“Comunidade científica é contra contratação de empresa para monitorar Amazônia”

Academicos[Uma afronta ao país e à ciência e tecnologia nacional. Assim declaram a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) sobre a contratação de empresa privada para fazer o monitoramento da Amazônia. As entidades enviaram na última semana uma carta ao presidente da República, Michel Temer, apontando os problemas advindos do prosseguimento ao pregão eletrônico nº 07/2017, que trata do assunto.

A SBPC e a ABC ressaltaram a surpresa e a indignação “nas comunidades científicas brasileira e internacional da decisão do Ministério do Meio Ambiente (MMA) de contratar empresa privada para fazer o monitoramento do desmatamento da região Amazônia por sensoriamento remoto”. O ministério teria justificado que o contrato que pretende estabelecer com a empresa visa acrescentar tecnologias não disponíveis no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que realiza o monitoramento.

Contudo, as entidades destacam no documento que apesar de o monitoramento ser realizado pelo Inpe desde 1989, “com tecnologia, competência e propriedade reconhecidas internacionalmente”, o instituto não foi consultado pelo MMA sobre a possibilidade de incluir outros recursos tecnológicos em seus programas de monitoramento da região.

De acordo com a carta, ao ser uma atividade realizada com independência por uma instituição de pesquisa, o monitoramento feito pelo Inpe oferece, além de confiabilidade, transparência e isenção. “O fato de o Ministério do Meio Ambiente vir a poder avaliar os resultados do trabalho que é sua atividade-fim configurará explícito conflito de interesses, portanto uma prática desaconselhável em nome da boa gestão pública.”

Além disso, o documento lembra que o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) também não foi consultado sobre possibilidades de ampliar ou aperfeiçoar o monitoramento da Amazônia.

Veja a carta na íntegra aqui.]

Agência Abipti, com informações da SBPC.

“Quando os cientistas escreviam bastante para jornais”

[No início do século passado, médicos e cientistas escreviam com regularidade para jornais, muitas vezes com uma linguagem rebuscada. Em um artigo na primeira página d’OEstado de S.Paulo em 1909 o médico Olympio Portugal comparou a tuberculose, “mais ou menos silenciosa em seus ataques, solapando no intimo, lenta e recatada, sem grande aviso de dores”, com o câncer: “Esse doe, amargando os curtos silencios do paciente com o lance inesperado de punhaladas vivas; corróe; ulcéra; deixa escorrer de si tão repulsiva sânie que exhala, como nenhuma, um fetido que humilha. E quando, baixo a baixo, anemiado e exhausto, côr de palha, o paciente não conta mais com a harmonia dos humores, – arrebenta a sua chaga em sangue, rutilando sobre as miserias da carne morta e putrefacta a ironia vermelha da vida que se esvae”.

O médico carioca Floriano de Lemos escreveu sua Crônica Científica no Correio da Manhã, do Rio, de 1906 a 1965, também com pretensões literárias, como ao relatar uma nova forma de tratamento contra o câncer que o médico paulista Carlos José Botelho Jr. tinha trazido de Paris e testava em um hospital do Rio de Janeiro, em 1933: “Estranhos tecelões, os sábios não desanimam, perdendo dias e noites à procura do fio precioso. O trabalho é lento. A verdade não conhece a pressa”. Botelho já tinha desenvolvido um novo diagnóstico dos tumores malignos, a reação de Botelho, “aceita naquela época e confirmada em todo o universo”, assegurou Lemos. Em consequência do teste, ele afirmou: “Mr. Botelho tornou-se, até mesmo, popular em Paris”.

Josué de Castro, médico recifense e autor do clássico Geografia da fome, escreveu nas décadas de 1930 e 1940 sobre alimentação no Diário da Manhã e A Província, ambos de Recife, e depois em A Manhã – que publicou o suplemento “Ciência para todos” em 1948 e 1949 – e Diário Carioca, do Rio, sobre alimentação e saúde. “Desta maneira, ele conquista credibilidade com os formadores de opinião pública, demonstrando capacidade de transferir conhecimentos sobre saúde individual e ao mesmo suscitando o interesse público pelas questões de saúde coletiva”, comentou José Marques de Melo, professor da Universidade de São Paulo e autor de vários artigos e livros sobre jornalismo científico, ao apresentar o trabalho de divulgação científica de Josué de Castro em um artigo de 2005.

O Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, reuniu vários médicos e pesquisadores dispostos a escrever para um público amplo na página dominical de Ciência, publicada uma vez por mês, de 1958 a 1962. Ali estavam, assinando os textos e às vezes também como entrevistados, o naturalista Ayrton Gonçalves da Silva (o mais assíduo, com 136 matérias), os médicos Paulo de Góes, Jorge Guimarães, Bruno Alípio Lobo, os físicos José Leite Lopes, José Goldemberg e Hervásio de Carvalho, o geneticista Oswaldo Frota Pessoa, o zoólogo Paulo Sawaya, o botânico Luiz Labouriau, o antropólogo Darcy Ribeiro, as historiadoras Maria Yedda Linhares e Eulária Maria Lobo e o educador Anísio Teixeira, todos ligados a instituições de ensino e pesquisa.

Escrevendo para o jornal, “havia um grupo extremamente ativo de cientistas que procuravam o apoio da opinião pública a favor da ciência”, comentou o bioquímico Leopoldo de Meis, que nessa época trabalhou como repórter no Jornal do Commercio quando ainda cursava medicina, em uma entrevista para o livro Um gesto ameno para acordar o país: A ciência no Jornal do Commercio [1958-1962], de Luisa Massarani, Claudia Jurberg, Leopoldo de Meis. Como as instituições federais de apoio à pesquisa eram “recém-criadas e ainda muito pequeninas”, observou Meis, os cientistas “procuravam difundir a ciência e fazer pressão onde fosse possível para conseguir aumentar os recursos necessários para essas agências”.]

Artigos

CAMPOS, R. D. Floriano de Lemos no Correio da Manhã, 1906-1965, História, Ciências, Saúde – Manguinhos. v. 20, 2013, p. 1333-52.

MELO, J.  M. A Divulgação científica na obra de Josué de Castro. Razón y Palabra, v. 43, 2005.

Livro

MASSARANI, L. (ed.) Um gesto ameno para acordar o país: A ciência no Jornal do Commercio (1958-1962). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2011
ESTEVES, B. Domingo é dia de ciência: História de um suplemento dos anos pós-guerra. Rio de Janeiro: Azougue, 2006. Resenha.

Link http://revistapesquisa.fapesp.br/2015/08/13/quando-os-cientistas-escreviam-bastante-para-jornais/