O futebol passou pelas janelas e as carolinas não viram

A copa é nossa
Ilustração: Esporteemidia.com

Creio que nós todos saibamos que o futebol é o único esporte mundial.

Outros esportes tentam e continuam tentando se ombrear com este esporte, mas apenas com relativo ou pouco sucesso.

Frente a esse fato evidente não soa estranho que a copa do mundo tenha essa repercussão toda e esse prestígio todo e que o esporte seja aquele de maior rentabilidade financeira e de interesse pelo mundo todo.

Na nossa natural lentidão, muita gente não deve ter percebido (ou talvez não tenha conhecimento mesmo) as “mudanças profundas” pelas quais passou o esporte, especialmente após o advento e a democratização da televisão.

Há, obviamente, quem aponte (e com relativa razão) os “malefícios” que a televisão levou ao esporte e prefira o “futebol de antigamente” (inclusive jovens que não o testemunharam) sem se dar conta dos ganhos na preparação física, na medicina esportiva, na profissionalização de técnicos e dirigentes que necessariamente levaram os atletas a adotarem uma postura “mais responsável”, a despeito de algumas defecções que ainda encontramos por aqui e acolá.

A despeito dos escândalos que sempre cercaram a Fifa (e talvez por conta deles), a federação internacional executou um trabalho brilhante de não apenas levar o esporte-futebol a todos os recantos do planeta como, e principalmente, nesse caso, criou escolas de futebol ao redor do mundo, o que nos permite assistir às antigas “zebras” (como é o caso dos países africanos, por exemplo) “fazendo bonito” no “esporte bretão”.

Vulgarizou-se, por aqui, pelo Brasil, que a atual copa do mundo que está sendo disputada na Rússia, não está despertando o interesse dos brasileiros.

Reconheçamos que o Brasil passa por um momento delicado da sua vida política e está imerso numa crise econômica sem precedentes, o que, naturalmente, altera o humor e a condição dos nacionais frente a copa russa, especialmente pensando-se, também, no enorme vexame patrocinado pelo selecionado nacional há quatro anos, aqui mesmo no Brasil.

No entanto, o decantado desinteresse dos brasileiros pela atual copa de mundo, como assim está posto, pelo menos até agora, destoa da realidade que se vive no país com os “feriados forçados “ e a ausência do povo circulando pelas ruas em dias de jogos do Brasil, como mais uma vez estamos presenciando.

E recordemos, também, que à medida em que o selecionado nacional for avançando na copa do mundo mais crescerá o interesse por sua performance.

E não será surpresa alguma que se o selecionado nacional chegar à final e ainda vencê-la venha a ocorrer uma explosão de júbilo e alegria, inclusive entre aqueles que esperam, por qualquer motivo que seja, pelo fracasso do selecionado nacional.

Márcio Tadeu dos Santos

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“O ‘anti-imperialismo’ dos idiotas”

Antiimperial

[Uma vez mais, o movimento “antiguerra” ocidental se despertou para mobilizar-se em torno da Síria. Esta é a terceira vez desde 2011. A primeira foi quando Obama contemplou atacar a capacidade militar do regime sírio (mas não o fez) após os ataques químicos em Ghuta em 2013, considerados uma ‘línha vermelha’. A segunda vez foi quando Donald Trump ordenou um ataque que atingiu uma base militar vazia em resposta aos ataques químicos contra Khan Sheikhun em 2017. E hoje, quando os Estados Unidos, o Reino Unido e a França tomam medidas militares limitadas (ataques seletivos contra os ativos militares do regime e instalações de armas químicas) depois de um ataque com armas químicas em Duma que matou ao menos 34 pessoas, incluídos muitos menores que se refugiavam dos bombardeios nos porões.

O primeiro que devemos ressaltar das três principais mobilizações da esquerda “antiguerra” ocidental é que tem pouco que ver com que se acabe a guerra. Mais de meio milhão de sírios foram assassinados desde 2011. A grande maioria das mortes de civis se produziu mediante o uso de armas convencionais e 94% destas vítimas foram assassinadas pela aliança sírio-russa-iraniana. Não há indignação nem se finge preocupação por esta guerra, que seguiu à brutal repressão do regime contra manifestantes pacíficos e em favor da democracia. Não há indignação quando se lançam bombas de barril, armas químicas e napalm em comunidades democraticamente auto-organizadas ou em hospitais e trabalhadores de resgate. Os civis são prescindíveis; as capacidades militares de um regime genocida e fascista não o são. De fato, o lema “Mãos fora da Síria” realmente significa “Não tocar Assad” e geralmente se brinda apoio para a intervenção militar da Rússia. Isto foi evidente ontem em uma manifestação organizada por Stop the War UK, onde se exibiram vergonhosamente várias bandeiras do regime e russas.

Esta esquerda mostra tendências profundamente autoritárias, aquela que coloca aos próprios estados no centro da análise política. Portanto, a solidariedade se estende aos estados (vistos como o ator principal na luta pela liberação) em lugar de grupos oprimidos ou desfavorecidos em qualquer sociedade, sem importar a tirania desse estado. Cegos à guerra social que ocorre dentro da Síria, os sírios (ali onde existam) são vistos como simples peões em um jogo de xadrez geopolítico. Repetem o mantra ‘Assad é o governante legítimo de um país soberano’. Assad, que herdou uma ditadura de seu pai e nunca realizou, e muito menos ganhou, uma eleição livre e justa. Assad, cujo “exército árabe sírio” só pôde recuperar o território que perdeu graças ao respaldo de uma miscelânea de mercenários estrangeiros e com o apoio de bombas estrangeiras, e que estão lutando, em geral, contra rebeldes e civis nascidos na Síria. Quantos considerariam legítimo a seu próprio governo eleito se começassem a realizar campanhas de violação em massa contra os dissidentes? Tal posição só é possível pela desumanização completa dos sírios. É um racismo que vê aos sírios como incapazes de conseguir, e muito menos de merecer, algo melhor que uma das ditaduras mais brutais de nosso tempo.

Para esta esquerda autoritária, o apoio se estende ao regime de Assad em nome do “anti-imperialismo”. Assad é visto como parte do “eixo de resistência” tanto contra o império estadunidense como contra o sionismo. Pouco importa que o próprio regime de Assad tenha apoiado a primeira guerra do Golfo, ou tenha participado no programa de entregas ilegais dos Estados Unidos onde os supostos terroristas foram torturados na Síria em nome da CIA. O fato de que este regime provavelmente tenha a duvidosa distinção de massacrar a mais palestinos que o estado israelense é constantemente ignorado, como o é o fato de que está mais decidido a utilizar suas forças armadas para reprimir a dissidência interna que a liberar o Golã ocupado por Israel.

Este ‘anti-imperialismo’ de idiotas é um que equipara o imperialismo somente com as ações dos Estados Unidos. Parecem ignorar que os Estados Unidos bombardeou a Síria desde 2014. Em sua campanha para liberar Raqqa do Daesh, abandonaram todas as normas internacionais de guerra e considerações de proporcionalidade. Mais de 1.000 civis foram assassinados e a ONU estima que 80 por cento da cidade seja agora inabitável. Não houve protestos contra esta intervenção de parte das organizações que dirigem o movimento contra a guerra, nem chamadas para assegurar a proteção dos civis ou da infraestrutura civil. Ao invés disso, adotaram o discurso da “Guerra contra o Terrorismo”, outrora domínio dos neoconservadores e agora promulgada pelo regime, de que toda oposição a Assad é terrorismo jihadista. Fizeram vista grossa quando Assad enchia seu gulag com milhares de manifestantes seculares, pacíficos e pró-democracia para matá-los por tortura, enquanto liberava militantes islamistas do cárcere. Do mesmo modo, ignoraram os contínuos protestos em áreas opositoras liberadas contra grupos extremistas e autoritários como Daesh, Nusra e Ahrar Al Sham. Não se considera que os sírios possuam a sofisticação necessária para ter uma ampla gama de opiniões. Os ativistas da sociedade civil (incluídas muitas mulheres surpreendentes), os jornalistas cidadãos e os trabalhadores humanitários são irrelevantes. Toda a oposição se reduz a seus elementos mais autoritários ou é vista como um mero correio de transmissão de interesses estrangeiros.

Esta esquerda pró-fascista parece cega a qualquer forma de imperialismo que não seja de origem ocidental. Combina a política identitária com o egoísmo. Tudo o que acontece se vê através do prisma do que significa para os ocidentais: só os homens brancos têm o poder de fazer história. Segundo o Pentágono, atualmente há ao redor de 2.000 tropas estadunidenses na Síria. Pela primeira vez na história da Síria, os Estados Unidos estabeleceu uma série de bases militares no norte controlado pelos curdos. Isto deveria preocupar a quem quer que apoie a autodeterminação síria, ainda que seja pouco em comparação com dezenas de milhares de tropas iranianas e milícias xiitas respaldadas pelo Irã que agora ocupam grande parte do país, ou os criminosos bombardeios realizados pela força aérea russa em apoio à ditadura fascista. Agora, a Rússia estabeleceu bases militares permanentes no país e lhes outorgaram direitos exclusivos sobre o petróleo e o gás da Síria como recompensa por seu apoio. Noam Chomsky uma vez sustentou que a intervenção da Rússia não podia ser considerada imperialismo porque foi convidada a bombardear o país pelo regime sírio. Segundo essa análise, a intervenção dos Estados Unidos no Vietnã tampouco foi imperialista, convidada como o foi pelo governo sul vietnamita.

Várias organizações pacifistas justificaram seu silêncio sobre as intervenções russas e iranianas argumentando que “o inimigo principal está em casa”. Isto os desculpa de empreender qualquer análise de poder séria para determinar quem são realmente os principais atores que impulsionam a guerra. Para os sírios, o principal inimigo está realmente em casa: é Assad o que comete o que a ONU chamou ‘crime de extermínio’. Sem ser conscientes de suas próprias contradições, muitas das mesmas vozes se proclamaram opostas (e com razão) ao ataque atual de Israel contra manifestantes pacíficos em Gaza. Claro, uma das principais formas em que funciona o imperialismo é negar as vozes autóctones. E assim, as principais organizações ocidentais contra a guerra fazem conferências na Síria sem convidar a nenhum palestrante sírio.

A outra tendência política mais importante por ter apoiado o regime de Assad e organizar-se contra os ataques dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França contra a Síria é a extrema-direita. Hoje, o discurso dos fascistas e estes “esquerdistas anti-imperialistas” é praticamente indistinguível. Nos Estados Unidos, o supremacista branco Richard Spencer, o produtor de podcasts da direita alternativa (alt-right) Mike Enoch, e a ativista anti-imigração, Ann Coulter, se opõem aos ataques norte-americanos. No Reino Unido, o ex-líder do BNP (Partido Nacional Britânico), Nick Griffin, e a islamófoba Katie Hopkins se unem ao clamor. O lugar onde convergem com frequência o alt-right e o alt-left (esquerda alternativa) é em torno à promoção de várias teorias de conspiração para absolver o regime de seus crimes. Afirmam que as matanças químicas são bandeiras falsas ou que os trabalhadores de proteção civil são Al Qaeda e, portanto, objetivos legítimos de ataques. Aqueles que difundem tais informes não estão no terreno na Síria e não podem verificar independentemente o que reclamam. Geralmente dependem dos meios estatais de propaganda russos ou de Assad porque “não confiam na mídia” ou nos sírios diretamente afetados. Às vezes, a convergência destas duas correntes aparentemente opostas do espetro político se converte em uma colaboração aberta. É o caso da coalizão ANSWER, que está organizando muitas das manifestações nos Estados Unidos contra um ataque a Assad. Com frequência, ambas as linhas promovem narrativas islamofóbicas e antissemitas. Ambos compartilham os mesmos argumentos e os mesmos memes.

Existem muitas razões válidas para opor-se à intervenção militar externa na Síria, seja por parte dos Estados Unidos, da Rússia, do Irã ou da Turquia. Nenhum destes estados está atuando no interesse do povo sírio, da democracia ou dos direitos humanos. Atuam unicamente por seus próprios interesses. Hoje, a intervenção dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França não pretendem tanto proteger os sírios das atrocidades massivas mas sim fazer cumprir uma norma internacional de que o uso de armas químicas é inaceitável, por temor a que algum dia se utilizem contra os próprios ocidentais. Mas bombas estrangeiras não trarão paz nem estabilidade. Há pouca intenção de expulsar Assad do poder, o que contribuiria para terminar com a pior das atrocidades. No entanto, ao opor-se à intervenção estrangeira, alguém tem que encontrar uma alternativa para proteger os sírios da matança. É no mínimo moralmente repreensível, esperar que os sírios calem e morram para proteger o princípio superior do “anti-imperialismo”. Os sírios propuseram muitas vezes alternativas à intervenção militar estrangeira, que foram ignoradas. E então fica a pergunta, quando as opções diplomáticas falharam, quando um regime genocida está protegido da censura por poderosos apoios internacionais, quando não se consegue deter os bombardeios diários, pôr fim aos cercos por inanição ou liberar os prisioneiros torturados em escala industrial, o que se pode fazer?

Não tenho respostas. Sempre me opus a toda intervenção militar estrangeira na Síria, apoiei o processo liderado pela Síria para livrar seu país de um tirano e respaldei procedimentos internacionais baseados em esforços para proteger os civis e os direitos humanos e garantir a prestação de contas de todos os atores responsáveis de crimes de guerra. Um acordo negociado é a única maneira de terminar esta guerra e isso ainda parece tão distante como sempre. Assad (e seus protetores) estão decididos a frustrar qualquer processo, buscar uma vitória militar total e esmagar qualquer alternativa democrática que sobreviva. Centenas de sírios estão sendo assassinados todas as semanas da maneira mais bárbara imaginável. Os grupos extremistas e as ideologias estão prosperando no caos criado pelo Estado. Os civis continuam fugindo de milhares a medidas que se implementam como mecanismos legais. Como a Lei Nº 10, para garantir que nunca regressarão a seus lares. O sistema internacional em si mesmo está em colapso sob o peso de sua própria impotência. As palavras ‘Nunca mais’ soam ocas. Não há um movimento popular importante que se solidarize com as vítimas. Ao contrário, são caluniados, seu sofrimento é negado ou objeto de burla, e suas vozes, ausentes dos debates ou postas em dúvida por pessoas que estão longe, que não sabem nada da Síria, da revolução ou da guerra, e que arrogantemente creem que sabem o que é melhor. É esta situação desesperada a que faz com que muitos sírios deem as boas-vindas à ação dos Estados Unidos, Reino Unido e França, e que agora veem a intervenção estrangeira como sua única esperança, apesar dos riscos que sabem que isso implica.

Uma coisa é certa: não vou perder o sono pelos ataques dirigidos contra as bases militares do regime e as fábricas de armas químicas que podem proporcionar aos sírios um breve respiro da matança diária. E nunca serei uma aliada daqueles que põem os discursos rimbombantes acima das realidades vividas, que apoiem regimes brutais em países longínquos, ou que promovam o racismo, as teorias da conspiração e a negação das atrocidades./

Leila Al Shami é uma ativista síria britânica que luta pelos direitos humanos e justiça social na Síria e no Oriente Médio desde 2000. Ela foi membro fundadora da rede Tahrir-ICN, ligada às lutas antiautoritárias em todo Oriente Médio, Norte da África e Europa.

Fonte: https://leilashami.wordpress.com/2018/04/14/the-anti-imperialism-of-idiots/

Tradução: Sol de Abril

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Agência de Notícias Anarquistas (ANA)

“Entrevista a Noam Chomsky sobre la actualidad en Estados Unidos”

Chomski(George Yancy – entrevista aparecida originalmente en el diario New York Times del miércoles 5 de julio de 2017.) [En los últimos meses, a medida que la perturbadora perspectiva de una administración de Trump se convertía en perturbadora realidad, decidí ponerme en contacto con Noam Chomsky, el filósofo cuyos escritos, intervenciones y activismo han proporcionado un entendimiento y desafíos sin parangón del sistema político norteamericano y del sistema global desde hace más de cincuenta años. Nuestra conversación, tal como aquí aparece, se llevó a cabo mediante el intercambio de una serie de correos electrónicos en los dos últimos meses. Aunque el profesor Chomsky se encontraba  extremadamente ocupado, gracias a nuestros intercambios intelectuales del pasado, tuvo la gentileza de sacar tiempo para esta entrevista.

El profesor Chomsky es autor de numerosas obras políticas de gran éxito de ventas, traducidas a decenas de lenguas. Entre sus libros más recientes se encuentran Hegemony or Survival [Hegemonía o supervivencia, Ediciones B, Barcelona, 2004], Failed States [Estados fallidos, Zeta Bolsillo, Barcelona, 2017] Hopes and Prospects, Masters of Mankind y Who Rules the World? [¿Quién domina el mundo?, Ediciones B, Barcelona, 2016]. Es profesor emérito del Massachusetts Institute of Technology. — George Yancy.

– G.Y.: Considerando nuestro momento político de “post-verdad” y el creciente autoritarismo del que estamos siendo testigos con el presidente Trump, ¿qué papel público cree que podría desempeñar la Filosofía a la hora de encarar de manera crítica esta situación?

N.Ch.: Tenemos que ser un poco precavidos en lo que respecta a no matar mosquitos a cañonazos atómicos. Los comportamientos son tan completamente absurdos por lo que toca al momento de “post-verdad” que la respuesta más adecuada podría ser la mofa. Por ejemplo, resulta pertinente el reciente comentario de Stephen Colbert: cuando la asamblea legislativa de Carolina del Norte respondió a un estudio científico que preveía un aumento del nivel del mar prohibiendo a los organismos municipales y del estado que desarrollaran una regulación o planificaran documentos para arrostrar el problema. Y respondía Colbert: “Brillante solución ésta. Si tu ciencia te da un resultado que no te gusta, apruebas una ley declarando ilegal el resultado. Y problema resuelto”.

De modo bastante general, así es cómo se enfrenta la administración de Trump a una verdadera amenaza existencial a la supervivencia de la vida humana organizada: prohibamos las formas de regulación y hasta la investigación y discusión de las amenazas medioambientales y corramos hacia el  precipicio todo lo rápido que podamos (en interés del poder y el beneficio a corto plazo).

– A este respecto, me parece que el “trumpismo” resulta un tanto suicida.

Por supuesto, no basta con ridiculizarlo. Hace falta enfrentarse a las preocupaciones y creencias de los que se tragan el engaño, o que no reconocen la naturaleza y significado de los problemas por otras razones. Si por Filosofía entendemos análisis razonado y reflexivo, entonces puedes encarar el momento, aunque no enfrentándote a los “hechos alternativos” sino analizando y clarificando lo que está en juego, cualquiera que sea la cuestión. Más allá de eso, lo que se necesita es actuar, de modo urgente y entregado, de acuerdo con las muchas formas que nos están abiertas.

– Cuando yo era estudiante de Filosofía en la Universidad de Pittsburgh, donde me formaron en la tradición analítica, no me quedaba claro qué quería decir Filosofía más allá de la clarificación de conceptos. Pero me he mantenido en la posición marxiana de que la Filosofía puede cambiar el mundo. ¿Alguna reflexión acerca de la de la filosofía para cambiar el mundo?

No estoy seguro de en qué estaba pensando Marx cuando escribió que “los filósofos sólo han interpretado hasta ahora el mundo de diversas formas; la cuestión estriba en transformarlo.” ¿Quería decir que la Filosofía podía cambiar el mundo, o bien que los filósofos debían volverse hacia la prioridad superior de cambiar el mundo? Si se trata de lo primero, entonces quería decir presumiblemente la Filosofía en un sentido amplio del término, incluido el análisis del orden social y las ideas acerca de por qué habría que transformarlo. En ese sentido amplio, la Filosofía puede cumplir un papel, en realidad un papel esencial, a la hora de cambiar el mundo, y los filósofos, incluidos los de  tradición analítica, han llevado a cabo ese esfuerzo, en su labor filosófica lo mismo que en su vida de activistas: Bertrand Russell, por mencionar un ejemplo destacado.

Sí. Russell era filósofo e intelectual público. En esos términos, ¿cómo se describiría usted mismo?

La verdad es que no pienso en eso, francamente. Me comprometo con el género de trabajo y las actividades que me parecen importantes y que me plantean un desafío. Algunas de ellas entran en esta categoría, tal como se entiende generalmente.

– Hay veces en que la pura magnitud del sufrimiento humano resulta insoportable. Como alguien que habla de tanto sufrimiento como hay en el mundo, ¿cómo se da testimonio de ello y se mantiene a la vez la fuerza para seguir? 

Dar testimonio es suficiente para que proporcione una motivación para seguir. Y nada resulta más inspirador que ver cómo los pobres y la gente que sufre, que vive en condiciones incomparablemente peores que las que nosotros soportamos, continúa tranquila y humildemente su lucha comprometida y valerosa en favor de la justicia y la dignidad.

– Si tuvieras que hacer una lista de dos o tres formas de actuación política que sean necesarias bajo el régimen de Trump, ¿cuáles serían? Te lo pregunto porque este momento nuestro parece tan increíblemente desesperanzado y represivo.

Yo no creo que las cosas sean tan sombrías. Mira el caso de la campaña de Bernie Sanders, el rasgo más notable de las elecciones de 2016. Al fin y al cabo, no tiene nada de sorprendente que un “showman” con amplio respaldo mediático (incluyendo a los medios liberales, embelesados por sus payasadas y los ingresos publicitarios que eso permitía) consiguiera la designación como candidato del ultrarreacionario Partido Republicano…

La campaña de Sanders, no obstante, rompió espectacularmente con un siglo de historia política norteamericana. Exhaustivas investigaciones de ciencia política, sobre todo las del trabajo de Thomas Ferguson, han demostrado de modo convincente que las elecciones están en buena medida compradas. Así por ejemplo, ya sólo el gasto en las campañas constituye un pronosticador bastante bueno del éxito electoral, y el apoyo del poder empresarial y la riqueza de particulares es prácticamente requisito previo hasta de la participación en la escena política.

La campaña de Sanders demostró que un candidato con programas moderamente progresistas (básicamente del New Deal) podía alcanzar la designación como candidato, y acaso haber ganado las elecciones, aun careciendo del respaldo de financiadores de envergadura o de cualquier apoyo mediático. Hay buenas razones para suponer que Sanders habría logrado la designación como candidato de no haber sido por los chanchullos de los gestores del partido de Obama-Clinton. Hoy es la figura política más popular del país por un amplio margen.

El activismo generado por la campaña está empezando a hacer progresos en la política electoral. Con Barack Obama, el Partido Demócrata se derrumbó muy mucho a escala local y de los estados, que son cruciales, pero se puede reconstruir y convertir en una fuerza progresista Esto supondría revivir el la herencia del New Deal e ir más allá, en vez de abandonar a la clase trabajadora y convertirse en Nuevos Demócratas del clintonismo, que más o menos se asemejan a los que solían llamarse republicanos moderados, una categoría que ha desaparecido en buena medida con el desplazamiento de ambos partidos a la derecha a lo largo del período neoliberal.

Puede que esas perspectivas no resulten inalcanzables, y los esfuerzos por llegar a ellas se pueden combinar ahora mismo con el activismo directo, que se necesita urgentemente, para contrarrestar las acciones legislativas y ejecutivas de la administración republicana, ocultas a menudo tras las fanfarronadas de la figura nominalmente al mando.

De hecho, hay muchas formas de combatir el proyecto de Trump de crear una Norteamérica minúscula, aislada del mundo, que se encoge de miedo tras los muros a la vez que prosigue con las medidas políticas internas al estilo de Paul Ryan que representan el ala más salvaje del estamento de poder republicano.

– ¿Cuáles son las cuestiones de mayor peso a las que nos enfrentamos?

Las cuestiones más importantes que encarar son las amenazas verdaderamente existenciales a las que nos enfrentamos: el cambio climático y la guerra nuclear. Sobre el primero, los líderes republicanos, en espléndido aislamiento del mundo, se dedican de modo casi unánime a destruit las posibilidades de supervivencia decente; palabras contundentes, pero sin exageración. Se puede hacer mucho a escala local y en los estados para contrarrestar su malévolo proyecto.

Respecto a la guerra nuclear, las acciones en Siria y en la frontera rusa suscitan amenazas muy serias de enfrentamiento que podrían desencadenar una guerra, una perspectiva impensable. Por ende, la prosecución por parte de Trump de los programas de Obama de modernización de las fuerzas nucleares plantea extraordinarios peligros. Tal como hemos sabido recientemente, la fuerza nuclear norteamericana modernizada  está deshilachando gravemente el tenue hilo del que cuelga la supervivencia.El asunto se discute detalladamente en un artículo de importancia crucial en el Bulletin of Atomic Scientists del mes de marzo, que debería haber sido, y seguir siendo, noticia de portada de los medios. Los autores, analistas enormemente respetados, hacen notar que el programa de modernización de armas nucleares ha incrementado “el poder mortífero total de capacidad nuclear de las fuerzas de misiles balísticos norteamericanos hoy existente triplicándolo más o menos, y crea exactamente lo que uno esperaría ver si un Estado dotado de armas nucleares estuviera planeando tener la capacidad de librar y vencer en una guerra nuclear desarmando a los enemigos con un ataque preventivo por sorpresa”.

El significado queda claro. Significa que en un momento de crisis, de los que hay demasiados, los planificadores militares rusos pueden llegar a la conclusión de que, a falta de un disuasor, la única esperanza de supervivencia consiste en un ataque preventivo…lo que supondría el fin de todos nosotros.

En estos casos, la acción ciudadana puede revertir problemas enormemente peligrosos. Puede presionar a Washington para que explore opciones diplomáticas — que las hay  disponibles — en lugar del recurso casi como un reflejo a la fuerza y la coacción en otras zonas, Corea del Norte e Irán incluidos.

– Pero ¿qué es, Noam, puesto que tú continúas mostrando un compromiso crítico frente a un amplio abanico de injusticias, lo que motiva el sentido de justicia social en tu caso? ¿Hay alguna motivación religiosa que encuadre tu trabajo de justicia social? Y si no, ¿por qué no es así? 

No hay motivaciones religiosas, y por razones sólidas. Se puede elaborar una motivación religiosa prácticamente para cualquier forma de actuar, del compromiso con los más elevados ideales a apoyar las más horrendas atrocidades. En los textos sagrados podemos encontrar edificantes invocaciones a la paz, la justicia y la misericordia, junto a los pasajes más genocidas del canon literario. Nuestra guía es la conciencia, sean cuales fueren las trampas con la que optemos por vestirla

– Volviendo a la cuestión de dar testimonio de tanto sufrimiento, ¿qué recomiendas que comparta con mis estudiantes de licenciatura para que desarrollen la capacidad de dar testimonio de formas de sufrimiento que son peores que las que soportamos? A muchos de mis estudiantes solo les preocupa licenciarse y a menudo parecen olvidarse del sufrimiento en el mundo. 

Mi sospecha es que los que parecen olvidarse del sufrimiento, ya sea que esté próximo o en rincones remotos, no son conscientes, cegados acaso por la doctrina y la ideología. Para ellos la respuesta consiste en desarrollar una actitud crítica hacia artículos de fe,  seculares o religiosos; para alentar su capacidad de cuestionar, de explorar, de ver el mundo desde el punto de vista de otros. Exponerse directamente es algo que nunca queda muy lejos, dondequiera que sea que vivamos…quizás sea la persona sin techo que se arrebuja en el frío o que pide unos céntimos para comer, o muchísimos otros.

– Valoro y secundo tu razonamiento acerca de exponerse al sufrimiento de otra gente que no anda lejos de nosotros. Volviendo a Trump, entiendo que le consideras fundamentalmente imprevisible. Yo, desde luego, sí. ¿Deberíamos temer alguna clase de intercambio nuclear en este momento contemporáneo nuestro? 

Yo sí, y apenas sí soy la única persona en albergar esos temores. Quizás la figura más destacada que expresa esos temores y preocupaciones sea William Perry, uno de los principales estrategas nucleares contemporáneos, con muchos años de experiencia en el escalón más elevado de planificación bélica. Es hombre reservado y precavido, nada dado a exageraciones. Ha salido de su semiretiro para declarar enérgica y repetidamente que está aterrado tanto por las amenazas extremas y crecientes como por el fracaso a la hora de preocuparse por ellas. En palabras suyas. “Hoy, el peligro de algún género de catástrofe nuclear es mayor de lo que era durante la Guerra Fría, y la mayoría de la gente vive felizmente inconsciente de este peligro”.

En 1947, el Bulletin of Atomic Scientists estableció su famoso Reloj del Juicio Final (Doomsday Clock), que calculaba a cuánto estamos de la medianoche de la aniquilación. En 1947, los analistas pusieron el reloj a siete minutos de la medianoche. En 1953, movieron la manecilla a dos minutos antes de la medianoche después de que los EE. UU y la URSS hicieran explotar bombas de hidrógeno. Desde entonces, ha oscilado sin llegar nunca a este punto de peligro. En enero, poco después de la toma de posesión de Trump, la manecilla se movió a dos minutos y medio antes de la medianoche, lo más cercano a un desastre terminal desde 1953. A estas alturas los analistas están consideraban no sólo la amenaza en ascenso de guerra nuclear sino también la firme entrega de la organización republicana a la hora de acelerar la carrera hacia la catástrofe medioambiental.

Perry tiene razón en sentirse aterrado. Y aterrados deberíamos estar también todos, en no menor medida por la persona con el dedo en el botón y esos surrealistas socios suyos.

Pero, a pesar de su imprevisibilidad, Trump dispone de una base sólida. ¿Qué produce esta servil deferencia?

No estoy seguro de que “servil deferencia” sea la frase correcta por una serie de razones. Por ejemplo, ¿quién forma esa base?  La mayoría de ellos son relativamente ricos. Tres cuartas partes tenían ingresos por encima de la media. Cerca de un tercio tenía ingresos de más de 100.000 anuales, y se situaban así en el 15% superior de renta personal, en el 6% superior de los que sólo tienen instrucción hasta el instituto. Son en su abrumadora mayoría blancos, sobre todo, gente mayor, y por tanto de sectores históricamente más privilegiados.

Tal como informa Anthony DiMaggio en un cuidadoso estudio de la riqueza de información hoy disponible, los votantes de Trump tienden a ser republicanos típicos, con “una agenda social proempresarial y reaccionaria”, y “un segmento pudiente, privilegiado del país en términos de ingresos, pero que es relativamente menos privilegiado de lo que era en el pasado, antes del derrumbe de la economía en 2008”, de aquí que sienta cierto malestar económico. La renta media ha caído casi un 10% desde  2007. Eso aparte del enorme segmento de los evangélicos y dejando a un lado los factores de supremacía blanca — profundamente enraizada en los Estados Unidos — racismo y sexismo.

Para la mayoría de su base, Trump y el ala más salvaje del estamento de poder republicano no están lejos de sus actitudes comunes y corrientes, aunque cuando nos fijamos en preferencias políticas concretas, surgen preguntas más complejas.

Un segmento de la base de Trump procede del sector industrial al que ambos partidos han dejado en la cuneta desde hace decenios, a menudo de zonas rurales en las que la industria y el empleo estable se han venido abajo.Hubo muchos que votaron a Obama, creyendo en su mensaje de esperanza y cambio, pero se vieron rápidamente desilusionados y se han vuelto desesperados hacia su amargo enemigo de clase, agarrándose a la esperanza de que, de algún modo, su líder formal acudirá a rescatarlos.

Otra consideración es la que tiene que ver con el actual sistema de información, si es que se puede incluso utilizar esta frase. Para buena parte de esa base, las fuentes de información son Fox News, las tertulias radiofónicas y otros profesionales de los “datos alternativos”. La denuncia de las maldades y absurdos que levanta a la opinión liberal se interpreta rápidamente como ataques de una élite corrupta contra el defensor del hombre común que es, de hecho, su cínico enemigo.

¿Cómo opera en esto la ausencia de inteligencia crítica, es decir, del género que el filósofo John Dewey consideraba esencial para una ciudadanía democrática?

Podríamos hacernos otras preguntas sobre la inteligencia crítica. Para la opinión liberal, el crimen político del siglo, tal como a veces se le denomina, es la interferencia rusa en las elecciones norteamericanas. Los efectos de ese delito son indetectables, a diferencia de los efectos masivos de la interferencia del poder empresarial y la riqueza de particulares, que no se considera delito sino el normal funcionasmiento de la democracia. Y eso dejando incluso a un lado el historial de “interferencias” norteamericanas en elecciones extranjeras, Rusia incluida; la palabra“interferencia” entre comillas, porque es tan risiblemente inadecuada, como debe saber cualquiera que tenga la más ligera familiaridad con la historia reciente.

Eso, desde luego, plantea las contradicciones de nuestro país.

¿Es el sabotaje informático ruso de verdad más importante que lo que hemos discutido, por ejemplo, la campaña republicana para destruir las condiciones de la existencia social organizada, desafiando al mundo entero? ¿O incrementar la amenaza ya extrema de una guerra nuclear terminal?   O incluso esos crímenes de verdad, aunque de menor calado, como la iniciativa republicana para privar a decenas de millones de atención sanitaria y sacar a la gente sin amparo de las residencias de ancianos con el fin de enriquecer todavía más a su electorado real de poder empresarial y opulencia? ¿O desmantelar el limitado sistema regulatorio establecido para mitigar las repercusiones de la crisis financiera que es probable que sus preferidos vuelvan a provocar? Y así una tras otra, sucesivamente.

Resulta fácil condenar a quienes situamos al otro lado de cualquier divisoria, pero más importante, corrientemente, es explorar lo que entendemos que nos queda cerca.]

[Tomada de http://www.sinpermiso.info/textos/trump-y-el-estado-de-la-union-entrevista-completa-a-noam-chomsky.]

Em periódico e libetario: http://periodicoellibertario.blogspot.com.br/2017/07/entrevista-noam-chomsky-sobre-la.html

“Comércio digital: a nova fronteira da barbárie?”

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Ilustração: Workana

[As empresas transnacionais (ETN) norte-americanas focadas em tecnologia de ponta representam atualmente cinco das sete maiores empresas do mundo, com domínio em informação (com o Google em segundo lugar), mídias (Facebook em primeiro lugar), varejo (Amazon em sexto lugar) e tecnologia (Apple em primeiro lugar e Microsoft em terceiro lugar).

Um dos melhores investimentos que estas empresas e outras podem fazer é mudar as normas sob as quais funcionam, para extrair mais lucros da economia mundial e evitar que os competidores tenham igualdade de condições.

Há muito tempo, elas utilizam os tratados de livre-comércio para impor normas que favorecem seu “direito” a obter lucros e limitar a capacidade dos governos para regulamentar o interesse do público, de uma maneira que torna incapaz de avançar por meio de canais democráticos normais.

Agora, as empresas por trás da promoção das normas de comércio eletrônico estão buscando um fórum de conveniência e levarão sua lista de pedidos à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que publicou orientações políticas sobre diversos temas relacionados, e ao G20, que acaba de publicar uma Declaração ministerial sobre a economia digital [PDF]. Entretanto os acordos entre os membros dessas instituições não são vinculatórios para os governos. Para conseguir normas sobre comércio eletrônico que sejam obrigatórias, as empresas se dirigem à Organização mundial do Comércio (OMC).

Desde julho de 2016, o comércio eletrônico é o principal tema que impulsiona os países desenvolvidos nas negociações da OMC. As discussões têm como resultado um mandato de negociação, e as novas normas submeteriam os 164 países membros da OMC a medidas de grande alcance, com potencial de impedir o desenvolvimento, destruir postos de trabalho e modificar o mundo.

Portanto, aqueles que se preocupam com condições dignas de trabalho, com o ambiente que compartilhamos, com o desenvolvimento, com a desigualdade e com o interesse público, devem se opor às novas negociações das normas sobre o comércio eletrônico por 12 motivos:

  1. As negociações sobre comércio eletrônico tiram do foco a agenda de desenvolvimento que poderia reduzir drasticamente a pobreza. Milhões de pessoas pobres, entre elas, agricultores, poderiam melhorar suas vidas se houvessem mudanças nas normas existentes sobre agricultura no da OMC, sobre o qual já escrevi aquiaqui(em inglês).

A Rede Internacional “Nosso mundo não está à venda” (OWINFS, em inglês), que conta com a adesão de diversos grupos da sociedade civil, promove, há bastante tempo, uma agenda para mudar esta realidade, através de chamadas semelhantes ao seu nome. Mas esta agenda tem tido pouca visibilidade, pois toda a atenção está voltada para o comércio eletrônico no Acordo da OMC deste ano.

Provavelmente, os países desenvolvidos exigirão que as negociações sobre comércio eletrônico comecem, como forma de pagamento por concordarem em cumprir com as promessas que não cumpriram desde 2001, quando teve início a Rodada de Doha de Desenvolvimento.

  1. As propostas para a área de comércio eletrônico implicam poder regulamentar. As empresas estadunidenses pretendem reescrever a normativa mundial com o objetivo de fixar seu domínio atual na área. Apesar da supremacia na área de tecnologia de ponta, essas empresas desejam barrar o ressurgimento da China no panorama mundial, já que o país está investindo bilhões no desenvolvimento de setores de tecnologia de ponta como parte do plano “Made in China 2025” (Fabricado na China 2025).

As empresas estadunidenses também pretendem deixar de fora possíveis competidores futuros. Para isso, estão pressionando os 164 membros da OMC para negociar este assunto antes que a maioria dos países possa compreender suas possíveis consequências. Os países em desenvolvimento com frequência têm pouca experiência nas tecnologias em questão e não sabem qual é a melhor prática para um leque amplo de atividades.

O “Informe de Desenvolvimento Mundial 2016: Dividendos Digitais” do Banco Mundial observou que os benefícios em relação ao desenvolvimento das tecnologias digitais ficam para trás por causa da sua rápida propagação, e que poucos países em desenvolvimento contam com acesso à banda larga necessária e outros tipos de infraestrutura, como marcos regulatório, capital humano e instituições confiáveis para poder obter benefícios.

Vários informes publicados recentemente pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) demonstram que a maioria dos países em desenvolvimento não tem estrutura legal adequada em comércio digital, governança da internet ou segurança cibernética. Até as normas dos Estados unidos e da União Europeia sobre estes assuntos ainda precisam ser melhoradas.

Os benefícios de digitalização poderiam ser grandes para todos, mas se as normas se inclinam para o lado dos poderosos, não serão. Por esse motivo, o Grupo africano da OMC se opôs a um mandato sobre normas do comércio eletrônico em outubro. Do ponto de vista do desenvolvimento, é uma loucura criar tratados legais internacionais aplicáveis e vinculatórios sobre as áreas emergentes com dinâmicas diferentes da economia de transformação tecnológica.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico acabam com os postos de emprego. As tecnologias por trás da “quarta revolução industrial” pretendem desestabilizar os mercados trabalhistas, já que a flexibilidade é a chave para a “inovação”. Os empregos com bons salários e benefícios são substituídos por empregos informais sem proteção social ou estabilidade.

As empresas transferem o risco do mercado a contratantes individuais ou “trabalhadores autônomos”, que recebem salários inferiores e não contam com benefícios sociais, como licença médica, seguro médico, aposentadoria, muito menos estabilidade no emprego.

Como no caso do Uber, em que os esforços da empresa para alcançar uma posição dominante no mercado se encontram no sentido oposto da capacidade dos trabalhadores para aumentar seus salários.

E, apesar do exagero sobre o perigo dos robôs roubarem os postos de trabalho, muitos trabalhos serão substituídos pela automatização. Um informe de Desenvolvimento do Banco Mundial de 2016 calcula que 47% dos empregos nos Estados Unidos corre o risco de virar automatizado; na Argentina, a porcentagem é de 65%; na China, 77%; e, na Etiópia, a cifra chega a 85%.

Outro informe recente do grupo UBS observou que os países em desenvolvimento “enfrentarão a ameaça da Quarta Revolução Industrial que comprometerá os empregos pouco qualificados através da automatização extrema, mas talvez não tenham a capacidade tecnológica para usufruir dos benefícios relativos que podem se redistribuir através de uma extrema conectividade”.

As propostas relativas ao comércio eletrônico não geram essa mudança, mas aceleram seu ritmo e dificultam que os governos mitiguem os impactos negativos.

Em vez de consolidar os direitos das empresas transnacionais (ETN) de acesso ao mercado para intensificar sua desestabilização, como pretendem fazer as propostas atuais de comércio eletrônico, os países deveriam poder usar ferramentas políticas para oferecer bons empregos, proteções sociais e – especialmente nos países em desenvolvimento – a transformação estrutural das suas economias.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico intensificariam a desigualdade entre os países. Na África subsaariana, 62,5% da população não têm acesso à eletricidade, 87% não têm acesso a Internet e a maioria não tem acesso a serviços postais nas casas.

Os países ricos deixaram claro que suas inquietações incluem a ampliação do acesso à energia, à Internet e a outros tipos de tecnologia de informação e comunicação para diminuir a exclusão digital, maior infraestrutura para a logística, incluindo transporte e os serviços postais; marcos legais e regulatórios; acesso a financiamento e capacitação sobre as tecnologias para ajudá-los a se preparar para se beneficiarem do comércio eletrônico. Mas estes assuntos geralmente não se refletem nas propostas dos países desenvolvidos nem são propostos pelas empresas transnacionais (ETN) de comércio eletrônico mais importantes. Enquanto isso, as propostas dos países em desenvolvimento tem como resultado promessas não vinculatórias de assistência futura que poucas vezes se cumprem. [1]

O fato de a China ser protagonista no comércio eletrônico, através do Alibaba, não serve para mitigar as desigualdades estruturais que se consolidariam entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento. As propostas relativas ao comércio eletrônico ampliariam o grande protecionismo que favorece as empresas com sedes nos países desenvolvidos na forma de patentes e direitos autorais para as tecnologias e para o conteúdo, cujo resultado é o aumento dos lucros transferidos do sul para as empresas do norte.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico no Acordo da OMC poderão fazer com que nos sintamos menos seguros. A proposta da União Europeia sobre comércio eletrônico no Acordo da OMC inclui uma moratória ao acesso ou divulgação obrigatória dos códigos-fonte para todos os membros da OMC. Os governos, inclusive o dos Estados Unidos, exigem frequentemente que se publiquem os códigos-fonte para poder avaliar a vulnerabilidade a ataques hackers.

Isso será cada vez mais importante já que algumas projeções estimam que haverá 50 bilhões de dispositivos conectados à Internet em 2020, incluindo dispositivos domésticos da “Internet das coisas”, como refrigeradores e televisores inteligentes (que estavam entre os milhares de dispositivos utilizados em ataques hackers massivos em 2014 e, novamente, em 2016).

A possibilidade de que dispositivos médicos, como marca-passos e sistemas eletrônicos de automóveis, possam ser hackeados implica sérios riscos na área de saúde e seguridade.

À medida que as casas se tornam “casas inteligentes” e as cidades se tornam “cidades inteligentes”, a ameaça de que seja possível hackear softwares secretos e exclusivos coloca todos nós em risco.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico promoveriam uma maior desigualdade ao reduzir a concorrência e promover um comportamento monopólico e oligopólico.

O controle de informação, dos meios e das vendas no varejo por parte de três empresas – Google, Facebook (Instagram, WhatsApp e Messenger) e Amazon – tem consequências para o interesse público, para a inovação e para a democracia. Estas empresas transnacionais são capazes de investir em novos mercados ainda que sem muitos sem ganhos durante anos para estabelecer seu domínio no mercado, como Uber [3] e Amazon [4] na Índia e muitos outros mercados nos quais operam.

Sem leis anticompetitivas fortes, as empresas se consolidam ainda mais nos setores através da aquisição: “Google compra AdMob e DoubleClick, Facebook compra Instagram e Whatsapp, Amazon compra, para nomear somente alguns, Audible, Twitch, Zappos e Alexa”, disse Jonathan Taplin. Além disso, se um país se preocupa com as atitudes anticompetitivas, seus tribunais com frequência vão exigir que se divulguem os códigos-fonte.

Mas há exceções na proposta sobre comércio eletrônico da União Europeia para os casos nos quais os tribunais exigem que se revelem os códigos-fonte. As propostas também exigem que as empresas dominantes possam expandir sua capacidade para influir na regulamentação das suas operações sob o disfarce da “transparência para as partes interessadas”.

Como esperar que as pequenas e médias empresas se estabeleçam em um setor que limita a capacidade dos governos de implementar atitudes anticompetitivas e oferece às empresas consolidadas a vantagem de fazer as normas?

  1. As propostas sobre o mercado de comércio eletrônico ameaçam o futuro dos países ao exigir a livre transferência de um dos seus recursos mais valorizados: a informação. O bem mais valioso da Uber não são os automóveis nem os motoristas, mas a informação sobre como as pessoas se movem. Uma vez que a empresa domine o setor, será capaz de processar os dados brutos e convertê-los em inteligência: poderá manter seu domínio para excluir os competidores, como expressou recentemente o The Economist em seu artigo “O recurso mais valioso do mundo já não é o petróleo, é a informação.” [5]

Os serviços “gratuitos” das nuvens como os do Google e do Amazon são capazes de acessar mais dados do que imaginamos e podem transformá-los em inteligência que podem ser vendidas ou alugadas para outras empresas com o fim de obter mais lucros.

Entretanto, quase todas as propostas de comércio eletrônico incluem o mandato de promover a transferência transnacional de dados, como “livre circulação de dados”, ao proibir que se restrinja a localização desses (tais como os usos militares dos Estados Unidos, que insistem que seus dados se mantenham nos servidores norte-americanos) e outras normas.

Por que os países em desenvolvimento deveriam entregar este recurso tão valioso? Uma estratégia de industrialização digital deveriam incluir a criação de centros de dados nacionais e regionais, como criaram a China e a Suécia e que podem se converter em pontos importantes para dar início a indústrias de software, de jogos, indústrias relacionadas com a internet e outras baseadas em dados.

Como disse Parminder Jeet Singh (2017):

“Se nos deixamos levar pelas tendências atuais, o nível de dependência estrutural dos países em desenvolvimento no contexto da sociedade digital será maior do que nunca, fenômeno que foi chamado de ‘colonização digital’. Os fluxos e o comércio mundial destes recursos vitais devem se basear em termos justos, garantindo benefícios econômicos nacionais e proteções sociais e culturais devidas. Enquanto isso devemos deixar claro que não defendemos uma desglobalização digital. O que buscamos é um espaço justo para os países em desenvolvimento de interesse público na ordem digital mundial emergente.” [6]

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico são uma ameaça para a nossa privacidade pessoal e para a proteção de dados. Não só os países em desenvolvimento deveriam estar preocupados com circulação dos dados transnacionalmente, a chamada ”livre circulação dos dados”.

Somos testemunhas de uma explosão de demandas por parte dos consumidores que descobriram que seus dados por compras de produtos e uso de serviços, desde compras de fones de ouvido e de brinquedos sexuais à gestão de e-mails, foram vendidos a outras empresas, em geral, sem o conhecimento ou o consentimento do consumidor. Isso significa que os dados pessoais foram roubados ou explorados; portanto, talvez essa “circulação de dados” deveria ser chamada de “tráfico de informação roubada”.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico promoveriam a evasão fiscal e a perda de receita pública, o que resultaria em uma monopolização adicional à custa do interesse público de todos os países, mas particularmente nos países em desenvolvimento.

À medida que as empresas obtêm direitos através das normas de comércio eletrônico que propõem para deslocar mão de obra, insumos, capital e dados entre fronteiras, passam a ter capacidade de aumentar suas práticas de preços de transferência e localizar as operações em países com menor supervisão fiscal e com impostos mais baixos, exacerbando a evasão fiscal e os fluxos financeiros ilícitos que, segundo a Global Financial Integrity tiraram entre $620 e $970 bilhões de dólares estadunidenses ao mundo em desenvolvimento em 2015, principalmente através de práticas de fraude comercial.

Esta perda de dinheiro tira a possibilidade de governos de países em desenvolvimento, especialmente da África, de fazer investimentos necessários para proporcionar sistemas de saúde, educação, infraestrutura e o futuro desenvolvimento das suas economias. Se não se exige que uma empresa tenha presença local, como se pode estabelecer os impostos de renda dessas empresas de modo preciso?

Ao mesmo tempo, há uma pressão para ampliar a moratória existente no Acordo da OMC sobre tarifas de comércio eletrônico. Eliminar a obrigação de taxas alfandegárias no comércio transnacional coloca as empresas de comércio físico em desvantagem em relação às empresas de comércio eletrônico e, em termos econômicos, representa um subsídio público para as empresas virtuais, sem nenhum benefício social evidente.

Visto que os países em desenvolvimento dependem muito mais de suas taxas alfandegárias como fonte de ingressos (para pagar pela educação, saúde e infraestrutura), já que os países em desenvolvimento têm sistemas avançados de ingressos, vendas e impostos empresariais, eliminar as taxas alfandegárias do comércio eletrônico permanentemente não representaria somente uma grande desvantagem para as empresas de comércio físico, mas afetaria gravemente a capacidade dos países em desenvolvimento de alcançar as necessidades de investimento público, atrasando seu desenvolvimento futuro e aumentando a probabilidade de sofrer com a crise de dívidas.

  1. 10. As propostas sobre comércio eletrônico poderiam impulsionar as possibilidades de uma crise financeira mundial. Permitir um comércio transacional sem limites de dados financeiros e de transações financeiras poderia ter amplas consequências inesperadas.

Apesar do caos gerado pela crise financeira mundial, o setor dos serviços financeiros continua exigindo um acesso ilimitado aos mercados para produtos inovadores (que evadem as regulamentações) e fluxos financeiros sem restrições.

No Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP, na sigla em inglês), o Departamento de Tesouro dos Estados Unidos afirmou que o direito de manter os dados no estrangeiro não deveria incluir os dados financeiros, pelas lições aprendidas com a crise financeira mundial, mas Wall Street conseguiu pressionar para que estes dados sejam incluídos no Acordo no Comércio de Serviços (TISA em inglês) e, presumivelmente, na OMC.

As normais atuais da OMC obrigam os países a permitir o pagamento e a transferência de serviços sem restrições nos países que já acordaram, no Acordo das disciplinas da OMC. Mas para os países interessa garantir um controle regulatório adequado para este setor, inclusive a respeito do comércio digital transnacional.

Os governos exigem com frequência que os dados financeiros “sensíveis” sejam mantidos dentro das suas fronteiras para garantir que se tomem medidas adequadas sobre privacidade e segurança cibernética, de tal modo que os dados estejam sujeitos a um controle regulatório nacional, que estejam ao alcance dos reguladores financeiros em caso de emergência. Por exemplo, na África do Sul, se exige que os dados financeiros sejam armazenados no país para que as autoridades possam analisar os ativos relacionados com alguma quebra, já que as práticas fraudulentas e depredatórias se estendem no setor financeiro.

Se não for exigido que os provedores dos serviços financeiros tenham uma presença local, uma gestão local ou armazenamento local dos dados, como poderão exigir a prestação de contas diante de um crime ou de uma crise financeira? À medida que a economia mundial se torna cada vez mais voltada para os serviços e aumenta o comércio digital transnacional, o poder dos provedores de serviços financeiros como Visa e Paypal crescerá, já que com frequência atuam como câmaras de compensação para transações internacionais que evadem a soberania financeira dos bancos centrais.

  1. As propostas sobre o comércio eletrônico prejudicariam o desenvolvimento ao reduzir o espaço político e limitar a capacidade de atuação dos países em desenvolvimento na industrialização digital, reduzindo as estratégias que comumente são usadas para impulsionar o comércio e os empregos.

Os grupos de lobby das empresas deixaram claro que pretendem que se proíba os requisitos de localização, como os que exigem uma presença local no país para realizar transações comerciais; que contratem trabalhadores locais; o uso dos servidores e instalações informáticas locais nas quais tenham investido; o uso de conteúdos ou insumos locais. Mas os países em desenvolvimento aproveitam estes requisitos para garantir que, ao permitir que as transacionais operem em suas economias, poderão utilizar os ingressos para dar início a indústrias incipientes e avançar no desenvolvimento.

A proposta da União Europeia também inclui incorporar as compras públicas, um tema que foi excluído da rodada atual da OMC. Incorporar as compras públicas (através da promoção da privatização através de associações público-privadas) colocaria as pequenas e médias empresas que são favorecidas em tais contratos em desvantagem em relação às empresas transnacionais estrangeiras (que, geralmente, possuem vantagens de alcance e investimentos públicos anteriores), o que significa que mais dólares de impostos serão destinados a empresas estrangeiras ao invés de impulsionar a economia nacional.

As disposições sobre o comércio eletrônico propostas também limitam o espaço político ao exigir dos países, inclusive dos países menos adiantados (PMA), que assumam novos compromissos além dos que são exigidos atualmente no Acordo da OMC. Atualmente, não se exige dos PMA que assumam compromissos sobre as Medidas de Investimentos Relacionadas ao Comércio (TRIMS) na OMC, nem tampouco no acordo sobre os Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (ADPIC).

As propostas para proibir o requisito de divulgar os códigos-fonte são consideradas “TRIMS mais” porque proíbem efetivamente os requisitos de transferência de tecnologia (nos quais o código-fonte é uma tecnologia) que os membros da OMC podem permitir atualmente no Acordo das normas do TRIMS.

Em geral, quando um governo amplia as proteções sobre as patentes, o titular da patente está obrigado a divulgar a invenção e todo os códigos-fonte, como compensação pela intervenção do governo para proteger sua invenção.

Finalmente, muitas das novas propostas impediriam os países em desenvolvimento de participarem dos grupos de integração regional, algo essencial para seu desenvolvimento, tal como se pode ver, na agenda de 2023 da União Africana.

  1. Talvez este seja o mais atroz: as propostas sobre comércio eletrônico exigiriam não submeter os serviços futuros a nenhuma regulamentação, mais além das regulamentações sobre os serviços que não são digitais atualmente. No Acordo da “regulamentação nacional” no Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (AGCS), os bens são, cada vez mais, considerados como serviços. Os produtos estão integrados com o software que transforma sapatos em “serviços de fitness” ou automóveis em “serviços de transporte”. As propostas nas negociações de regulamentação nacional incluem uma suposta “neutralidade tecnológica” em que os serviços devem ser executados de acordo com normas e listas de compromissos que os países acordaram antes que a nova tecnologia seja inventada.

O plano é assumir compromissos preparados para o futuro, mesmo que a tecnologia não esteja disponível no momento que o país assumiu estes compromissos. Muitos governos dos países do Sul deixaram claro que não aceitarão esta determinação. Restringir o controle público das possíveis “implicâncias” das tecnologias interessa àquelas empresas que buscam favorecer somente as regulamentações que proíbem outras regulamentações.

Estas empresas estão fazendo um esforço coordenado para garantir que este seja o principal objetivo da próxima conferência ministerial da OMC, que acontecerá entre os dias 11 e 14 de dezembro de 2017 em Buenos Aires. Portanto, este é o momento para sindicatos, ativistas pelos direitos digitais e privacidade, defensores do desenvolvimento e grupos da sociedade civil colocarem suas inquietações e preocupações para os seus respectivos governos e dedicar atenção a esta ameaça.

As transformações positivas que a era digital oferece para um maior desenvolvimento, oportunidades de emprego, inovação e conectividade estão ameaçadas pelos esforços monopólicos e antidemocráticos das empresas mais poderosas do mundo, que querem reescrever as normas da economia mundial futura a seu favor.

Para alcançar um futuro em um mundo digitalizado que dê lugar ao desenvolvimento comum e trabalho digno, devemos garantir que as normas sejam redigidas por e para todos e não apenas por alguns.]

Notas

[1] Uma proposta dos Amigos do Comércio Eletrônico para o Desenvolvimento provavelmente terminará da mesma forma, ao mesmo tempo em que legitimará as negociações no Acordo da OMC. Ver: http://unctad.org/en/pages/newsdetails.aspx?OriginalVersionID=1477 y http://www.twn.my/title2/wto.info/2017/ti170501.htm.

[2] Manjoo, Farhad, 2017. “Uber Wants to Rule the World. First It Must Conquer India.” The New York Times. https://www.nytimes.com/2017/04/14/technology/uber-india.html

[3] Bloomberg. 2016. “Amazon to Spend $5 Billion to Dominate India E-Commerce.”

[4]N. da T. Jonathas Taplín é autor do livro “Move Fast and Break Things: How Google, Facebook and Amazon Cornered Culture and Undermined Democracy“. Em português: “Aja rápido e quebre coisas: como Google, Facebook e Amazon encurralaram a cultura e solaparam a democracia.”

[5] The Economist. 2017. “The World’s Most Valuable Resource Is No Longer Oil, but Data: The Data Economy Demands a New Approach to Antitrust Rules.”  http://www.economist.com/news/leaders/21721656-data-economy-demands-new-approach-antitrust-rules-worlds-most-valuable-resource

[6] Singh, Parminder Jeet. 2017. “Developing Countries in the Emerging Global Digital Order – A Critical Geopolitical Challenge to which the Global South Must Respond.” IT for Change. https://www.itforchange.net/Developing-Countries-in-the-Emerging-Global-Digital-Order

– Deborah James é Diretora do Programa Internacional do Centro de Pesquisa em Economia e Política (www.cepr.net) e coordenadora da Rede Internacional “Nosso Mundo Não Está à Venda” (OWINFS, em inglês).

Texto em português adaptado do artigo de Deborah James, publicado na página da ALAI, em espanhol, publicado originalmente em inglês no The Huffington Post, em inglês.

Por Deborah James, na Alainet , tradução: Luiza Mançano, no Brasil de Fato

Edição: ALAI, tradução: Luiza Mançano ocara Outras Palavras.

Leia também:

https://www.brasildefato.com.br/2017/06/11/doze-razoes-para-se-opor-as-normas-relativas-ao-comercio-digital-no-acordo-da-omc/

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James
Crédito da foto: Nuestra Voz

[No prefácio do livro, o cardeal Kevin Farrell, prefeito do dicastério vaticano para os Leigos, a Família e a Vida, escreve: “Um livro bem-vindo e muito necessário que vai ajudar os bispos, os sacerdotes, os agentes de pastoral e todas as lideranças da Igreja a desempenhar um ministério mais compassivo para a comunidade LGBT. O livro também vai ajudar os católicos LGBT a se sentirem mais em casa naquela que é, afinal de contas, a sua Igreja”.

Eis a entrevista.

Pe. Martin, por que escrever um livro dedicado à acolhida das pessoas LGBT?

Por muitos anos, eu conduzi um ministério informal com as pessoas homossexuais e transexuais (LGBT), especialmente em conversas e na direção espiritual. Mas, depois dos massacres em uma boate gay em Orlando, Flórida, no ano passado, quando 49 pessoas foram mortas, eu senti que tinha chegado o momento de ser mais público no apoio à comunidade LGBT. Do meu ponto de vista, as pessoas LGBT são, hoje, o grupo mais marginalizado na Igreja Católica, e, por isso, eu quis tentar construir uma ponte entre a comunidade LGBT e a Igreja institucional, utilizando os instrumentos mencionados no Catecismo – as virtudes do respeito, a compaixão e a sensibilidade. Mas a razão mais fundamental para acolher as pessoas LGBT é que o ministério de Jesus foi a acolhida a todos, e todos deveriam se sentir bem-vindos na nossa Igreja.

Em sua opinião, o que as pessoas homossexuais querem da Igreja?

A mesma coisa que todos querem, sentir-se em casa. Devemos lembrar que, por causa do seu batismo, os católicos LGBT já fazem parte da Igreja, assim como o papa, o bispo local ou eu. A Igreja é a sua casa, mas, às vezes, não age como tal. Às vezes, ela age como uma fortaleza projetada para mantê-los do lado de fora.

Se Jesus estivesse vivo hoje, como se comportaria com os homossexuais?

Durante o seu ministério público, Jesus muitas vezes frequentava aqueles que se encontravam às margens, nas “periferias”, como diz o Papa Francisco. Basta considerar algumas pessoas que ele conheceu durante o seu ministério público: um centurião romano, um cobrador de impostos, uma samaritana. Jesus vai constantemente às periferias, movendo os seus discípulos cada vez mais para o lado de fora, e trazendo cada vez mais para dentro aqueles que estão fora. Aqueles que estão dentro são encorajados a sair; e aqueles que estão fora são acolhidos. Então, em minha opinião, o primeiro grupo de católicos que Jesus iria buscar hoje são os mais marginalizados: as pessoas LGBT.

O Catecismo da Igreja Católica diz basicamente duas coisas sobre as pessoas homossexuais: que elas devem ser acolhidas, mas, ao mesmo tempo, pede que elas vivam castamente. Não é uma contradição?

Para muitas pessoas LGBT, parece uma contradição. Para mim, não é. Muitas pessoas LGBT já vivem como célibes – aquelas que não fazem parte de uniões homossexuais, aquelas que não estão em relacionamentos de longo prazo e aquelas que não têm relações com outras pessoas. No entanto, persistimos perguntando se deveríamos acolhê-las. É claro que devemos: são católicos. E, mesmo quando as pessoas não vivem em situações regulares, elas deveriam ser acolhidas mesmo assim. Porque a Igreja é uma Igreja de pecadores amados por Deus. Todos nós somos pecadores necessitados de misericórdia. Mas o ponto principal é este: por alguma razão, são apenas as pessoas LGBT que têm as suas vidas postas sob a lente do microscópio. Nós as submetemos a um controle que nenhum outro grupo é forçado a enfrentar. E essa é uma espécie de discriminação, a meu ver.

Você acredita que a homofobia está presente na Igreja?

Certamente, trata-se também de homofobia. Hoje, esse é um dos principais pecados da Igreja. Ouvi inúmeras histórias de católicos LGBT insultados pelos seus padres, em pessoa ou no púlpito, aos quais foi até pedido que deixassem a paróquia. É algo extraordinariamente doloroso de se ouvir. Grande parte disso deriva do medo. Medo da pessoa que não entendemos. Medo da pessoa que não encontramos. Medo da pessoa que vemos de acordo com estereótipos. Isso dificulta amar. São Paulo disse: “O amor perfeito exclui o medo”. Por outro lado, um medo perfeito impossibilita amar.

Alguns criticaram o fato de que um cardeal da Cúria Romana lhe dedicou o prefácio do livro. Por quê?

Não surpreende que algumas pessoas tenham criticado o prefácio de um cardeal. E, a propósito, eu fiquei muito grato pela aprovação do cardeal Farrell e do cardeal Tobin. Mas, como já disse, há grande medo e incompreensão em torno dos católicos LGBT. Tudo isso é irônico, porque o meu livro é bastante moderado. Ele não desafia nenhum ensinamento da Igreja, e a base do livro é o Catecismo, que nos pede para tratar as pessoas LGBT com “respeito, compaixão e sensibilidade”. Portanto, se alguém tem um problema a esse respeito, então tem um problema não com o meu livro, mas com o Catecismo da Igreja Católica. Se eles têm um problema com o fato de não julgar as pessoas LGBT como pessoas, então eles têm um problema com o Papa Francisco. E, se eles têm um problema com o amor, a misericórdia e a compaixão, então eles têm um problema com Jesus.

Por que a direita católica critica quem fala de acolhida aos homossexuais?

Essa é uma ótima pergunta. Eu acho que, talvez, eles pensem que “acolher” significa que se deve estar de acordo com tudo o que qualquer pessoa LGBT diz ou faz, o que não é verdade. Ninguém diz que, quando “acolhemos” os líderes empresariais católicos, por exemplo, devemos concordar com tudo o que eles fazem nos seus negócios, ou com todo valor do mundo empresarial, ou com tudo o que cada líder empresarial já disse ou fez. Portanto, há um grande equívoco. Mas devemos admitir que grande parte disso deriva da homofobia, que deriva do fato de não conhecer muito bem as pessoas LGBT. Às vezes, quando me criticam, eu pergunto: “O que os seus amigos LGBT dizem?”. E eles não podem responder, porque, muitas vezes, não conhecem pessoas LGBT. É bastante triste, em minha opinião.

Jesus disse que, no céu, as prostitutas vão nos preceder. Podemos dizer que muitos santos podem ser gays?

Em primeiro lugar, não quero comparar as pessoas LGBT com as prostitutas, porque a questão é diferente. Muitas pessoas LGBT levam uma vida santa. Por exemplo, um amigo gay meu, por muitos anos, cuidou do seu parceiro, que tem uma grave doença incurável. Esse é um caminho para a santidade. E, certamente, há santos canonizados pela Igreja que tinham uma orientação homossexual. Isso não significa que fossem sexualmente ativos, mas apenas que alguns deles tinham uma orientação homossexual. Se uma certa porcentagem da humanidade nasce gay, então uma certa porcentagem dos santos também deve ter sido gay. Quais santos? É impossível dizer. Mas muitos daqueles que são contra a acolhida às pessoas LGBT provavelmente ficarão surpresos quando chegarem ao céu e forem acolhidos por esses santos LGBT.

Que fato do evangelho se aproxima mais da ideia da acolhida às pessoas LGBT?

Para mim, a história de Zaqueu, no Evangelho de Lucas (19, 1-10) é uma passagem importante a se considerar. Zaqueu era o chefe dos cobradores de impostos em Jericó, uma posição que o colocava na situação de pecador público em Jericó. Zaqueu subiu no sicômoro, tentando ver “quem era Jesus”, enquanto Jesus passava. Portanto, a figura de Zaqueu é muito similar à pessoa LGBT hoje: tentam ver quem é Jesus, tentam se aproximar de Jesus, mas são considerados pecadores públicos e devem fazer um longo caminho para se aproximar dele. E como Jesus trata Zaqueu? Ele não grita “pecador!”. Não, ele lhe diz: “Hoje, devo ir à sua casa”. Jesus lhe oferece um sinal de acolhida pública. Em resposta, Zaqueu fica tão feliz a ponto de se oferecer para pagar todos os seus credores e, depois, ocorre uma conversão nele. Naturalmente, o povo de Jericó “murmurou” sobre a escandalosa acolhida feita por Jesus, como hoje as pessoas “murmuram” quando se fala de acolher as pessoas LGBT. Para Jesus, primeiro vem a comunidade, depois a conversão. E todos somos chamados à conversão. Mas, para Jesus, não há ninguém que seja “outro”. Não há um “nós” e um “eles”. Há apenas um “nós”. Esse é o coração da acolhida.]

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 08-06-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto, no site IHU/Unisinos.

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Moda que é moda anda meio fora de moda

Moda
Foto: Mundo do Marketing

Creio que eu já tenha contado essa história antes, não, necessariamente, no blog e sim em artigo de jornal (dos muitos para os quais trabalhei) ou (o que é menos provável) em algum artigo em revista (trabalho este raro).

Um dos nossos professores, Emir Nogueira, resolveu fazer um espécie de concurso de crônicas na classe.

Acabou por vencer o concurso um sujeito chamado Victor Israeli que narrava as suas aventuras de soltador de pipas.

Até achei a historieta dele bonitinha e engraçadinha, mas sempre tiver a certeza de que a minha era melhor, pois tratava de fazer uma comparação entre as meninas de São Paulo – principalmente da avenida Paulista, onde ficava a escola de jornalismo – com as garotas de Nova York, que já era, segundo John Lennon, a nova Roma – com toda a influência da metrópole norte-americana, principalmente no campo da moda e do comportamento.

Acabei ficando em segundo.

O professor não tinha lá grande apreço pelas coisas que eu fazia.

Achava que eu era “muito frio” e não demonstrava emoção alguma – o que, segundo ele, era fatal para um jornalista.

Pode ser que ele tenha razão (tivesse, porque já faleceu).

Mas desconfio, também, que pesou a favor de Israeli o fato de ele ser judeu – aliás, morador do tradicional (na época) Bom Retiro –; mas isso é apenas desconfiança.

Se tivesse prestado atenção, Emir Nogueira poderia ter descoberto que eu era cristão novo; então judeu por judeu estaríamos empatados.

A comparação que eu fazia na crônica mostrava que as paulistanas e as nova-iorquinas se vestiam exatamente do mesmo jeito (as jovens, bem entendido), mas se diferenciavam no jeito de andar: enquanto as brasileiras bamboleavam um bocado, as norte-americanas aparentavam um canguru saltador.

Isolado, na época, o Brasil se distinguia das modas norte-americanas e europeias (Europa Ocidental); distinção que aos pouco foi se desfazendo graças às influências do cinema e da TV.

Mas à revelia de São Paulo que sempre primou por copiar tudo o que “vinha de fora”.

Mas, como os aeroportos, hoje é quase impossível distinguir uma pessoa da outra – homens e mulheres – pelo que estejam trajando.

Os aeroportos também são todos iguais. Se você não prestar atenção vai acabar achando que chegou em casa, mesmo estando, por exemplo, na China.

Das especialidades

Exceção feita àquela estupidez dos regimes autoritários de esquerda – quem consegue esquecer os “terninhos” de Mao Tse Tung e mesmo dos modelos andróginos e tenebrosos adotados pelas ditaduras da Cortina de Ferro? – a moda, no mundo capitalista, sempre foi encarada com um negócio sério, capaz de gerar emprego e riqueza.

Quem primeiro, e há muito tempo, rompeu tanto com a moda rígida e careta, como com a tal alta costura – que distinguia, em classes sociais, as pessoas – foram exatamente os EUA, que a propósito de se ganhar muito dinheiro, criaram os magazines (as lojas de departamento) e democratizaram a moda para meninos e meninas.

Hoje, a não ser que você seja um expert em moda, é praticamente impossível distinguir o que é grife daquilo que é costurado numa fabriqueta de fundo de quintal.

Até aí a ditadura do proletariado foi derrotada.

“Jornalismo: repórter de jornal é a pior profissão do momento”

Jornalismo

[Ser repórter de jornal é a pior profissão de 2017. É isso que revela o estudo da consultoria CareerCast, levantamento anual que promove o ranking de acordo com informações de salário, expectativa de crescimento no emprego, competitividade, grau de estresse e riscos à segurança pessoal. Além de ficar no topo, a segunda posição de pior profissão também é da comunicação, ocupada pelos profissionais de rádio e TV.

O estudo americano afirma que as duas profissões ocupam lugar central na cultura de maneira que não se via há anos, porém o prazo apertado de trabalho e a diminuição das perspectivas de emprego têm colaborado significantemente para transformar as áreas nas piores profissões do momento. A expectativa de crescimento para repórteres é negativa, de -8%. Para os profissionais de rádio de TV é ainda pior: -9%.

Depois de repórter de jornal e profissional de rádio e TV, as piores profissões são: lenhador (3° lugar), militares (4°), trabalhadores do controle de pragas urbano (5°), DJs (6°), vendedores de anúncios (7°) e bombeiros (8°).

O estudo da CareerCast quantifica as facetas de 200 postos de trabalho e, em grande medida, os dados utilizados para avaliar as carreiras são fornecidos pelo Bureau of Labor Statistics (BLS), que faz parte do Departamento de Trabalho dos EUA. Para acessar o estudo completo clique aqui.]

Leia texto original no Portal Comunique-se.

“Um guia para compreender a quarta Revolução Industrial”

rEVOLUCAO
Reprodução

[“As mudanças são tão profundas que, na perspectiva da história da humanidade, nunca houve um momento tão potencialmente promissor ou perigoso”, dessa forma Klaus Schwab anuncia o nascedouro daquela que já é considerada a mais desconcertante revolução produtiva em curso na história da humanidade.

Schwab é o autor do livro A quarta revolução industrial, editado no Brasil pela Edipro (2016). O livro foi escrito para o encontro de 2016 do Fórum Econômico Mundial que teve como tema ‘Para dominar a Quarta Revolução Industrial’. O autor é economista e um dos idealizadores do encontro que reúne anualmente a meca do capitalismo mundial em Davos (Suíça).

O livro integra a programação do ciclo ‘Revolução 4.0, Inteligência Artificial e Internet das Coisas. Impactos no modo de produzir e viver’ promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU).

Eis a resenha.

A 4ª Revolução Industrial já está entre nós

O livro A quarta revolução industrial é apresentado por seu autor como “porta de entrada” e “guia” para a compreensão das implicações econômicas, política e social da quarta Revolução Industrial. O autor assim define o seu objetivo com a obra: “Minha intenção é oferecer uma cartilha sobre a quarta revolução industrial: O que é? O que gerará? Que impactos causará a nós?”.

Na opinião de Schawb já está em curso a quarta Revolução Industrial. Segundo ele, alguns acadêmicos e profissionais consideram que a inovações tecnológicas em curso – inteligência artificial, robótica, internet das coisas, veículos autônomos, impressão em 3D, nanotecnologia, biotecnologia, armazenamento de energia e computação quântica – são somente mais um aspecto da terceira Revolução Industrial. Três razões, no entanto, sustentam para o autor a convicção da ocorrência de uma quarta e distinta revolução: a velocidade, profundidade e impacto sistêmico que a conduz.

Revoluções produtivas desencadeiam alterações profundas no modo de produzir e por extensão nas estruturas sociais e econômicas. Mudam radicalmente as sociedades. Deixaram para trás um modelo – uma forma e uma visão – de vida e de mundo que não retorna mais. Para Schwab é isso que está acontecendo.

Ele cita as revoluções anteriores para dar força ao seu argumento. A Revolução Agrícola (10 mil anos atrás) se fez possível pelas inovações tecnológicas que permitiram domesticar a terra; a 1ª Revolução Industrial (1760 e 1840) foi possível graças à máquina a vapor e ferrovias; a 2ª Revolução Industrial (final do séc. XIX) pelo advento da eletricidade e da linha de montagem; a 3ª (década de 60) em função da revolução digital, do computador.

Agora, nessa virada de século, iniciamos a 4ª Revolução Industrial e como nas revoluções anteriores, inovações tecnológicas a impulsionam: inteligência artificial, robótica, internet das coisas, veículos autônomos, impressão em 3D, nanotecnologia, biotecnologia, armazenamento de energia. “O que torna a quarta revolução industrial fundamentalmente diferente das anteriores é a fusão de tecnologias e a interação entre os domínios físicos, digitais e biológicos”, afirma o autor.

A premissa é de que a quarta revolução irá mudar tudo. Segundo o autor, a velocidade das inovações e seus impactos são gigantescos. Para dar números de sua grandiosidade cita o fato de que na década de 1990, pouco tempo atrás, as três grandes de Detroit valiam no mercado US$ 36 bilhões e empregavam 1,2 milhões de trabalhadores. Hoje, as três maiores do Vale do Silício valem US$ 247 bilhões e empregam apenas 137 mil trabalhadores.

Assistimos, diz ele, a disruptores que evidenciam o caráter vertiginoso das mudanças: Airbnb, Uber, Alibaba, Google (carro autônomo), WhatsApp são manifestações de algo recentíssimo. O capitalismo está mudando: “O Uber, a maior empresa de táxis do mundo, não possui sequer um veículo. O Facebook, o proprietário de mídia mais popular do mundo, não cria nenhum conteúdo. Alibaba, o varejista mais valioso, não possui estoques. E o Airbnb, o maior provedor de hospedagem do mundo, não possui sequer um imóvel”, destaca Tom Goodwin citado por pelo autor.

Schwab faz um alerta: “A questão para todas as indústrias e empresas, sem exceção, não é mais ‘haverá ruptura em minha empresa? ’, mas ‘quando ocorrerá a ruptura, quanto irá demorar e como ela afetará a mim e a minha organização? ’”.

As megatendências da 4ª Revolução Industrial

Quais são as tecnologias que irão impulsionar a quarta Revolução Industrial? Segundo o autor, situam-se em três categorias: física, digital e biológica e todas as três estão inter-relacionadas.

Na categoria física, as quatro principais manifestações são: veículos autônomos, impressão em 3D, robótica avançada e novos materiais.

Veículos autônomos dizem respeito a carros, caminhões, aviões, barcos e drones que sem condutor serão capazes de executar várias tarefas. Impressão 3D: Consiste na fabricação de um objeto por impressão, camada sobre camada, de um modelo ou desenho digital em 3D. O processo é o oposto da fabricação substrativa, isto é, a forma como os objetos foram construídos até agora: as camadas são removidas de um bloco de material até que a forma desejada seja obtida. Por contraste, a impressão em 3D começa com um material desarticulado e, em seguida, cria um objeto em três dimensões por meio de modelo digital. Robótica avançada: Superação de tarefas rígidas e interação. Avanço de sensores que capacitam os robôs a compreenderem melhor o seu ambiente e empenharem-se em tarefas variadas. Novos materiais: Mais leves, mais fortes, recicláveis e adaptáveis. Destacam-se aqui os nanomateriais como o grafeno (200 vezes mais forte que o aço, milhões de vezes mais fino que um cabelo humano e eficiente condutor de calor e eletricidade).

A categoria digital, diz respeito a Internet das coisas – IdC – relação entre as coisas serviços e pessoas através de plataformas digitais – aplicativos, a possibilidade de rastreamento, monitoramento de produtos e também de pessoas.

Na categoria biológica, o autor destaca as inovações no campo da biologia, particularmente na genética. Cita os avanços gigantescos no sequenciamento genético. Destaca que o projeto genoma levou dez anos para ser concluído a um custo de US$ 2,7 bilhões. Hoje, um sequenciamento de genoma é feito em poucas horas e custa menos de US$ 1 mil. O próximo passo, diz ele, é a biologia sintética capaz de modificar organismos já existentes, alterando seus códigos genéticos possibilitando a criação de organismos personalizados. Os cientistas esperam criar micróbios que possam combater o câncer e outras doenças para as quais ainda não temos cura (medicina de precisão). Outra área é a da engenharia genética, a capacidade de interferir e modificar seres vivos (animais, plantas) e adaptá-los a condições adversas. Situa-se aqui a possibilidade do xenotransplantes, a recriação de órgãos.

Os pontos de inflexão. As coisas já estão acontecendo

Klaus Schwab destaca 21 pontos de inflexão já em curso na sociedade mundial que manifestam o caráter disruptivo da 4ª Revolução Industrial. Esses pontos estão ancorados numa pesquisa realizada com 800 executivos de todo o mundo para avaliar as expectativas com as mudanças. Os resultados se encontram no relatório ‘Mudança Profunda – Pontos de Inflexão Tecnológicos e Impactos Sociais’ publicado em setembro de 2015 e apresentado no livro.

Destacamos aqui alguns pontos:

Tecnologias implantáveis

O ponto de inflexão: o primeiro telefone celular implantável e disponível comercialmente;

Até 2025: 82% dos entrevistados esperam que este ponto de inflexão ocorra

Do que se trata: dispositivos implantados no corpo permitindo a comunicação, localização, monitoramento (saúde);

A visão como uma nova interface

O ponto de inflexão: 10% de óculos de leitura conectados à internet.

Até 2025: 86% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: Óculos, lentes/fones de ouvido e dispositivo de rastreamento podem se tornar ‘inteligentes’ e levar os olhos e a visão a se tornarem a conexão com a internet e os dispositivos conectados.

Tecnologia vestível

O ponto de inflexão: 10% das pessoas com roupas conectadas à internet.

Até 2025: 91% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: As tecnologias que se encontram nos celulares estar integrada em roupas e acessórios (ex. baba eletrônica vestível – pais sendo substituído pelos sensores).

Armazenamento de dados para todos

O ponto de inflexão: 90% das pessoas com armazenamento de dados ilimitados e gratuito.

Até 2025: 91% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: usuários terão acesso a plataformas (nuvens) para armazenar os seus dados gratuitamente sem se preocupar em ‘apagar’ para liberar mais espaço.

A internet das coisas e para as coisas

O ponto de inflexão: 1 trilhão de sensores conectados à internet.

Até 2025: 89% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: Sensores inteligentes para monitorar ‘tudo’ conectado à internet – percepção do ambiente de forma integral.

A casa conectada

O ponto de inflexão: 50% do tráfego da internet consumida nas casas e aparelhos dispositivos.

Até 2025: 71% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: Controle da energia, ventilação, ar-condicionado, áudio e vídeo, eletrodomésticos, sistema de segurança, robôs para serviços.

Cidades inteligentes

O ponto de inflexão: A primeira cidade com mais de 50 mil pessoas e sem semáforos.

Até 2025: 64% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra

Do que se trata: cidades conectarão serviços, redes públicas e estradas à internet.

Big data e as decisões

O ponto de inflexão: O primeiro governo a substituir o censo por fontes de big data.

Até 2025: 83% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: coleta e automatização de dados para servir cidadãos e clientes.

Carro sem motorista

O ponto de inflexão: Carros sem motoristas chegarão a 10% de todos os automóveis em uso nos EUA.

Até 2025: 79% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: carros que dispensam o motorista, mais eficientes e seguros.

A inteligência artificial (IA) e a tomada de decisões

O ponto de inflexão: A primeira máquina de IA a fazer parte de um conselho de administração.

Até 2025: 45% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: armazenamento de dados e informações que auxiliam nas decisões complexas (algoritmos).

Robótica e serviços

O ponto de inflexão: O primeiro farmacêutico robótico dos EUA.

Até 2025: 86% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: robôs agilizando as cadeias de fornecimento.

Bitcoins e blockhain

O ponto de inflexão: 10% do PIB armazenado pela tecnologia de blockchain.

Até 2025: 58% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: moedas e transações digitais.

Economia compartilhada

O ponto de inflexão: globalmente, mais viagens/trajetos por meio de compartilhamento do em carros particulares.

Até 2025: 67% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: compartilhamento e uso de um bem/ativo físico

Ex – uso do carro em comum, da casa… etc.

Impressão em 3D e fabricação

O ponto de inflexão: a produção do primeiro carro em 3D.

Até 2025: 84% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra

Do que se trata: Produtos complexos sem equipamentos complexos.

A impressora 3D utilizando plástico, alumínio, aço inoxidável, ligas de cerâmica simultaneamente em processo de fabricação aditiva.

Impressão em 3D e saúde humana

O ponto de inflexão: o primeiro transplante de um fígado impresso em 3D.
Até 2025: 76% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.
Do que se trata: utilização de material específicos para produzir órgãos a partir de um modelo digital.

Impressão em 3D e produtos de consumo

O ponto de inflexão: 5% dos produtos aos consumidores impressos em 3D.

Até 2025: 81% dos entrevistados esperam que esse ponto de inflexão ocorra.

Do que se trata: impressão de eletrodomésticos, por exemplo, feitos por qualquer um que tenha uma impressora.

Seres projetados

O ponto de inflexão: nascimento do primeiro ser humanos cujo genoma foi direta e deliberadamente editado.

Do que se trata: o barateamento do sequenciamento do genoma humano possibilita e a expansão de experimentos.

Neurotecnologias

O ponto de inflexão: O primeiro humano com memória totalmente artificial implantada no cérebro.

Do que se trata: monitorar e comandar a atividade do cérebro.

Impactos da quarta Revolução Industrial

Mercado de trabalho

Na escala e amplitude, a atual revolução tecnológica irá desdobrar-se em mudanças econômicas, sociais e culturais de proporções tão fenomenais que chega ser quase impossível prevê-las, alerta Klaus Schwab.

Particularmente, no mundo do trabalho, a 4ª Revolução Industrial será devastadora. O autor comenta que há duas posições em debate: Aqueles que acreditam num final feliz (trabalhadores deslocados pela tecnologia encontrarão novos empregos desencadeados pelas novas tecnologias) e aqueles que veem um processo crescente de destruição de empregos. O que está claro é que a onda de inovações irá alterar profundamente a estrutura ocupacional.

Um estudo da Oxfam Martin School afirma que os efeitos das inovações tecnológicas afetará 702 profissões. O estudo aponta ainda que 47% do emprego total nos EUA está em risco, ou seja, sofrerá profunda transformação. Haverá alteração também da remuneração: cargos criativos e cognitivos de altos salários e ocupações manuais de baixos salários. Muitas relações de trabalho serão alteradas (no sentido de mudança do padrão do emprego tradicional). Cada vez um número maior de empregadores utilizará a ‘nuvem humana’ – trabalhadores que podem ser localizados em qualquer parte do mundo para resolução de problemas e projetos. As vantagens são a flexibilidade no trabalho, tempo e local. As desvantagens, porém, é de que se trata de trabalho não regulamentado.

Uma coisa é certa, ainda não é possível prever o que exatamente acontecerá, mas o talento, mais que o capital, representará o fator crucial de produção, diz Schwab. Teremos um mercado de trabalho cada vez mais segregado em segmentos de baixa competência/baixo salário e alta competência/alto salário. A quarta revolução industrial exigirá e enfatizará a capacidade dos trabalhadores em se adaptar continuamente e aprender novas habilidades.

Negócios

Teremos um grande impacto sobre como as empresas deverão ser lideradas, organizadas e administradas. Segundo Schwab, a capacidade do líder de continuamente aprender, adaptar-se e desafiar os seus próprios modelos conceituais e operacionais de sucesso é o que irá distinguir a próxima geração de lideres comercial bem sucedido.

A quarta Revolução Industrial obrigará as empresas a imaginar o funcionamento prático entre os mundos off-line e on-line e estabelecer parcerias, principalmente com aquelas que estão na ponta do capitalismo cognitivo. Por exemplo, a parte eletrônica de um carro hoje já custa 40% do seu valor.

Essa revolução exigirá também que as empresas consigam combinar as dimensões digitais, físicas e biológicas. O exemplo bem sucedido nesse caso é o Uber: “A popularidade do aplicativo Uber começa com a melhor experiência do cliente – acompanhamento da posição do carro através de um dispositivo móvel, uma descrição dos padrões do carro e um processo de pagamento dinâmico, evitando atrasos para chegar ao destino”. Temos aqui a combinação dos bens digitais com o físico e o biológico (aplicativo-carro-pessoa).

A questão central colocada para as empresas com a chegada da quarta Revolução Industrial, segundo o autor: “Empresas, indústrias e corporações enfrentarão pressões darwinianas contínuas e, como tal, a filosofia para sempre na versão beta (sempre evoluindo) vai se tornar mais predominante”.

Nacional e Global

Os impactos da quarta Revolução Industrial no mundo da política. Os governos – nacionais, regionais e locais – precisam se reinventar encontrando novas formas de colaboração com os seus cidadãos e o setor privado. Essa revolução coloca em perspectiva a situação de ‘lidar’ com o empoderamento dos cidadãos. Citando Moisés Naím: “No sec. XXI, será mais fácil chegar ao poder, mas difícil usá-lo e mais fácil perdê-lo”.

Como exemplo é mencionado o WikiLeaks, o confronto entre uma entidade não estatal e minúscula e um Estado gigantesco. O autor, porém, faz um alerta, as tecnologias que podem empoderar o cidadão também podem vigiá-lo.

A quarta Revolução Industrial terá um impacto profundo sobre a natureza dos estados e a segurança internacional, destaca o autor. Estamos diante da possibilidade da guerra cibernética; dos robôs voadores (drones); de armas autônomas que atacam alvos de acordo com critérios pré-definidos; da real militarização espacial – nova geração de armas hipersônicas (12 mil km); de dispositivos vestíveis – produção de exoesqueletos que melhoram o desempenho dos soldados; da fabricação aditiva; da reposição de peças no lugar do conflito; de energias renováveis, a produção de energia no local sem necessidade de deslocamento ou abastecimento remoto.

Ainda mais, os avanços na nanotecnologia permitirão armas mais leves, móveis e inteligentes e aumentarão os riscos de armas biológicas: armas letais que podem se propagar pelo ar; de armas bioquímicas: armas do tipo ‘faça você mesmo’. Há ainda o desenvolvimento de neurotecnologias para uso de fins militares. Computadores ligados ao cérebro ou partes do corpo que poderão desenvolver o soldado biônico. “O cérebro será o próximo campo de batalha”, afirma James Giordano, citado pelo autor.

Destaca também o crescente uso da ‘mídia social’, plataformas digitais para recrutamento de ‘militantes’. Como exemplo tem-se o Estado Islâmico do Iraque e da Síria – ISIS em inglês.

Sociedade-Comunidade-Indivíduo

Na opinião de Klaus Schwab, a quarta Revolução Industrial poderá levar a um aumento da desigualdade. Lembra que metade dos ativos do mundo é hoje controlado por 1% (os mais ricos) da população mundial, enquanto a metade mais pobre da população mundial possui em conjunto menos de 1% da riqueza global. Há uma tendência que a riqueza continue concentrada, uma vez que o domínio das inovações tecnológicas estará e será controlada por um pequeno grupo de empresas.

A quarta revolução industrial, por outro lado, não está mudando apenas o que fazemos, mas também o que somos. Estamos frente ao surgimento da sociedade centrada no indivíduo. “Ao contrário do passado, a noção de pertencer, de fazer parte de uma comunidade, é hoje definida pelos interesses e valores individuais e por projetos pessoais que pelo espaço (comunidade local), trabalho e família”, destaca o autor.

Schwab destaca estudo do MIT em que 44% dos adolescentes nunca se desplugam, mesmo ao praticar esportes ou durante a refeição com a família e amigos. “As interrupções frequentes dispersam nossos pensamentos, enfraquecem nossa memória e nos deixam tensos e ansiosos”, afirma Nicholas Carr, escritor de tecnologia e cultura, citado pelo autor.

Por outro lado, a revolução industrial está redefinindo o que significa ser humano. Crianças podem ser feitas sob encomendas? Podemos nos livrar de doenças? Viver mais tempo? Ser mais inteligente? Correr mais rápido? Ter certa aparência?, pergunta o autor. Isso é desejável? Quais são as implicações éticas?

O caminho a seguir – Epílogo

Concluindo o livro, o autor expressa a sua posição sobre a quarta revolução industrial: Segundo ele, “o eventual curso tomado pela quarta revolução industrial será, em última instância, determinado por nossa capacidade de moldá-lo de modo que ela desencadeie todo o seu potencial (…) os desafios são assustadores como as oportunidades convincentes. Juntos, devemos trabalhar para transformar esses desafios em oportunidades, ao nos prepararmos de forma adequada – e proativa – para seus efeitos e impactos”.

Sugere que “assumamos uma responsabilidade coletiva por um futuro em que a inovação e a tecnologia estejam focadas na humanidade e na necessidade de servir ao interesse público, e estejamos certos de empregá-las para conduzir-nos para um desenvolvimento mais sustentável”.

Finalmente, conclui: “Acredito firmemente que a nova era tecnológica, caso seja criada de forma ágil e responsável, poderá dar início a um novo renascimento cultural que irá permitir que nos sintamos parte de algo muito maior que nós mesmos – uma verdadeira civilização global”.]

Leia mais

A ‘uberização’ e as encruzilhadas do mundo do trabalho. Revista IHU On-Line n. 503

Sociabilidade 2.0 Relações humanas nas redes digitais. Revista IHU On-Line n. 502

A organização do mundo do trabalho e a modelagem de novas subjetividades. Revista IHU On-Line n. 416

O mundo do trabalho e a crise sistêmica do capitalismo globalizado. Revista IHU On-Line n. 291

As obras coletivas e seus impactos no mundo do trabalho. Revista IHU On-Line n. 161

Governo Lula: Uma saída neoliberal para a crise do neoliberalismo?. Revista IHU On-Line n. 79

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“Três medos que povoam a Internet — e três saídas”

Black

[(Outras Palavras, por Tim Berners-Lee com tradução de Inês Castilho) – Em 12 de março, completaram-se 28 anos desde que submeti minha proposta original para a internet global. Imaginei a rede como uma plataforma aberta que permitiria a todo mundo, em todo lugar, partilhar informações, ter acesso a oportunidades e colaborar rompendo limites geográficos e culturais. De várias maneiras a internet deu conta dessa visão, embora tenha sido uma recorrente batalha para mantê-la aberta. Mas, nos últimos doze meses, tenho me tornado cada vez mais preocupado com três novas tendências, que acredito devemos enfrentar para que a rede cumpra seu verdadeiro potencial como uma ferramenta que serve toda a humanidade.

1) Perdemos o controle de nossos dados pessoais

O modelo atual de negócios de muitos sites oferece conteúdo grátis em troca de dados pessoais. Muitos de nós concordamos com isso – embora frequentemente aceitando documentos com termos e condições (T&C) longos e confusos – mas fundamentalmente não nos importamos que recolham algumas informações a nosso respeito em troca de serviços gratuitos. Estamos caindo numa arapuca. Como nossos dados são então mantidos em grandes silos privados, fora de nossa vista, perdemos benefícios que poderíamos ter se tivéssemos controle direto sobre esses dados e escolhêssemos quando e com quem partilhá-los. Pior: é frequente não termos como comunicar as empresas que dados não gostaríamos de partilhar – especialmente com terceiros – os T&C são tudo ou nada.

Esses dados espalhados pelas empresas têm também outros impactos. Contando com colaboração – ou coagindo – essas empresas, alguns governos também estão vigiando cada vez mais nossos passos na rede e aprovando leis extremas que destroem nosso direito à privacidade. Em regimes repressivos, é fácil ver o mal que pode ser causado – blogueiros podem ser presos ou assassinados, e opositores políticos podem ser monitorados. Mas mesmo em países onde acreditamos que os governos são bem intencionados, vigiar todo mundo o tempo todo é simplesmente ir longe demais. Isso cria um efeito desencorajador na liberdade de expressão e não permite que a rede seja usada como um espaço para explorar temas importantes tais como questões sensíveis de saúde, sexualidade e religião.

2) É muito fácil espalhar falsas informações na rede

Hoje, a maioria das pessoas recebe notícias e informações na rede por meio apenas de um punhado de sites, redes sociais e ferramentas de busca. Esses sites ganham mais dinheiro quando a gente clica nos links que eles nos mostram. E eles escolhem o que nos mostrar com base em algoritmos que aprendem a partir de nossos dados pessoais, que estão colhendo constantemente. O resultado é que esses sites nos mostram conteúdos em que eles pensam que clicaremos – o que significa que informação incorreta, ou falsas notícias, que são surpreendentes, chocantes ou feitas para nos influenciar, podem espalhar-se como fogo de palha. E através do uso de dados científicos e exércitos de robôs, pessoas com más intenções podem burlar o sistema para espalhar desinformação para obter vantagens financeiras ou políticas.

3) A publicidade política online precisa ser transparente e compreensível

A publicidade política online tornou-se rapidamente uma indústria sofisticada. O fato de que a maioria das pessoas buscam informações em poucas plataformas e a crescente sofisticação de algoritmos traçados a partir de ricos bancos de dados pessoais significa que campanhas políticas estão agora construindo anúncios políticos individuais voltados diretamente para cada grupo de usuários. Uma fonte sugere que nas eleições norte-americanas de 2016 cerca de 50 mil variações de publicidade foram servidas a cada dia pelo Facebook, uma situação quase impossível de monitorar. E há sugestões de que alguns anúncios políticos – nos EUA e em todo o mundo – estão sendo usados de modo nada ético, dirigindo os eleitores para sites de notícias falsas, por exemplo, ou tentando.

A publicidade segmentada segundo alvos específicos possibilita que uma campanha política diga coisas completamente diferentes, possivelmente conflitantes, a grupos diferentes de pessoas. Isso é democrático?

Esses problemas são complexos, e as soluções não serão simples. Mas alguns grandes passos para avançar já estão claros. Precisamos definir juntos com as empresas web um equilíbrio que coloque novamente nas mãos das pessoas um grau algum controle sobre dados. Isso inclui o desenvolvimento de novas tecnologias tais como “nichos de dados” pessoais, se necessário, e explorar modelos alternativos de receita tais como assinaturas e micro pagamentos. Precisamos lutar contra os abusos governamentais em leis de vigilância, inclusive através dos Judiciários, se necessário. Precisamos pressionar contra má informação pressionando empresas como o Google e o Facebook a continuar seus esforços para combater o problema, e ao mesmo tempo evitar a criação de qualquer organismo central para decidir o que é ou não é “verdade”. Precisamos de mais transparência nos algoritmos para entender como estão sendo tomadas decisões que afetam nossas vidas, e talvez um conjunto de princípios comuns a ser seguidos. Precisamos urgentemente fechar o “ponto cego da internet” na regulação de campanhas políticas.

Nossa equipe na Fundação Web estará trabalhando em vários desses temas como parte da nossa estratégia quinquenal — pesquisando os problemas em mais detalhes, trazendo soluções políticas proativas e articulando coalizões para conduzir a avanços com direção a uma web que dê poder e oportunidades iguais para todos.]

Texto publicado em Outras Palavras.

“Neoliberalismo, ordem contestada”

Revolta

[O termo “movimentos anti-sistêmicos” era comumente usado, há 25 anos, para caracterizar forças de esquerda, em revolta contra o capitalismo. Hoje, ele não perdeu relevância no Ocidente, mas seu sentido mudou. Os movimentos de revolta que se multiplicaram na última década não se rebelam mais contra o capitalismo, mas contra o neoliberalismo – os fluxos financeiros desregulados, os serviços privatizados e a desigualdade social crescente, uma variante específica do domínio do capital adotada na Europa e América desde aos anos 1980. A ordem econômica e política resultante foi aceita indistintamente por governos de centro-direita e centro-esquerda, de acordo com o princípio central do pensamento único e do dito de Margareth Thatcher, segundo o qual “não há alternativa”. Dois tipos de movimento agora se mobilizam contra este sistema; e a ordem estabelecida estigmatiza-os – sejam de direita ou de esquerda – como a “ameaça populista”.

Não por acaso, estes movimentos emergiram antes na Europa que nos Estados Unidos. Sessenta anos após o Tratado de Roma, a razão é clara. O mercado comum europeu de 1957, um desdobramento da comunidade de carvão e aço do Plano Schuman – concebido tanto para prevenir o retrocesso a um século de hostilidades franco-alemãs quanto para consolidar o crescimento econômico pós-guerra na Europa Ocidental – foi produto de um período de pleno emprego e aumento dos rendimentos populares, a consolidação da democracia representativa e dos sistemas de Bem-estar Social. Seus arranjos comerciais pesavam muito pouco na soberania dos Estados-Nações que o compunham – e à época, foram fortalecidos, não enfraquecidos. Os orçamentos e as taxas de câmbio eram determinadas internamente, por parlamentos que prestavam contas a seu eleitorado nacional, e nos quais políticas contrastantes eram debatidas com vigor. Tentativas da Comissão de Bruxelas para tornar-se mais poderosa foram notoriamente rechaçadas em Paris. Não apenas a França de Charles de Gaulle mas também a Alemanha Ocidental de Konrad Adenauer, ainda que de forma mais discreta, perseguia políticas externas independente dos Estados Unidos e capazes de desafiá-los.]

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Por Perry Anderson, no Le Monde Diplomatique, tradução: Antonio Martins.