Onde estávamos enquanto a ditadura nos matava?

Bolsobra
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Os veículos de comunicação e a academia estão correndo para ajustar a nossa história após a revelação da CIA (a agência norte-americana) dando conta de que Ernesto Geisel não apenas estava ciente como ainda autorizava a morte de opositores ao “regime”.

Estava essa gente aonde, pois no quarto livro (“ditaduras”) de Elio Gaspari a informação já estava contida.

Mais desatentos ainda estão alguns (supostos) esquerdistas que esperam vivamente ansiosos para o tempo em que a CIA irá revelar o que eles chamam de golpe que levou Lula à prisão em Curitiba.

Trata-se de uma espera no mínimo esdrúxula, pois não são esses mesmos (supostos) esquerdistas quem denunciam as tramóias (seriam golpes ou fraudes também?) da CIA “contra os interesses nacionais” (sic).

Não devemos, no entanto, nos vexar com essas contradições todas, até porque tanto os meios de comunicação quanto a academia são bastante preguiçosas, ao ponto de sempre esperarem por alguém que lhes derrube no colo algumas informações relevantes, capazes de alterar os rumos dos acontecimentos históricos.

Mas aqui vamos, igualmente, reservar um cantinho para as nossas próprias benevolências, lembrando que sempre soubemos, embora não tivéssemos provas, de que a ditadura não apenas estava ciente como autorizava as matanças e as torturas.

Quem mais faria isso?

Éramos meio avoantes, ou como diria minha mãe, andávamos no mundo da lua (portanto, bem antes dos americanos), mas ninguém poderia nos chamar de ingênuos e de desinformados.

Para ficar na mesma história, desde sempre sabíamos das operações da marinha norte-americana na costa brasileira, dando apoio explícito à ditadura militar, e pronta (a marinha norte-americana) para entrar em ação a qualquer momento.

Nos ofendiam vivamente, dizendo que éramos comunistas (veja como o mundo dá voltas para cair sempre no mesmo lugar comum!) e antiamericanos (sic).

Realmente não tínhamos provas da presença da marinha dos EUA, como não tínhamos provas das autorizações de matanças e torturas, mas ninguém poderia nos chamar de ingênuos e de desinformados.

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Ernesto
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As revelações de documentos da CIA (a agência norte-americana) a respeito da responsabilidade do ditador Ernesto Geisel na eliminação de opositores e adversários da ditadura militar não deveriam surpreender ninguém.

Olhando-se pelo prisma da prática repressiva, a ditadura militar brasileira fez um trabalho “perfeito”, tanto que praticamente aniquilou com facilidade e rapidamente os opositores e as guerrilhas rural e urbana, como ainda teve tempo de exportar mecanismos repressivos para países vizinhos – na Operação Condor.

Seria inimaginável, isso sim, que Geisel ou outros ditadores quaisquer não tivessem conhecimento do que ocorria nos chamados “porões da ditadura” e a eles não dessem aval e ordens.

Nesse sentido, é irrelevante o que publicou a Folha de São Paulo, há alguns anos, denominando a ditadura brasileira de “ditabranda” – um neologismo ridículo e provinciano, usado para fazer comparações impróprias com o que ocorreu no Chile, na Argentina e no Uruguai.

Portanto, não creio que, como muito gente está açodadamente já dizendo e escrevendo, a revelação vá servir para desmoralizar o jornal paulista, que cometeu a temeridade de dizer essa estupidez.

Há também, e isso até mesmo dentro da “grande imprensa”, quem veja no fato um detonador para a campanha de Jair Bolsonaro.

Aqui igualmente trata-se de um açodamento bobo e infantil.

Na prática, porém, o fato não deve mexer com um ponto sequer nas pesquisas de intenção de votos que hoje apontam Bolsonaro como líder – sem o Lula.

Mais provável é que as revelações da CIA venham alavancar a candidatura do parlamentar fluminense ou, na pior das hipóteses, a ele serem indiferentes.

A parcela da sociedade que apoia no parlamentar fluminense almeja isso mesmo: que os “inimigos comunistas” sejam eliminados a qualquer custo.

Se Bolsonaro for “esperto” e ”suficientemente cínico” deverá surfar nessa onda.

As esquerdas, por seu turno, deixaram passar uma oportunidade espetacular no mês de junho de 2013, quando se iniciaram os protestos de rua em São Paulo.

Menosprezaram aquela parcela jovem da sociedade brasileira, estigmatizaram a classe média nacional e o resultado não demorou a aparecer; resultado que deverá ter um desfecho bastante indigesto para as esquerdas nas eleições deste ano, correndo-se, inclusive, o risco de a população nacional eleger exatamente um sujeito como Jair Bolsonaro e um congresso pior do que este que aí está. (MTS)