“Buda e o tapa”

Buda

[Buda estava sentado embaixo de uma árvore falando aos seus discípulos.

Um homem se aproximou e deu-lhe um tapa no rosto.

Buda esfregou o local e perguntou ao homem: “E agora? O que vai querer dizer?”

O homem ficou um tanto confuso, porque ele próprio não esperava que, depois de dar um tapa no rosto de alguém, essa pessoa perguntasse: “E agora?

Ele não passara por essa experiência antes.

Ele insultava as pessoas e elas ficavam com raiva e reagiam. Ou, se fossem covardes, sorriam, tentando suborná-lo.

Mas Buda não era num uma coisa nem outra; ele não ficara com raiva nem ofendido, nem tampouco fora covarde. Apenas fora sincero e perguntara: “E agora?

Não houve reação da sua parte.

Os discípulos de Buda ficaram com raiva, reagiram.

O discípulo mais próximo, Ananda, disse: “Isso foi demais: não podemos tolerar. Buda, guarde os seus ensinamentos para o senhor e nós vamos mostrar a este homem que ele não pode fazer o que fez. Ele tem de ser punido por isso. Ou então todo mundo vai começar a fazer dessas coisas”.

“Fique quieto, interveio Buda. Ele não me ofendeu, mas você está me ofendendo. Ele é novo, um estranho. E pode ter ouvido alguma coisa sobre mim de alguém, pode ter formado uma ideia, uma noção a meu respeito. Ele não bateu em mim; ele bateu nessa noção, nessa ideia a meu respeito; porque ele não me conhece, como ele pode me ofender? As pessoas devem ter falado alguma coisa a meu respeito, que aquele homem é um ateu, um homem perigoso, que tira as pessoas do bom caminho, um revolucionário, um corruptor. Ele deve ter ouvido algo sobre mim e formou um conceito, uma ideia. Ele bateu nessa ideia.”

“Se vocês refletirem profundamente, continuou Buda, ele bateu na própria mente. Eu não faço parte dela, e vejo que este pobre homem tem alguma coisa a dizer, porque essa é uma maneira de dizer alguma coisa: ofender é uma maneira de dizer alguma coisa. Há momentos em que você sente que a linguagem é insuficiente: no amor profundo, na raiva extrema, no ódio, na oração.”

“Há momentos de grande intensidade em que a linguagem é impotente; então você precisa fazer alguma coisa. Quando vocês estão apaixonados e beijam ou abraçam a pessoa amada, o que estão fazendo? Estão dizendo algo. Quando vocês estão com raiva, uma raiva intensa, vocês batem na pessoa, cospem nela, estão dizendo algo. Eu entendo esse homem. Ele deve ter mais alguma coisa a dizer; por isso pergunto: E agora?”

O homem ficou ainda mais confuso! E Buda disse aos seus discípulos: “Estou mais ofendido com vocês porque vocês me conhecem, viveram anos comigo e ainda reagem”.

Atordoado, confuso, o homem voltou para casa. Naquela noite não conseguiu dormir.

Na manhã seguinte, o homem voltou lá e atirou-se aos pés de Buda. De novo, Buda lhe perguntou: “E agora? Esse seu gesto também é uma maneira de dizer alguma coisa que não pode ser dita com a linguagem. Voltando-se para os discípulos, Buda falou: – Olhe, Ananda, este homem aqui de novo. Ele está dizendo alguma coisa. Este homem é uma pessoa de emoções profundas”.

O homem olhou para Buda e disse: “Perdoe-me pelo que fiz ontem”.
“Perdoar? – exclamou Buda. – Mas eu não sou o mesmo homem a quem você fez aquilo. O Ganges continua correndo, nunca é o mesmo Ganges de novo. Todo homem é um rio. O homem em quem você bateu não está mais aqui: eu apenas me pareço com ele, mas não sou mais o mesmo; aconteceu muita coisa nestas vinte e quatro horas! O rio correu bastante. Portanto, não posso perdoar você porque não tenho rancor contra você”.

“E você também é outro, continuou Buda. Posso ver que você não é o mesmo homem que veio aqui ontem, porque aquele homem estava com raiva; ele estava indignado. Ele me bateu e você está inclinado aos meus pés, tocando os meus pés; como pode ser o mesmo homem? Você não é o mesmo homem; portanto, vamos esquecer tudo. Essas duas pessoas: o homem que bateu e o homem em quem ele bateu não estão mais aqui. Venha cá. Vamos conversar.”

Publicado no site Teoria da Conspiração.

‘O jesuíta que desafia os conservadores: “A Igreja deve acolher os gays. A homofobia é um pecado”’

James
Crédito da foto: Nuestra Voz

[No prefácio do livro, o cardeal Kevin Farrell, prefeito do dicastério vaticano para os Leigos, a Família e a Vida, escreve: “Um livro bem-vindo e muito necessário que vai ajudar os bispos, os sacerdotes, os agentes de pastoral e todas as lideranças da Igreja a desempenhar um ministério mais compassivo para a comunidade LGBT. O livro também vai ajudar os católicos LGBT a se sentirem mais em casa naquela que é, afinal de contas, a sua Igreja”.

Eis a entrevista.

Pe. Martin, por que escrever um livro dedicado à acolhida das pessoas LGBT?

Por muitos anos, eu conduzi um ministério informal com as pessoas homossexuais e transexuais (LGBT), especialmente em conversas e na direção espiritual. Mas, depois dos massacres em uma boate gay em Orlando, Flórida, no ano passado, quando 49 pessoas foram mortas, eu senti que tinha chegado o momento de ser mais público no apoio à comunidade LGBT. Do meu ponto de vista, as pessoas LGBT são, hoje, o grupo mais marginalizado na Igreja Católica, e, por isso, eu quis tentar construir uma ponte entre a comunidade LGBT e a Igreja institucional, utilizando os instrumentos mencionados no Catecismo – as virtudes do respeito, a compaixão e a sensibilidade. Mas a razão mais fundamental para acolher as pessoas LGBT é que o ministério de Jesus foi a acolhida a todos, e todos deveriam se sentir bem-vindos na nossa Igreja.

Em sua opinião, o que as pessoas homossexuais querem da Igreja?

A mesma coisa que todos querem, sentir-se em casa. Devemos lembrar que, por causa do seu batismo, os católicos LGBT já fazem parte da Igreja, assim como o papa, o bispo local ou eu. A Igreja é a sua casa, mas, às vezes, não age como tal. Às vezes, ela age como uma fortaleza projetada para mantê-los do lado de fora.

Se Jesus estivesse vivo hoje, como se comportaria com os homossexuais?

Durante o seu ministério público, Jesus muitas vezes frequentava aqueles que se encontravam às margens, nas “periferias”, como diz o Papa Francisco. Basta considerar algumas pessoas que ele conheceu durante o seu ministério público: um centurião romano, um cobrador de impostos, uma samaritana. Jesus vai constantemente às periferias, movendo os seus discípulos cada vez mais para o lado de fora, e trazendo cada vez mais para dentro aqueles que estão fora. Aqueles que estão dentro são encorajados a sair; e aqueles que estão fora são acolhidos. Então, em minha opinião, o primeiro grupo de católicos que Jesus iria buscar hoje são os mais marginalizados: as pessoas LGBT.

O Catecismo da Igreja Católica diz basicamente duas coisas sobre as pessoas homossexuais: que elas devem ser acolhidas, mas, ao mesmo tempo, pede que elas vivam castamente. Não é uma contradição?

Para muitas pessoas LGBT, parece uma contradição. Para mim, não é. Muitas pessoas LGBT já vivem como célibes – aquelas que não fazem parte de uniões homossexuais, aquelas que não estão em relacionamentos de longo prazo e aquelas que não têm relações com outras pessoas. No entanto, persistimos perguntando se deveríamos acolhê-las. É claro que devemos: são católicos. E, mesmo quando as pessoas não vivem em situações regulares, elas deveriam ser acolhidas mesmo assim. Porque a Igreja é uma Igreja de pecadores amados por Deus. Todos nós somos pecadores necessitados de misericórdia. Mas o ponto principal é este: por alguma razão, são apenas as pessoas LGBT que têm as suas vidas postas sob a lente do microscópio. Nós as submetemos a um controle que nenhum outro grupo é forçado a enfrentar. E essa é uma espécie de discriminação, a meu ver.

Você acredita que a homofobia está presente na Igreja?

Certamente, trata-se também de homofobia. Hoje, esse é um dos principais pecados da Igreja. Ouvi inúmeras histórias de católicos LGBT insultados pelos seus padres, em pessoa ou no púlpito, aos quais foi até pedido que deixassem a paróquia. É algo extraordinariamente doloroso de se ouvir. Grande parte disso deriva do medo. Medo da pessoa que não entendemos. Medo da pessoa que não encontramos. Medo da pessoa que vemos de acordo com estereótipos. Isso dificulta amar. São Paulo disse: “O amor perfeito exclui o medo”. Por outro lado, um medo perfeito impossibilita amar.

Alguns criticaram o fato de que um cardeal da Cúria Romana lhe dedicou o prefácio do livro. Por quê?

Não surpreende que algumas pessoas tenham criticado o prefácio de um cardeal. E, a propósito, eu fiquei muito grato pela aprovação do cardeal Farrell e do cardeal Tobin. Mas, como já disse, há grande medo e incompreensão em torno dos católicos LGBT. Tudo isso é irônico, porque o meu livro é bastante moderado. Ele não desafia nenhum ensinamento da Igreja, e a base do livro é o Catecismo, que nos pede para tratar as pessoas LGBT com “respeito, compaixão e sensibilidade”. Portanto, se alguém tem um problema a esse respeito, então tem um problema não com o meu livro, mas com o Catecismo da Igreja Católica. Se eles têm um problema com o fato de não julgar as pessoas LGBT como pessoas, então eles têm um problema com o Papa Francisco. E, se eles têm um problema com o amor, a misericórdia e a compaixão, então eles têm um problema com Jesus.

Por que a direita católica critica quem fala de acolhida aos homossexuais?

Essa é uma ótima pergunta. Eu acho que, talvez, eles pensem que “acolher” significa que se deve estar de acordo com tudo o que qualquer pessoa LGBT diz ou faz, o que não é verdade. Ninguém diz que, quando “acolhemos” os líderes empresariais católicos, por exemplo, devemos concordar com tudo o que eles fazem nos seus negócios, ou com todo valor do mundo empresarial, ou com tudo o que cada líder empresarial já disse ou fez. Portanto, há um grande equívoco. Mas devemos admitir que grande parte disso deriva da homofobia, que deriva do fato de não conhecer muito bem as pessoas LGBT. Às vezes, quando me criticam, eu pergunto: “O que os seus amigos LGBT dizem?”. E eles não podem responder, porque, muitas vezes, não conhecem pessoas LGBT. É bastante triste, em minha opinião.

Jesus disse que, no céu, as prostitutas vão nos preceder. Podemos dizer que muitos santos podem ser gays?

Em primeiro lugar, não quero comparar as pessoas LGBT com as prostitutas, porque a questão é diferente. Muitas pessoas LGBT levam uma vida santa. Por exemplo, um amigo gay meu, por muitos anos, cuidou do seu parceiro, que tem uma grave doença incurável. Esse é um caminho para a santidade. E, certamente, há santos canonizados pela Igreja que tinham uma orientação homossexual. Isso não significa que fossem sexualmente ativos, mas apenas que alguns deles tinham uma orientação homossexual. Se uma certa porcentagem da humanidade nasce gay, então uma certa porcentagem dos santos também deve ter sido gay. Quais santos? É impossível dizer. Mas muitos daqueles que são contra a acolhida às pessoas LGBT provavelmente ficarão surpresos quando chegarem ao céu e forem acolhidos por esses santos LGBT.

Que fato do evangelho se aproxima mais da ideia da acolhida às pessoas LGBT?

Para mim, a história de Zaqueu, no Evangelho de Lucas (19, 1-10) é uma passagem importante a se considerar. Zaqueu era o chefe dos cobradores de impostos em Jericó, uma posição que o colocava na situação de pecador público em Jericó. Zaqueu subiu no sicômoro, tentando ver “quem era Jesus”, enquanto Jesus passava. Portanto, a figura de Zaqueu é muito similar à pessoa LGBT hoje: tentam ver quem é Jesus, tentam se aproximar de Jesus, mas são considerados pecadores públicos e devem fazer um longo caminho para se aproximar dele. E como Jesus trata Zaqueu? Ele não grita “pecador!”. Não, ele lhe diz: “Hoje, devo ir à sua casa”. Jesus lhe oferece um sinal de acolhida pública. Em resposta, Zaqueu fica tão feliz a ponto de se oferecer para pagar todos os seus credores e, depois, ocorre uma conversão nele. Naturalmente, o povo de Jericó “murmurou” sobre a escandalosa acolhida feita por Jesus, como hoje as pessoas “murmuram” quando se fala de acolher as pessoas LGBT. Para Jesus, primeiro vem a comunidade, depois a conversão. E todos somos chamados à conversão. Mas, para Jesus, não há ninguém que seja “outro”. Não há um “nós” e um “eles”. Há apenas um “nós”. Esse é o coração da acolhida.]

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 08-06-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto, no site IHU/Unisinos.

Leia mais

Construir uma ponte entre a Igreja e as pessoas LGBT. Entrevista com James Martin

Um jesuíta nas mídias sociais. Entrevista com James Martin

”Francisco abraça o estilo de vida simples dos jesuítas”. Entrevista com James Martin

Jesuíta propõe uma “ponte de duas vias” para comunidade LGBT e a Igreja Católica

Jim Martin, padre jesuíta, encontra as pessoas onde elas estão: online

Uma oração para católicos frustrados

Portas abertas aos gays e vigílias anti-homotransfobia: a reviravolta da Igreja também nas paróquias

Igreja batiza três filhos de casal gay na Catedral de Curitiba

“Deus tem o costume de escolher o inadequado para dar brilho a suas obras”. O depoimento de um padre e teólogo gay

Sim, há muitos bons padres gays

Moda que é moda anda meio fora de moda

Moda
Foto: Mundo do Marketing

Creio que eu já tenha contado essa história antes, não, necessariamente, no blog e sim em artigo de jornal (dos muitos para os quais trabalhei) ou (o que é menos provável) em algum artigo em revista (trabalho este raro).

Um dos nossos professores, Emir Nogueira, resolveu fazer um espécie de concurso de crônicas na classe.

Acabou por vencer o concurso um sujeito chamado Victor Israeli que narrava as suas aventuras de soltador de pipas.

Até achei a historieta dele bonitinha e engraçadinha, mas sempre tiver a certeza de que a minha era melhor, pois tratava de fazer uma comparação entre as meninas de São Paulo – principalmente da avenida Paulista, onde ficava a escola de jornalismo – com as garotas de Nova York, que já era, segundo John Lennon, a nova Roma – com toda a influência da metrópole norte-americana, principalmente no campo da moda e do comportamento.

Acabei ficando em segundo.

O professor não tinha lá grande apreço pelas coisas que eu fazia.

Achava que eu era “muito frio” e não demonstrava emoção alguma – o que, segundo ele, era fatal para um jornalista.

Pode ser que ele tenha razão (tivesse, porque já faleceu).

Mas desconfio, também, que pesou a favor de Israeli o fato de ele ser judeu – aliás, morador do tradicional (na época) Bom Retiro –; mas isso é apenas desconfiança.

Se tivesse prestado atenção, Emir Nogueira poderia ter descoberto que eu era cristão novo; então judeu por judeu estaríamos empatados.

A comparação que eu fazia na crônica mostrava que as paulistanas e as nova-iorquinas se vestiam exatamente do mesmo jeito (as jovens, bem entendido), mas se diferenciavam no jeito de andar: enquanto as brasileiras bamboleavam um bocado, as norte-americanas aparentavam um canguru saltador.

Isolado, na época, o Brasil se distinguia das modas norte-americanas e europeias (Europa Ocidental); distinção que aos pouco foi se desfazendo graças às influências do cinema e da TV.

Mas à revelia de São Paulo que sempre primou por copiar tudo o que “vinha de fora”.

Mas, como os aeroportos, hoje é quase impossível distinguir uma pessoa da outra – homens e mulheres – pelo que estejam trajando.

Os aeroportos também são todos iguais. Se você não prestar atenção vai acabar achando que chegou em casa, mesmo estando, por exemplo, na China.

Das especialidades

Exceção feita àquela estupidez dos regimes autoritários de esquerda – quem consegue esquecer os “terninhos” de Mao Tse Tung e mesmo dos modelos andróginos e tenebrosos adotados pelas ditaduras da Cortina de Ferro? – a moda, no mundo capitalista, sempre foi encarada com um negócio sério, capaz de gerar emprego e riqueza.

Quem primeiro, e há muito tempo, rompeu tanto com a moda rígida e careta, como com a tal alta costura – que distinguia, em classes sociais, as pessoas – foram exatamente os EUA, que a propósito de se ganhar muito dinheiro, criaram os magazines (as lojas de departamento) e democratizaram a moda para meninos e meninas.

Hoje, a não ser que você seja um expert em moda, é praticamente impossível distinguir o que é grife daquilo que é costurado numa fabriqueta de fundo de quintal.

Até aí a ditadura do proletariado foi derrotada.

Nota pública das pastorais sociais que atuam no campo

Sobre o aumento da violência  e os massacres

Paqkdaqrco

As Pastorais Sociais do Campo subscritas vimos mais uma vez a público denunciar e clamar por justiça diante da trágica e assustadora escalada da violência no campo. Em 35 dias, foram três massacres concretizados e uma tentativa, quase um por semana, com 22 trabalhadores em luta pela terra mortos.

O primeiro foi em Colniza – MT, em 20 de abril, com 09 torturados e mortos por jagunços encapuzados, sendo o líder dos posseiros degolado. Em Vilhena – RO, no dia 29 de abril, foram encontrados 03 corpos carbonizados dentro de um carro, na mesma fazenda em que 05 trabalhadores foram mortos e três dos quais queimados ainda vivos em 2015, um crime impune. O ataque aos índios Gamela aconteceu no dia 30 de abril, em Viana – MA, com 22 feridos, 02 com mãos decepadas, por populares insuflados por ruralistas e políticos, com envolvimento da Polícia Militar, conforme registro de uma viatura na ação.

O mais recente foi o que aconteceu em Pau d’Arco, no sul do Pará, no dia 24 de maio, quando foram mortos 09 homens e 01 mulher, esta liderança de um movimento, pelas Polícias Civil e Militar.

A versão oficial dos órgãos públicos do estado foi a de que as mortes ocorreram em confronto armado, pois os policiais teriam sido recebidos à bala. Esta versão pretende fazer crer que o povo brasileiro é imbecil e que não tem capacidade de discernimento. Como num confronto armado, nenhum dos 29 policiais envolvidos na ação, sequer foi ferido? Por que a cena do crime foi desmontada, com os próprios policiais transportando os corpos para a cidade?

Estas circunstâncias, bem como o depoimento de alguns sobreviventes do massacre, feita a integrantes do Ministério Público e a outras entidades que investigam o ocorrido, indicam que houve uma execução fria e planejada.

Não há outro modo de interpretar a fragilidade na tentativa de revestir a chacina de Pau d’Arco de alguma legalidade de “cumprimento de mandados de prisão” e de “prestação de socorro” à retirada dos corpos das vítimas. Na verdade, o que se fez foi apagar vestígios e encobrir um massacre premeditado e cruelmente realizado, às gargalhadas, conforme testemunhas. A barbárie se consumou com o tratamento dispensado aos corpos das vítimas jogados como animais em carrocerias de camionetes, levados a distâncias de até 350 km para perícias e devolvidos do mesmo modo aos familiares, largados ao chão de uma funerária, já putrefatos, para serem enterrados às pressas e à custa deles, sem chance nem de um mínimo velório.

A diversidade dos autores revela a barbárie generalizada provocada pela irresolução da questão da terra, com agravamento brutal de suas consequências, sobretudo nos últimos três anos. O ano de 2017 promete superar 2016, que foi recordista em ocorrências de conflitos no Brasil nos últimos 32 anos. Foram 1.079 ocorrências desse tipo de conflito, quase três por dia, o maior número desde 1985, quando a CPT começou a publicar sistematicamente este registro. Camponeses assassinados já são 37 nestes cinco meses de 2017, 08 a mais que em igual período no ano passado, quando houve o registro de 29 assassinatos. Qual será o próximo caso? Outro massacre?

É evidente que esta exacerbação dos conflitos agrários em número e violência, tem ligação com a crise política e com o avanço das forças do agronegócio sobre os Poderes do Estado brasileiro. Os desmandos autoritários da cúpula da República, com seu jogo de poder servil aos interesses da minoria do Capital, vilipendiam os direitos sociais e relativizam os direitos humanos. O Estado brasileiro tem conseguido ultrapassar os limites do desrespeito à cidadania e aos interesses do povo, numa democracia de fachada, cinismo e desfaçatez, que se alimenta de desmandos criminosos impunes. A desobediência ou manipulação da legalidade é senha para os excessos, para o descaramento na repressão aos pobres, é licença para matar e tripudiar sobre eles. Uma violência extrema que, neste clima reinante, torna-se funcional, pedagógica. Nega-se aos camponeses, sem-terra, pescadores, quilombolas, indígenas, o mínimo de dignidade e qualquer traço de igualdade, de pertença à humanidade. Para o lavrador, como canta Chico Buarque, “é a terra que querias ver dividida”.

O fascismo, que fermentava nos subterrâneos das relações públicas no Brasil, veio à tona. É o que se comprova em falas e atos, como a manifestação de ruralistas e parlamentares, no dia 29 de maio, em Redenção, no sul do Pará, em solidariedade aos policiais que praticaram o massacre, proclamados heróis da causa ruralista.

Felizmente a maioria das pessoas em nosso país está se dando conta de que o Agro é homicídio, como o comprovam os crescentes números de assassinatos registrados. É massacre, é suicídio, provocado, sobretudo, pelo uso irracional de agrotóxicos. É ecocídio, pois é responsável pela crescente e veloz destruição do meio ambiente. É hidrocídio, pois é responsável pelo secamento de milhares de fontes de água.

Diante das evidências do massacre perpetrado, reconhecido pelo Conselho Nacional dos Direitos Humanos, pela investigação do Ministério Público, e por órgãos da imprensa que se deslocaram ao local do conflito, o Estado decidiu afastar de suas funções os policiais envolvidos. Mas o que a sociedade espera é que sejam presos e processados por crime contra a humanidade, tanto pela morte das pessoas quanto pelo tratamento dispensado aos corpos das vítimas.

Conhecendo de longa data como o Pará tem tratado casos semelhantes exigimos que o caso seja federalizado, para que se possa fazer justiça.

Contamos com todos que se compadecem com os que, na cidade e no campo, são os que mais sofrem com o descalabro desta situação. Juntos exijamos e cobremos que aconteçam o direito, a justiça e a dignidade em defesa da Vida e do Bem Viver de todos. Deus nos proteja e ajude!

Brasília, 31 de maio de 2017.

Comissão Pastoral da Terra – CPT

Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP

Serviço Pastoral do Migrante – SPM

Cáritas Brasileira

Conselho Indigenista Missionário – CIMI

“Jornalismo: repórter de jornal é a pior profissão do momento”

Jornalismo

[Ser repórter de jornal é a pior profissão de 2017. É isso que revela o estudo da consultoria CareerCast, levantamento anual que promove o ranking de acordo com informações de salário, expectativa de crescimento no emprego, competitividade, grau de estresse e riscos à segurança pessoal. Além de ficar no topo, a segunda posição de pior profissão também é da comunicação, ocupada pelos profissionais de rádio e TV.

O estudo americano afirma que as duas profissões ocupam lugar central na cultura de maneira que não se via há anos, porém o prazo apertado de trabalho e a diminuição das perspectivas de emprego têm colaborado significantemente para transformar as áreas nas piores profissões do momento. A expectativa de crescimento para repórteres é negativa, de -8%. Para os profissionais de rádio de TV é ainda pior: -9%.

Depois de repórter de jornal e profissional de rádio e TV, as piores profissões são: lenhador (3° lugar), militares (4°), trabalhadores do controle de pragas urbano (5°), DJs (6°), vendedores de anúncios (7°) e bombeiros (8°).

O estudo da CareerCast quantifica as facetas de 200 postos de trabalho e, em grande medida, os dados utilizados para avaliar as carreiras são fornecidos pelo Bureau of Labor Statistics (BLS), que faz parte do Departamento de Trabalho dos EUA. Para acessar o estudo completo clique aqui.]

Leia texto original no Portal Comunique-se.

“Um encontro em Varanasi”

Vendanta
Prakashananda e seus discípulos juntam-se ao canto e à dança do Senhor Chaitanya e Seus associados.

[A cidade de Varanasi se encontra a 650 quilômetros a noroeste de Calcutá, na margem setentrional do rio Ganges. Grandes escadarias de pedra conduzindo para dentro do rio, conhecidas como balneários, ou ghatas, estendem-se por seis quilômetros ao longo da costa do rio sagrado. Multidões de peregrinos descem para se banhar na água santa ou sobem a fim de explorar ruas estreitas e sinuosas e visitar os mais de 1500 templos da cidade. Embora haja registros históricos de peregrinações a Varanasi datando do século VII; para os fiéis, este mais sagrado dos destinos existe como uma alvoroçada cidade sagrada há muito mais tempo. Muitos dos templos de Varanasi foram destruídos no século XVII durante o reino do imperador Aurangzeb, apesar do que, mesmo hoje, a visão ao longo do Ganges em Ramnagar sugere esplendor atemporal.

O erudito preeminente em Varanasi no começo do século XVI foi Prakashananda Sarasvati, um sacerdote renunciado, ou sannyasi, na linha de Sripada Shankaracharya. Prakashananda e seus colegas eram mestres dos Vedas, a literatura sânscrita que inclui extensos escritos sobre todo aspecto básico do conhecimento. Há textos védicos sobre lei, arte, medicina, matemática e outras ciências seculares, bem como sobre yoga, religião, filosofia e misticismo. Veda significa “conhecimento”, e, em um sentido mais amplo, todo conhecimento é parte dos Vedas.

Prakashananda Sarasvati era particularmente adepto da análise dos códigos do altamente filosófico Vedanta-sutra. Os textos védicos, divididos por Srila Vyasadeva, uma encarnação literata de Deus, culminam no Vedanta-sutra, no qual Vyasadeva discorre sobre a natureza eterna, a origem e o propósito da existência. Anta significa “fim”, logo o Vedanta-sutra estabelece que todos os campos de conhecimento destinam-se a alcançar o fim, ou meta, do conhecimento referente ao significado da vida.

Durante uma palestra no Instituto Massachusetts de Tecnologia em 1968, Srila Prabhupada desafiou sua audiência a explicar por que, com todos os campos de conhecimento em sua universidade, eles não tinham um departamento para estudar a diferença entre um corpo vivo e um corpo morto. Estudamos medicina para manter nossos corpos saudáveis, política e sociologia para mantê-los organizados, psicologia para gerir nossas mentes. Todos os departamentos beneficiam o corpo e a mente vivos, mas o que é essa vida, essa energia viva, que tão zelosamente servimos? O que é esse conhecimento? Ou, em outras palavras, onde está o vedanta? Carecendo de um departamento vedantista, os outros departamentos ficam incompletos.

Não havia semelhante carência em Varanasi. Como um inigualável comentador sobre o Vedanta-sutra, Prakashananda Sarasvati era o reitor dos estudiosos de Varanasi, que, como professores dos Vedas, não eram meros dogmatistas exclamando crenças, mas eram, ao contrário, genuínos pesquisadores, escritores e instrutores atraídos pela verdade essencial. A cidade de Varanasi há muito era um grande centro de educação e cultura. Com estudantes vindos de toda a Índia de modo a obter uma educação abrangente na sabedoria védica, Varanasi era um local muito propício para a iluminação. Prakashananda e seus associados presidiam ali, desfrutando de suas pesquisas intelectuais, de seus seguidores e de sua posição de líderes de uma Meca acadêmica e cultural.

A única perturbação à pacífica atmosfera acadêmica – uma perturbação que também assola atualmente as cidades universitárias modernas e outros centros de educação – era um grupo de Hare Krishnas barulhentos e empolgados cantando e dançando pelas ruas. Sem qualquer aparente respeito sequer por um mínimo de decoro acadêmico, esses aparentes fanáticos, tocando tambores e címbalos de mão, estavam atraindo seguidores, Prakashananda notou, entre alguns dos estudantes mais simples e entre os citadinos. O líder deles, de apenas vinte e oito anos de idade, Sri Krishna Chaitanya, que vivia na Bengala, possuía uma compleição dourada e uma voz atroadora. Como Prakashananda e seus colegas, Ele era um sannyasi na linha discipular de Sripada Shankaracharya. Todavia, Shankaracharya havia ensinado seus seguidores a rejeitarem prazeres mundanos, como cantar e dançar, e, no lugar de tais ocupações, sempre se ocuparem em estudar o Vedanta-sutra. Então, quem esse Krishna Chaitanya pensava que era, e o que Ele pensava que estava fazendo?

Prakashananda passou a criticá-lo abertamente: “Krishna Chaitanya, embora um sannyasi, não tem interesse em estudar o Vedanta, senão que sempre Se ocupa em cantar e dançar congregacionalmente. Ele é iletrado e, devido a isso, desconhece Sua verdadeira função. Guiado apenas por Seus sentimentos, Ele vagueia a esmo na companhia de outros sentimentalistas.” (Sri Chaitanya-charitamrita, Adi-lila 7.41-42)

Deve ter-se perturbado ainda mais Prakashananda quando soube que Krishna Chaitanya estava longe de ser iletrado. Antes de aceitar a ordem de sannyasa com a idade de vinte e quatro anos, Ele foi conhecido como Nimai Pandita e dirigiu Sua própria academia de estudos sânscritos em Navadvipa, a qual era muito popular, e que se localizava onde hoje é a Bengala Ocidental. Navadvipa era um centro de aprendizagem ainda mais importante do que Varanasi. Naquela época na Índia, como em tempos pretéritos, a erudição tinha o poder atrativo dos eventos esportivos da atualidade, com panditas entendidos desafiando um ao outro em exibições de erudição. Quando ainda um jovem estudante, Nimai Pandita derrotou muitos eruditos campeões, inclusive Keshava Kashmiri, um brahmana da Caxemira que havia ganhado títulos por toda a Índia. Quando Keshava Kashmiri chegou a Navadvipa, procurando por um pouco de ação, os eruditos locais se esconderam com medo, deixando o desafio para Nimai.

Protesto não violento

Após muitos anos exibindo Sua proeza intelectual, Nimai Pandita centrou Suas energias na promoção do sankirtana, o cantar e o dançar congregacional e público em glorificação a Deus. Em Navadvipa, o sonoro cantar dos nomes de Krishna havia levado os muçulmanos locais a se queixarem com o magistrado, ou qazi, de Navadvipa. O qazi abordou um grupo de cantores certa noite, quebrou um tambor de sankirtana e proibiu futuros cantos nas ruas da cidade. Em resposta, Nimai Pandita organizou um protesto não violento rodeando a residência do qazi com milhares de cantores e dançarinos. O qazi se intimidou com a multidão, mas o comportamento de Nimai foi pacífico. Em um diálogo amigável, Ele convenceu o qazi em relação à importância do cantar dos nomes do Senhor.

Nimai convence o qazi em relação à importância do cantar dos nomes do Senhor

Assim como Prakashananda Sarasvati, Nimai Pandita era altamente versado no Vedanta-sutra, mas não com o fim de conhecimento. Ele conhecia bem as muitas declarações nos Vedas declarando que, em Kali-yuga, esta era de desavenças e hipocrisia, o meio para a autor realização (a meta do Vedanta) é cantar os nomes de Deus. Um verso no Brihan-naradiya Purana enfatiza este ponto valendo-se de repetição: “Cantem os santos nomes, cantem os santos nomes, cantem os santos nomes. Nesta era de desavenças, não há outra maneira, não há outra maneira, não há outra maneira para se alcançar a meta da vida humana.”

Embora Nimai cantasse particularmente o mantra Hare Krishna, Ele ensinou que este “não há outra maneira” aplica-se a todo lugar e tempo, e a qualquer nome reconhecido do Senhor. Um verso no Srimad-Bhagavatam, o comentário do próprio Srila Vyasadeva ao seu Vedanta-sutra, declara que, em eras pretéritas, meditação, rituais religiosos ou adoração no templo talvez tenham sido suficientes, mas que, nesta era, esses métodos são efetivos apenas em conjunto com o canto regular. E, novamente no Bhagavatam, Vyasadeva escreve que Kali-yuga é um oceano de defeitos com uma única qualidade: “Simplesmente por cantarmos as glórias do Senhor, podemos nos livrar das misérias materiais e lograr a perfeição mais elevada da vida espiritual.”

O Kali-santarana Upanishad é ainda mais específico, citando todo o mantra Hare Krishna – Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare – e, então, afirmando: “Estas dezesseis palavras destroem os defeitos da era de Kali. Após buscar por todos os Vedas, você não encontrará um meio de autor realização melhor para esta era.”

Com estes e outros versos em Seus lábios e com a assistência de Seus muitos associados, Nimai propagou Seu movimento de sankirtana ao longo de Navadvipa e até a Bengala Oriental. Ele Se casou jovem, mas, como chefe de família, viajava frequentemente, deixando Sua jovem esposa e mãe idosa em casa. Ele absorveu-Se tão imensamente em sankirtana que introduziu um sistema de gramática sânscrita baseado nos nomes de Krishna. Toda palavra oriunda de Sua boca era ou o cantar ou glorificação ao cantar.

Foi em uma peregrinação a Gaya que Nimai tornou-Se discípulo de Isvara Puri, um grande devoto de Krishna na linha de Srila Vyasadeva, e, quando Nimai retornou a Navadvipa, Seu entusiasmo pelos santos nomes havia crescido extaticamente. Parece que Nimai tinha uma familiaridade jovial para com o barulho e a vigília, tanto que, em outra ocasião, foram os hindus que se queixaram com o qazi:

“Nimai Pandita, antigamente, era um excelente garoto, mas, desde que retornou de Gaya, Ele Se comporta de maneira diferente. Agora, Ele canta alto toda sorte de canções de Krishna, batendo palma, tocando tambores e sinos e fazendo barulhos ensurdecedores. Não sabemos o que Ele come que O deixa tão ensandecido. Ele enlouquece praticamente todos com Seu contínuo canto congregacional. À noite, nada conseguimos dormir; somos sempre mantidos acordados.” (Sri Chaitanya-charitamrita, Adi-lila 17.206-9)

Mesmo os alunos de Nimai Pandita começaram a criticar o que consideravam uma absorção excessiva de Sua parte nos santos nomes. Embora não tivesse sido pessoalmente perturbado pela crítica, Nimai levava a sério Seu movimento de sankirtana. Ele ambiciosamente desejava propagar o sankirtana a toda cidade e vila do mundo, dando a todos, quer educados, quer incultos, acesso ao Vedanta e à perfeição da vida mediante o cantar dos santos nomes. Porém, se mesmo Seus próprios alunos não O levassem a sério, como poderia expandir Sua missão?

Nimai aceita a ordem de Sannyasa

Assim, no ano de 1510, com a idade de vinte e quatro anos, deixando Sua casa de bom grado, Nimai viajou para a vila de Katwa e aceitou a ordem de sannyasa de Keshava Bharati, um sannyasi da escola shankarite. Ainda é costume na Índia se oferecer respeito a um sannyasi, e isso estava ainda mais em voga quinhentos anos atrás. Nimai queria esse respeito e atenção públicos para o benefício do movimento de sankirtana, que era, por sua vez, para o supremo benefício do público. Conquanto Nimai tivesse aversão à filosofia quase budista de Shankaracharya, a influência de Shankaracharya era tão forte que as pessoas pensavam que todos só podiam aceitar sannyasa na sucessão discipular shankarite. Deste modo, pela causa de Sua missão, Nimai aceitou sannyasa de Keshava Bharati, recebendo o nome Sri Krishna Chaitanya.

Prakashananda Sarasvati, aproximando-se das pessoas na cidade, deve ter levantado alguns destes detalhes sobre o sannyasi alto e dourado agora a dançar e cantar pelas estreitas ruas de Varanasi. Como o principal dos eruditos de Varanasi, ele deve, a partir de então, ter evitado criticar Krishna Chaitanya.

A Identidade de Sri Krishna Chaitanya

A resposta completa a “Quem é Krishna Chaitanya, e o que Ele está fazendo aqui neste centro de pacífica erudição?” encontrava-se bem debaixo do nariz de Prakashananda, precisamente em sua muitíssimo estimada literatura védica. No Mahabharata, o Vishnu-sahasra-nama-stotra, ou “Os Mil Nomes de Vishnu”, descreve o Senhor Supremo aparecendo como um chefe de família em uma compleição dourada e com uma atitude de devoção pacífica e, posteriormente, aceitando a ordem de sannyasa. O Bhagavatam confirma que o Senhor aparece em diferentes eras com diferentes cores: branco, vermelho, negro e amarelo. Uma vez que se atribuem as encarnações branca, vermelha e negra a eras anteriores, a encarnação para a era de Kali é amarela, ou dourada. O Bhagavatam também declara que, em Kali-yuga, o avatara de Deus inaugura o movimento de sankirtana, sempre canta o nome de Krishna e é, na verdade, o próprio Krishna com uma compleição dourada.

krishna-varnam tvisakrishnam
sangopangastra-parsadam
yajnaih sankirtana-prayair
yajanti hi su-medhasah

“Na era de Kali, pessoas inteligentes realizam o canto congregacional a fim de adorarem a encarnação do Supremo que constantemente canta o nome de Krishna. Embora Sua compleição não seja enegrecida, Ele é o próprio Krishna. Ele está acompanhado por Seus associados, servos e companheiros confidenciais”.

O Senhor Sri Krishna Chaitanya é conhecido como channa avatara, ou “encarnação oculta”, porque Ele jamais Se apresentou como Deus ou permitiu que alguém O chamasse de Deus. Ele sempre agiu como servo de Deus ou como servo dos devotos do Senhor. Esta era é tão repleta de pretensos avataras, ou adventos do Senhor, tão sobrecarregada de filosofias declarando que, no fim, todos somos Deus, que o próprio Deus demonstra e desfruta o serviço devocional a Si através do cantar de Seus nomes. Assim como uma professora do primário, de modo a ensinar seus alunos como aprenderem, às vezes finge estar aprendendo o abecedário; da mesma maneira, na forma de Sri Krishna Chaitanya, o Senhor assume o papel de Seu próprio devoto e demonstra a arte do serviço devocional a Ele mesmo.

Ouvindo as críticas de Prakashananda, o Senhor Chaitanya demonstrou como os membros do movimento de sankirtana não devem se interessar por seu prestígio pessoal. A fim de ampliar o sankirtana, o Senhor havia planejado uma viagem até a cidade sagrada de Vrindavana, logo ao sul da atual Delhi, e não viu sentido algum em alterar Seu itinerário para defender Sua reputação duelando com a elite de Varanasi. Torneios intelectuais eram algo de Seu passado, de Seus irrefletidos dias escolares. Não havia necessidade de interromper Sua pregação para a feitura de um debate. Melhor seria distribuir o cantar dos santos nomes; havia, afinal, muitíssimos ouvidos receptivos e muitos seguidores que necessitavam de Sua atenção e de instruções pessoais.

Os seguidores do Senhor Chaitanya em Varanasi, contudo, estavam entristecidos com os comentários de Prakashananda. Partia-lhes o coração ouvirem seu amado Senhor ser rotulado como um tolo ignorante. Ao mesmo tempo, eles não se sentiam confiantes o bastante para, eles mesmos, confrontarem Prakashananda. O que eram eles em comparação àquele célebre coordenador das muitas faculdades e departamentos acadêmicos de Varanasi? Como eles poderiam advogar em favor da divindade de Sri Krishna Chaitanya e da dimensão transcendental do sankirtana a um crítico que podia, muito destramente, citar as escrituras védicas, brandindo seu conhecimento e suas credenciais?

Quando o Senhor Chaitanya retornou a Varanasi vindo de Vrindavana, Ele permaneceu na casa de Chandrashekhara, fez Suas refeições na casa de Tapana Misra e passou dois meses instruindo Sanatana Gosvami, o antigo primeiro ministro do soberano da Bengala, o nababo Hussein Shah, acerca da ciência do serviço devocional.

Enquanto o Senhor Chaitanya, deste modo, permanecia pacificamente absorto na construção de Seu movimento de sankirtana, Seus dois anfitriões se entristeciam cada vez mais, até que, um dia, tanto Chandrashekhara quanto Tapana Misra apelaram a Ele: “Por quanto tempo podemos tolerar a blasfêmia de Seus críticos contra a Sua conduta? Ao invés de ouvir tanta blasfêmia, deveríamos abandonar nossas vidas. Todos os sannyasis locais O estão criticando. Somos incapazes de tolerar a audição de tais críticas, pois semelhantes blasfêmias partem nosso coração.”

Ouvindo este apelo, o Senhor Chaitanya permaneceu indiferente à crítica voltada para Si, mas sentiu compaixão de Seus anfitriões e outros seguidores, compreendendo a angústia deles. Nesse momento, um brahmana chegou até o Senhor com outro apelo; desta vez, um convite.

“Meu querido Senhor”, o brahmana disse, “convidei todos os sannyasis de Varanasi para almoçarem em minha casa. Meus desejos seriam satisfeitos caso Você também aceitasse o meu convite. Meu caro Senhor, sei que Você nunca Se mistura com outros sannyasis, mas, por favor, seja misericordioso comigo e aceite o meu convite.”

Era um costume muito antigo dos brahmanas de Varanasi se revezarem em convidar os sannyasis locais às suas casas. Desta maneira, havia um encontro diário de sannyasis, um restaurante universitário ambulante. O Senhor Chaitanya nunca esteve presente, recusando todos os convites, até este, o qual Ele bondosamente aceitou de sorte a agradar Chandrashekhara, Tapana Misra e o brahmana. Ali estava uma oportunidade perfeita, possibilitada por Seu próprio arranjo onipotente, para encontrar-Se com Prakashananda Sarasvati em um contexto congenial como convidados comuns na casa de um brahmana.

Tapana Misra e Chandrashekhara ficaram jubilosos. Eles não sabiam como responder, eles mesmos, a Prakashananda. Embora ainda não tivessem confiança em seu próprio aprendizado ou habilidades para debate, eles tinham firme fé de que seu mestre espiritual, o Senhor Sri Krishna Chaitanya, era a Suprema Personalidade de Deus. Ele era o próprio Krishna, o autor e a autoridade última no Vedanta-sutra, agindo como Seu próprio devoto. Na Bhagavad-gita (15.15), Krishna declara: “Estou sentado no coração de todos, e de Mim vêm a lembrança, o conhecimento e o esquecimento. Através de todos os Vedas, Eu sou aquele a ser conhecido. Na verdade, sou o compilador do Vedanta, e sou o conhecedor dos Vedas.”

Como servos fiéis do Senhor Chaitanya, Chandrashekhara e Tapana Misra aspiravam tornar-se exímios pregadores de Sua missão, quando pudessem ensinar que o Vedanta, a meta do conhecimento, é o serviço devocional a Krishna, a pessoa suprema, mediante o cantar de Seus nomes. Por ora, entretanto, o que sabiam, e lhes regozijava e confortava, era que o Senhor Chaitanya, seu professor, havia concordado em Se encontrar com Prakashananda Sarasvati, o cabeça da elite intelectual de Varanasi, para um almoço.

No dia seguinte à aceitação do convite do brahmana para almoçar com Prakashananda Sarasvati, o Senhor Chaitanya tomou Seu banho do meio-dia no balneário Panchanada, como usual, cantou silenciosamente o mantra Gayatri e partiu a pé para a casa do brahmana, vestido, como costumeiro a um sannyasi, em trajes açafroados. Sua cabeça era impecavelmente raspada, Ele havia marcado Sua fronte com tilaka (barro) e, enquanto caminhava, cantava o maha-mantra Hare Krishna: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. “Ó Senhor Krishna, ó energia do Senhor. Por favor, ocupai-me a Vosso serviço devocional amoroso.”

O Senhor Chaitanya queria distribuir abertamente o mais elevado conhecimento do serviço devocional a Krishna, conhecimento este disponível mediante o cantar dos santos nomes de Krishna. Visitando Varanasi, Ele escolheu uma cidade que tivera historicamente um papel chave no gradual desvelar do Vedanta, a perfeição do conhecimento. Dois mil anos antes, o Senhor Buddha havia dado Seu primeiro sermão a apenas 9 quilômetros dali, em Saranatha, onde ainda há muitas estupas budistas e onde muitos seguidores da filosofia budista vivem. E Sripada Shankaracharya, a encarnação do Senhor Shiva que derrubou o budismo de sua posição dominante na Índia, foi para Varanasi no ano de 695 d.C., pouco tempo após aceitar sannyasa com a idade de oito anos. Após quatro anos em Badarikasrama, nos Himalaias, onde escreveu seu famoso comentário ao Vedanta-sutra, Shankaracharya retornou a Varanasi, que permanece um baluarte para seus seguidores e para a adoração ao Senhor Shiva.

A partir da perspectiva transcendental do Senhor Sri Krishna Chaitanya Mahaprabhu e de Seus associados, os ensinamentos do Senhor Buddha e aqueles de Shankaracharya, embora superficialmente em desacordo, são peças de uma evolução bem planejada de realização espiritual, tão próximos um do outro filosoficamente quanto Saranatha e Varanasi no mapa. O Senhor Buddha é uma encarnação do Senhor Supremo, e os ensinamentos do Senhor Shiva como Shankaracharya foram ensinados por ordem direta do Senhor Supremo. Há, portanto, um propósito unificado em suas missões.

De sorte a deter beligerantes usos equivocados das escrituras por parte de fanáticos, o Senhor Buddha, como uma medida emergencial, rejeitou os Vedas e negou a existência de Deus e da alma eterna. Ele sustentou que a vida e a consciência são produtos da matéria. Enfatizando o sofrimento e a impermanência da vida material, Buddha propôs apenas um vazio após a morte e infundiu a Seus seguidores tolerância, desapego, simplicidade e não violência. Por meio do uso tático do ateísmo, Ele trocou o fanatismo pela mobilização do comportamento inteligente e civilizado.

A estratégia de Shankaracharya

Construindo sobre o fundamento do Senhor Buddha de desapego inteligente, Shankaracharya trouxe de volta os Vedas e, com eles, o conhecimento de Deus como a alma suprema. Todavia, dado que Shankaracharya estava confrontando uma longa tradição de ateísmo budista, ele não revelou completamente a conclusão védica de que a Verdade Absoluta é a Pessoa Suprema, o Senhor Krishna, e de que somos todos partes individuais eternas de Krishna e servos igualmente eternos dele. Criando significados indiretos para os textos védicos, Shankaracharya, diferentemente, declarou, para a elevação de suas audiências budistas materialistas, que a consciência e todos os sintomas viventes se originam, não na matéria, mas no Brahman, a alma suprema, eterna e onipenetrante.

O Brahman é bem-aventurado, onisciente e impessoal, mas adquire, quando em contato com maya, a ilusória energia material, uma existência temporária caracterizada por sofrimento, ignorância e individualidade. A vida e a consciência animando nossos corpos temporários são eternas, Shankaracharya ensinou, mas tanto nossa individualidade quanto nossos conceitos de Deus como o indivíduo supremo são produtos ilusórios do contato do Brahman com a matéria. Quando nos livramos da matéria, perdemos nossa miserável individualidade e nos tornamos unos com o bem-aventurado Supremo, assim como o ar em um pote vazio se torna uno com o céu quando o pote é quebrado. Em outras palavras, somos todos Brahman, ou Deus, a Alma Suprema. Apenas nos esquecemos disso.

A oferta de Shankaracharya de unidade impessoal é uma revelação parcial do Vedanta que desperta os niilistas para a consciência eterna sem inquietar a postura ateísta deles. Pensar em si mesmo como Deus é algo pelo menos tão ateísta quanto negar que Ele existe. Os seguidores de Shankaracharya, no entanto, tiveram de pagar um preço filosoficamente alto para aceitarem esta culminância impessoal. Ao mesmo tempo em que têm que dizer que todos somos o Supremo, talvez deixem implicado que o Supremo, uma vez que pode ser conquistado pela ilusão, não é Supremo. Advogando que o Supremo é sobrepujado pela ilusão ou pelo esquecimento, eles inadvertidamente propagam que essa ilusão, ou maya, é suprema.

O Senhor Sri Krishna Chaitanya Mahaprabhu e Seus associados, portanto, referem-se aos desnorteados seguidores de Shankaracharya e a todos os filósofos do tipo “você é Deus” usando o termo depreciativo mayavadi, ou “aquele que aceita a ilusão como a verdade mais elevada”. Os budistas também são mayavadis, porquanto acreditam que maya, a natureza material temporária, gera a consciência individual e os sintomas viventes. Embora os budistas não aceitem a alma eterna, eles concordam essencialmente com os shankarites que a matéria é superior à força viva.

O Senhor Sri Krishna Chaitanya Mahaprabhu queria esclarecer o mundo acerca dos  equívocos filosóficos dos dois tipos de mayavadis, representados pelos budistas de Saranatha e os impersonalistas shankarites de Varanasi. Como parte dessa missão, Ele estava a caminho de um almoço com Prakashananda Sarasvati, o atual líder dos mayavadis de Varanasi. Pela vontade do Senhor Krishna, elementos do Vedanta foram disponibilizados por meio dos ensinamentos do Senhor Buddha e de Sripada Shankaracharya. Por muito tempo, entretanto, o Senhor Krishna não outorgou aos habitantes do mundo o significado completo do Vedanta. O Senhor Chaitanya é o próprio Krishna aparecendo no papel de Seu próprio devoto, e, embora não possamos saber Seus exatos pensamentos ou planos enquanto rumava pelas antigas ruas de Varanasi, temos, sim, um registro amplo de Seu pensamento. Srila Krishnadasa Kaviraja Gosvami, um dos principais biógrafos do Senhor Chaitanya, explica:

O Senhor Krishna desfruta Seus passatempos transcendentais [na Terra] enquanto Ele assim deseja e, então, parte. Após Sua partida, entretanto, Ele pensa deste modo: “Há muito tempo não concedo o serviço devocional imotivado a Mim aos habitantes do mundo. Sem semelhante apego amoroso, a existência do mundo material é inútil. Eu inaugurarei pessoalmente a religião da era – nama-sankirtana, o canto congregacional do santo nome. Aceitarei o papel de um devoto e ensinarei o serviço devocional praticando-o Eu mesmo. Na companhia dos Meus devotos, aparecerei na Terra e realizarei vários passatempos variados e divertidos.” Pensando assim, a Personalidade de Deus, o próprio Sri Krishna, fez Seu advento em Navadvipa no princípio da era de Kali. (Sri Chaitanya-charitamrita, Adi-lila 3.13-30)

O senhor atrai os Sannyasis

O Senhor Chaitanya possuía um corpo grande e bem estruturado, uma compleição similar ao ouro derretido, e um rosto tão belo quanto a lua. Chegando à casa do brahmana e vendo que todos os sannyasis de Varanasi haviam se reunido ali, Ele humildemente Se curvou diante deles e, como era habitual, foi lavar Seus pés antes de entrar na assembleia. Então, ao invés de Se juntar aos demais sannyasis, que haviam aceitado assento de acordo com seu título e nível social, o Senhor sentou-Se no chão próximo da área onde se lavam os pés, com Seu corpo transcendental brilhando com o esplendor de milhões de sóis.

Chaitanya Mahaprabhu, sentado no local de lavagem dos pé.

Desconcertados ante a humildade do Senhor e atraídos pela brilhante luminosidade de Seu corpo, toda a assembleia colocou-se de pé a fim de recebê-lo. Prakashananda Sarasvati adiantou-se e, confundindo a humildade do Senhor com uma disposição lamuriosa, dirigiu-Lhe a palavra com simpatia e preocupação.

“Por favor, venha aqui, Santidade”, Prakashananda disse. “Por que Você Se senta nesse lugar sujo? Qual o motivo da Sua lamentação?”

“Oh! Pertenço a uma ordem inferior de sannyasis”, o Senhor Chaitanya respondeu. “Por conseguinte, não sou qualificado para Me sentar com vocês. Permitam que Eu Me sente aqui.”

Na linha de Sripada Shankaracharya, dez títulos são dados aos sannyasis, com Sarasvati, Tirtha e Asrama sendo os mais cobiçados. Chaitanya é um título inferior, um título de brahmachari, um nome concedido a um estudante ou servo de um sannyasi Bharati. Quando Nimai Pandita aproximou-Se pela primeira vez de Keshava Bharati em Katwa, Ele recebeu o nome Sri Krishna Chaitanya Brahmachari. Após aceitar a ordem de sannyasa de Kesava Bharati, teria sido o curso tradicional Sri Krishna Chaitanya aceitar para Si o título Bharati. Ao invés disso, o Senhor manteve o nome Chaitanya de modo a mostrar que somos eternamente servos de nossos mestres espirituais e de Deus. Os mayavadis acreditam que, ao receberem um título de sannyasa, eles se tornam Deus, a autoridade suprema, em virtude do que não necessitam servir ninguém. Enquanto falava respeitosamente a Prakashananda e outros mayavadis, o Senhor Chaitanya estava ensinando, através do exemplo, que, se títulos ou classes sociais geram tamanha arrogância, é melhor manter sua designação inferior.

Surpreso por ver Sri Chaitanya Mahaprabhu relutante em juntar-Se aos outros sannyasis, Prakashananda Sarasvati O pegou pela mão e O sentou com grande respeito no centro da assembleia.

“Bem, senhor, acredito que Seu nome é Sri Krishna Chaitanya”, Prakashananda disse, “e entendo que Você pertence à nossa seita. Você está vivendo aqui em Varanasi. Por que Você não Se mistura conosco? Você é um sannyasi. Você deveria, em razão disso, ocupar Seu tempo simplesmente no estudo do Vedanta. Vemos, contudo, que Você está sempre cantando, dançando e tocando instrumentos musicais. Por quê? Estas coisas são para pessoas emotivas e sentimentais. A partir de Sua refulgência, parece-nos que Você é tal qual Narayana, a Pessoa Suprema, mas o Seu comportamento de classe baixa diz algo diferente.”

Colocando seu pé em sua boca de uma maneira socialmente distinta e elegante no âmbito educacional, Prakashananda Sarasvati desafiou o Senhor Chaitanya, o autor do Vedanta, a explicar Sua negligência para com os estudos. Para não falar de negligência, é da posição do Senhor determinar quem é um candidato qualificado para o estudo da filosofia vedanta. De sorte a informar Prakashananda das qualificações que precisaria, o Senhor Sri Krishna Chaitanya Mahaprabhu, o coordenador do departamento de ingresso ao estudo do vedanta, respondeu:

“Meu querido senhor, permita-Me lhe informar que Meu mestre espiritual considerou-Me um grande tolo e Me disse que Eu não tinha qualificação alguma para o estudo do Vedanta. Ele bondosamente Me deu o cantar de Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. Meu mestre espiritual Me disse: ‘Prossiga cantando este mantra de Krishna e ele O tornará perfeito na compreensão vedanta’.”

O Senhor já havia demonstrado por três vezes a importância da humildade: oferecendo reverência a toda a assembleia de sannyasis, aceitando um assento próximo à área de lavagem dos pés e mantendo o nome Chaitanya. Em Seus versos conhecidos como Siksastaka, o Senhor Chaitanya escreve que o indivíduo deve sentir-se inferior à palha na rua, ser mais tolerante do que uma árvore, destituído de todo sentimento de falso prestígio, e estar pronto a oferecer todo respeito aos outros. Apenas em semelhante estado mental humilde, o Senhor Chaitanya ensinou, alguém pode saborear constantemente a filosofia vedanta ou os santos nomes de Deus. Agora, o Senhor, o mestre espiritual de todos, estava mostrando a Prakashananda, por Seu próprio exemplo, que o teste de genuína humildade é se alguém pode submeter-se como um tolo ignorante perante um mestre espiritual qualificado. Este é o critério de aprovação no vestibular do Senhor para o estudo do Vedanta.

A importância da sucessão discipular

Mestres espirituais qualificados são aqueles que pessoalmente ouviram de maneira submissa um instrutor genuíno em uma sucessão discipular originada pelo próprio Senhor e que cuidadosamente seguiram as ordens de seu mestre espiritual. Sem receber o conhecimento por meio da sucessão discipular, a pessoa jamais poderá compreender inteiramente nem seu próprio eu eterno nem Deus, o eu supremo, haja vista que ambos estão além da jurisdição limitada e defeituosa de nossos atuais sentidos, mente e intelecto. Pesquisas conduzidas com nossas faculdades materiais defeituosas distorcem até mesmo nossa compreensão de assuntos materiais, de forma que o nosso “conhecimento”, repleto de defeitos, sempre necessita revisão. Esta natureza inconstante do conhecimento material provoca nos pesquisadores ordinários um estado de frustração que torna a concepção de um vazio derradeiro, budista ou de outra espécie, muito atrativa.

O Senhor Krishna, destarte, provê, na forma dos Vedas, uma biblioteca de escritos conclusivos acerca de todos os ramos do conhecimento, tanto materiais quanto espirituais, e confia cada ramo a sábios instruídos que devem perpetuá-lo através das gerações em uma sucessão discipular. De acordo com os historiadores védicos, todo conhecimento, independente de quão embelezado ou distorcido pelos empíricos, tem sua origem nos Vedas. Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Svami Prabhupada escreve: “Qualquer conhecimento que você aceite é veda, pois os ensinamentos dos Vedas é o conhecimento original. Não há ramo de conhecimento, quer mundano, quer transcendental, que não pertença ao texto original dos Vedas. Eles foram simplesmente desenvolvidos em diferentes ramos. Eles, originalmente, eram distribuídos por professores grandiosos, respeitáveis e entendidos. Em outras palavras, o conhecimento védico, secionado em diferentes ramos por sucessões discipulares, foi distribuído por todo o mundo. Ninguém, portanto, pode alegar algum conhecimento independente dos Vedas.”

No restabelecimento da posição primordial do conhecimento védico, Shankaracharya deu aos niilistas de seu tempo acesso à compreensão espiritual preliminar. Todavia, imaginando significados impessoais e indiretos para o Vedanta-sutra a fim de atrair suas audiências niilistas, Shankaracharya ocultou o princípio da sucessão discipular e abriu a porta para o uso de nossas faculdades materiais defeituosas no estudo do Vedanta.

Os mayavadis aceitam os Vedas como a fonte do conhecimento transcendental, mas, ante a ordem de Shankaracharya, orgulhosamente acreditam que podem compreender o Vedanta-sutra mediante seus próprios esforços intelectuais sem recorrerem a personalidades reconhecidamente entendidas na tradição védica. Trata-se de uma atitude perigosa mesmo nas esferas de conhecimento material. Qualquer um, por exemplo, pode ler livros em uma biblioteca médica, mas, sem treino aos cuidados de um cirurgião experiente, você não pode arriscar-se atuar em uma sala de operação sem criar grandes problemas. Os mayavadis criaram enormes problemas no âmbito vedantista, pois poluíram o campo de conhecimento. Contudo, uma mudança estava para acontecer, ao menos entre os mayavadis que agora rodeavam o Senhor Chaitanya. Sentados ao redor dele na casa do brahmana, os mayavadis foram tocados por Suas palavras. Com uma nova disposição interna, eles falaram de modo agradável.

“Caro Sri Chaitanya Mahaprabhu”, eles começaram, “o que Você disse é verdade. Apenas uma personalidade afortunada aufere amor pelo Supremo. Não temos objeção quanto a Você ser um grande devoto do Senhor Krishna. Por que, todavia, Você evita discutir o Vedanta-sutra? Que defeito há nisso?”

Embora os mayavadis houvessem apreciado a descrição do Senhor Chaitanya do krishna sankirtana como superior ao prazer da realização do Brahman impessoal, eles continuavam sob a impressão de que o Vedanta-sutra era sinônimo para o comentário de Shankaracharya ao Vedanta-sutra, conhecido como Shariraka-bhasya. Há, na verdade, muitos comentários definitivos ao Vedanta-sutra escritos por grandes eruditos devocionais. O comentário original é o Srimad-Bhagavatam, escrito pelo próprio Srila Vyasadeva, o autor do Vedanta-sutra. Prevendo o caos criado pelos comentários mayavadis, Vyasadeva compilou Seu próprio comentário. Os mayavadis não reconhecem nenhum dos comentários devocionais, e Shankaracharya apontou defeito até mesmo na própria compilação do Vedanta-sutra por parte de Vyasadeva. Assim, embora o Senhor Chaitanya já estivesse comentando sobre o Vedanta todo o tempo, os sannyasis reunidos solicitaram-Lhe que comentasse especificamente sobre os versos do Vedanta-sutra relacionados ao Shariraka-bhasya.

“Para dizer-Lhe a verdade”, os sannyasis mayavadis continuaram, “estamos imensamente contentes por ouvir Suas palavras e por contemplar Sua beleza extraordinária. Vemos que Você é tal qual Narayana, o próprio Deus. O que quer que Você diga, ficaremos muito felizes de ouvir pacientemente.”

Contradizendo Vyasadeva

Com os mayavadis ávidos por ouvir, o Senhor começou indicando que não era da alçada de Shankaracharya, nem de ninguém, corrigir Srila Vyasadeva.

“A filosofia vedanta”, Ele disse, “consiste nas palavras faladas pela Suprema Personalidade de Deus em Sua encarnação literata, Srila Vyasadeva. Os quatro defeitos materiais não existem nas palavras do Senhor Supremo.”

Os quatro defeitos de uma pessoa comum são: (1) ela comete erros, (2) ela cai em ilusão, (3) ela tem a tendência a enganar e (4) seus sentidos são imperfeitos. Estes defeitos tornam o nosso conhecimento indigno de confiança, e a ausência dos mesmos torna os Vedas uma autoridade. Se não podemos aceitar, ao menos teoricamente, que, como uma encarnação de Deus, Vyasadeva está acima dos quatro defeitos, então não há razão para darmos atenção especial ao Seu Vedanta-sutra ou a qualquer dos livros védicos. Certamente Shankaracharya, cuja própria missão era restabelecer a autoridade védica, enfraqueceu sua posição ao corrigir Vyasadeva. Eram os budistas que ele estava tentando reformar com seu trabalho, os quais acreditavam que os Vedas haviam sido compilados por seres defeituosos. Shankaracharya contradisse Vyasadeva unicamente porque os Vedas são claramente teístas e pessoais, algo que as audiências budistas de Shankaracharya não teriam sido capazes de digerir.

“Shankaracharya desencaminhou o mundo”, o Senhor Chaitanya explicou, “ao comentar que Vyasadeva estava enganado. Desta maneira, ele suscitou grande oposição ao teísmo ao longo de todo o planeta.”

O que, de acordo com Shankaracharya, foi o grande erro de Vyasadeva? O Vedanta-sutra começa definindo Deus, ou a Verdade Absoluta, como a imutável origem de tudo, a causa de todas as causas. Janmady asya yatah. Tudo bem quanto a isso, pensam os mayavadis. O absoluto é a origem da consciência, da vida, do espírito, a origem de tudo o que é eterno e real. Os mayavadis, porém, enjeitam a declaração de Vyasadeva de que a criação material também emana de Deus. A criação material, com todos os seus oceanos, montanhas, criaturas, planetas e partículas atômicas e subatômicas, é infinita, variada e completa. Se tudo isso é a energia de Deus, eles cogitam por meio da razão, então ou Ele Se reduziu imensamente na criação, ou Se transformou na criação. Em ambos os casos, o Absoluto imutável teria mudado, o que o tornaria relativo, algo ilusório, como o próprio mundo material. Vyasadeva, a encarnação literata de Deus, portanto, obviamente Se equivocou, os mayavadis defendem, ao dizer que o universo é composto das energias do Supremo.

De modo a retificar o erro de Deus, os mayavadis dizem que o mundo material é falso. Brahma satyam jagan mithya. Brahman, ou o espírito eterno, é real, enquanto o mundo material temporário é irreal. Trata-se de um sonho destituído de verdade. Ele não existe, em razão do que não necessita ser considerado. Nós ignorantemente confundimos o universo material como real assim como, no escuro, podemos confundir uma corda com uma cobra. Absolutamente tudo aqui é ilusão, os mayavadis acreditam, com a única pequena exceção de suas próprias palavras.

Desconectados da sucessão discipular autorizada, os mayavadis são vítimas de seu raciocínio material defeituoso. Coisas materiais mudam ou dissipam-se à medida que dão energia. Seu tanque de gasolina ou seu saldo bancário se reduz a nada quando você gasta dinheiro ou dirige seu carro. A árvore original desaparece quando serrada em tábuas de madeira e quando transformada em móveis e casas. Contudo, a Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus, Krishna, não é material. As Upanishads descrevem-no como uma pessoa transcendental com energias ilimitadas e inexauríveis. Porque Ele é infinito e completo, Suas criações, como o mundo material fenomênico, também são infinitas e completas.

om purnam adah purnam idam

purnat purnam udacyate

purnasya purnam adaya

purnam evavasisyate

“A Personalidade de Deus é perfeito e completo, e porque Ele é completamente perfeito, todas as emanações dele, como este mundo material fenomênico, são perfeitamente equipadas como todos completos. Tudo o que é produzido do Todo Completo também é completo em si mesmo. Porque Ele é o Todo Completo, muito embora muitíssimas unidades completas emanem dele, Ele permanece o equilíbrio completo.”

A despeito da vastidão de Suas criações, o Senhor Krishna permanece completo e livre de mudança. Assim como um empresário amplia seus limitados bens financeiros e administrativos para dirigir uma corporação, o Supremo expande Suas potências ilimitadas a fim de criar os mundos materiais e espirituais. Isso é o que se quer dizer com a afirmação de que Deus é onipotente. As potências ilimitadas e inconcebíveis do Supremo é o ponto central da filosofia vaishnava, ou personalista, ensinada pelo Senhor Sri Krishna Chaitanya Mahaprabhu.

Como o espírito, o universo material também é real, pois é composto das energias da Verdade Suprema. Este mundo não é falso, como dizem os mayavadis. Embora temporário e em fluxo, o universo é real. Somos indivíduos espirituais eternos, distintos de nossos corpos temporários, e partes da energia espiritual superior de Krishna. Os elementos materiais que compõem nossos corpos e o restante do universo são parte da energia material de Krishna. Nada além destas duas categorias de energia de Krishna, espiritual e material, compõe o universo. Ambas as energias, tanto a corda quanto a cobra, para utilizar o exemplo dos mayavadis, são reais. Confundir uma pela outra, sim, é falso. É falso confundir nosso eu com o nosso corpo, como fazem os materialistas grosseiros, porque o nosso corpo é um veículo temporário para o nosso eu eterno. E é falso pensar em nossa individualidade como produto do contato da alma com o corpo, como fazem os mayavadis, porque somos partes eternas do individual supremo, o Brahman Supremo, Krishna.

A psicologia do Mayavadi

“Através de todos os sutras [aforismo] e livros, o Senhor Krishna deve ser entendido”, o Senhor Chaitanya explicou aos mayavadis ali reunidos. “De sorte a provar sua filosofia, os seguidores de Shankaracharya cobriram o significado real dos Vedas com explicações indiretas baseadas em seus poderes imaginativos.”

Mayavadis ou materialistas tentando imaginar uma vida eterna e bem-aventurada encontram imensa dificuldade no mundo material. Tudo aqui é temporário e repleto de angústia. Sofrimentos provêm de nossos próprios corpos e mente, de forças da natureza e especialmente de outras pessoas, incluindo pessoas amadas. Os indivíduos aqui são repletos de defeitos, e até mesmo os romances perfeitos, como dos livros de contos de fada, têm realisticamente que terminar em velhice, doença e morte. Todas as intermináveis variedades de personalidades e situações produzem pequeninos punhados de prazer sob um pano de fundo de dor. Então, quando voltamos nossa imaginação para a vida espiritual, imaginamos que ela tem de ser uma vida sem pessoas e sem variedade. Encontramos conforto na ideia de perder nossa individualidade e de nos fundirmos no espírito impessoal eterno. Sem personalidade. Sem variedade. Sem sofrimento.

Um paciente há muito sofrendo de uma dolorosa doença física às vezes pede a um médico que coloque fim em sua vida. Ele quer destruir a doença, mas, por desesperança, acredita que matar o corpo é a única solução. Da mesma maneira, porque nossas personalidades materiais machucam-nos, queremos cometer suicídio espiritual colocando fim em nossas personalidades, e os mayavadis, os Dr. Kevorkians da vida espiritual, estão aqui para ajudar com suas interpretações impessoais imaginativas do Vedanta.

O senhor Chaitanya admoestou os vedantistas kevorkianos de Varanasi

“Brahman”, Ele disse, “é a Suprema Personalidade de Deus. Ele é o reservatório da verdade última e o conhecimento absoluto.”

Conquistados pela humildade do senhor

Prakashananda e os outros mayavadis haviam sempre rejeitado vigorosamente semelhante explicação do Vedanta, mas ali estava a Personalidade de Deus sentado bem diante deles e exibindo diretamente Suas potências ilimitadas, em particular Sua humildade, Sua beleza extraordinária, Sua veracidade e Seu conhecimento transcendental. O Senhor Chaitanya explicou cada sutra do Vedanta-sutra em termos de devoção a Krishna, com os antigos mayavadis ouvindo com grande contentamento tudo o que Ele dizia. Antes de almoçarem, eles alegremente se juntaram ao Senhor naquela atividade, antes infame, do cantar de Hare Krishna. Então, fazendo com que o Senhor Se sentasse no centro deles, fizeram juntos sua refeição.

Prakashananda e seus discípulos juntam-se ao canto e à dança do Senhor Chaitanya e Seus associados.

Após este incidente, correu a nova de que Prakashananda Sarasvati e os demais mayavadis de Varanasi haviam aderido ao caminho do Senhor Chaitanya de cantar os santos nomes. Muitos eruditos e pessoas curiosas iam ver o Senhor onde Ele estava. Como não era possível que todos se aglomerassem na casa de Chandrashekhara, eles costumavam enfileirar-se nas ruas enquanto Sri Chaitanya Mahaprabhu diariamente tomava Seu percurso até os templos de Visvanatha e Bindhu Madhava.

Um dia, pouco tempo depois do almoço fatídico, Prakashananda e seus discípulos juntaram-se a uma tumultuosa multidão cantando e dançando com o Senhor Chaitanya no pátio do templo Bindhu Madhava. Notando Prakashananda, o Senhor parou o cantar a fim de saudá-lo afetuosamente, e, ante o pedido de Prakashananda, conversaram mais sobre o Vedanta-sutra. Pouco tempo depois, o Senhor Chaitanya retornou para a Sua sede em Jagannatha Puri, onde permaneceu dali em diante.]

Mathuresha Dasa (Amigos de Krishna)