

– Nota Explicativa: use uma ou mais de uma das partes do corpo para trepar. Não se preocupe com o tempo, até porque o tempo não existe. Quanto mais tempo durar, melhor será – ditou, ensinando.

– Pode ser homem com homem, mulher com mulher? – perguntei, envergonhado.

– Pode ser homem com homem, mulher com mulher, homem com duas mulheres, duas mulheres com três homens… – esclareceu divinamente.

– Mas tem um problema. E se o sujeito estiver sozinho? Sem ninguém. Perdido num deserto? – tentei ser inteligente.

– Qual é o problema? Que trepe com ele mesmo. Que use as mãos. Pra que porra você acha que eu botei mãos em vocês? – lembrou com precisão.

Deus realmente é insuperável.

– Segundo Mandamento: durma depois do almoço.

– Peraí, Senhor. Tem milhões de pessoas, quiçá bilhões que nem têm o que comer; não têm emprego, não têm acesso aos direitos mais elementares… – tentei argumentar.

– PODE PARAR – reagiu, trovejante.

– Pode parar com esse seu papo de comunista. É no sentido figurado, seu ignorante. É uma licença poética – disse entre debochado e irritado.

Entendi, mas levantei outra questão – e se o sujeito tiver um trabalho daqueles que ocupam o dia todo, sem hora para nada? O patrão ou o chefe dele não vai gostar da história…

O Senhor não deu a menor confiança às minhas observações, mas esclareceu, ditando a Nota Explicativa :

– Caso seu patrão, seu chefe, seu dono, sua mulher, seu homem ou um idiota qualquer venha reclamar de sua dormidinha mande ele à merda ou à puta que o pariu e continue dormindo. Se você perder o emprego a natureza lhe proverá o sustento .

Pensei comigo que os caminhos do Senhor, às vezes, são tortuosos e intrigantes.

O Senhor olhou-me duramente.

– Posso continuar? – perguntou

– Sou o seu servo, Senhor – disse, sem saída.

– Terceiro Mandamento: Beba vinho.

– Gostei Senhor. Beber vinho realmente faz bem à saúde e alegra a vida – emendei, bajulador.

O Senhor não deu a menor confiança à minha observação e ditou a Nota Explicativa: Beba pelo menos um copo de vinho a cada hora.

– Mas, Senhor – argumentei escandalizado. No final do dia, ou até antes, um sujeito pode ficar completamente bêbado!

– E qual é o problema? O ser humano não sabe nunca quando está sóbrio ou ébrio mesmo – contra-argumentou com profunda sabedoria.

Deus é infinitamente benevolente e eu tinha mais uma questão.

– Mas Senhor, se dirigirmos bêbados podemos provocar acidente, ferir pessoas, matar. E se formos pegos numa blitz vamos ser multados, presos e podemos até ter o nosso carro apreendido pela polícia – argumentei, pesaroso.

O Senhor tem o mapa de todos os caminhos, a chave de todas as portas, a solução para todos os mistérios.

– Primeiro, seu estúpido – desta vez Ele não trovejou, só xingou – a maioria das pessoas nem carro tem. Estou admirado que um comunista como você não tenha se lembrado desse simples detalhe – espezinhou.

– Segundo, quem mais provoca acidente de automóvel é quem não sabe dirigir. E mais de 99% não pessoas não consegue distinguir a direção de um poste de luz. Então, beber ou não beber não fará a menor diferença – esclareceu.

– Terceiro, ao contrário do que dizem os idiotas dos médicos, beber faz bem à saúde. E se não fizer assim tão bem ao corpo, pelo menos faz bem ao espírito, e vai ajudá-los a enfrentar mais levemente essa existência miserável a que vocês foram condenados – sentenciou

O Senhor havia terminado. Estava resplandecente.

– Antes que o Senhor vá embora posso levantar mais duas questões? – perguntei sem temor.

– Claro. Sou todo ouvidos – disse, benevolente.

– Primeiro: se Adão e Eva tiveram apenas dois filhos homens e um, ainda, matou outro, como foi possível que o ser humano crescesse e se multiplicasse – perguntei sério.

– Boa pergunta – respondeu admirado. Não sei. Eu não estava lá. Não fiquei para ver.

– Mas o Senhor não é aquele que tudo sabe, que tudo vê, que tudo ouve? – eu estava perplexo.

– Só o que me interessa – respondeu, educado.

– Segundo: que história foi aquela de o Senhor fazer um filho numa mulher que continuou virgem depois do ato? – tirei uma casquinha.

– Não fui eu quem fez o filho e praticou o ato. Foi a pomba do Espírito Santo – defendeu-se.

– Mas por aqui pomba também tem outro sentido – insinuei.

– Então pense e tente decifrar o enigma – me desafiou.

E antes de ir, o Senhor voltou a me desafiar – você sabe o que vai fazer com isso?

– Isso o que? – me surpreendi.

– Com as leis que lhe ditei – disse quase desaparecendo.

– Não sei – confessei.

– Faça o que quiser com elas, mas não perca seu tempo enrolando as pessoas com essa conversa idiota sobre religião; não ande sobre as águas que você pode se afogar e nem tente fazer milagres que isso não funciona – e Deus desapareceu. (MTS)

O porteiro do Grande Hotel

GRande

Otávio chegou às 8h15 ao Grande Hotel. Fazia isso há 57 anos.

Dez minutos depois Otávio já estava com seu uniforme azul e seu quepe.

Mais cinco minutos e foi à copa tomar café e conversar animadamente com seus colegas.

Às 8h45, Otávio foi ao banheiro.

Rigorosamente às 9 Otávio postou-se em frente à portaria do Santa Genoveva. Era esse o nome do hotel, embora ninguém o conhecesse assim.

Às 9h15, Otávio lembrou-se que era porteiro do Grande hotel há 42 anos. Os outros 15 foram gastos como contínuo, copeiro, garçom e até ajudante de cozinha.

“Finalmente acabou”, disse, baixinho, pra si mesmo.

Um mês antes, no dia 13 de setembro, Otávio fora chamado ao RH.

“Parabéns seo Otávio”, disse Rosa, a chefe de RH. “Depois desses anos nos servindo com lealdade, finalmente o senhor vai gozar um descanso merecido… vai poder gozar a vida com a sua família… viajar com a patroa…”

Enquanto dona Rosa falava , seo Otávio lembrou-se de Serginho, um garçom jovem, bonito e mulherengo que pediu demissão há uns dois anos por não aguentar “essa chata da dona Rosa. Ela não para de falar e já me cantou várias vezes. Eu, hein!”.

“O senhor sabe, não sabe seo Otávio?, que o senhor só precisa trabalhar até o dia 12 de outubro… dia das crianças, seo Otávio…”

Seo Otávio não sabia se dona Rosa era casada, se tinha filhos, marido. “Eu nunca quero saber da vida dos outros. Eles lá e eu cá”, filosofava sempre.

“Olhe, no dia 12, seo Otávio, o senhor não precisa trabalhar. Mas venha aqui para a empresa… quer dizer, o senhor sabe… isso aqui não é uma empresa… é uma família da qual o senhor faz parte… E nós vamos fazer uma festinha de despedida… lá pelas 6 da tarde…”

“Se a senhora concordar”, finalmente seo Otávio falou… “eu venho trabalhar sim. Vai ser minha despendida da empresa… quer dizer, da nossa família… e depois a gente faz a festinha…”

“Seo Otávio, seo Otávio”, disse dona Rosa, abrindo um sorriso enorme. “O senhor é a prova do que sempre eu digo para os meus colegas e amigos: mesmo uma pessoa humilde, que nunca estudou, é pobre e mora na periferia… onde é mesmo que o senhor mora, seo Otávio?… ah deixa pra lá… mas como eu ia dizendo, mesmo uma pessoa nas suas condições é capaz de gestos nobres… de bondades que algumas vezes não encontramos em pessoas que conseguiram vencer na vida.”

Enquanto assinava “a papelada da aposentaria” (o sindicato abrira uma exceção ao poder da família Calabrese e tudo fora resolvido ali mesmo no âmbito do hotel) , seo Otávio ainda teve tempo de ouvir dona Rosa lhe dizer que “se não fossem as nossas diferenças sociais e de idade, quem sabe, né seo Otávio… e olhe”, voltando a falar sério “… não vá levar essa brincadeira ao pé da letra, hein… nossa família vai lhe dar um bônus de 5 mil, afinal o senhor dedicou toda sua vida a este hotel”.

Otávio assinou tudo, agradeceu e saiu.

Otávio trabalhava no Grande Hotel das 9 às 18 horas, cinco dias por semana (inclusive nos feriados) e um sábado por mês.

Tirava 2 horas de almoço e duas meias horas para um lanchinho e descanso. “Uma exploração”, diziam seus colegas, amigos e parentes. Mas Otávio não reclamava.

Seus proventos tinham como base dois salários mínimos e meio, “mais 10% por quinquênio”.

Dona Rosa, certa vez, explicara aos “funcionários subalternos” da “nossa família que essa é a política do hotel em reconhecimento aos inestimáveis serviços prestados pelos funcionários que nos são fieis… aonde a gente vai encontrar um bom emprego como esse, vocês não acham?”

Otávio engrossava seu salário com as gorjetas, especialmente nos dias de eventos importantes na cidade, “que em alguns meses chegam a mais de um salário mínimo”, explicou certa vez ao seo cunhado Antônio Pereira. “Mas mesmo em mês ruim, as gorjetas pagam uma feira pelo menos”.

Apesar das cobrança e das insistências de Mariazinha, Maria Pereira, “minha mulher”, Otávio nunca quis fazer “bicos no final de semana para aumentar a renda… Final de semana é pra eu descansar”.

Otávio mal tinha feito 18 anos, trabalhava ainda na cozinha do Grande Hotel, quando conheceu Mariazinha. Seis meses de namoro e os dois estavam casados.

Maria Pereira não podia ter filhos. Ainda menina, 13 anos, caiu de uma árvore, “não lembro mais”, desconversava, “acho que era uma mangueira”.

“O tombo afetou meus ovários”, explicou a Otávio quando este disse que eles deveriam casar. “Então eu não posso ter filho. Se você quiser um a gente vai ter de adotar”.

Otávio nunca levou em consideração a sugestão de Mariazinha, e nem mesmo considerou os seus apelos: “a gente bem que podia adotar uma menina. É mais fácil de educar”.

“É mais fácil nada. Aonde que você ouviu isso? Menina é só dor da cabeça. E de mais a mais, se você não pode ter filho, paciência. Não vamos ter filhos, nem nossos, nem dos outros.”

Com o tempo, numa coisa pelo menos concordaram: a ausência de filhos permitiu ao casal “guardar alguns, construir uma casinha e até comprar um carro”.

Otávio comprou “um carro meia boca” 10 anos antes de se aposentar. Ia todo dia trabalhar de carro, mas o deixava estacionado três ruas distantes do hotel. Otávio explicou a Mariazinha que “não queria dar carona pra ninguém, e nem que os graúdos da empresa saibam que eu tenho um carro”.

Do estacionamento ao hotel, do hotel ao estacionando Otávio cumpria um labirinto – passava por becos e galerias – coisa que se alguém percebesse não entenderia a sua razão.

O Hotel Santa Genoveva, o Grande Hotel, fora construído há mais de 70 anos, quando o centro da cidade “tinha meia dúzia de casas, a Prefeitura, a Câmara de Vereadores, uma Igreja, uma padaria e uma sorveteria”.

O Grande Hotel ainda pertence à família Calabrese, embora os seus construtores e primeiros herdeiros já tivessem morrido.

Hoje, o Hotel Santa Genoveva é “administrado profissionalmente, e “os seus donos atuais vivem por aí torrando o dinheiro que ganham com ele”.

Seo Otávio nunca conheceu “os donos do Grande Hotel… e acho que nem mesmo a dona Rosa viu essa gente um dia na vida”.

Certa vez seo Almeidinha, contador do Grande Hotel até sofrer um infarto e morrer, foi até o refeitório “almoçar com os subalternos“ e acabou por explicar que o hotel se chamava Santa Genoveva em “homenagem da uma tia-avó do patriarca da família”.

Galvão, “carregador de malas do Grande Hotel”, perguntou a Almeidinha se a avó do dono do hotel se chamava Genoveva.

“Não é avó… é tia-avó, seu idiota. E é claro que ela se chamava Genoveva. Se fosse Gertrudes, seria Hotel Santa Gertrudes.”

Galvão não era de se intimar com “um sujeito que tem um cabelinho tão bem penteado” e nem com o seu posto e importância dentro do hotel.

Muito pelo contrário! Galvão já fora preso quatro vezes por arruaça, por ter “batido num guarda”, por esfaquear um vizinho e ter expulsado o namorado de sua filha Rosana de sua casa.

“E essa véia também ajudou a construir do Grande Hotel?”, perguntou, com certo deboche, a Almeidinha.

O contador era cauteloso e se arrependeu do “idiota” que soltara momentos antes: “Não Galvão, a senhora Genoveva, uma mulher da nobreza italiana, já havia morrido quando a família Calabrese veio para o Brasil”.

Almeidinha até pensou em “pedir a cabeça desse marginal”, mas sabia que Galvão era protegido de dona Rosa… “só não entendo por quê?”

Otávio desse tipo de conversa e ouviu tudo quieto. Também não gostava de sair à noite e muito menos de “sair com gente que nem conheço direito”.

Durante esses 57 anos foi “umas quinze vezes” com os colegas “num bar que fica perto do hotel” e em apenas um churrasco “que a empresa dava todo ano na época do Natal” .

Participava apenas das festinhas dentro do próprio estabelecimento, isso se acontecessem “na hora do meu trabalho”.

Preferia a sua casa, a companhia de Mariazinha, de quem “eu sinto uma saudade miserável o dia inteiro”, e dos vizinhos, “pra bater papo, jogar conversa fora. Só não gosto de beber e nem de falar mal da vida dos outros. Quando eles começam com essas histórias eu vou embora”.

Otávio não se considerava um pão-duro, um mão-fechada. Era comedido nos gastos e “tenho os meus planos para o futuro”.

Mariazinha não reclamava do “jeitão do Otávio”, mas não sabia que “planos para o futuro são esses. Acho que nem ele sabe”.

Mas Mariazinha também gostava de Otávio, sentia sua falta durante o dia. “Ele nunca me bateu, nunca quebrou um prato de raiva, nunca gritou, nunca me mandou embora e… pelo menos é isso que eu sei… nunca arrumou um rabo-de-saia”.

Otávio era do tempo do ginasial. Estudou “o que pude estudar”. Fez o primário e o ginasial com um pouco de dificuldade, “e acabei por aí. Não quero mais nada com os estudos”.

Mariazinha seguiu mais ou menos os seus passos. Também fez, igualmente com dificuldades, o primário e o ginasial… “já tá bom, né?”

Diferente de seus parentes e amigos, Otávio e Mariazinha não gostavam de ver TV. Até tinham uma… “velhinha, ainda do tempo da válvula”, costumava ironizar a mulher do seo Otávio, mas que vivia “o tempo todo desligada”.

À noite, quando Otávio estava em casa, Mariazinha gastava o tempo fazendo “tricôs e crochês”, “pra economizar nas compras, né? E vender alguma coisa pra fazer um dinheirinho”.

Durante o dia, Mariazinha cuidava da casa, regava as plantas, cozinhava, lavava e passava, e “quando sobra um tempinho eu leio os livros do Otávio”.

Otávio, quando não estava de conversa na vizinhança, lia bastante. “Gosto de livro de aventura, de umas história de amor… não, nada de religião, nada desses negócios de assombração, bruxa… Acreditar eu não acredito, mas se está escrito em algum livro… vai saber?… é melhor evitar… deixar essas coisas bem longe de casa… bem longe da Maria e de mim”.

Mariazinha e Otávio não eram ateus. Nem agnósticos, palavra, que aliás, nem sequer conheciam.

Acreditavam em Deus, na vida eterna. Otávio era católico e Mariazinha “batista”, embora nunca tivessem lido a bíblia e “nem orassem”.

“Quando a gente casou”, explicou um dia no trabalho, Otávio, “a gente casou apenas no civil. Casar na igreja ia dar uma confusão danada. Ou a gente casava nas duas religiões, ou não casava em nenhuma. Não casamos em nenhuma”.

Desde a sua queda da árvore, aos 13 anos, que Mariazinha sentia “uns incômodos que não sabia explicar”.   Nunca teve as “regras normais”, sentia dores de cabeça quase todas as tardes e “passava algumas noites acordada sem saber por que e nem pra quê”.

Mariazinha nunca entendeu e nunca levou a sério o que “os médicos do posto de saúde diziam. Eles só passavam exames e remédios. Isso vai adiantar alguma coisa, eu perguntava sempre. Talvez, respondiam. Então pra que eu ia atrás disso se nem os doutores tinham certeza?”

Otávio era “um touro. Nem mesmo resfriado o danado pegou. Nunca ficou em casa um só dia. Nunca foi pra caixa. Isso é porque ele não bebe e não fuma”.

Por ser funcionário do Grande Hotel, Otávio era obrigado a fazer avaliações médicas todo ano.

Nunca encontraram nada. Um médico chegou a dizer que Otávio “rejuvenescia a cada ano, ao invés de envelhecer.”

Desde criança Otávio gostava de guardar dinheiro. Primeiro “numa lata de leite”, depois, já adulto, “na poupança”.

A ausência de filhos, o pouco interesse de Mariazinha pela medicina e pelos remédios e a “saúde de ferro” permitiram à família guardar o suficiente para a casa, para o carro e para os “planos do futuro”.

Quando se aposentou, Otávio até poderia desprezar, se quisesse, o “benefício concedido pela Previdência Social”. “Que benefício porra nenhuma (uma raridade, Otávio quase não falava palavrão). A gente se mata de trabalhar a vida inteira e depois, quando a gente já tá um caco, o governo chama essa porcaria de benefício?”

Na primeira segunda-feira após assinar “a papelada da aposentadoria” Otávio saiu do Grande Hotel às 4 da tarde, com a desculpa de ir ao médico “pela primeira vez na vida”.

Chegou em casa mais tarde do que o costume, depois das 10 da noite, e assustou ainda mais uma Mariazinha já assustada com a demora.

“Vendi a casa.”

“Tá louco, homem”, foi a primeira vez que Otávio viu a mulher levantar a voz. “Você vai se aposentar, vende a casa e a gente vai morar aonde? Na rua?”

“Vamos morar por aí. Pela vida. Pelas praias. Pelas estradas. Vou comprar um trailer.”

“Otávio, eu nem sei o que é esse troço de trailer”. O marido tentou interrompeu, mas Mariazinha não deixou. “Vá que isso seja uma coisa boa. Mas nós vamos ‘morar nas praias’ com que dinheiro, homem? Com a porcaria da sua aposentadoria?”

Otávio esperou Mariazinha acabar de falar e se acalmar.

“Já acabou? Pois agora escute. Olhe aqui” – mostrando um extrato bancário. “Esses anos todos eu guardei dinheiro pra gente poder viver pelo menos um pouco.”

Mariazinha tentou falar… “não… agora escute um pouco o seu marido. Olhe aqui… tem mais de 250 mil, e eu ainda vendi a casa por 100 mil. Já viu tanto dinheiro assim?”

“Nunca vi, não Otávio”, respondeu, baixinho, Mariazinha.

“Então mulher? O que nós vamos fazer daqui a um mês? Ficar aqui parado, esperando até a morte levar a gente embora.”

“É…”, considerou a esposa.

“Olhe, Mariazinha”, com mais carinho que costumava usar. “Eu ouvi uma coisa no ginasial, de um colega, que era mais ou menos assim: chega um tempo na nossa vida que a gente dobra o cabo da boa esperança”.

“Não entendi”, resmungou, baixinho, Mariazinha.

“O que ele disse é que a gente envelhece, e fica mais perto da morte ou está indo rapidinho pra ela. O que a gente tem a perder depois de dobrar o cabo da boa esperança? A vida?”

“É… a vida a gente vai perder loguinho, loguinho… Tá bom Otávio, mas me explica o que é esse tal de trailer…”

“Você vai ver o que é”, disse, mais uma vez, carinhoso. “Mas pra você não morrer de curiosidade até lá, vou falar que é um carro que puxa uma casa inteira na sua rabeira.”

Três dias antes de aposentar, Otávio comprou “o tal do trailer”, mandou fazer no dia seguinte uma revisão completa no novo veículo. Vendeu o seu carro “meia boca” e no dia da festa de sua despedida foi trabalhar com a “nova máquina, que, naturalmente, deixou estacionada três ruas distantes do trabalho.

Entre assinar a “papelada da aposentadoria”, vender a casa e o carro “meia boca” e comprar o trailer, Otávio tomou uma providência que achava fundamental para concretizar os “seus planos de futuro”: foi procurar Sérgio Augusto, “aquele menino da informática”, despedido do hotel após furtar um laptop de um hóspede.

“E aí seu Otávio, o que manda?”, saldou Sérgio Augusto que “agora trabalhava em casa”.

O porteiro do Grande Hotel quis saber como seria possível enviar uma mensagem pelo computador para todos os funcionários, clientes e proprietários do Santa Genoveva, “mas que não seja esse negócio de spam” (Otávio sabia uma coisinha ou outra sobre informática).

Sérgio Augusto tentou espezinhar o porteiro: “bem… isso é fácil, o problema são os e-mails. Por acaso o senhor sabe o que são e-mails? Se todo mundo tem um? E o mais: como a gente vai conseguiu esses e-mails todos?”

“É claro que sei o que é um e-mail, Serginho” (Sérgio odiava que o chamassem apenas por um de seus nomes e ainda mais no diminutivo). “E você acha que eu fiz o que esse tempo todo lá? Fiquei roubando laptop de hóspede? Já tenho um por um, tome aqui”, mostrando uma listagem completa e já salva em um pendrive.

Sérgio Augusto não gostou das “inciativas” de seo Otávio, mas rapidamente imaginou uma oportunidade de dar-lhe “o troco” e ainda de tomar “algum dinheiro, mesmo que fosse um pouco, do velho e ignorante porteiro”.

“Tá bom, seo Otávio. Mas vai lhe custar algumas coisa.”

“Quanto, Serginho?”, respondeu seco Otávio.

“Ah… dois… não, dois não… três mil”

“Tá… vou fazer o seguinte”, retrucou Otávio. “Vou lhe pagar cinco mil. Em dinheiro e agora mesmo”, disse tirando as notas de um envelope.

Após Sérgio Augusto contar do dinheiro, Otávio pegou-lhe pelo braço:

“Tem uma coisa. Esses e-mails devem chegar todos às 2 da tarde sem falta. Outra coisa: se um só e-mail não chegar”, blefou Otávio, “eu volto aqui com o Galvão. Você sabe quem é o Galvão, não sabe?”

“Sei sim, seo Otávio”, respondeu um muito assustado Sérgio Augusto. “É aquele das facadas, não é?”

“É esse mesmo. E é ele quem vai checar, não é assim que vocês dizem?, se os e-mails chegaram ou não”.

Otávio e Sérgio Augusto ainda ficaram conversando mais algum tempo, escrevendo a mensagem a ser enviada aos funcionários, aos clientes e aos proprietários do Grande Hotel.

Optaram por um layout em letras vermelhas aplicadas num fundo preto.

Ao arrumar as malas para a viagem aos “planos de futuro” de Otávio foi que Mariazinha descobriu muito mais que romances e livros de aventura.

Descobriu mapas de viagem, manuais de sobrevivência e de mecânica, prospectos de hotéis, pousadas, campings e restaurantes. Facas de todos os tipos, pratos e talheres de plástico e até um revolver.

Na manhã do dia 12 de outubro – “dia das crianças, seo Otávio –, antes de ir para o trabalho, o porteiro recebeu um representante da imobiliário que intermediara a venda da casa, a quem “entregou a chave do imóvel” e a escritura.

Desta vez Mariazinha foi junto “para a cidade’ com o marido. Ficou hospedada em um pequeno hotel na mesma rua onde Otávio deixava o trailer estacionado, enquanto o marido ia para o último dia de trabalho e para a festinha de despedida no Grande Hotel.

Ao meio dia, Otávio informou à direção do Grande Hotel que teria de se ausentar rapidamente para buscar a mulher que fora ao médico, mas que voltaria “até no máximo as três horas” para ficar “zanzando por aí e esperar a festinha de despedida”.

“Pode ir, seu Otávio”, disse Marcelo, o jovem chefe de segurança do Grande Hotel. “Afinal o senhor já está aposentado mesmo e trabalhou esta amanhã toda sem ao menos receber hora-extra por isso. E traga a senhora sua esposa… como é mesmo o nome dela, seo Otávio?”

Seo Otávio não respondeu, e antes de sair do hotel passou na sala de dona Rosa para ver se ela não podia dar “aquele agrado de 5 mil que prometera por conta da sua fidelidade. Sabe dona Rosa, a minha mulher está no médico… teve de fazer uns exames que custam caro e eu estou sem nenhum nesse momento”.

“Ora, seo Otávio”, disse uma sorridente dona Rosa. “Mas é claro. Tome aqui o seu agradinho”, estendendo-lhe um cheque nominal. “É uma pena. Nós iriamos entregar na hora da festinha, mas se o senhor está tão necessitado assim… fazer o que?”

‘Obrigado”, disse seo Otávio.

“Ah, mas não se esqueça de passar no banco para descontar o cheque. A clínica não vai aceitar pagamento com um cheque nominal e ainda tendo de dar o troco…”

Mais uma vez Otávio agradeceu a gentileza e os esclarecimentos de dona Rosa e saiu.

Otávio passou no banco e depositou o cheque em sua poupança, depois “sacou algum para a viagem” e foi para o hotel reencontrar Mariazinha, tomar banho e “trocar de roupa”.

Faltando dez minutos para as 2 horas Mariazinha e Otávio fizeram o check-out. Otávio ainda pediu para fazer, “se possível, uma ligação. É aqui pra cidade mesmo”.

O recepcionista não permitiu a ligação “de graça” e indicou um orelhão no saguão. Como Otávio não tinha cartão de telefone o recepcionista foi gentil e emprestou-lhe o seu.

Otávio ligou para a recepção do Grande Hotel, pediu para a telefonista que “se desculpasse com a dona Rosa e com todo os seus companheiros de trabalho”, mas que não poderia voltar “para a festinha de despedida”, e pediu, “se possível for”, que a telefonista “passasse essa informação pelo sistema de som do hotel”, anunciando, inclusive, que para sanar essa “lamentável falta minha com pessoas que me trataram tão bem esses anos todos” que  estava enviando uma mensagem, por e-mail, a “todos da família do Grande Hotel”.

Luiza, a telefonista, achou o pedido fora de propósito, mas… afinal era o seo Otávio, “gente boa, profissional correto e dedicado ao Grande Hotel”, ela mesma havia comprado “uma lembrancinha para o porteiro e outra para sua esposa, que pena.”

“Então, que mal tem? Não vai tirar pedaço de ninguém mesmo”, ponderou, mais tranquila.

Serginho cumpriu o prometido e às 2 horas todos receberam em suas contas de e-mail a “mensagem de despedida“ do seo Otávio.

As 2h30 Luiza foi despedida por justa causa.

As 4, após diversos telefonemas da família Calabrese, os advogados do Grande Hotel estavam reunidos para ver “que medidas tomar contra esse velho irresponsável”.

Os advogados chamaram a polícia e uma viatura foi deslocada para a periferia, mas os policiais encontraram apenas uma casa vazia e vizinhos que não sabiam “onde o casal estava”.

Seis meses depois ninguém tinha a menor de ideia do que acontecera com seo Otávio e dona Mariazinha.

Apenas Galvão via graça na história, não se ofendera com a mensagem e até reenviava para outras pessoas a mensagem de seo Otávio, em letras vermelhas aplicadas num fundo preto:

“Aí, seus filhos da puta. Enfim estou livre de vocês. VÃO TOMAR NOS SEUS CUS! Assinado, seo Otávio, o porteiro.” (MTS)

A genialidade de Guimaraes Rosa em breves palavras

“O jornalismo e a atualidade de Guimarães Rosa”

Tutameia 01[Críticas à imprensa se tornaram corriqueiras – a maioria, pelos motivos errados. O principal defeito dos jornais e revistas brasileiros não está na ideologia nem nos procedimentos editoriais (em que pesem queixas legítimas). Está na deterioração do texto. O Brasil talvez seja o único país em que alguém pode ser jornalista bem-sucedido sem saber escrever direito. Sempre pôde contar com editores abnegados, dispostos a reescrever qualquer aberração, depois assinar com o nome alheio. Nas últimas décadas, nem isso tem bastado. Por uma conjunção madrasta de forças econômicas e culturais, a imprensa se vê nas mãos de uma geração que não foi educada para a escrita. É algo visível no nível mais básico, tal a profusão de erros de concordância e regência, de palavras e partículas desnecessárias (“que”, “se” ou “de”), de textos viscosos e confusos. Mas também num nível mais grave e insidioso. Fora os deslizes sintáticos, ortográficos ou estilísticos, em certa medida inevitáveis diante da pressão dos prazos, o texto jornalístico se tornou refém da preguiça mental e dos chavões. Não passa um dia sem que alguém cometa, nas páginas da grande imprensa, uma “ponta de iceberg”, uma “joia da coroa”, um “divisor de águas” ou uma “rota de colisão”. Quando falta apuro na linguagem, natural que falte também nas ideias. O problema da imprensa é, na essência, um problema de linguagem.

Daí a relevância e a atualidade de Guimarães Rosa, morto há 50 anos. Na divisão clássica, há escritores que se impõem pela força da narrativa, como Dickens ou Tolstói, outros pela linguagem, como Joyce ou o nosso Rosa. Ele destilava cada frase, cada palavra, cada vírgula para alcançar seu estilo singular. É um erro crer que apenas reproduziu o falar característico do sertão. Seu texto derivava de vasto conhecimento linguístico, em que a estrutura sintática do alemão podia se aliar a uma expressão do francês ou a um neologismo importado do russo para expressar o pensamento ou a ação do sertanejo. Tal mecanismo sofisticado, presente em todas as suas obras, faz de muitas uma leitura difícil, por vezes maçante. Parecem escritas num idioma estrangeiro, em tudo similar ao português. Ninguém jamais escreverá como ele. Mas é leitura fundamental, recompensadora até, para quem deseja ou precisa, como os jornalistas, dominar as engrenagens e a artesania da linguagem escrita.

Tutameia 02Nenhuma das obras de Rosa é tão didática a respeito de sua relação com a linguagem quanto o último livro que publicou em vida, meses antes de morrer, a coletânea de contos Tutameia. Em 44 textos, chamados de “estórias”, Rosa produziu seu testamento literário. Quarenta deles haviam sido publicados anteriormente – a maioria na revista médica Pulso, dois no jornal O Globo, onde também publicara os contos da coletânea Primeiras estórias. Quatro são novos, classificados como prefácios, embora apenas um ocupe a posição convencional na abertura do livro. O leitor encontra os outros três entremeados às demais estórias. Na edição original, publicada pela Livraria José Olympio, há dois índices: um no começo, com as estórias em ordem alfabética (ou quase); outro no final, o “índice de releitura”, com os prefácios separados. Esse segundo índice é um recado do autor: apenas uma leitura não basta. A vantagem prática de Tutameia é justamente poder ser lido e relido aos poucos. A restrição de espaço nas publicações originais obrigou Rosa a produzir textos curtos e independentes, num esforço de condensação que aproxima sua prosa da poesia. Ler um por dia contribui para melhorar a escrita de qualquer um.

O cenário das estórias é o ambiente familiar a Rosa, os descampados, matas e cenários ermos do sertão mineiro. Os personagens, na descrição do crítico Paulo Rónai, são também familiares: “Vaqueiros, criadores de cavalos, caçadores, pescadores, barqueiros, pedreiros, cegos e seus guias, capangas, bandidos, mendigos, ciganos, prostitutas, um mundo arcaico onde a hierarquia culmina nas figuras do fazendeiro, do delegado e do padre”. É nos quatro prefácios, cheios de ironia, que ele nos deixa seu legado explícito. São textos urbanos, reflexões de um escritor em eterno embate com as palavras. O primeiro é uma discussão algo filosófica, sobre como representar algo por meio da ausência. No segundo, ele defende os neologismos. No terceiro, narrativa trôpega sobre a volta de um bêbado a sua casa, demonstra nas palavras e no ritmo a importância da forma para o conteúdo. É no quarto, reunião de sete histórias pessoais, que traduz o título, no final de um glossário. A palavra “tutameia” pode aparecer no dicionário com o sentido de “ninharia”, mas era para Rosa “mea omnia” (toda minha, em latim), a síntese de toda a sua obra. Publicada, em boa parte, pela imprensa.]

Helio Gurovitz , na revista Época.

“Maior estudo de solos do país começa em março”

solos
Crédito da foto: G1 Globo.com – Pesquisadores vão iniciar projeto piloto de estudos do solo.

[Pesquisadores da Embrapa Solos iniciam em março próximo o projeto-piloto do Programa Nacional de Solos do Brasil (PronaSolos). A montagem do programa será feita em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) e universidades brasileiras e deverá ser concluído em nove meses. O custo estimado nessa fase é de cerca de R$ 900 mil.

Uma vez aprovado pelo governo federal, o PronaSolos passará à fase de execução, que pode levar entre dez e 30 anos, estimou o chefe-geral da Embrapa Solos, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) sediada no Rio de Janeiro, Daniel Vidal Perez. O programa vai mapear o território brasileiro e gerar dados com diferentes graus de detalhamento para subsidiar políticas públicas, entre outras aplicações.

Perez explicou que a maioria dos trabalhos de reconhecimento dos solos brasileiros foi feita nas décadas de 70 e 80, mas a representatividade do conhecimento do solo por área é muito baixa. “Nos números atuais, aproximadamente, é como se eu tivesse conhecimento do solo a cada 150 mil hectares, o que, para uma necessidade estadual ou mesmo municipal, é inviável”. As escalas de mapeamento existentes no país são em torno de 1 por milhão, “na melhor das hipóteses”.

Ele informou que o número de informações disponíveis é muito pequena para o Brasil. Nos Estados Unidos, a escala de conhecimento dos solos é de 1 centímetro para cada 25 mil centímetros. “O nível de detalhe, de conhecimento, é muito melhor”, comentou Perez.

Estudo completo

O PronaSolos será um estudo completo do tipo de solo em profundidade, informação necessária para, por exemplo, incentivar projetos de irrigação ou calcular o estoque de carbono para mitigar as emissões de gases de efeito estufa, por meio da manutenção ou do sequestro desse carbono em solo. “Mas, para isso, é preciso conhecer o solo em profundidade e em detalhe. E essa informação, infelizmente, nós não temos”.

Alguns estados das regiões Sul e Sudeste têm informação melhor, mas no resto do país os dados são reduzidos, disse o chefe-geral da Embrapa Solos. São áreas desconhecidas em que não há informações sobre o tipo de solo. “Às vezes, a gente encontra solos que não são esperados”. Na Amazônia, por exemplo, há forte influência dos Andes. “Essa influência nunca foi analisada, é forte e muito presente”. Ele disse ainda que mesmo na região de crescimento da agricultura brasileira, que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e da Bahia, o conhecimento desses solos é muito baixo. O PronaSolos permitirá que os dados sejam mais precisos, inclusive em relação aos insumos e nutrientes de que necessitam para que não haja, entre outros problemas, a contaminação de águas subterrâneas.

Daniel Perez advertiu que se não forem tomados agora os cuidados necessários com o solo do país, “daqui a 50 ou 100 anos a gente vai estar pagando o preço da ignorância”. O representante da Embrapa lembrou que o solo é um dos componentes da produção e, em termos ambientais, é talvez o mais importante. “Tudo passa por ele. Se você não tratar bem o solo, vai ter sérios problemas”.

Resposta

Diante das projeções de crescimento populacional nos próximos anos, Perez destacou que a agricultura do Brasil é uma das que apresentam melhores possibilidades de resposta. O PronaSolos vai fornecer dados para que o país obtenha ganhos de produtividade. “Vai dar informação necessária para que se estabeleçam políticas de uso eficiente e mais adequado dos diversos insumos agrícolas, entre eles o fertilizante”. Ele chamou a atenção para o fato de que a informação detalhada será útil até na definição do local onde deverão ser colocadas linhas de transmissão de energia elétrica.

A execução do PronaSolos demandará investimentos públicos e privados que poderão alcançar R$ 1 bilhão, para um trabalho básico a ser feito no prazo de 30 anos, ou R$ 3 bilhões para um trabalho que poderá ser feito em dez anos. O PronaSolos deverá gerar ganhos para o Brasil de R$ 40 bilhões, em uma década. Uma vez aprovada sua estrutura, a execução do programa será imediata. “Nós estamos correndo contra o tempo”. Os Estados Unidos, que são um dos principais competidores do Brasil, já têm esse conhecimento e não precisam mais investir nessa área. “Mas nós precisamos”, disse Daniel Perez.

O chefe-geral da Embrapa Solos destacou que o desconhecimento dos tipos de solo provoca ineficiência da produção e da produtividade, problemas ambientais, como assoreamento de rios. Já o conhecimento do solo vai aumentar a competitividade do agronegócio nacional, criando até modelos de produção. Para isso, é preciso ter dados que ainda não existem, acrescentou.]

Alana Gandra, repórter da Agência Brasil; edição, Graça Adjuto.

Link para o texto original Agência Brasil.

Passagem do tempo confirma genialidade de Hannah Arendt

“Hannah Arendt, 110 anos”

hannah
Hannah Arendt – Brasil – WordPress.com

[Decorridos 110 anos do nascimento de Hannah Arendt, existe generalizado consenso, nos mais diversificados quadrantes culturais, sobre a importância e o significado da sua reflexão para o entendimento e análise do mundo atual. Por isso se pode dizer que ela adquiriu o status de um clássico, cuja obra nunca termina de dizer aquilo que tem para dizer, para recorrer à formulação de Italo Calvino. Daí o número crescente de livros dedicados à sua obra que adensam anualmente, a partir de distintas perspectivas, a bibliografia arendtiana.

Seu grande livro de 1951, Origens do Totalitarismo, tornou-a figura pública de destaque intelectual. Nessa obra, identificou no totalitarismo um inédito regime político, voltado para a dominação total, distinto das conhecidas figuras do despotismo, da tirania e da ditadura. Destacou a sua especificidade, apontando que se caracteriza pela ubiquidade do medo, instrumentado na organização burocrática de massas e sustentado pelo emprego do terror e da ideologia. Apontou igualmente que a operação dos campos de concentração, direcionada para o indizível da descartabilidade do ser humano, inerente à dominação totalitária, não obedecia a critérios de utilidade econômica e política, escapando assim do âmbito da tradicional categoria da razão de Estado, na qual a relação entre meios e fins é inerente à justificação do não cumprimento de princípios éticos.]

Leia a íntegra do texto de Celso Lafer[1], em O Estado de São Paulo.

Nota

[1] Celso Lafer é advogado, jurista, professor, membro da Academia Brasileira de Letras e ex-ministro das Relações Exteriores brasileiro no governo de Fernando Henrique Cardoso.

“A literatura experimental não foi inventada pela internet”

escrita
Retirado do site El País

[Vários livros retomam a OuLiPo, um laboratório literário formado nos anos sessenta por Raymond Queneau, Georges Perec e Italo Calvino, entre outros.

É impossível definir o que é a OuLiPo sem passar por essas palavras. Os autores pertencentes ao grupo se impõem regras para escrever: abrir mão de uma das vogais em um romance, substituir os substantivos de um verso por outros localizados perto deles no dicionário, inspirar-se na álgebra de Boole para construir um poema. Não por acaso, o fundador do grupo, ao lado de Raymond Queneau, François Le Lionnais, além de enxadrista e patafísico [1], era também matemático, como ainda o são vários de seus atuais integrantes: a inspiração nas estruturas abstratas do cálculo nunca voa longe demais. Sua missão original consistiu em inventar diferentes tipos de restrições, ou resgatar do passado algumas já esquecidas, e abrir, assim, novos caminhos para a literatura.]

Leia o texto completo de Álex Vicente , no El País.

Nota

[1] Referente a patafísica – ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções, foi criada pelo dramaturgo francês Alfred Jarry.

Reações prosaicas e provincianas marcam premiação de Dylan com Nobel de Literatura

dilijindoA escolha do cantor, compositor, escritor e artista plástico norte-americano, Bob Dylan, para o prêmio Nobel de Literatura deste ano causou reações diversas pelo mundo e, como não poderia deixar de ser, no Brasil.

Aplausos e reconhecimentos eram esperados, assim como críticas e ironias. Nestes particulares (críticas e ironias) parece, no entanto, que o Brasil se esmerou.

O site UOL se apressou, ontem, em ouvir livreiros (editores de livros), poetas e jornalistas que se avolumaram em condenar a escolha da academia sueca.

As “opiniões abalizadas” beiraram o ridículo, o nonsense, com gente afirmando que se era para premiar Dylan então que se premiasse, também, Chico Buarque de Holanda (“O coração tem razões que a própria razão desconhece”? – Blaise Pascal); um engraçadinho (ou tentando ser um) pediu a indicação do escritor moçambicano Mia Couto para o Grammy (latino ou africano?); outro (este o infatigável blogueiro de Veja, Reinaldo Azevedo) que o próximo indicado ao Nobel de Literatura seja a dupla sertaneja Chitãozinho e Chororó, e – não pasmem, que não é o caso – muitos, que a premiação não tinha sentido, posto “música não ser literatura”.

Uau! Uau!

Deixemos de lado todas as ironias e desconhecimentos e fiquemos apenas nesta soberba frase : “a música não é literatura”.

Talvez, antes de falar bobagens dessa magnitude atômica, devessem, ao menos, “dar” um Google, ou consultar a Wikipédia e até mesmo um bom dicionário. Muitas vezes isso resolve!

Mas, pelo jeito não fizeram, portanto faço eu.

A Literatura é a arte de compor e expor escritos artísticos, em prosa ou em verso, de acordo com princípios teóricos e práticos; o exercício dessa arte ou da eloquência e poesia.[1]

A palavra Literatura vem do latim “litteris” que significa “Letras”, e possivelmente uma tradução do grego “grammatikee”. Em latim, literatura significa uma instrução ou um conjunto de saberes ou habilidades de escrever e ler bem, e se relaciona com as artes da gramática, da retórica e da poética. Por extensão, se refere especificamente à arte ou ofício de escrever de forma artística. O termo Literatura também é usado como referência a um corpo ou um conjunto escolhido de texto…[2]” (wp)

Literatura –  “Atividade humana, criadora, que utiliza a linguagem e a língua para fins não somente de comunicação, mas também para fins estéticos e de cultura” (Dicionário Informal)

Literatura (latim litteratura, -ae) “forma de expressão escrita que se considera ter mérito estético ou estilístico; arte literária”. (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).

Letra, em música, é o texto contido nas composições vocais para ser cantado ou, às vezes, recitado… Numa partitura para canto, a letra é escrita sob as notas musicais sendo as palavras separadas em sílabas.(wp)

Em Letra de música é poesia?, Antônio Miranda [3] diz que:

Li por aí alguém afirmando que Chico Buarque não é poeta, é letrista. Em sentido contrário, Paulo Henriques Britto (em Azougue 10 anos, 2004, p. 263, em entrevista a Sergio Cohn), afirma: “As letras de Caetano Veloso, Chico Buarque, Torquato Neto e tantos outros me empolgavam por ser poesia e falar das coisas e do tempo em que vivia, no tom exato, com as palavras do meu dia-a-dia, tal como os modernistas haviam falado do mundo deles com um vocabulário e uma sintaxe que antes não eram considerados apropriados à poesia. Estes artistas populares significam a minha fala e as minhas vivências .” É bom frisar que Paulo Henriques, além de poeta, é linguista por formação acadêmica.”

. . . . . . . . . .

Noel Rosa foi ou não foi o poeta da Vila? E que dizer do Cartola? Podemos considerar poeta um Catulo da Paixão Cearense (que era maranhense)? Eram sim, foram, são poetas e pronto. Caetano é um poeta!

Em artigo para a revista Cult (que ontem, aliás, apressou-se em saldar a escolha de Dylan) Francisco Bosco[4] argumentava que “O saldo de um século dessas transas estético-discursivas é, quero crer, a amenização da resistência a se considerar a canção popular como campo cultural capaz de produzir obras de inestimável valor estético, para muito além de um mero entretenimento gerador de mitos pops e movimentador de um mercado milionário…” e que “Como membro ativo da comunidade acadêmica posso atestar a (embora não consensual) aceitação da canção popular nos estudos acadêmicos, não como objeto apenas de interesse sociológico, mas como produção estética de grande valor. Inúmeras publicações, acadêmicas ou não, vêm contribuindo para uma avaliação mais pertinente da canção popular brasileira. É certo que, em meio a isso, ainda espocam, na imprensa como no meio acadêmico, intervenções territorializantes e ressentidas contra a canção popular. O sentido geral costuma ser algo como: a nós, poetas e intelectuais, o prestígio; aos compositores, o sucesso espetacularizado. É importante, contudo, lembrar que a triste situação cultural de esvaziamento do discurso acadêmico não deve conduzir à diminuição do valor da canção, o que só serve para piorar as coisas”.

Das (i)lógicas

A seguir-se a lógica reativa, o inglês William Shakespeare, o romeno Eugène Ionesco e o irlandês Samuel Beckett não poderiam aspirar ao prêmio da academia sueca, posto serem, a rigor, reles autores de teatro, e que, como todos eles sabem muito bem, o texto de teatro é um texto menor que não cabe em papel impresso a ser lido, portanto, não se trata bem de literatura.

Nesse diapasão quem sabe possamos estender a negativa aos próprios poetas (de papel)?

Notas

[1] A poesia, ou texto lírico, é uma das sete artes tradicionais, pela qual a linguagem humana é utilizada com fins estéticos ou críticos, ou seja, ela retrata algo em que tudo pode acontecer dependendo da imaginação do autor como a do leitor. “Poesia, segundo o modo de falar comum, quer dizer duas coisas. A arte, que a ensina, e a obra feita com a arte; a arte é a poesia, a obra poema, o poeta o artífice.”[1] O sentido da mensagem poética também pode ser, ainda que seja a forma estética a definir um texto como poético. A poesia compreende aspectos metafísicos e a possibilidade desses elementos transcenderem ao mundo fático. Esse é o terreno que compete verdadeiramente ao poeta.

[2] Aristóteles. Poética, IX-50

[3] Antônio Lisboa Carvalho de Miranda é membro da Associação Nacional de Escritores;  foi colaborador de revistas e suplementos literários como o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, do La Nación (Buenos Aires, Argentina) e Imagen (Caracas, Venezuela); professor e ex-coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação do Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília; organizador e primeiro diretor da Biblioteca Nacional de Brasília (2007 até o momento); doutor em Ciência da Comunicação (Universidade de São Paulo, 1987), com mestrado em Biblioteconomia na Loughborough University of Technology, LUT, Inglaterra, 1975 com formação em Bibliotecologia pela Universidad Central de Venezuela, UCV, Venezuela, 1970.

[4] Escritor, ensaísta, professor de Teoria Literária e letrista de canção popular. É autor de Da amizade (poesia -7Letras, 2003), além de autor de diversos ensaios, artigos e resenhas publicados em revistas acadêmicas e jornais

O fim do mundo está próximo, mas será o fim mesmo?

eterno-retorno

Na penúltima década do século passado era comum ouvir-se pelas ruas que na virada do milênio a maioria dos brasileiros seria “protestante” e que a floresta amazônica não mais existiria.

Década ou duas décadas antes também era possível ouvir pelas ruas do Brasil (este país que se diz não ser nada racista [sic]) que os “negros” seriam maioria absoluta nesta Grande Terra de Tupã.

A terceira hipótese soava como assustadora num pais de domínio, nos negócios e na política, de gente branca, ou que se diz e se quer branca.

A primeira incomodava católicos (majoritários até hoje), liberais em geral (como se não houvesse liberais entre os “protestantes”) e ateus e agnósticos.

A segunda sempre interessou a poucos. Afinal, a Amazônia fica nos confins do mundo, cheia de mato, de bicho bravo e índios arredios. Quem se importa com eles todos?

Olhando com pouca atenção, pode-se dizer, sem culpa, que esses medos todos vêm de nossa condição subalterna no mundo, coisa da mistura de raças (sic), herança de grupos étnicos não produtores e não usuários de tecnologia avançada, tecnologia esta, óbvio, produzida pela elite branca europeia e por extensão a norte-americana.

Essa antevisão catastrófica se estenderia, por óbvio, para países similares, como os latino-americanos.

Das evoluções

Pode-se, no entanto, entender isso tudo como uma meia-verdade.

Basta olharmos para obras da literatura inglesa futurística, como 1984 e o Grande Irmão; ou para o cinema-catástrofe norte-americano, japonês e europeu; ou para aqueles cientistas que garantem o fim da humanidade antes da chegada do ano 3 mil ou para o físico britânico que sugere que nós caíamos fora da Terra antes que seja tarde.

Há até quem preveja, em nosso lugar, uma nova raça humanoide, formada a partir de nosso atual corpo, mas acoplados nele chips, memórias artificiais, membros mecânicos e anabolizado por drogas sintéticas.

A evolução nos empurrou para o atual estágio há 300 mil anos, o que acarretou na morte de nossos “priminhos” de mesma linhagem.

Talvez sejamos todos filhos de Caim e o Antigo Testamento esteja correto.

A tradição Varnashrama (que conhecemos como Hinduísmo) nos empurra para uma outra lógica que foge à ideia de extinção do universo; qual seja, o universo evolui constante e implacavelmente até o seu esgotamento final, seguido de uma contração (involução/retrocesso) até os seus primórdios para daí dar-se o início a uma nova construção-evolução, assim infinitamente.

A lógica dos vedas foi, de uma forma ou de outra, apropriada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) – “o eterno retorno” –, e pelos teóricos do Big Bang – “a grande expansão”.

Dos vazios

Sem quem tenha estudado uma linha sequer de física e de religião, um amigo de infância, morto prematuramente aos 53 anos, não entendia a lógica da eternidade sem um começo.

Para ele, ou era uma coisa ou era outra: a eternidade pressupõe um não começo ou tudo que tem um começo terá necessariamente um fim.

Um filósofo espontâneo e casual que faleceu de causas conhecidas: o uso excessivo de álcool.

Espero encontrá-lo em outro momento, mas sem que tenhamos nos esquecido de sua sabedoria hinduísta, embora ele nunca tenha ouvido falar de Hinduísmo.