Viver na Amazônia é uma experiência singular

Envira
Reprodução

Até maio de 1984 conhecia a Amazônia por sua periferia.

Explico: atravessei algumas vezes o hoje Estado de Tocantins; fui ao sul do Pará vez ou outra; nadei e naveguei no Tocantins, no Araguaia e em alguns de seus afluentes, mas nunca havia entrado (adentrado, como gostam de dizer os brasilienses) no interior da floresta, coisa que ocorreu apenas alguns meses após a nossa chegada (a de minha família e minha).

Foi uma experiência singular para um sujeito como eu, que não era da região, e que por lá é conhecido como “paulista”, mesmo não sendo, o que não é o meu caso.

Entrei no interior da floresta em outras ocasiões , mas a “primeira entrada a gente nunca esquece”.

Trilhamos um longo caminho até chegarmos ao destino, um “banho”, um local onde se banha e se diverte, “perdido” no meio da floresta, às margens de um igarapé sem nome, ou pelo menos eu nunca soube que tivesse um.

A Amazônia é uma suntuosidade, mas estamos muito próximo de perdê-la.

Agora se tenta avançar sobre a floresta com o cultivo de cana-de-açúcar, o que deve ser aprovado em breve pelo Senado, e, obviamente, o governo de Michel Temer não mexerá uma palha para deter a insânia.

Quando eu era ainda criança costumava me assustar com duas histórias sobre a Amazônia.

– a Amazônia seria totalmente destruída até no máximo o ano de 2000;

– a hileia é o pulmão do mundo e destruí-la significará a morte de todas as espécies – humanos no meio desse holocausto.

A destruição da Amazônia espera-se para breve, mas a história do pulmão do mundo não passa de uma enorme besteira como se pode ver por aqui  [1].

Na segunda oportunidade em que entrei no interior da floresta acabei caindo num enorme buraco (havia chovido muito) e cheguei em casam assustando todo mundo, pois meu corpo todo era uma lama só.

Há histórias e histórias nesses 6 anos e tanto em que vivi na Amazônia, mas essas reminiscências serão contadas (se forem) aos poucos, em conta gotas.

Mas há algumas bastante importantes (as quais não necessariamente eu vivi) que foram o massacre dos índios pela ditadura militar (veja, por exemplo, aqui: https://istoe.com.br/massacre-de-indios-pela-ditadura-militar/) e a  Ordem da Santa Cruz.

Nota

[1] Pulmão do mundo. No que você pensa ao ouvir essa expressão? Ora, só dá para imaginar que a Amazônia é a maior produtora mundial do oxigênio que mantém a Terra viva! Acontece que essa história de “pulmão do mundo” é uma enorme bobagem. Na verdade, são as algas marinhas que fazem a maior parte desse trabalho – elas jogam na atmosfera quase 55% de todo o oxigênio produzido no planeta. E mais: florestas como a Amazônia, segundo os cientistas, são ambientes em clímax ecológico. Isso quer dizer que elas consomem todo – ou quase todo – o oxigênio que produzem.

As estimativas variam, mas todas indicam que a parcela de oxigênio excedente fornecida pela Amazônia para o mundo é bem pequena. Talvez ela nem exista! É que, além de produzir oxigênio na fotossíntese (enquanto sequestram gás carbônico da atmosfera e o transformam em matéria-prima para galhos e folhas), as árvores também respiram – consumindo oxigênio e liberando gás carbônico. No fim, a relação produção/consumo tende a ficar no empate.

Isso não significa, contudo, que derrubar a floresta teria impacto zero sobre o clima do planeta. Ao contrário: quando não alimentam a indústria legal ou ilegal de madeira, árvores derrubadas se decompõem, liberando gás carbônico e agravando o problema do aquecimento global. Além disso, já se sabe que, de várias maneiras, a Amazônia produz sua própria chuva e influencia o regime pluviométrico de outras regiões. Segundo os cientistas, ela lança na atmosfera uma quantidade inimaginável de partículas de origem biológica – de pedacinhos de plantas a fungos e moléculas orgânicas. Levadas pelo vento, essas partículas acabam virando núcleos de condensação de nuvens (em torno dos quais o vapor d’água se transforma em gotículas ou cristais de gelo). É por isso, entre outros fatores, que as chuvas são tão abundantes na Amazônia. Quanto mais o desmatamento avança, mais elas tendem a rarear – colocando em risco o delicado equilíbrio da floresta.

PRODUÇÃO DE OXIGÊNIO NO MUNDO

Algas marinhas – 54,7%

Bosques e florestas – 24,9%

Estepes, campos e pastos – 9,1%

Áreas cultivadas – 8,0%

Algas de água doce – 0,3%

https://super.abril.com.br/ciencia/a-amazonia-nao-e-o-pulmao-do-mundo/

 

“Comunidade científica é contra contratação de empresa para monitorar Amazônia”

Academicos[Uma afronta ao país e à ciência e tecnologia nacional. Assim declaram a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) sobre a contratação de empresa privada para fazer o monitoramento da Amazônia. As entidades enviaram na última semana uma carta ao presidente da República, Michel Temer, apontando os problemas advindos do prosseguimento ao pregão eletrônico nº 07/2017, que trata do assunto.

A SBPC e a ABC ressaltaram a surpresa e a indignação “nas comunidades científicas brasileira e internacional da decisão do Ministério do Meio Ambiente (MMA) de contratar empresa privada para fazer o monitoramento do desmatamento da região Amazônia por sensoriamento remoto”. O ministério teria justificado que o contrato que pretende estabelecer com a empresa visa acrescentar tecnologias não disponíveis no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que realiza o monitoramento.

Contudo, as entidades destacam no documento que apesar de o monitoramento ser realizado pelo Inpe desde 1989, “com tecnologia, competência e propriedade reconhecidas internacionalmente”, o instituto não foi consultado pelo MMA sobre a possibilidade de incluir outros recursos tecnológicos em seus programas de monitoramento da região.

De acordo com a carta, ao ser uma atividade realizada com independência por uma instituição de pesquisa, o monitoramento feito pelo Inpe oferece, além de confiabilidade, transparência e isenção. “O fato de o Ministério do Meio Ambiente vir a poder avaliar os resultados do trabalho que é sua atividade-fim configurará explícito conflito de interesses, portanto uma prática desaconselhável em nome da boa gestão pública.”

Além disso, o documento lembra que o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) também não foi consultado sobre possibilidades de ampliar ou aperfeiçoar o monitoramento da Amazônia.

Veja a carta na íntegra aqui.]

Agência Abipti, com informações da SBPC.

“Tapajós e Xingu, caminhos para devastar a Amazônia”

Amazonia
Fotomontagem: Outras Palavras

[(Por Ricardo Martinez, na Vice, reproduzida em Outras Palavras) – A Amazônia brasileira, uma área florestal que conta com 10% de todas as espécies vegetais conhecidas no mundo, novamente está em perigo. Somente em 2016, quase 8 mil km² foram desmatados, e se o presidente Michel Temer conseguir o que quer, vários novos projetos de infraestrutura — que incluem a construção de represas, canais navegáveis artificiais e minas — vão acelerar a degradação da região.

Desmatamento no Brasil nunca foi novidade; desde os anos 70, cerca de 770 mil km² de mata foram destruídos. Ainda assim, a taxa de desmatamento diminuiu na última década, refletindo a iniciativa “Salve a Floresta Tropical” apoiada por vários países, incluindo aqueles que compartilham a Amazônia com o Brasil. Pretendia-se atingir um nível zero de desmatamento até 2020.

Mas agora, o relaxamento de regulamentações ambientais no Brasil e o desejo de combater a recessão parecem ter acelerado novamente a destruição da porção brasileira da Amazônia. As taxas de desmatamento, por exemplo, subiram 29% com relação ao último ano. Cientistas e ambientalistas temem que as construções não tenham apenas efeitos prejudiciais, mas abrirão caminho para projetos ainda mais destrutivos na maior floresta do mundo, que cobre uma área maior que a metade dos EUA.

“Isso abre as comportas para todo tipo de projeto”, disse Philip Fearnside, membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas e professor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, que vem estudando a floresta há mais de 40 anos. “Os políticos estão ansiosos para fazer a economia se recuperar, mas remover as restrições ambientais e aprovar todo tipo de projeto aumenta impactos ambientais e sociais que não estão sendo considerados.”

(Para assistir ao vídeo que ilustra o texto use este frame: //embeds.vice.com/?playerId=YjMwNmI4YjU2MGM5ZWRjMzRmMjljMjc5&aid=site.url/toxic&vid=x2cGMwMzrCW7VoPKJgAH0373ncdQyemu&embedCode=x2cGMwMzrCW7VoPKJgAH0373ncdQyemu“>//embeds.vice.com/?playerId=YjMwNmI4YjU2MGM5ZWRjMzRmMjljMjc5&aid=site.url/toxic&vid=x2cGMwMzrCW7VoPKJgAH0373ncdQyemu&embedCode=x2cGMwMzrCW7VoPKJgAH0373ncdQyemu ).

O governo Temer já começou a aprovar represas, canais e minas nos rios Tapajós e Xingu, colocando em perigo cerca de um quinto do território da Amazônia brasileira, considerada por cientistas crucial para regular o clima do planeta. O governo do Pará, onde os projetos devem ser realizados, diz que os investimentos vão ajudar a aliviar as dificuldades financeiras das pessoas do estado e no país como um todo — mas os povos ribeirinhos da região, além de tribos indígenas que dependem dos rios e seus ecossistemas para sobreviver, podem acabar devastados pelos resultados e obrigados a abandonar seus lares.

Por trás desses projetos, está uma bancada do agronegócio no Congresso chamada coletivamente de ruralistas, que controlam a segunda maior indústria de soja do mundo nos estados do Mato Grosso e sul do Pará. Há anos os ruralistas fazem lobbies no governo para facilitar seu acesso à Amazônia para transporte de produtos, o que exigiria o desenvolvimento de vias navegáveis com represas e eclusas, para tornar o Tapajós e afluentes mais navegáveis no sudeste do Pará.

O governo planeja construir mais de 40 hidrelétricas na área até 2022. Cientistas calculam que os canais industriais vão inundar dezenas de milhares de hectares de terra ao longo do Tapajós, incluindo comunidades indígenas ribeirinhas que habitam essas áreas há várias gerações.

Em janeiro, o governo brasileiro delegou a tarefa de demarcação de reservas indígenas ao Ministério da Justiça, um movimento visto como benéfico para o agronegócio e prejudicial para os índios. A demarcação era, antes, supervisionada pela FUNAI — que sofreu, nesta semana, um corte de 347 postos de trabalho em áreas tidas como estratégicas e que analisavam, justamente, grandes empreendimentos que afetam áreas indígenas.

Em 10 de março, o novo ministro da Justiça Osmar Serraglio deixou clara sua posição sobre os direitos indígenas, dizendo que “terra não enche barriga” e que quer “boas condições de vida” para os índios. Serraglio tem laços diretos com ruralistas.

“Você não pode negar terras aos povos indígenas ancestralmente ligados a elas, e esperar que eles continuem existindo como cultura”, disse Christian Poirier, diretor de programas da Amazon Watch. “Não é apenas uma questão de demarcação; estamos falando de abrir territórios indígenas para atividade industrial irrestrita. É um grande favor que o governo está fazendo aos ruralistas.”

E o desenvolvimento já está em andamento. A hidrelétrica de Belo Monte no Xingu envolveu um acordo suspeito que já está sendo chamado de “um desastre”. Lá perto, o governo do Pará aprovou licenças de construção em fevereiro para a maior mina de ouro no Brasil desde a construção da Serra Pelada, onde pelo menos 100 mil pessoas trabalhavam em condições brutais nos anos 80. O principal engenheiro que assinou o relatório de impacto ambiental do projeto, mais tarde foi processado pelo pior derramamento tóxico do Brasil, que deixou 19 mortos nas proximidades da mina da Samarco em Minas Gerais.

No município de Altamira, perto de onde a represa e a mina devem ser construídas, as taxas de homicídio quase triplicaram desde que a construção do empreendimento começou. Em outubro passado, depois de várias ameaças de morte por sua oposição ao desmatamento, o secretário do Meio Ambiente do município foi morto com 14 tiros na frente de casa.

Promotores federais se opuseram à permissão da mina e disseram que a comunidade não foi consultada sobre o projeto. No dia 22 de fevereiro, um juiz estadual suspendeu a licença por 180 dias até que as apropriações de terras suspeitas fossem resolvidas. A Belo Sun, empresa canadense no controle do projeto, disse num comunicado à imprensa que tem forte apoio das comunidades.

“O Pará tem muitos depósitos minerais, e as reservas indígenas estão no caminho desses projetos”, disse Fearnside. “Eles provavelmente se tornarão as vítimas das reduções de demarcações pelo Congresso.”

José Pereira, um líder da cooperativa local de mineração do vilarejo de Ressaca, se preocupa com o que acontecerá com sua cidade Natal.

“Eles vão tomar tudo”, disse Pereira. “Eles nos dão duas opções: R$ 20 mil para sair e cuidar de nós mesmos, ou mudar para uma cidade pré-fabricada. Estamos resistindo, estamos lutando para manter nosso sustento. Se a mina for adiante e um derramamento acontecer aqui, pode ter certeza que tudo que conhecemos vai acabar.”

Com pouco apoio de legisladores, os locais contam com um punhado de ONGs e ambientalistas para lutar contra as iniciativas de projetos. Suas perspectivas não parecem boas.

“Estamos falando sobre um ecossistema”, disse Luís de Camões, promotor federal do Pará, “que é fundamental para a regular o clima e o sistema hídrico do país, das Américas e da humanidade”.]

“A neolatifundização da Amazônia”

Amazonia
Credito: Revista IHU on-line

[Dos 112 Decretos Legislativos promulgados recentemente pelo governo do presidente peruano Pedro Pablo Kuczynski (PPK) com o objetivo de reativar a economia do país, dois em especial foram unânime e energicamente rechaçados por organizações indígenas andino-amazônicas e instituições ambientalistas e de direitos humanos, por representarem uma das maiores ameaças aos direitos fundamentais dos povos indígenas e originários do Peru.

O artigo é de Róger Rumrill,  ensaista, escritor, poeta e jornalista especializado na questão indígena da Amazônia peruana, publicado por De Olho nos Ruralistas, 09-03-2017. A tradução é de Bruno Bassi.

Se executados pelo governo de PPK, os Decretos Legislativos 1292 e 1333, considerados anticonstitucionais e absolutamente regressivos em relação a todos os avanços no reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, abrirão as portas para acelerar o processo de neolatifundização da Amazônia peruana. As duas normas fazem eco às tendências globais de concentração e reconcentração de terras e de territórios indígenas que vêm ocorrendo em todo planeta, seguindo a lógica do extrativismo desenfreado das corporações mineradores, petrolíferas e madeireiras.

Apip, um frankestein burocrático

Para as organizações indígenas andinas e amazônicas que integram a articulação nacional Pacto de Unidad, bem como para as entidades ambientalistas e de direitos humanos, o D.L. 1333 é anticonstitucional porque apaga, em uma única canetada, todo o ordenamento jurídico e institucionalidade referentes à regularização física e legal de terras no Peru.

O D.L. 1333 cria o Projeto Especial de Acesso a Propriedades para Projetos de Investimento Priorizados (Apip), um verdadeiro frankestein burocrático, cujas funções e competências se sobrepõem às do Ministério de Agricultura e Irrigação (Miagri), do Ministério do Ambiente (Minam), do Organismo de Formalização da Propriedade Informal (Cofopri, equivalente no Peru ao Incra brasileiro) e dos governos estaduais, bloqueando e erguendo obstáculos às funções de programas de reconhecimento e titulação comunal, como a terceira etapa do projeto de cadastro, titulação e registro de terras rurais do Peru (PTRT-3), que conta com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Classificado pela Confederação Nacional Agrária do Peru (CNA) como um organismo irrestrito, a Apip – adstrita à Agência de Promoção do Investimento Privado no Peru (Proinversión) e ao Ministério de Economia e Finanças (MEF) – inclui entre suas funções a regularização física e legal das terras e territórios compreendidos no âmbito geográfico de projetos de investimento priorizados pela Proinversión, independente destas terras estarem tituladas ou não.

O todo-poderoso Apip, da mesma forma, poderá identificar terras, reconhecer direitos fundiários, modificar planos e limites, medidas perimetrais e retificar títulos de propriedade. E isso não é tudo. Esse organismo sem equivalente na história do Estado peruano poderá também convocar assembleias comunais e chamar às Forças Armadas para conduzir o deslocamento de povos andino-amazônicos quando os interesses dos megaprojetos assim o determinem, violando e atropelando impunemente a autonomia das organizações indígenas andino-amazônicas.

A outra norma em questão, o D.L. 1292, declara de “necessidade pública e interesse nacional” a operação do Oleoduto Norte-Peruano. Esta norma faculta ao Estado peruano a aquisição dos terrenos necessários para a operação do oleoduto. Em outras palavras, trata da expropriação de terrenos pertencentes a Comunidades Campesinas e Nativas¹ adjacentes ou próximas ao perímetro do Oleoduto.

Como sempre ocorreu na história do país, a “necessidade pública” e o “interesse nacional” não são os interesses e as necessidades do povo, das populações campesinas e indígenas, senão os das grandes empresas e de um Estado quase sempre a serviço delas.

Como Leguía, Alan García e Humala…

Tais Decretos Legislativos, que os povos indígenas andino-amazônicos consideram um atropelo, um abuso e um perigo para a integridade de seus territórios, parecem ter sido escritos pelas mesmas mãos que redigiram outros ataques diretos aos direitos originários, como a Lei 1220 de 1909 sobre terras em região de montanha de Augusto B. Leguía², as leis ditadas por Alan García³ para implementação do Tratado de Livre Comércio (TLC) entre Peru e Estados Unidos, e o pacote de Ollanta Humala4 para “destravar os investimentos”. Trata-se do mesmo argumento usado por PPK.

Vale lembrar que dentro do “paquetazo” humalista estava precisamente a Lei 30230 de 2014, que serve de sustento jurídico para o D.L. 1333. A inconstitucionalidade da Lei 30230 está sendo revisada pelo Tribunal Constitucional sob o argumento de contrariar o estado de direito, a ordem jurídico-constitucional e as normas do direito jurídico internacional.

O “paquetazo” PPK, uma ameaça letal

O novo “paquetazo” de PPK, e em particular os D.L. 1292 e 1333, representa uma ameaça letal para os povos indígenas andino-amazônicos, para seus territórios e sua própria sobrevivência.

De acordo com um estudo do Instituto del Bien Común (IBC)5 49,6% dos territórios das Comunidades Campesinas e Nativas enfrentam superposição de projetos de mineração. Das 10.524 Comunidades Campesinas e Nativas mapeadas, somente 4.023 estão tituladas. Para o Apip e as empresas multinacionais por trás do projeto, isso representa mais de 20 milhões de hectares de terra e territórios indígenas andino-amazônicos sem garantias ou segurança jurídica, passíveis de serem tomados com a anuência, complacência e aprovação do governo de PPK.

Frente a mais essa ameaça, os povos indígenas andino-amazônicos do Peru vêm exigindo que o Congresso da República do Peru revogue os D.L. 1292 e 1333, aos quais resistirão de forma pacífica e democrática e, se necessário, ao custo de suas próprias vidas.]

Notas

¹ As Comunidades Campesinas e Nativas são organizações tradicionais e estáveis de interesse público reconhecidas constitucionalmente no artigo 89 da Constituição Política do Peru e regidas por legislação específica.

² Presidente da República do Peru entre 1908 e 1912.

³ Presidente do Peru por dois mandatos: entre 1985 e 1990 e, posteriormente, entre 2006 e 2011, ambas pelo Partido Aprista Peruano. O TLC entre Peru e Estados Unidos entrou em vigor durante seu segundo mandato.

4 Presidente do Peru entre 2011 e 2016, eleito através de uma coalizão ampla de centro-esquerda encabeçada pelo Partido Nacionalista Peruano.

5 Associação civil peruana que atua na temática de autogestão em comunidades rurais.

Revista IHU on-line.

“Pesquisa com geoglifos indica que Amazônia teve uso sustentável há milhares de anos”

acreanas[O desmatamento no leste do Acre para a expansão da pecuária tem revelado, nos últimos 30 anos, centenas de grandes estruturas geométricas de terra construídas por povos pré-colombianos.

Tais estruturas são chamadas de geoglifos. O fato de terem sido construídas pelo homem implica a existência de um grande povoamento na região há milhares de anos, assim como sugere que, no passado, a floresta havia sido parcialmente derrubada para o uso da terra pela agricultura.

A arqueóloga inglesa Jennifer Watling, atualmente bolsista de pós-doutorado da Fapesp, estudou em seu doutorado – defendido na University of Exeter, no Reino Unido – qual teria sido o impacto ambiental das populações pré-históricas decorrente da construção dos geoglifos.

Ela estudou dois locais com geoglifos, o Sítio Arqueológico Jacó Sá e a Fazenda Colorada. O trabalho foi publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences e ganhou imediatamente visibilidade internacional, com reportagem publicada em veículos como The New York Times.

Saindo de Rio Branco, a capital do Acre, pega-se a BR 317 em direção a Boca do Acre (AM). Leva-se cerca de uma hora de carro para percorrer os 50 quilômetros até o sítio Jacó Sá. Ao longo do trajeto a estrada passa por pastos com gado nelore onde antes havia Floresta Amazônica primária, cujas franjas ainda são visíveis dos dois lados da rodovia lá na linha do horizonte.

Toda aquela porção do extremo ocidental do Acre era coberta por floresta primária até os anos 1980 e vem sendo desflorestada para a criação de gado. Metade da cobertura florestal na região já se perdeu.

Por ironia, não fosse o aumento da ocupação humana no Acre, os mais de 450 geoglifos pré-históricos hoje catalogados continuariam ocultos pela mata. A floresta evidentemente esconde muitos outros. Os geoglifos se espalham pelos vales dos rios Acre, Iquiri e Abunã, entre Rio Branco e Xapuri, e também ao norte de Rio Branco, na direção do Estado do Amazonas.

Do solo não é possível visualizar suas formas nem as suas dimensões. Em um avião, voando a 500 metros do solo, os geoglifos se tornam visíveis. Eles têm o formato de círculos, quadrados, retângulos, círculos concêntricos ou ainda círculos circunscritos no interior de grandes quadrados.

As dimensões são colossais: variam de 50 a 350 metros de diâmetro. No solo, os geoglifos são como grandes valas de até 11 metros de largura por 4 metros de profundidade. É impressionante o imenso volume de terra que teve que ser removido para a sua construção, o que implica um grande contingente populacional.

No sítio de Jacó Sá há dois geoglifos, ambos na forma de quadrados com cerca de 100 metros de lado, sendo que um deles tem um círculo perfeito circunscrito em seu interior. Quem quiser pode usar o Google Maps e entrar com as coordenadas 9°57′38″S 67°29′51”W para apreciar os dois geoglifos das alturas.

Watling queria entender como seria a vegetação naquela região na época em que os geoglifos foram construídos. O local, antes do desmatamento, era dominado por bambuzais.

Watling se propôs a responder uma série de questões. “Será que a floresta de bambu predominava antes de haver geoglifos? Qual foi a extensão do impacto ambiental associado à construção dos geoglifos?”, pergunta a arqueóloga.

Será que a região era coberta por florestas antes da chegada dos povos que construíram os geoglifos ou seria originalmente uma região de cerrado? Se era floresta, por quanto tempo as áreas desmatadas permaneceram abertas? O que aconteceu com a vegetação quando os geoglifos foram abandonados? Como foi o processo de regeneração da floresta?”, são outras questões levantadas.

Manejo florestal

Watling atualmente se dedica ao pós-doutorado, sob orientação do arqueólogo Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).

A pesquisadora passou seis meses escavando nos sítios do Acre, entre 2011 e 2012. Usou técnicas de paleobotânica para obter respostas. Suas escavações em Jacó Sá e na Fazenda Colorada demonstraram que o ecossistema de bambuzais existe no local há pelo menos 6.000 anos, o que sugere que o bambu não foi introduzido pelos índios, mas fazia parte da composição paisagística original.

A presença do homem no local data de pelo menos 4.400 anos atrás. Já a presença de partículas de carvão, principalmente a partir de 4.000 anos antes do presente, implica a intensificação do desmatamento e/ou do manejo florestal pelos índios.

O maior acúmulo de carvão coincide com a época da construção dos geoglifos, entre 2.100 e 2.200 anos atrás. Apesar da relativa facilidade com que se removem bambuzais (quando comparado a mognos e castanheiras, por exemplo), Watling não achou evidências de desmatamentos significativos em qualquer período.

Segundo ela, isso quer dizer que os geoglifos não ficavam dentro de uma área totalmente desmatada. “Ao contrário, eles eram cercados pela copa das árvores. A vegetação local jamais foi mantida completamente aberta durante todo o período pré-Colombiano. Esta dedução é consistente com evidências arqueológicas indicando que os geoglifos eram usados em bases esporádicas em vez de continuamente habitados”, disse Watling.

As escavações arqueológicas não revelaram grande quantidade de artefatos, o que indica que os geoglifos não eram locais de habitação permanente. Os índios não moravam lá”, disse.

Outra constatação é que os geoglifos não foram construídos sobre floresta virgem que foi derrubada. Os dados paleobotânicos coletados por Watling sugerem que as estruturas foram erigidas em terrenos previamente ocupados, ou seja, em florestas antropogênicas, que foram derrubadas ou tiveram sua composição alterada pela ação humana ao longo de milhares de anos.

Isso faz sentido quando agora se sabe que a região era ocupada desde há 4.000 anos. Em outras palavras, seus habitantes tiveram 2.000 anos de manejo da floresta antes da construção dos geoglifos. Graças às pesquisas em outros geoglifos sabe-se que o povo que construía aquelas enormes estruturas cultivava milho e abóbora.

Os dados coletados por Watling indicam que a derrubada da floresta por meio de queimadas realizada entre 4.000 e 3.500 anos atrás foi seguida pelo aumento significativo da quantidade de palmeiras na composição da floresta.

Não existe nenhuma explicação natural para o aumento da quantidade de palmeiras, já que o clima na região era (e continua sendo) úmido e, portanto favorável à colonização por parte de árvores de grande porte e o consequente adensamento da mata. A proliferação das palmeiras está ligada, segundo Watling, ao aumento do uso da terra pelo homem, o que é corroborado pelos depósitos de partículas de carvão.

As palmeiras têm diversos usos. Seus cocos são alimento, seus troncos servem para construir ocas e suas folhas para cobri-las. Segundo Watling, isso sugere que, após a limpeza da mata pelos primeiros habitantes da região, eles teriam passado a permitir a proliferação apenas das espécies vegetais que faziam uso. Em outras palavras, os antigos habitantes do local fizeram uso de técnicas primitivas de manejo florestal por milhares de anos.

A ausência de carvão a 500 metros de distância dos geoglifos significa que seu entorno não foi desmatado. “Isso sugere que os geoglifos não foram projetados para ser visíveis à distância, mas para ficar escondidos da vista, o que não deixa de ser uma conclusão inesperada”, disse.

Geoglifos

Os geoglifos estudados por Watling e colegas do Brasil e do Reino Unido foram abandonados há cerca de 650 anos, portanto antes da chegada dos europeus nas Américas. Em concomitância com o abandono dos geoglifos observa-se o declínio da participação de palmeiras no meio ambiente.

Os geoglifos impressionam pela beleza e precisão de suas linhas. Qual foi o povo responsável pela construção daquelas estruturas? Que técnicas usaram para erigir formas tão perfeitas?

A primeira imagem que vem à mente é a dos animais esculpidos no solo do deserto de Nazca, no Peru. Descobertos em 1927, eles teriam sido feitos há 3.000 anos. Vistos do solo, as figuras peruanas parecem linhas sem-fim que se perdem no horizonte.

Só de bem alto, a 1.500 metros de altura, suas formas começam a fazer sentido. Compõem um beija-flor, uma abelha e um macaco. Tais figuras ficaram famosas nos anos 70, quando o escritor suíço Erich von Daniken publicou o livro – que vendeu milhões de exemplares e foi transformado em filme – Eram os Deuses Astronautas?.

Von Daniken defendia a teoria de que certas civilizações, como a dos astecas, teriam sido visitadas por alguma forma de vida extraterrestre inteligente. Daí a justificativa de figuras que só fazem sentido quando vistas de grandes altitudes.

Contam os antropólogos, porém, que a intenção dos índios autores daquelas obras de arte milenares era enternecer os deuses, convencendo-os a fazer chover. Os geoglifos acreanos situam-se mil quilômetros a nordeste do desértico vale de Nazca. E no Acre, como se sabe, a falta de chuva não é um problema.

No pós-doutorado, Watling também estuda o impacto exercido sobre a floresta de um povoamento indígena no sítio arqueológico de Teotônio, na região do Alto Rio Madeira, em Rondônia. “Teotônio possui algumas das datações mais antigas da pré-história amazônica. Foi ocupado por pelo menos 5 mil anos”, disse.

O artigo Impact of pre-Columbian “geoglyph” builders on Amazonian forests (doi: 10.1073/pnas.1614359114), de Jennifer Watling, José Iriarte, Francis E. Mayle, Denise Schaan, Luiz C. R. Pessenda, Neil J. Loader, F. Alayne Street-Perrott, Ruth E. Dickau, Antonia Damasceno e Alceu Ranzi, publicado pela PNAS, pode ser lido por assinantes em: www.pnas.org/content/114/8/1868.abstract

Peter Moon, Agência Fapesp.

Pesquisador lança livro sobre o modo de vida de comunidades amazônicas

Litera Ihndia

Para demonstrar como o modo de vida ribeirinho incide nas práticas socioculturais, o professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Gláucio Campos Gomes de Matos, lança amanhã (quarta-feira, 17), às 15 horas, com apoio do governo do Estado, via Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), na Associação dos Docentes da Ufam (Adua), a obra Ethos e Figurações na Hinterlândia Amazônica.

Editada pela Editora Valer, a obra retrata o modo de vida de três comunidades amazônicas localizadas no município de Boa Vista do Ramos (distante a 270 quilômetros de Manaus), situando o leitor no contexto de suas figurações e redes de interdependências que incidem diretamente em suas práticas socioculturais, como o extrativismo animal (caça e pesca), vegetal (principalmente a extração de madeira), criação de bois e cultivo do solo através do puxirum (forma com que os trabalhadores se organizam para resolver uma atividade na roça).

O livro será publicado com recursos do Programa de Apoio a Publicações (Biblos) da Fapeam.

A obra é resultado de um projeto de pesquisa que iniciou no Doutorado, em 2008, intitulado de “Práticas Socioculturais, Figuração e Diferenciação Social em Bicó, Cuiamucu e Canela-Fina – Comunidades Amazônicas”.

De acordo com o pesquisador, a ideia “tirar a tese da prateleira” surgiu para tornar os resultados do estudo acessíveis à população.

Segundo ele, o livro revela o processo de diferenciação social, o aumento populacional, a influência da prática esportiva dentre outros aspectos que contribuem para discussões ambientais e sociais no âmbito das comunidades.

Com informações da Agência Fapeam e do Jornal da Ciência.

Mais um mega projeto para colocar a pique a Amazônia

“Usina no rio Tapajós repetirá ‘caos’ de Belo Monte, diz Greenpeace”

Vista do rio Tapajós; governo planeja usina em uma das regiões mais preservadas da Amazônia / Greenpeace Fabio Nascimento
Vista do rio Tapajós; governo planeja usina em uma das regiões mais preservadas da Amazônia / Greenpeace Fabio Nascimento

[Uma análise encomendada pelo Greenpeace denuncia a existência de “problemas graves” no estudo e relatório de impacto ambiental (EIA/Rima) da usina hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, em planejamento pelo governo federal no oeste do Pará.

O material, assinado por cientistas do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), Museu Paraense Emílio Goeldi e Universidade Federal de Pernambuco, conclui que o estudo falha em seu principal objetivo: prever o impacto da obra sobre uma das regiões de floresta mais preservadas do Brasil.

A Eletrobrás, que coordena o grupo que bancou o estudo, informou que não iria se manifestar sobre a análise do Greenpeace por não ter tido acesso ao material.

Um dos últimos grandes rios amazônicos sem barragens, o Tapajós é a nova fronteira dos megaprojetos do governo federal de usinas na Amazônia, que incluem ao menos 40 grandes hidrelétricas (com mais de 30 MW de capacidade instalada) em construção ou planejamento na bacia.] (BBC Brasil)

Leia a matéria na íntegra clicando aqui.

Decreto redefine programa de proteção ambiental da Amazônia

Crédito da foto: brasil.gov.br
Crédito da foto: brasil.gov.br

Decreto assinado pela presidente Dilma Rousseff, publicado na edição de ontem (sexta-feira, 21) no Diário Oficial da União, altera o Programa de Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa). A decisão incorpora as inovações desenvolvidas para o programa nos seus últimos 12 anos, como a estrutura de gestão, os meios de financiamento e seus objetivos.

O novo decreto traz uma mensagem clara sobre os mecanismos de financiamento e a nova estratégia acertada com os doadores internacionais, ampliando os meios de aporte de recursos e garantindo a sustentabilidade financeira para os próximos 25 anos de duração do programa. Deixa claro o apoio à consolidação e manutenção de unidades de conservação de uso sustentável e de proteção integral, bem como amplia a participação social na gestão e avaliação do Arpa, reforçando a atratividade de sua aderência com políticas públicas para o futuro.

Novos integrantes

A governança do Arpa permanece a cargo de um comitê com participação de representantes da União, agora incorporando os Ministérios da Fazenda e do Planejamento, Orçamento e Gestão; dos estados da Amazônia participantes; da sociedade civil com relevância na região; e dos doadores.

Deixa clara, ainda, a meta de se buscar, em 25 anos, o aporte de recursos nacionais para o alcance da sustentabilidade financeira, em alinhamento com a consolidação das unidades participantes, esforço a ser perseguido pelo governo federal e pelos governos estaduais parceiros. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) editará as normas complementares para acomodar as reformas em até 90 dias após a publicação do decreto.

Saiba mais

O Arpa (Programa Áreas Protegidas da Amazônia) é um programa do Governo Federal, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), gerenciado financeiramente pelo Funbio (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade) e financiado com recursos do Global Environment Facility (GEF) – por meio do Banco Mundial -, do governo da Alemanha – via Banco de Desenvolvimento da Alemanha (KfW) – da Rede WWF e do Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Foi lançado em 2002 para ser executado em três fases independentes e contínuas. É o maior programa de conservação de florestas tropicais do planeta e o mais expressivo ligado à temática das unidades de conservação no Brasil.

Criado com o objetivo de expandir e fortalecer o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) na Amazônia, o Arpa se propõe a proteger 60 milhões de hectares, assegurar recursos financeiros para a gestão destas áreas a curto/longo prazo e promover o desenvolvimento sustentável naquela região. Reconhecido internacionalmente, combina biologia da conservação com as melhores práticas de planejamento e gestão.

As unidades de conservação apoiadas pelo programa são beneficiadas com bens, obras e contratação de serviços necessários para a realização de atividades de integração com as comunidades de entorno, formação de conselhos, planos de manejo, levantamentos fundiários, fiscalização e outras ações necessárias ao seu bom funcionamento.

O Programa Arpa encontra-se alinhado com as principais políticas e estratégias do governo brasileiro para a conservação da Amazônia, tais como:

– Plano Amazônia Sustentável (PAS), cuja integração com o Arpa acontece a partir da consulta e envolvimento de diversos setores das sociedades regional e nacional, além de permear os cinco eixos temáticos prioritários do PAS: produção sustentável com tecnologia avançada, novo padrão de financiamento, gestão ambiental e ordenamento territorial, inclusão social e cidadania e infraestrutura para o desenvolvimento;

– Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAM), cujas contribuições e interfaces com o Arpa estão na sintonia entre os objetivos e diretrizes gerais de ambos, incluindo as metas do PPCDAM de ordenamento fundiário e territorial da região, através da criação e consolidação de UC;

– Plano Nacional de Áreas Protegidas (PNAP), com o qual o Arpa colabora para o cumprimento de diversas diretrizes, como a de assegurar a representatividade dos diversos ecossistemas e a de promover a articulação de diferentes segmentos da sociedade para qualificar as ações de conservação da biodiversidade;

– Plano Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), que tem no Programa Arpa importante apoio para sua consecução. Somente a criação de 13 UC na Amazônia entre 2003 e 2007 com o apoio do Arpa evitará, até 2050, a emissão de 0,43 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. Dessa forma, a expansão futura do SNUC na Fase II do Arpa e a melhoria na gestão das UC poderão aumentar a contribuição do Programa para a redução das taxas de desmatamento na Amazônia Legal.

Com informações do MMA.

Observatório Atto, na Amazônia, será inaugurado no sábado

A Torre Alta da Amazônia, com 325 metros, é um projeto teuto-brasileiro (foto: Fernanda Faria/Inpa) – Agência Fapesp.
A Torre Alta da Amazônia, com 325 metros, é um projeto teuto-brasileiro (foto: Fernanda Faria/Inpa) – Agência Fapesp.

O Observatório da Torre Alta da Amazônia (Atto), a 150 quilômetros a nordeste de Manaus, em meio à floresta, será inaugurado neste sábado (22/08), após um ano de construção.

A Torre, com 325 metros, é um projeto teuto-brasileiro em que estão envolvidos o Instituto Max Planck de Química, o Instituto Max Planck para Biogeoquímica, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

O observatório é um dos quatro principais sítios de pesquisa da campanha científica Green Ocean Amazon (GOAmazon), que conta com o apoio da FAPESP (leia mais sobre o GOAmazon em agencia.fapesp.br/18691).

Com custos de cerca de € 8,4 milhões, o projeto foi financiado no lado alemão pelo Ministério Federal de Educação e Pesquisa (BMBF) e no lado brasileiro pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e pelo governo do Amazonas.

Instalado na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, o Observatório Atto está equipado com um moderno equipamento de medição para coletar dados sobre gases de efeito estufa, partículas de aerossóis, propriedades de nuvens, processos de camada-limite e transporte de massas de ar.

De acordo com Antonio Manzi, pesquisador do Inpa e coordenador brasileiro do Atto, o projeto foi concebido como um laboratório de referência mundial para as interações entre as florestas tropicais e a atmosfera. “Os resultados obtidos fornecerão um grande avanço na representação das florestas tropicais, em modelos de sistemas meteorológicos e da Terra para gerar previsões de tempo e cenários muito mais precisos sobre o clima”, explicou Manzi à Assessoria de Comunicação do Inpa.

“Todos os dados que estamos gerando com esta nova torre de medição estão sendo incorporados a modelos para predizer o desenvolvimento do clima”, afirmou o vice-presidente da Sociedade Max Planck, Ferdi Schüth, ao Inpa. “Os resultados da medição da Atto também estarão disponíveis para os formuladores de políticas desenvolverem mais regulações sobre a política de ambiente e metas climáticas globais.”

Os dados coletados no Observatório Atto também serão utilizados por pesquisadores brasileiros e norte-americanos envolvidos no projeto GOAmazon.

Agência Fapesp.

“Belo Monte: violação, omissão, degradação e condenação”

Carta Maior
Carta Maior

[A visita de dois dias, depois de quatro anos do início da obra, de representantes das defensorias públicas federal e estadual, do Ibama, do Instituto Chico Mendes, do Procurador Federal dos Direitos do Cidadão e antropólogos da USP, Unicamp e a Universidade Federal do Pará constatou o óbvio:

“- Os direitos constitucionais das populações tradicionais do Xingu estão sendo frontalmente violados pela empresa e é necessário readequar as remoções para que cumpram o licenciamento e o projeto básico ambiental de Belo Monte, assegurando os direitos dos ribeirinhos”. A comitiva, posteriormente, elaborou uma lista com 55 constatações de irregularidades na visita que realizaram em 15 ilhas e beiradões, no início de junho desse ano. A defensora pública do Pará, Andreia Barreto, resume a questão:

“- Os mesmos problemas se repetem desde o início das remoções onde averiguamos que há falta de informações para as famílias, analfabetos assinando documentos em branco, ruptura de relações familiares e perda de territórios”.

Belo Monte, na concepção do governo federal, deveria ser um exemplo de negociação e respeito com os povos atingidos, no caso, ribeirinhos e indígenas – são 25 mil residentes na região. O Dossiê elaborado pelo Instituto Socioambiental e com a participação de várias pessoas que lidam diretamente com a construção da hidrelétrica, aponta para uma realidade que desmente a projeção. Ao invés de respeito, a violação dos direitos dos povos atingidos. No caso dos araras, uma tribo que tragicamente está no caminho do capitalismo brasileiro, desde a construção da rodovia Transamazônica na década de 1970, quando o trajeto da BR-230 cortou as suas aldeias e os militares continuaram a obra, como se eles não existissem. Inclusive, transmitindo a versão de que não havia índios naquela região.

Uma fila de 13 mil caminhões

Agora a Terra Indígena Cachoeira Seca está degradada, os cálculos dos pesquisadores revelam uma retirada de 200 mil metros cúbicos de madeira – uma fila de 13 mil caminhões -, as invasões são constantes e o ISA considera a situação como fora de controle. Para piorar dois ramais da Transamazônica estão a 30 km da aldeia Cachoeira Seca. As terras dos Jurunas, que deveriam ser transferidos da sua área, não foram adquiridas. Os planos de compensação começaram atrasados, no caso indígena, três anos depois do início da construção. Para resolver a situação criaram um plano de emergência, que repassou durante dois anos R$ 30 mil por aldeia e mais compras de bens materiais – 578 motores de barcos, 322 barcos voadeiras, 2,1 milhões de litros de gasolina e muitas caixas de refrigerantes e televisões de plasma. O resultado foi o seguinte:

“- A taxa de mortalidade infantil indígena em Altamira é quatro vezes superior à média nacional. Os atendimentos a indígenas na mesma cidade aumentaram dois mil por cento. Um relatório recente da Funai sobre vistorias realizadas analisando a segurança alimentar e o desenvolvimento de projetos produtivos definiu como um fracasso o projeto e recomendou a aquisição de cestas básicas, diante da vulnerabilidade alimentar das comunidades indígenas”.

População da região de 600 mil pessoas em 2030

O fato é que aumentaram as queimadas – de 60 para 503 o número de focos, no caso da Terra Indígena Apyterewa que tinha 1.278 posseiros no seu interior, sendo uma parte retirada – 369 reassentados pelo Incra -, porém o processo parou e as famílias estão voltando, e outras contestam a transferência na justiça. A Terra do Meio, assim designada porque fica entre os rios Xingu e Iriri, já é um caldeirão de violações generalizadas, dominada por grileiros, madeireiros e pecuaristas. Belo Monte está potencializando este rastro de sangue e violência. Uma das consultorias contratadas para estabelecer planos socioambientais na região, considerando uma área abrangida por 11 municípios com mais de 360 mil habitantes prevê que dentro de 15 anos a população será de 600 mil habitantes.

Na realidade a questão é complexa. O Banco Mundial considera que 12% dos custos de uma hidrelétrica no Brasil estão nas compensações dos impactos socioambientais. Em Belo Monte, a Norte Energia se comprometeu a executar mais de 100 programas de compensação específicos em todas as áreas. Na questão indígena, são 31 condicionantes. Depois da licença de instalação, a empresa começou a contestar algumas ações principalmente em relação à regularização de terras indígenas e das unidades de conservação, que cercam a região, incluindo várias reservas extrativistas. Faz parte da tática para empurrar o problema para o futuro, e não resolvê-los. Um parte da verba destinada à recuperação ambiental de R$ 126 milhões foi usada pelo ICMBio fora da bacia do rio Xingu, apenas 18,6% foram aplicadas nas unidades de conservação atingidas, segundo o Dossiê do ISA.

Não houve resposta do BNDES

Só para lembrar: as áreas indígenas não serão inundadas pelo lago de Belo Monte, mas a vazão será reduzida em 80% entre as aldeias Volta Grande do Xingu e Paquiçamba. Ou seja, o rio deverá secar na época da estiagem amazônica. O BNDES que é o banco financiador da hidrelétrica, também é responsável pela fiscalização do cumprimento das chamadas condicionantes. O Dossiê do ISA é claro a este respeito:

“- Sendo um banco público de desenvolvimento, a instituição deveria ser a primeira interessada na promoção de processos inovadores de controle social, que fortalecessem as comunidades locais atingidas pelos empreendimentos por ele financiados.”

O BNDES contratou uma auditoria independente para averiguar o cumprimento das condicionantes socioambientais. O Instituto Socioambiental entrou com pedido de informações com base na Lei de Acesso à Informação, que obriga as instituições públicas a responder aos questionamentos. Não houve resposta, inclusive recorreram a CGU para validar o pedido. Receberam um resumo de algumas averiguações.

“-A atual política de responsabilidade socioambiental do BNDES não foi capaz de identificar e equacionar adequadamente os riscos socioambientais de Belo Monte, nem durante sua fase de análise prévia, nem ao longo de sua execução e de acompanhamento do financiamento”, conclui o relatório do ISA.

Quem vai pagar a ligação na rede de esgoto?

Uma questão prática e fundamental. Quem vai pagar pela ligação da rede de coleta e esgoto implantada pela Norte Energia e quem vai operar a Estação de Tratamento? O engenheiro sanitarista da prefeitura de Altamira, Raimundo Nonato Monteiro, disse em entrevista publicada no Dossiê Belo Monte o seguinte:

“- Para se construir um sistema desses tem que comprar no mínimo três canos de 100 metros, duas caixas coletoras, mandar esgotar e entupir a fossa, para depois ligar o ramal. Isso além de ter que adaptar o banheiro, comprar caixa de gordura, mais os custos da construção e outros equipamentos. Aqui em Altamira pode custar até R$ 3 mil”.

Esse é o custo que a população de Altamira terá que pagar para fazer a ligação da residência com a rede coletora. A Estação de Tratamento, com 13 elevatórias e 10 caixas d’água necessita entre 20 e 25 pessoas, mais um custo de manutenção mensal entre R$ 200 e 500 mil, segundo o engenheiro Raimundo Monteiro. Ninguém sabe quem pagará esta conta. E a Norte Energia está contando os dias para receber a Licença de Operação e a população corre o risco de ter todo o esgoto jogado dentro do reservatório de 516 km da hidrelétrica.

A região ficará com 30% da mão de obra contratada

A construção de Belo Monte revela a problemática de construir uma obra desse porte no interior de um dos componentes principais do sistema climático mundial, que é a Amazônia. Numa época de democracia formal, que ainda vale mais para o sul e sudeste, do que para o Norte e Nordeste. Um contingente da Força Nacional está em Belo Monte desde 2011. O Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB), que atua na região está com um interdito jurídico, que proíbe qualquer tipo de manifestação contra a Norte Energia, com pena de pagar multa diária de R$ 50 mil. Uma decisão judicial, que envolve inclusive o monitoramento das atividades do movimento e de suas lideranças.

A projeção dos acontecimentos para os próximos anos é pior ainda, considerando que as próprias análises dos impactos socioambientais consideram que 30% da mão de obra empregada na obra permanecerão na região. Muitos comprarão terras em loteamentos rurais dentro das terras indígenas ou nas unidades de conservação. O aumento da população aumenta o consumo de madeira, de peixes, de alimentos em geral e isso impacta a floresta e seus habitantes de forma trágica. Pior: o planejamento que envolve a construção de hidrelétricas na Amazônia foi feito durante a ditadura – o primeiro estudo de Belo Monte, na época Kararaô foi realizado pela Cenec, a consultoria da Camargo Correa, que é uma das construtoras de Belo Monte, juntamente com Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, e outras, enfim, a nata do setor no Brasil.

Em 2008, a COPPE fez um estudo sobre mudanças climáticas e a segurança energética no país. O estudo aponta para uma redução de 30% na vazão dos principais rios como São Francisco, Parnaíba e também da Amazônia. Os burocratas do setor energético, formados pela ditadura militar, continuam ignorando estes estudos no planejamento, embora o Brasil vá para o segundo ano com as térmicas, movidas a carvão e a óleo diesel, ligadas como segurança do sistema nacional de operação do setor elétrico. ]

Najar Tubino

Carta Maior.