Velhos encontros sempre deixam um gostinho de quero menos

EuUm encontro de velhos e de velhas amigas, como tivemos na sexta-feira à noite que passou, poderia ser em encontro agradável, regado a reminiscências nem sempre seguras (em nossa idade muita gente, inclusive eu, esquece muita coisa).

De minha parte fui a convite e de companhia.

Não sei se repito isso no ano que vem. Nem sei se estarei por aqui por este/aquele tempo.

Mesmo que ainda esteja vivo (o que é uma possibilidade) pode ser que não esteja mais por aqui, e se tiver vivo e por aqui é quase certo que o enfado e a preguiça me prostrarão.

Também tem o reverso desta mesma moeda: pode ser que boa parte dos amigos e das amigas já tenha morrido ou mudado de cidade, ou de estado e até de país ou até mesmo esteja adoentado/a, coisa que os/as impossibilitaria de uma aventura como esta.

Nessas idades avançadas é sempre um perigo dançar e se embebedar. É exatamente isso que se faz nesse tipo de encontro

As danças podem provocar sérios problemas musculares e as bebedeiras resultam em comas alcoólicas.

Por educação e por elegância com os/as velhos/as (velhíssimos/as) amigos/as sugeri um novo encontro para 2057, seguindo a regra de a “cada quarenta anos nos encontramos” .

O tempo passa célere (como alguns gostam de dizer) e é melhor assim.

Entendo ser este um bom prazo para que reflitamos se esses encontros têm algum sentido.

Sou um sujeito meio, como se diz por aqui, bicho do mato; um cara antissocial.

Tenho cá minhas razões quase toda de ordem ideológica.

Não entendo e nem concebo o mundo como essas pessoas concebem, e sempre me surpreendo que eles/as tenham sido algum dia meus/minhas amigos/amigas.

Não sei onde eu estava com a cabeça!

Mas há também diferenças irreconciliáveis de crença.

Nunca acreditei muito no cristianismo dessa gente, cristianismo que sempre me pareceu mais de ostentação e de futrica do que de constrição e de reflexão.

Não que eu seja cristão/católico (como a maioria deles/as é).

Já superei isso a um bocado de tempo.

Navego por outras águas, algumas turbulentas e bastante incompreensíveis.

Mas como explicar isso tudo pra essa gente?

Acho melhor desmarcar o encontro de 2057.

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Será que a moça do bar é tão alienada assim como achamos?

O chapeu
O meu chapeuzinho, segundo a moça do bar, que se preocupou com que eu não o esquecesse

Hoje “garrei” conversa com uma moça de, no máximo (não perguntei), uns 25 anos e que toma conta de um bar nas proximidades da prefeitura de Cotia.

Toma conta” é literal, pois a jovem chega logo cedo, abre o estabelecimento, o limpa, prepara sanduíches e salgadinhos, serve-os e ainda permanece por lá até o início da noite.

A “patroa” praticamente não aparece, o que revela a sua confiança na garota; aparece apenas para falar mal do PT e “fechar o caixa”.

A menina mesma reconhece que a sua vida é um bocado medíocre, mas fazer o que? Ela tem de sobreviver.

Ela usa aliança na mão esquerda, uma tática que muita mulher solteira e bonita (vale para as feias também) usa para fugir dos chatos, das machistas e de outros tipos de homens inoportunos.

Mas não me parece ser este o seu caso. Não sei se ela conhece essa tática de dispersão e despistamento. Creio que não.

A conversa derivou-se para a política e ela ficou contente com a minha opinião de que se Lula conseguir se candidatar ele deve ganhar o pleito do ano que vem para a presidência da república.

Foi aí que ela se lembrou de que a “patroa” vive a falar mal do Lula e do PT (“tem ódio”) e tenta fazer a sua cabeça contra ambos.

Creio que se acontecer o contrário (votar em Lula e no PT) a jovem corre sério risco de ser despedida, mandada embora, pois esse tipo de patroa é bem capaz disso. Isso se chama despeito

A jovem do bar chamou Temer de “perverso” embora não tenha se alongado nesta conversa, pois disse que não entende nada de política. Ela tem apenas uma percepção, uma espécie de estalo de que tudo não está indo bem (apesar de seu  trabalho), muito pelo contrário: quase ruindo – ou nos versos de Caetano Veloso “tudo está demorando em ser tão ruim”.

Mas fez um reparo importante: ”eu deveria saber mais sobre política” – até para se defender (da patroa), é óbvio.

Gente assim é taxada de alienada, como se a percepção das pessoas não tivesse importância alguma.

Mas será mesmo que podemos dizer que a jovem do bar é alienada, ou apenas ligeiramente desinformada?

Ao final de nossa conversa ela foi bastante gentil e atenciosa e ainda se lembrou de meu “chapeuzinho” e pediu para que eu não o esquecesse.

“Robótica eliminará até 800 milhões de empregos até 2030”

Interrogacao [O impacto das novas tecnologias na vida dos trabalhadores será sentido sobretudo nas economias mais desenvolvidas. Segundo o relatório, até um terço da força de trabalho de Estados Unidos e Alemanha terá de aprender novas habilidades e encontrar outra ocupação. No Japão, a porcentagem de afetados poderá chegar a quase a metade dos trabalhadores.

Os efeitos do fenômeno calculados pela consultoria variam segundo a projeção que se leve em consideração: se a automatização das economias avança a um ritmo intenso ou gradual.

Os responsáveis pelo documento da McKinsey afirmam que os baixos salários no México, por exemplo, levarão a um impacto menos intenso da automatização no país latino-americano: do total de 68 milhões de pessoas que comporão a força de trabalho mexicana em 2030, cerca de 9 milhões serão afetados.

“O México tem uma população jovem e uma força de trabalho que está crescendo. O nível dos salários pode diminuir a implementação da automatização no país”, destaca a consultoria.

A McKinsey analisou o efeito da robotização em 46 economias que representam quase 90% do PIB mundial. Além disso, fez projeções detalhadas do impacto da automatização em seis países: Estados Unidos, China, Alemanha, Japão, México e Índia. A consultoria destaca que os países têm de encontrar formas de realocar os trabalhadores substituídos pela automatização. “Nos cenários em que alguns dos substituídos levam anos para encontrar um novo trabalho, o desemprego cresce em curto e médio prazo. Em longo prazo, se reduz o desemprego e o mercado de trabalho se ajusta, mas com um crescimento menor dos salários”, afirmam.

Além disso, as mudanças tecnológicas atingirão com mais força os trabalhadores com menos estudo. As pessoas com formação universitária e pós-graduação serão menos afetadas. Entre as atividades mais prejudicadas destacadas pela consultoria estão os operadores de máquinas e os funcionários de redes de fast food, além de trabalhadores que fazem coleta e processamento de dados.

“As profissões altamente dependentes das atividades que identificamos como mais suscetíveis à automatização — trabalhos físicos ou processamento de dados — serão provavelmente as mais afetadas”, afirmam os responsáveis pelo relatório. “Ocupações que exigem alto nível de especialização ou uma alta exigência de interação social e emocional serão menos suscetíveis à automatização até 2030”, dizem.

Apesar dos efeitos esperados no mercado de trabalho, os pesquisadores destacam que a inovação, o crescimento econômico adequado e os investimentos podem gerar empregos suficientes para compensar os postos de que serão perdidos pela automatização.]

A reportagem é de Ricardo Della Coletta e publicada por El País, 02-12-2017. Publicado no Brasil em http://www.ihu.unisinos.br/574292-robotica-eliminara-ate-800-milhoes-de-empregos-ate-2030

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A genialidade de Guimaraes Rosa em breves palavras

“O jornalismo e a atualidade de Guimarães Rosa”

Tutameia 01[Críticas à imprensa se tornaram corriqueiras – a maioria, pelos motivos errados. O principal defeito dos jornais e revistas brasileiros não está na ideologia nem nos procedimentos editoriais (em que pesem queixas legítimas). Está na deterioração do texto. O Brasil talvez seja o único país em que alguém pode ser jornalista bem-sucedido sem saber escrever direito. Sempre pôde contar com editores abnegados, dispostos a reescrever qualquer aberração, depois assinar com o nome alheio. Nas últimas décadas, nem isso tem bastado. Por uma conjunção madrasta de forças econômicas e culturais, a imprensa se vê nas mãos de uma geração que não foi educada para a escrita. É algo visível no nível mais básico, tal a profusão de erros de concordância e regência, de palavras e partículas desnecessárias (“que”, “se” ou “de”), de textos viscosos e confusos. Mas também num nível mais grave e insidioso. Fora os deslizes sintáticos, ortográficos ou estilísticos, em certa medida inevitáveis diante da pressão dos prazos, o texto jornalístico se tornou refém da preguiça mental e dos chavões. Não passa um dia sem que alguém cometa, nas páginas da grande imprensa, uma “ponta de iceberg”, uma “joia da coroa”, um “divisor de águas” ou uma “rota de colisão”. Quando falta apuro na linguagem, natural que falte também nas ideias. O problema da imprensa é, na essência, um problema de linguagem.

Daí a relevância e a atualidade de Guimarães Rosa, morto há 50 anos. Na divisão clássica, há escritores que se impõem pela força da narrativa, como Dickens ou Tolstói, outros pela linguagem, como Joyce ou o nosso Rosa. Ele destilava cada frase, cada palavra, cada vírgula para alcançar seu estilo singular. É um erro crer que apenas reproduziu o falar característico do sertão. Seu texto derivava de vasto conhecimento linguístico, em que a estrutura sintática do alemão podia se aliar a uma expressão do francês ou a um neologismo importado do russo para expressar o pensamento ou a ação do sertanejo. Tal mecanismo sofisticado, presente em todas as suas obras, faz de muitas uma leitura difícil, por vezes maçante. Parecem escritas num idioma estrangeiro, em tudo similar ao português. Ninguém jamais escreverá como ele. Mas é leitura fundamental, recompensadora até, para quem deseja ou precisa, como os jornalistas, dominar as engrenagens e a artesania da linguagem escrita.

Tutameia 02Nenhuma das obras de Rosa é tão didática a respeito de sua relação com a linguagem quanto o último livro que publicou em vida, meses antes de morrer, a coletânea de contos Tutameia. Em 44 textos, chamados de “estórias”, Rosa produziu seu testamento literário. Quarenta deles haviam sido publicados anteriormente – a maioria na revista médica Pulso, dois no jornal O Globo, onde também publicara os contos da coletânea Primeiras estórias. Quatro são novos, classificados como prefácios, embora apenas um ocupe a posição convencional na abertura do livro. O leitor encontra os outros três entremeados às demais estórias. Na edição original, publicada pela Livraria José Olympio, há dois índices: um no começo, com as estórias em ordem alfabética (ou quase); outro no final, o “índice de releitura”, com os prefácios separados. Esse segundo índice é um recado do autor: apenas uma leitura não basta. A vantagem prática de Tutameia é justamente poder ser lido e relido aos poucos. A restrição de espaço nas publicações originais obrigou Rosa a produzir textos curtos e independentes, num esforço de condensação que aproxima sua prosa da poesia. Ler um por dia contribui para melhorar a escrita de qualquer um.

O cenário das estórias é o ambiente familiar a Rosa, os descampados, matas e cenários ermos do sertão mineiro. Os personagens, na descrição do crítico Paulo Rónai, são também familiares: “Vaqueiros, criadores de cavalos, caçadores, pescadores, barqueiros, pedreiros, cegos e seus guias, capangas, bandidos, mendigos, ciganos, prostitutas, um mundo arcaico onde a hierarquia culmina nas figuras do fazendeiro, do delegado e do padre”. É nos quatro prefácios, cheios de ironia, que ele nos deixa seu legado explícito. São textos urbanos, reflexões de um escritor em eterno embate com as palavras. O primeiro é uma discussão algo filosófica, sobre como representar algo por meio da ausência. No segundo, ele defende os neologismos. No terceiro, narrativa trôpega sobre a volta de um bêbado a sua casa, demonstra nas palavras e no ritmo a importância da forma para o conteúdo. É no quarto, reunião de sete histórias pessoais, que traduz o título, no final de um glossário. A palavra “tutameia” pode aparecer no dicionário com o sentido de “ninharia”, mas era para Rosa “mea omnia” (toda minha, em latim), a síntese de toda a sua obra. Publicada, em boa parte, pela imprensa.]

Helio Gurovitz , na revista Época.

Críticas ao artigo “Marx na floresta”, de Jean Tible // Debate Margem Esquerda

Blog da Boitempo

Por Lucas Parreira Álvares.

O que para dentro da floresta se grita, para fora da floresta ecoa.
(Provérbio citado por Marx em  Crítica à Filosofia do Direito de Hegel – Introdução)

A recém publicada vigésima nona edição da revista Margem Esquerda traz, no interior de seu dossiê – cuja temática é “Lutas indígenas e socialismo” – um artigo intitulado “Marx na floresta”, de autoria de Jean Tible, professor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de São Paulo.

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“Estudo resgata a história do Movimento do Custo de Vida”

Comunidades
Em oposição à política econômica da ditadura civil-militar, o movimento, que atuou de 1973 a 1982, promoveu as primeiras grandes manifestações populares do Brasil depois de 1968 (detalhe da capa do livro Como pode um povo vivo viver nesta carestia).

[Criado em 1973, a partir dos Clubes de Mães e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica na periferia sul de São Paulo, o Movimento do Custo de Vida (MCV) incorporou outras forças políticas; cresceu em número e articulação; e, em 1978, colocou nas ruas mais de 20 mil pessoas, em um ato público realizado na Praça da Sé, em plena ditadura civil-militar.

Contornando as barreiras policiais, que procuraram impedir o acesso dos manifestantes ao local, e contrariando a ordem de que o ato fosse realizado apenas no interior da catedral, a manifestação transbordou pelas escadarias.

No mesmo evento, foi apresentado um abaixo-assinado de âmbito nacional, com 1,3 milhão de assinaturas, a ser entregue à Presidência da República, reivindicando o congelamento dos preços dos gêneros de primeira necessidade; o aumento dos salários acima do aumento do custo de vida; e um abono salarial de emergência imediato e sem desconto para todas as categorias de trabalhadores.

A história do MCV, praticamente desconhecida pelas novas gerações, é o objeto do livro Como pode um povo vivo viver nesta carestia: o Movimento do Custo de Vida em São Paulo (1973-1982), de Thiago Nunes Monteiro. Resultado de trabalho de mestrado feito na Universidade de São Paulo, com orientação da professora Maria Aparecida de Aquino, o livro foi publicado com apoio da Fapesp.

“Monteiro pesquisou nos principais arquivos do Estado de São Paulo. Ele consultou material produzido pelo próprio MCV e sobre o movimento, como discursos na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) e no Congresso Nacional, artigos de imprensa da época e documentos do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops-SP). Com base nessa documentação extensa, fez um trabalho de mestrado com nível de doutorado. Por isso, sem que fosse apresentada qualquer solicitação nesse sentido, sua dissertação foi selecionada, pelos pareceristas da USP, para publicação em livro”, disse Aquino à Agência Fapesp.

Conforme explicou a orientadora, o MCV foi a resposta a um processo inflacionário, que corroía o poder aquisitivo das camadas populares, sem que houvesse a contrapartida de elevações salariais. Com uma linguagem acessível às pessoas menos instruídas, os folhetos produzidos pelo movimento recorriam a imagens marcantes como a de que os salários subiam pela escada, enquanto o custo de vida disparava pelo elevador.

O livro cobre uma década de atividade do MCV e acompanha seu nascimento, ascensão, apogeu, declínio e fim. “Adotei como balizas temporais os anos 1973 e 1982. Em 1973, o MCV foi criado, com base nos Clubes de Mães, já atuantes na periferia de São Paulo. Em 1982, o movimento já havia esgotado sua capacidade de mobilização em São Paulo, e a última manifestação agendada acabou não ocorrendo, por falta de público”, disse Monteiro.

Segundo o autor, a maior força no início do movimento – e a própria condição para que ele ocorresse – foi a Igreja Católica, liderada pelo cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo.

“Por meio dos Clubes de Mães e das CEBs, a Igreja mobilizou grande número de participantes, residentes nos bairros populares da periferia. Além disso, foi a Igreja que proporcionou a infraestrutura material necessária, como espaços para reuniões ou mimeógrafos para a produção de folhetos. Mas, desde o começo, houve também a participação de pessoas ligadas à luta sindical e à oposição ao regime ditatorial, incluindo agrupamentos de esquerda, especialmente militantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B)”, disse.

À medida que o MCV cresceu, criou-se uma coordenação central; outros militantes de esquerda, que não moravam anteriormente nos bairros onde o movimento atuava, se incorporaram a ele; e chegou-se ao auge com o abaixo-assinado de 1,3 milhão de assinaturas. A partir de 1978, a capacidade de mobilização foi, gradualmente, reduzida.

As causas do declínio foram objeto de outros estudos, que enfatizaram a influência prejudicial das disputas por hegemonia entre as várias forças políticas. Monteiro reconhece que essas disputas contribuíram para a desmobilização, mas considera que esta não pode ser atribuída a uma única causa.

“Movimentos populares com objetivos limitados, como a construção de creches ou o asfaltamento de ruas, são capazes de proporcionar pequenas vitórias concretas, que retroalimentam a mobilização. O MCV, porém, tinha um objetivo de escala nacional, que só poderia ser alcançado com a revisão de toda a política econômica do regime. A incapacidade de obter uma vitória desse porte pode ser apontada como uma das causas para o seu progressivo esvaziamento. Além disso, surgiram outras pautas e espaços de atuação, que atraíram parte dos militantes”, disse Monteiro.

Para Aquino, é preciso contextualizar o declínio do MCV. “O fim da década de 1970 foi caracterizado pelo eclipse do regime ditatorial. Houve crise econômica, a emergência de um novo sindicalismo com as greves do ABC paulista em 1978, mobilizações dos estudantes e de outros setores da população por liberdades democráticas. Tudo isso sinalizou que não havia mais condições de sobrevivência para a ditadura no longo prazo. O MCV foi a resposta possível em um contexto anterior. Mas o novo contexto gerou outras oportunidades de enfrentamento do regime ditatorial”, disse.

Perguntado sobre as lideranças que se destacaram no movimento, Monteiro citou três: Aurélio Peres, operário metalúrgico, e Irma Passoni, freira que abandonou a vida religiosa para se engajar nas lutas da periferia sul; em 1978, os dois foram eleitos, respectivamente, como deputados federal e estadual.

“Além deles, Ana Dias teve um papel muito importante no MCV desde o início, embora seja mais lembrada como a companheira do operário metalúrgico Santo Dias da Silva, que também atuou no MCV e foi assassinado por um soldado da Polícia Militar, durante repressão à greve dos metalúrgicos de São Paulo”, disse.

Em 31 de outubro de 1979, 30 mil pessoas saíram às ruas do centro de São Paulo para acompanhar o cortejo fúnebre e protestar contra o assassinato de Santo Dias. O policial responsável por sua morte, condenado em primeira instância, foi unanimemente absolvido pelo Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo.

Há 38 anos, familiares e companheiros de militância de Santo se dirigem, todos os anos, ao local onde Santo foi morto e escrevem, com tinta vermelha, a frase “Aqui foi assassinado o operário Santo Dias da Silva, no dia 30-10-1979, pela Polícia Militar”.]

Como pode um povo vivo viver nesta carestia: o Movimento do Custo de Vida em São Paulo (1973-1982)
Autor: Thiago Nunes Monteiro
Editora: Humanitas
Ano: 2017
Páginas: 274
Preço: R$ 42
Mais informações: https://editorahumanitas.commercesuite.com.br/lancamentos/como-pode-um-povo-vivo-viver-nesta-carestia.

José Tadeu Arantes,  Agência Fapesp.

“Bullying, retrato de um sistema”

Bulling[Em novo livro, dois sociólogos propõem: é hora de perceber que as intimidações violentas não são desajustes individuais. Elas reproduzem a disputa incessante que o capitalismo estimula.

O que causa o bullying? Ao analisarem o fenômeno nos Estados Unidos, em Bully Nation, os sociólogos Charles Derber e Yale R. Magrass mostram como as desigualdades de poder, o militarismo e o capitalismo agressivo tornam tanto o bullying pessoal como o institucional um lugar-comum. A seguir, em entrevista (Outras Palavras) à revista Truthout, Charles e Yale abordam o tema a partir de um ponto de vista original. Para eles, as crianças que intimidam as outras, de forma violenta, não estão se mostrando desadaptadas. Ao contrário, são as que assimilaram, de maneira crua e não mediada, algumas das características centrais de um sistema cada vez mais reduzido à luta de todos contra todos.]

Charles Deber e Yale Magrass, entrevistados por Mark Karlin, em Truthout , tradução: Camila Teicher.