A feiura não assusta, o que assusta é a estupidez

Feia
Reprodução: YouTube

Hoje uma jovem blogueira estava reclamando na Folha de São Paulo/UOL que pelas razões mais banais do mundo as pessoas se referem às mulheres chamando-as de “feias”.

Ela anotou ainda que a prática se disseminou muito pelas redes sociais.

Aos homens normalmente nos referimos chamando-os de filhos-da-puta, veados e de outras delicadezas do gênero.

Mas se você quer saber: dói mais chamar uma mulher de “feia” do que um homem de filho-da-puta ou veado.

Isso é bastante estranho, mas é assim mesmo.

Qual mulher aceita de bom grado ser chamada de feia? Nem as notoriamente feias (e mulher feia é que não nos faltam).

A esperança da jovem blogueira reside no fato (notório) de ainda estarmos na puberdade das redes sociais o que nos levaria a saber que quando chegarmos à maturidade (das redes) seremos, com quase absoluta certeza, civilizados, e não mais venhamos a chamar as mulheres de feias e nem os homens de filhos-da-puta e de veados.

Pode até ser que isso aconteça, mas com isso eu não me preocuparia tanto.

Acho que em tempos de redes sociais há uma outra bizarrice bastante pior e, creio, de resolução impossível.

Estou falando daquela prática corriqueira de “seguir” gente famosa nas redes sociais.

A cantora Annita, por exemplo, deve ter alguns milhões de seguidores.

Um jogador de futebol que disputou ou ainda está disputando a copa da Rússia tem mais seguidores do que a população de seu país (somando-se aí gente que no país do craque sequer tem acesso à internet).

O que explica isso?

Para mim é um fenômeno sui generis, irracional – portanto sem explicação.

Mas há ainda algo pior nesse descalabro todo.

As redes sociais foram criadas para unir as pessoas, juntá-las, seja em diálogos difusos e à distância, seja nas trocas de ideias e de informações, mesmo que essas trocas não passem de receitas de bolos.

Pois então, as redes sociais realmente nos unem, certo!

Errado! Elas nos separam, como todos nós já estamos carecas de saber, mesmo quem não é careca!

Mas espere que tem mais ainda!

Ok! Eu e você seguimos a Annita e o tal jogador de futebol.

E daí?

Eles sabem ao menos que nós existimos?

Em algum momento de suas carreiras, quando a decadência chegar (e vai chegar!), eles vão manter contato com você e comigo?

Márcio Tadeu dos Santos

Neymar Júnior é o cara – o resto é despeito, rancor e ódio

Neymar
Foto: REUTERS/Damir Sagolj

Neymar Júnior, ex-jogador de futebol do Santos, com passagem pelo Barcelona e (agora) atuando no PSG (França) não sai da mídia, pelo menos por daqui, mas não só, reconheçamos, seja por conta de seu cabelo, seja por sua namoradinha insossa e atriz de capacidade duvidosa, seja pelo seu futebol exuberante, futebol no qual a maioria dos nacionais leva fé para o país ganhar mais uma copa do mundo; fé que todos parecem ter, mesmo aqueles que dizem detestá-lo, odiá-lo, despreza-lo (ou perto disso).

Igualmente, então, “botam a maior fé” em Neymar Júnior aqueles que o identificam como o cara (favor não confundir o cara do Lula, na infelicidade precipitada de Osama, depois da enxurrada de denúncias que o cercam).

Todos, em uníssono, esperam ansiosamente pela redenção do futebol brasileiro, mesmo aqueles que teimam em menosprezar o esporte e o jogador nacional.

Neymar Júnior não é apenas o cara (pelo menos para nós, brasileiros) como teve a cara e a coragem (minha mãe diria “a pachorra”) de desprezar o Barcelona em meio a um contrato e se mandar para o França.

Os argumentos dos sem-argumentos são variados: Neymar Júnior foi pela grana do PSG; Neymar Júnior não queria permanecer à sombra do argentino Messi.

Pode ser qualquer uma dessa coisas juntas ou separadas, como igualmente pode ser pura birra de moleque (“muleke”) ou as três coisas juntas ou nenhuma dela.

Vai saber o que passa pela cabeça e pelas vontades do “muleke”?

A única coisa com concreta para se dizer a respeito é que há muito despeito e mágoa nessa parada, especialmente recordando-se que Neymar Júnior apoiou, na eleição presidencial de há quatro anos, um candidato preterindo a outra candidata.

Esse barril de pólvora no qual o Brasil foi lançado explode continuamente e antecipa a grande explosão (o nosso big bang) e nos jogou num denso lamaçal de banalidades, ignorâncias, intolerâncias capaz de destilar um liquido fedido, uma mistura nauseabunda e horrenda de política com futebol.

Vivemos tempos obscuros.

Márcio Tadeu dos Santos

Política, futebol e as nossas cascas de bananas

Maradona
Blog Vinicius de Santana: Maradona beija Pelé ao lado de Putim, em cerimônia da copa da Rússia.

Alguém estava-se referindo a uma fábula, da qual eu já ouvira falar, mas nunca lhe dei muita importância, sobre um sujeito que jogava cascas de banana para que ele mesmo escorregasse.

Não sei exatamente por que se proliferou a ideia de que apenas cascas de bananas possam provocar tombos. A rigor, boa parte das frutas (tropicais) tem essa capacidade e destaco aqui a casca da manga.

Mas, enfim, a história não é sobre cascas, mas sim sobre as armadilhas que criamos para nós mesmo e que no futuro nos parecerão ridículas e de difícil sustentação e alvo de escárnio de outras pessoas.

Não posso esquecer aqui (embora já esteja parcialmente esquecida) a história inverossímil do terço do papa “destinado a Lula” e uma historieta mais recente dando conta de que Maradona puxou, na estreia da Argentina na copa de Rússia, um coro de “olé, olá, Lula, Lula”.

Fôssemos um pouco mais atentos estaríamos nos perguntando que razões levariam o papa Francisco a se indispor com a justiça brasileira e com o próprio Estado nacional, Francisco que é chefe de Estado (Vaticano), a menos que ele quisesse mandar seus exército de cruzados invadir o Brasil e libertar o Lula.

Raciocínio semelhante deveria também nos levar a perguntar as razões que moveriam Maradona, por que “todos” os argentinos o seguiram nesse “olê, olá” e, ambos, acabariam por contaminar “todo o estádio” nessa gritaria pró-Lula.

Ver alguma lógica nesses dois acontecimentos é como buscar agulha em palheiro.

Futebol, a caixinha

Quando a seleção brasileira foi ao México para ganhar a terceira copa do Mundo saiu daqui debaixo de pedradas (não literal, mas irada e irônica).

As críticas eram ferozes e previam que o selecionado nacional dificilmente passaria pela fase de grupos.

Tratava-se de uma mistura de provincianismo/bairrismo com um ódio visceral à ditadura militar, aliás, ódio bastante justificado.

O que resultou da jornada brasileira no México é história bastante conhecida.

O Brasil chegou à Rússia, em 2018, segundo nós mesmos (ou pelo menos a maioria de nós), com um técnico inteligente e moderno e com o melhor elenco (quiçá o melhor de todos os tempo), prontos para, num piscar de olhos, “trazer mais um caneco para casa”.

Um empate na primeira rodada fez desmoronar o sonho e trouxe sérias dúvidas a respeito da inteligência do treinador e da capacidade do elenco.

Claro que tudo isso pode mudar na segunda partida ou pode aprofundar a desconfiança, desmentindo, porém, o clima de euforia que cercou o selecionado antes do embarque.

Ou seja, mais uma vez estamos nos precipitando, reféns que somos, nós, brasileiros, das aparências apressadas, precipitadas e quase sempre enganosas.

Leia também:

Genética dos Contos de Fadas – Hipérkubic

O privilégio da servidão – Blog da Boitempo

Cientistas fazem o primeiro entrelaçamento quântico “sob demanda” –  Hipescience

Márcio Tadeu dos Santos

Alguns exemplos de como o respeito e a solidariedade costumam andar ausentes no Brasil

Desert
Deserto / Reprodução

Apesar da baixa temperatura e de um chuvisco fui pela manhã a uma padaria próxima de casa.

É uma boa descida e depois, voltando, uma subida razoavelmente íngreme, frente à qual muita gente encontra dificuldades, inclusive eu.

Sei que não posso abusar do “menu”, mas vez ou outra vou à padaria tomar café com leite e comer “pão (francês) com ovo”.

Aqui em São Paulo se fala “pão francês”. Em outras regiões brasileiras se dão outros nomes ao pão, e o mais comum deles é “pão de sal”.

“Pão de sal” é um nome tão impróprio para identificar o produto quanto “pão francês”, que não existe e nunca existiu na França.

No portal Vila Mariana diz-se que : “A receita desse pão, branquinho e fofo, que cabe na palma da mão, surgiu no Brasil no começo do século XX e antes de 1914, data de início da Primeira Guerra Mundial… O nosso pão francês não tem muito a ver com os pães da França. Sua receita foi criada na tentativa de reproduzir um pão popular na cidade de Paris da época, curto, cilíndrico, com miolo branco e casca dourada, mas acabou por tornar-se bem diferente dele por conter um pouco de açúcar e gordura na massa”.

Só não está claro onde exatamente “nasceu” o “pão francês” brasileiro

O pão com ovo me reservou um incômodo: na hora de a atendente de balcão entregar  o pedido ela me deu um pão com manteiga na chapa e o “como ovo”, que era meu, a um sujeito que estava ao lado.

Reclamei imediatamente da troca mas não deu tempo para que a moça reagisse, pois o sujeito ao lado já tinha abocanhado a metade do “sanduba”

Ao lado da desatenção nada profissional da atendente, é de se perguntar como o sujeito ao lado não percebeu que o “sanduba”  era de ovo e não o que ele havia pedido?

Talvez, por que não, ele estivesse tentando aplicar aquela velha malandragem de “levar vantagem em tudo” – afinal “pão com ovo” custa mais que o pão com manteiga na chapa.

Resolvida a questão sanduíche saí e encontrei um jovem morador de rua que fica nas proximidades.

A história que conta é que seria de Sorocaba (interior de São Paulo) e fora cabeleireiro, mas que, ao longo da jornada de sua vida, que não é das maiores, passou a usar droga e foi parar nas ruas, provavelmente expulso pela família – o que, aliás, é uma história bem  recorrente.

Apesar dos percalços que a vida lhe impôs ele se mostrou muito preocupado comigo, que estava com uma alpercata e de bermuda “com esse frio”.

Não sei se o glutão  do “sanduba”, além de se apropriar do sanduíche alheio, teria um olhar condescendente para com o morador de rua.

Acho pouco provável.

Marcio Tadeu dos Santos

As razões que levam às razões custosas de entender

MundaoJá deu para perceber que greve não faz sucesso entre os meus parcos leitores.

Política faz um pouco, mas não muito.

Meus parcos leitores também não estão muito interessados nessas histórias ascensionais e de superações.

Pelo que pude apreender até agora, espero não estar muito enganado (só um pouco, aceito isso) eles gostam  das minhas historinhas, daquelas reminiscências – nem sempre verazes.

Gostam, também, creio eu, quando o assunto é linguagem, acho, principalmente os deslizes e os desvios que nós os jornalistas e comunicadores[1] (sic) cometemos.

Às vezes me aventuro pelas religiões (gostaria de me dedicar mais ao assunto, e talvez apenas dele tratar – mas esta não é uma tarefa das mais fáceis) e, aparentemente, a aceitação, neste caso,  é bastante boa.

Este público diminuto não é muito de “curtir”  ou de comentar, o que , me parece, uma boa opção, já que a maioria é formada por jovens e por  alguns não-jovens, mas  bastante joviais, de muito frescor, que vive num outro tempo e em um novo espaço.

Sintoma deste “hoje em dia”.

Estamos em tempo niilistas?

Talvez! Mas isso também soa desrespeitoso e, portanto , injusto e acusatório.

Mas, enfim,  que mal há nisso?

São pessoas que, apesar das aparências, gostam e consideram outras pessoas.

E que vagam por  ondas e por grupos não-fixos e nem uniformes e nem coesos, o que é uma marca, também, destes novos tempos.

Gente que não se deixa aprisionar por velhas ideologias, por  arcaicas utopias.

São viajante do tempo.

São viajante no tempo.

Nota

[1] Já que todos nos comunicamos, nunca entendi por que definir uma categoria em separado de comunicadores. Chacrinha dizia “quem não se comunicada, se trumbica” ( e não ‘estrumbica’ como alguns dizem.

“A morte da privacidade”

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Ilustração: Epoch Times[
[Encontrei um artigo intitulado “A morte da privacidade“, escrito por Alex Preston e publicado no The Guardian (online), há quase quatro anos. Mantendo a sua actualidade e profundidade de análise, merece ser lido.

O resumo é este:

O Google sabe o que você procura, o Facebook sabe o que você gosta. A partilha é a norma e o sigilo não é tido em conta. Quais são as consequências psicológicas e culturais do fim da privacidade?

Eis algumas ideias fortes:

Chegámos ao fim da privacidade, as nossas vidas privadas, ao contrário das dos nossos avós, passaram para o domínio da vergonha e do segredo. 

Através de muitas pequenas concessões que fomos fazendo progressivamente, destruímos direitos e privilégios pelos quais gerações anteriores lutaram, minando, assim, as bases da nossa personalidade. 

Chegámos a um ponto em que a maioria de nós aceita que as interacções sociais, financeiras e, até, sexuais ocorram pela internet e que alguém, em algum lugar, assista. Na verdade, tudo o que fazemos aí é impulsionado por fórmulas matemáticas complexas, que são invisíveis e misteriosas. 

Quando tomamos alguma consciência disto, sentimos uma nova forma de inquietação: estamos a ser investigados, processados e manipulados por via de uma inteligência artificial que tem por trás a inteligência humana.

Um exemplo é o projecto DRIP (Retenção de Dados e Investigações) no Reino Unido, que obriga as empresas que recolhem informações dos seus clientes a retê-las e armazená-las, podendo a polícia e o governo solicitá-las.  

Em geral, a princípio, observamos horrorizados este tipo de iniciativas, mas depressa passamos ao cinismo, pois temos ideia de que qualquer protesto da nossa parte será inútil. 

Importa perguntar: qual é o impacto pessoal e psicológico dessa perda de privacidade? Que protecção legal é oferecida a quem deseja defendê-la? 

Talvez seja tarde demais para fazer essa pergunta, pois chegámos a um momento em que o nosso quotidiano ultrapassou a ficção, ultrapassou as distopias, ultrapassou o “e, se…”. 

Recordemos, Yevgeny Zamyatin que concebeu, no seu romance We, de 1921, um “one state”, uma sociedade transparente sem privacidade. Seguem-se Orwell, Huxley, Bradbury, Atwood e outros que elegeram a usurpação da privacidade como um dos principais “ingredientes” do futuro totalitário. O romance The Circle, de Dave Eggers publicado em 2013, pinta um retrato de uma América sem privacidade: um império assente na internet pesquisa e controla a vida de todos, confiando na adesão ao seu lema: “Segredos são mentiras, compartilhar é cuidar e privacidade é roubo”. A heroína acaba por se desintegrar sob a pressão do escrutínio, tornando-se uma das hordas obedientes e sem rosto. Um outro romance recente – Meatspace, de Nikesh Shukla, publicado em 2014 – que explora a fusão das esferas do privado e do público, começa com as seguintes palavras da personagem principal, um escritor solitário cuja única ligação ao mundo é a internet: “a primeira e última coisa que faço todos os dias é ver o que estranhos estão dizendo sobre mim”. 

O nosso pensamento vai no sentido de julgar como suspeita qualquer coisa que se mantenha longe do olhar público, de modo que, menos alguns de nós, não querendo ser vistos como suspeitos, aceitam “partilhar” o que é privado. 

Mas talvez haja a razão mais importante que nos leva a ceder a essa “partilha” não seja, como alguns defendem, sermos  dóceis  ou ignorantes, incapazes de ver a complexa teia de interesses, sobretudo comerciais, que nos enredam; talvez seja porque entendemos perfeitamente a transacção que está em jogo. Ou seja, queremos manter a internet gratuita e sabemos que as empresas ganham dinheiro com algo que estamos dispostos a dar em troca, a nossa privacidade. Trocamos a privacidade pela riqueza de informações que a internet nos oferece, pela conveniência das compras on-line, pela aldeia global dos media. 

Essa troca leva-nos a aceitar o efeito normalizador da vigilância. Há uma auto-verificação do nosso comportamento quando sabemos que estamos sendo vigiados. É o “panóptico” de Jeremy Bentham, um modelo para as cadeia onde um único guarda podia observar uma prisão inteira, não importava se o guarda estava ou não a observar, a mera possibilidade de estar seria suficiente para garantir o cumprimento da norma. 

É neste ponto que nos encontramos, sob uma vigilância que pode parecer benigna, mas que denota um poder sombrio e controlador sobre todos. 

A mensagem subliminar que passa é se queremos mesmo manter algo privado, devemos tratá-lo como um segredo, mas de um modo semelhante ao que a personagem de 1984, Winston Smith, fez: “Se quiser manter um segredo, deve escondê-lo de si mesmo”. 

Aqui reside o maior risco de invasão da privacidade, desvalorizado por aqueles que aceitam alegremente os tentáculos da corporação entre as empresas, os media e os estados. Recorrendo a Don DeLillo, no seu livro de 2010, Point Omega, “você precisa saber de coisas sobre si que os outros não sabem. É o que ninguém sabe sobre você que permite que você se conheça”. 

Negando-nos o acesso aos nossos próprios mundos internos, desistimos daquilo que nos eleva acima da mera sobrevivência, daquilo que nos torna humanos. 

Perguntei a Josh Cohen por que precisamos de privacidade na nossa vida, a sua resposta foi um aviso: “precisamente porque a privacidade garante que nunca somos totalmente conhecidos pelos outros ou por nós mesmos, a privacidade constitui um abrigo para a liberdade, para a imaginação, para a curiosidade e para a auto-reflexão. Portanto, defender o eu privado é defender a própria possibilidade de vida criativa e significativa”.]

Publicado em De Rerum Natura.

“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo se mostraria ao homem tal como é, infinito”

A casa
Poltrona Nerd

Eu sou um sujeito que tem certa facilidade para enjoar das coisas e das pessoas.

O “certa facilidade” não entra acima apenas como retórica, até porque muitas vezes demoro um bocado para que esse enjoo me apareça.

Por exemplo, gostava muito de futebol mas aos poucos fui me desinteressando do esporte.

Foi assim com o cinema. Quando ainda era razoavelmente jovem, não havia “fita” à qual eu não tivesse assistido.

Depois migrei para a fase seletiva e posteriormente deixei de ir aos cinemas.

Hoje, quando muito, dou uma olhada nos filme disponíveis na internet, evitando os dublados.

Num dos capítulos (não lembro qual) de La casa de papel (que faz um bom sucesso na Netflix) uma das duas jovem do grupo de ladrões é acusada exatamente por não se fixar em nada, e, como eu, de desistir com certa pressa de tudo e de todos.

Quem a critica, a classifica como “imatura” – o que não deixa de ser um julgamento moral, e, portanto sem consistência.

Pois então: VIVA A IMATURIDADE!

Aliás, sobre La casa de papel hora dessas vou me fixar na série espanhola.

Até o momento não estou exatamente gostando do que vejo, pois a mim me parece um amontado de clichês, algumas “homenagens” – especialmente às séries e aos filmes norte-americano -, quando não, trechos inteiramente copiados dessas películas.

Mas, como disse acima, isso fica para um futuro que espero não distante, isso se eu também não desistir de continuar assistindo-a e, consequentemente, de abordá-la.

Embora eu ainda continue, nos meus textos, falando de política, começo a me enjoar desse quéquéqué todo a respeito de Lula e se é justo ou não que ele permaneça preso em Curitiba.

Até como uma boa desculpa, costumo cuidar de assuntos que estão acontecendo agora e daqui para frente.

Embora eu, às vezes, use o subterfúgio de falar do passado, mas como uma espécie da “gancho” para criticar o presente, ou aquilo que pressinto estar por acontecer no futuro.

Igualmente também não gosto de “finalizar” os assuntos; dá-los por acabado, como se fossem eles minhas opiniões definitivas.

Acho isso uma grande bobagem.

E pelo menos aqui creio estar na boa companhia de Aldous Huxley.

Aqui, a propósito, se impõe necessariamente o Prefácio de Manuel da Costa Pinto para as Portas da Percepção – Céu e Inferno, (Editora Globo) de Aldous Huxley. (MTS)

 . . . . . . . . . .  

A casa 02
Reprodução (capa Editora Globo)

[A alusão que Aldous Huxley faz ao poeta William Blake nos títulos de seus dois ensaios sobre as drogas alucinógenas não deve nos enganar: As portas da percepção (1954) e Céu e Inferno (1956) são meditações escritas à luz radiosa da razão, relatos de experiências com a mescalina que não conduzem a uma adesão imediata aos paraísos artificiais, mas sim a uma idéia de alargamento da consciência que não elide seu elemento reflexivo.

Essa observação é fundamental por causa da história nada desprezível da recepção de Huxley em um âmbito que ultrapassa os limites da chamada “alta cultura” (na qual ele havia se consagrado como autor dos clássicos Contraponto e Admirável mundo novo). No final dos anos 60, o compositor, cantor e poeta Jim Morrison criou na Califórnia uma banda de rock chamada The Doors, cujo nome fora inspirado na leitura de As portas da percepção. Morrison morreria em Paris em 1971, provavelmente de overdose, mas sua curta e fulminante trajetória — marcada não apenas pelo sucesso musical e por escândalos comuns dentro do universo pop, como também por uma produção poética que chegou a ser comparada à de Rimbaud — acabaria estabelecendo uma ponte entre a poética visionária de Blake, o erotismo sacrificial dos concertos dos Doors e a obra de Huxley, que assim ganharia uma aura de guru da contracultura.

Essa identificação estava sintetizada num trecho do célebre poema em prosa “O matrimônio do céu e do inferno” — “If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, infinite” (“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo se mostraria ao homem tal como é, infinito”, segundo tradução de José Arantes publicada pela editora Iluminuras). E, no entanto, a imagem de Huxley como uma espécie de profeta aristocrático da era hippie não parece resistir à leitura de As portas da percepção e Céu e Inferno. É bem verdade que ele mesmo alimentou a confusão ao colher os títulos dos ensaios nos aforismos de um poeta “maldito”, que mimetizou suas alucinações tanto com as palavras quanto em telas que representam personagens bíblicas em cenários apocalípticos. E também é verdade que Morrison estava sendo fiel à letra de Huxley ao conferir a suas experiências com mescalina e ácido lisérgico um caráter ritual inspirado no xamanismo: afinal, o escritor inglês escolhera a mescalina para seus experimentos justamente por causa da função sagrada que o peiote (raiz da qual é extraída a droga) desempenha nas religiões dos índios americanos.

O fato, porém, é que em nenhum momento Huxley parece buscar nos alucinógenos uma conversão mística ou uma ruptura absoluta com o mundo ordinário.

Tampouco parece movido por um desacordo essencial em relação aos cárceres psicológicos e perceptivos da realidade empírica. Enquanto Blake era um gnóstico para quem “o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”, Huxley fez do excesso de sabedoria e de curiosidade um caminho para o palácio do êxtase: é a razão que, percebendo sua insuficiência perante a pluralidade do mundo, busca uma abertura para novas formas de percepção que sejam uma alternativa ao solipsismo (essa perversão do idealismo) e ao behaviorismo (perversão do empirismo).

Nesse sentido, Aldous Huxley é um perfeito agnóstico.

Vale a pena fazer aqui um pequeno desvio para explicar a origem desse termo.

Afinal, a expressão “agnóstico” foi literalmente inventada pelo avô de Aldous — o eminente biólogo Thomas Henry Huxley — durante as acirradas polêmicas surgidas depois da publicação de A origem das espécies, de Charles Darwin, em 1859. Ferrenho defensor da teoria da evolução, Thomas Henry se viu na obrigação de rebater as críticas dos criacionistas (religiosos que faziam uma leitura fundamentalista das Escrituras, defendendo a idéia de que o homem foi gerado por Deus em sua conformação atual), formulando então um conceito que passou a ser um estandarte do antidogmatismo e da emancipação do pensamento:

Quando cheguei à maturidade intelectual e comecei a perguntar-me se era ateu, teísta ou panteísta, materialista ou idealista, cristão ou livre-pensador, percebi que quanto mais aprendia e refletia menos fácil era a resposta, até que por fim cheguei à conclusão de que nada tinha a ver com nenhuma dessas definições, com exceção da última. A única coisa em que todas essas excelentes pessoas estavam de acordo era a única coisa em que eu discordava delas.

Estavam bastante seguras de que tinham atingido uma certa ‘gnose’ — haviam, com maior ou menor sucesso, resolvido o problema da existência, enquanto eu estava bastante seguro do contrário e possuía uma convicção razoavelmente forte de que o problema era insolúvel. […] Portanto, meditei e inventei o que me parece ser um rótulo adequado: ‘agnóstico’. Pensei nele como uma antítese sugestiva dos ‘gnósticos’ da história da Igreja, que professavam conhecer coisas em que eu era ignorante.

Aldous Huxley foi um legítimo herdeiro do ethos iluminista e anti-religioso de seu avô. As Portas da percepção e Céu e Inferno são relatos pacíficos de uma experiência extraordinária e sugerem um autor que não transfere para a escrita as fendas e as instabilidades de sua paisagem interior. Estamos longe do estilo candente de um Thomas de Quincey ou de um Artaud — para citar dois outros escritores que associaram drogas a um estado de espírito demoníaco. Com Huxley, estamos mais próximos do ceticismo moderno de Montaigne ou Hume; ele desconfia igualmente do totalitarismo da razão e das quimeras de nossa imaginação e só se interessa por estas últimas em sentido antropológico, como uma fresta por onde se pode sondar a alma humana Mesmo quando tematiza as drogas em obras de ficção, o escritor inglês parece estar preocupado menos com o transe que elas provocam em personagens individuais do que com seus efeitos sobre o mecanismo psicológico das massas — caso dos narcóticos imaginários consumidos no universo asfixiante de Admirável mundo novo (o soma, que provoca um bem-estar politicamente anestesiante) e na sociedade utópica do romance A ilha (a moksha, uma pílula que “liberta do cativeiro do próprio ego”). Talvez seja por isso, por essa falta de predisposição ao fantástico (“sou e, até onde minha memória alcança, sempre fui pouco dado a devaneios”), que, ao provar pela primeira vez a mescalina, em 1953, Huxley tenha descoberto não um novo continente, mas um novo olhar sobre cenários familiares: “Nada de paisagens, espaços abissais, mágico crescimento e metamorfose de edificações, nada que lembrasse, por remoto que fosse, um drama ou uma parábola. O outro mundo ao qual a mescalina me conduzira não era o mundo das visões; ele existia naquilo que eu podia ver com meus olhos abertos. A grande transformação se dava no reino dos fatos objetivos.

O que tinha acontecido a meu universo subjetivo era coisa que, relativamente, pouco importava”. A essa ausência de figuras sobrenaturais, porém, corresponde a perplexidade diante do caráter transcendente que os objetos adquirem a partir da alteração do estado de consciência de quem os observa. Descrevendo as transformações que sofrem as flores de um vaso, uma cadeira ou um simples pedaço de tecido na percepção de alguém que ingeriu a droga, Huxley nos revela o “milagre do inteiro desabrochar da existência em toda sua nudez” e uma nova dimensão de tempo, “um perpétuo presente, criado por um apocalipse em contínua transformação”.

A despeito das referências de Huxley ao taoísmo e a místicos como são João da Cruz ou Swedenborg, essa “visão sacramentai da realidade” proporcionada pela mescalina se restringe a um plano estritamente natural.

Huxley admira os estados de espírito extáticos porque eles proporcionam exemplos do caráter irredutível da existência — e, sob esse aspecto, o uso argumentativo que Huxley faz de Buda e de Mestre Eckhart tem uma surpreendente semelhança com o sentido que este grande nome da mística renana ou o filósofo japonês Nishida adquirem na obra de Heidegger. De resto, quando Huxley descreve sua percepção “narcotizada” de uma cadeira como “minha Despersonalização na Desindividualização que era a cadeira”, a frase parece remeter exatamente à distinção que o filósofo de Ser e tempo faz entre o ente manipulável (tal qual instituído pela razão instrumental) e o ser autêntico (cuja eterna irrupção fora encoberta pela dicotomia sujeito-objeto e seria redescoberta pela superação heideggeriana da metafísica).

À diferença de Heidegger, porém, Huxley considera que tanto o esquecimento da totalidade do ser quanto seu oposto — a abertura da consciência para a irrupção dos acontecimentos —- são um fenômeno do mundo biológico.

Para ele, o cérebro e o sistema nervoso seriam uma “válvula redutora”, que evita — por meio do caráter seletivo da memória e das restrições impostas pela linguagem — que o homem seja esmagado pela torrente de informações a que sua “onisciência” potencial estaria sujeita.

Seria um anacronismo tentar avaliar a correção dessas afirmações a partir das descobertas recentes das neurociências. Nem As portas da percepção nem Céu e Inferno são tratados científicos. Huxley cita vários pesquisadores de seu tempo, consulta especialistas, explica a ação química dos diferentes tipos de drogas, defende suas virtudes e aponta seus malefícios — mas parece se guiar sobretudo por aquele espírito de curiosidade intelectual formulado por Montaigne na aurora da modernidade. Céu e Inferno — texto que dá continuidade às experiências relatadas em As portas da percepção — é uma cartografia da mente cuja analogia entre os estados possíveis da consciência e as zonas do globo (com sua diversidade de fauna e flora) deve muito à descrição, feita nos Ensaios de Montaigne, das “maravilhas” encontradas pelos navegantes nos antípodas das terras civilizadas.

Em Céu e Inferno, essas metáforas geográficas expressam “a dessemelhança essencial das regiões longínquas da mente” que as drogas permitem desbravar. Para o leitor de hoje, elas têm também um significado ético: ensinam a olhar com tolerância e compreensão para essas pequenas epifanias que nos consolam de um mundo em que o prazer é mercantilizado pela indústria do combate ao narcotráfico e em que a mente é agenciada pelos psicofármacos. Aliás, a proliferação atual das drogas normalizantes — que reduzem o cérebro a uma glândula e transformam a existência num protocolo — torna ainda mais urgente a necessidade de transcendência que podemos detectar pela onipresença do uso de alucinógenos nas mais variadas culturas. Como escreve Aldous Huxley : “Parece extremamente improvável que a humanidade, de um modo geral, algum dia seja capaz de passar sem paraísos artificiais. A maioria dos homens e mulheres leva uma vida tão sofredora em seus pontos baixos e tão monótona em suas eminências, tão pobre e limitada, que os desejos de fuga, os anseios para superar-se, ainda por uns breves momentos, estão e têm estado sempre entre os principais apetites da alma”. ]

“Sem emenda – Ódios do tempo presente”

Politicamente correto
Tribuna da Internet

[Chamam-lhes movimentos tribais. Reflexos ou populismo de tribo. Também há quem diga fanatismo e respectivas hordas ou mesmo fanatismo nacionalista. Os mais específicos falarão de supremacia branca, de racismo e de xenofobia. Eis umas tantas designações correntes para estes fenómenos actuais ou ódios contemporâneos. Estes termos parecem estranhamente empenhados em denunciar comportamentos brancos, de preferência europeus e americanos. Todos eles com inimigos declarados: negros, árabes, indianos e chineses e ainda uns acrescentos de muçulmanos, ciganos, romenos e outros imigrantes.

Acontece que estes comportamentos e estes valores, reais e detestáveis, não são únicos e são exactamente iguais a outros, simétricos e também detestáveis, de negros, árabes e indianos, contra os brancos e mesmo uns contra os outros. E todos se parecem com outros, não menos tribais, não menos fanáticos e também totalmente detestáveis: os das claques desportivas, das ideologias partidárias e dos ódios de classe…

Lamentavelmente, há sempre duas medidas. Se o racismo for dos brancos, dos cristãos e dos europeus, não tem perdão. Se for dos negros, dos muçulmanos e dos africanos, tem desculpas.

Se a xenofobia for prática corrente de brancos, europeus e cristãos, trata-se de odiosa forma de estar no mundo, de despotismo de exploradores e de intolerável egoísmo. Se for a rotina de negros, índios, Indianos, chineses, árabes e ciganos, são as reacções naturais de defesa e da dignidade.

Se o tribalismo for de partidos políticos ou de classes sociais, é forma superior de consciência de classes e de empenho cívico. Mas se for de nação ou região, é a deriva fascista e o populismo soberanista opressor.

Verdade é que os ódios do tempo presente têm estas formas de se exprimir. Umas são desculpadas pelas modas, outras não, mas todas igualmente destruidoras da razão. No Parlamento, a ira, a falta de cortesia e a agressividade são semelhantes às que se exprimem no estádio de futebol. Está em vigor o princípio segundo o qual o radicalismo adversário é fonte de orgulho e de razão. Quando é exactamente o contrário. A agressividade e a hostilidade adversária são estéreis, destinadas a regimentar e não a fundamentar. Diz-se que a ruptura entre esquerda e direita salva a democracia e clarifica argumentos. Nada mais enganador. Em todos os momentos difíceis da vida de um país, foi necessário fazer convergir esforços e razões. Na vida política e social da democracia, a ruptura não é saudável. Quando acontece, vencem a revolução, o caos, a ditadura e a corrupção.

São os reflexos condicionados que fazem com que se julgue a corrupção com dois pesos. Se for da direita, da banca, das grandes famílias, das empresas e dos patrões, é excelente ou inexistente para a direita, mas péssima e condenável para a esquerda. Mas, se for da esquerda, dos socialistas, dos comunistas e aparentados, ou não existe ou tem perdão por ser popular, mas péssima e pecaminosa para a direita. Ambas, esquerda e direita, consideram que a única corrupção com direito à existência é a sua própria. Ambas só têm olhos para a corrupção da outra.

Diz-se hoje que a corrupção é de classe e o terrorismo é político. Ora, cada vez mais se percebe que não têm cor nem ideologia, que a esquerda é tão corrupta quanto a direita, que a esquerda recorre tanto ao terrorismo quanto a direita. O terrorismo e a corrupção já não têm ideologia, nem classe, nem política, nem filosofia, nem desculpa! São os ódios do tempo presente. São os inimigos das liberdades e dos direitos dos cidadãos.

Certos estilos de governo e alguns géneros de liderança são também objectos destes dois pesos. Putin, Trump, Fujimori, Chavez, Maduro, Lula, Berlusconi ou Sócrates: bons exemplos do modo como gestos iguais, estilos semelhantes e métodos afins têm uma valoração moral e uma classificação política muito diferentes. Na política, como na guerra. Ou como na banca e nos estádios. O princípio é simples: os meus favoritos podem mentir e roubar; podem enganar e trair; podem matar e destruir: o que lhes peço é que sejam eficientes e destruam os adversários. E que o árbitro não veja.]

Publicada por António Barreto para o site Jacarandá – (DN, 15 de abril de 2018)

Os índios bem que insistiram, mas nós não aprendemos nada com eles

Luta_indigena
Xingu (peuple) – Wikiwand- wikiwand.com

O jornalista Washington Novaes conta uma história interessante de quando de sua primeira ida a uma aldeia indígena.

Novaes é hoje um jornalista ambientalista, com ligações com o indigenismo, o que quer dizer mais ou menos a mesma coisa – indigenismo = ambientalismo.

Conta Novaes que quis tomar um banho nessa sua primeira visita, e buscou se dispor que toda parafernália que costumamos usar nessas ocasiões, apenas não abrindo mão da toalha, do sabonete, do calção e do chinelo.

Vale ressaltar aqui que normalmente as “casas de banho” (como se diz em Portugal) indígenas são rios ou lagos e normalmente ficam em áreas mais baixas que os aldeamentos.

Ao descer para o “banho”, o jornalista deparou-se com um indígena que estava subindo, já banhado, todo nu, sem sabonete, toalha, chinelo e calção.

Trata-se de uma cena extraordinária, uma lição sem palavras, sem discursos e sem afetações.

Uma lição dada por quem vive sem pudor, sem os filtros sociais e religiosos que costumamos carregar por nossas vidas.

Numa de minhas primeiras idas a aldeias indígenas (quando ainda atuava no Cimi – Conselho Indigenista Missionário), neófito, portanto, busquei igualmente um lugar para me banhar.

Um dos índios indicou-me o lugar, um lago, mas para minha surpresa banhavam-se no mesmo local meninos e meninas e algumas mulheres.

Meu filtro moral indicou-me que voltasse para a aldeia sem me banhar.

Os indígenas, principalmente os homens, se divertiram um bocado com a história.

A questão indígena e a nossa incapacidade de compreendê-los, no entanto, não se resumem a simples banhos ou festas, como se vê na foto acima.

No link que pode ser acessado aqui (https://www.youtube.com/watch?v=XKxO1Px4F5s&t=495s) o professor Sergio Lessa mostra como o Capitalismo se apropria do conhecimento e das práticas das sociedades primitivas, transformando-as em valor e marginalizando homens e mulheres, pois no sistema capitalista não há lugar para todos.

Abusadamente acrescento um remendo ao que diz o professor Lessa, lembrando que as experiências socialistas, como por exemplo, a soviética e a chinesa, foram pródigas no desrespeito e na violência contra as sociedades primitivas, como foram os casos da violenta repressão à religiosidade xamânica, na URSS, e a invasão do Tibet pela China.

A questão, portanto, parece ser de outra ordem, não de sistema (capitalista ou socialista) mas de modelo (desenvolvimentista).

O que choca, sejam capitalistas, sejam socialistas, é a capacidade que as sociedades primitivas têm de partilhar, de tornar tudo (cultura e bens) “coisas comuns”, a serem comungadas, comunistas, de todos para todos, indistintamente.

Daí ser possível entender a razão dos massacres perpetrados pelos europeus nas Américas, na África, na Ásia e na Oceania.