Ler tornou-se um tenebroso exercício estafante e quase inútil

Maria Rita
Foto Blog Boitempo

Definitivamente não tenho mais paciência para certas leituras.

Acho isso uma coisa boa, pois assim evito muitos dissabores.

Já me chegam as chatices e as baboseiras às quais tenho de presenciar e de ouvir diariamente.

Agorinha mesmo estava tentando ler um artigo no Blog da Boitempo, de Tals Ab’Saber, a respeito do novo (sic) livro da psicanalista Maria Rita Kehl – A psicanálise diante do quebra-cabeça inacabado do Brasil –, o “Bovarismo brasileiro”.

Até que me esforcei na busca de ler todo texto de Ab’Saber, mas desisti de início.

Sempre achei que Maria Rita Kehl, apesar de esforçadinha e aparentemente honesta, fala da mesma coisa – num inacabável exercício de recorrências.

Precisamos – mas creio que não iremos conseguir – fugir desse tipo de recorrência cansativa e enfadonha.

Minha mãe, cujo primeiro ano de falecimento completa-se neste 27 de maio, não estudou, quer dizer, estudou até o antigo primário; pouco lia,  mas lia, principalmente a bíblia (depois que se tornou evangélica), mas, em contrapartida, era um bocado observadora, como toda boa anarquista que era, embora não soubesse que fosse.

Pois bem: ela  costuma afirmar que gente que estuda muito “acaba ficando doida” e falando bobagens em demasia.

É dela também (embora não originalmente dela) que esse tipo de gente “vive no mundo da lua”.

Queria dizer ela que essa gente se desconecta do mundo real, por preferir viver numa bolha;  habitantes que são de um mundo virtual, que presumem ideal.

Resumindo bem a história na sua essência: a questão a saber é em até que ponto esse blábláblá todo de livros, teses, doutorados, matérias jornalística contribui efetivamente com nós outros; nós,  seres finitos.

Parece que muito pouco ou quase nada, como podemos ver pelos inúmeros desencontros aos quais estamos submetidos e aos quais pensadores (sic) do porte e da importância de  Maria Ria Kehl ajudam a nos afundar nesse lamaçal de incompreensões e de delírios.

No geral, a sapiência de minha mãe indica que está na hora de deitarmos fora esse blábláblá todo para assumirmos, isolada ou coletivamente, as nossas  vidas, aprendendo com os nossos erros e nos regozijando com nossos acertos. (MTS)

“Mais Séneca e menos ansiolíticos”

Seneca
Reprodução

O título acima abre o texto de Juan Arnau, para o El País, texto que segue praticamente na integra abaixo, “Vaidade sem controle, obsessão pela segurança, aceleração tecnológica … Por que tantas pessoas procuram na filosofia da Antiguidade respostas para o mundo em que vivemos?”

Antes, segue parte do verbete da Wikipédia a respeito do advogado, escritor e intelectual do Império Romano,

[Lúcio Aneu Séneca (português europeu) ou Sêneca (português brasileiro) (em latim: Lucius Annaeus Seneca; Corduba4 a.C. — Roma65) foi um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano. Conhecido também como Séneca (ou Sêneca), o Moço, o Filósofo, ou ainda, o Jovem, sua obra literária e filosófica, tida como modelo do pensador estoico durante o Renascimento, inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista.

Sêneca foi simultaneamente dramaturgo de sucesso, uma das pessoas mais ricas de Roma, estadista famoso e conselheiro do imperador. Sêneca teve que negociar, persuadir e planejar seu caminho pela vida. Ao invés de filosofar da segurança da cátedra de uma universidade, ele teve que lidar constantemente com pessoas não cooperativas e poderosas e enfrentar o desastre, o exílio, a saúde frágil e a condenação à morte. Sêneca correu riscos e teve grandes feitos.]

. . . . . . . . . .

[Logo após a morte de Cláudio, ocorrida em 54, o escritor vingou-se com um escrito que foi considerado obra-prima das sátiras romanas, Apocolocyntosis divi Claudii (“Transformação em abóbora do divino Cláudio”).[4] Nessa obra, Séneca critica o autoritarismo do imperador e narra como ele é recusado pelos deuses. Seu irmão, Lúcio Júnio Gálio,[5] também ridicularizou Cláudio, fazendo uma analogia com as pessoas executadas, que eram levadas ao Fórum Romano puxadas por ganchos: ele disse que Cláudio havia sido elevado aos céus puxado por um gancho.[6]

Quando Nero, aos dezessete anos, tornou-se imperador, Séneca continuou a seu lado, porém não mais como pedagogo e sim como seu principal conselheiro (ajudado por Afrânio Burro, prefeito do Pretório). Sêneca procurou orientar para uma política justa e humanitária. Se, durante os primeiros sete anos, o governo de Nero lembra o de Augusto, o mérito exclusivo é desses dois homens que, na realidade, governaram ao lado do jovem príncipe. A índole de Nero foi mitigada, corrigida, freada. Mais tarde, porém, a malvadez de Nero teve o predomínio. Séneca, durante algum tempo, exerceu influência benéfica sobre o jovem, mas, aos poucos, foi forçado a adotar atitudes de complacência. Chegou mesmo a redigir uma carta ao senado na qual se alega que tentou justificar a execução de Agripina em 59. Séneca sabia que a maior culpa por sua morte havia sido da própria Agripina, que pretendia imperar e que se tornara hostil por ambição, capricho e corrupção; sua raiva crescente só fez aumentar a vingança matricida de Nero, que não deu mais ouvidos às palavras severas de seus dois conselheiros. Séneca foi, então, muito criticado pela fraca oposição à tirania e à acumulação de riquezas de Nero, incompatíveis com as concepções estoicas. Conforme concluiu o emérito professor Giulio Davide Leoni, o destino foi, em parte, malvado para com Séneca, fazendo chegar até nós as acusações e perdendo as defesas. Da leitura atenta de suas páginas, do modo como aceitou e caminhou para a morte, como Sócrates, surge um juízo sincero que as reticências dos historiadores e estudiosos, muitas vezes, acabam por ofuscar.

Em De Beneficiis (II,18), Séneca lembra que “às vezes, mesmo contra a nossa vontade, devemos aceitar um benefício, quando é dado por um tirano cruel e iracundo, que reputaria injúria que tu desdenhasses seu presente. Não deverei aceitar?” Assim, mais importante do que saber que Séneca era rico, é saber se ele era ávido de riquezas, se viveu no fausto e na opulência.

Conforme suas Epistulae Morales ad Lucilium, 18, seu pensamento era este: é lícito ser rico, contudo é preciso viver de tal modo que se possa, em cada contingência, bastar a si próprio e renunciar a qualquer bem que a sorte pode dar, mas também tirar. Rico, Séneca viveu com um certo conforto, mas, conforme acreditava e pregava, sempre de maneira modesta.

O professor G.D. Leoni, da Sedes Sapientiae, afirma, em seu estudo introdutivo ao volume XLIV da Biblioteca Clássica da Atena Editora, São Paulo, 1957, que a posteridade foi injusta, recolhendo contra Sêneca somente as invejosas acusações dos seus inimigos. Mas a perfeita intuição dos poetas define aquilo que os críticos se esforçam por esclarecer mas amiúde ofuscam. Dante, no limbo, vê, entre os sumos escritores e heróis antigos – SócratesPlatãoDemócritoDiógenes de SinopeAnaxágoraTales de MiletoEmpédoclesHeráclitoZenão de CítioDioscóridesOrfeuCíceroLino e “Séneca morale”. Séneca, diferente de um filósofo, é um entusiasta da filosofia, estudioso apaixonado, informado de todas as correntes filosóficas do seu tempo, mas contrário a encerrar-se em qualquer sistema ou fórmula. Nele, a filosofia era viva, era a própria vida. “A prosa adere ao pensamento, uniformiza-se, adapta-se a ele; e muitas vezes um subentendido produz um jogo de luzes e sombras cheios de profunda beleza, amiúde a frase breve produz inesperadas imagens pictóricas, outras vezes antíteses, ou as anedotas enriquecem as sentenças austeras, a argúcia atenua a trágica solenidade do assunto”. Poeta, humanista, mais que filósofo, o elemento preponderante em suas obras são os sentimentos, mais do que as ideias, com as quais, na origem, pouco contribuiu. Entretanto, na história do pensamento, nunca ninguém foi tão compenetrado do sentimento da nobreza do espírito humano, e soube tão bem e poderosamente transmitir esse sentimento em palavras.” Sua prosa é vivaz, variada, alegre, moderna, eterna; como quando procura mostrar como as desventuras pelas quais passam os bons, devem ser encaradas como provas para melhor evidenciar suas virtudes, ajudar o próximo: “Os deuses põem à prova a virtude e exercitam a força de espírito dos bons, que devem seguir seu destino preestabelecido: o sábio, por isso, nunca será infeliz.”

Séneca retirou-se da vida pública em 62. Entre seus últimos textos, estão a compilação científica Naturales quaestiones (“Problemas naturais”); os tratados De tranquillitate animi (Sobre a tranquilidade da alma), De vita beata (Sobre a vida beata) e, talvez sua obra mais profunda, as Epistolae morales, dirigidas a Lucílio, em que reúne conselhos estoicos e elementos epicuristas na pregação de uma fraternidade universal mais tarde considerada próxima ao cristianismo.]

Segue o texto de Juan Arnau

[Cultive o espírito porque obstáculos não faltarão. O conselho de Confúcio poderia  ter sido assinado por qualquer um dos filósofos estoicos. Devemos a Woody Allen uma versão moderna dessa máxima: “Se quer fazer Deus rir, conte a ele seus planos”. Um poeta espanhol a finalizou com um verso lapidar sobre o inexorável julgamento do tempo: “A pessoa só compreende depois que a vida era algo sério”.

Esses são, em termos gerais, os três vértices do estoicismo antigo, que parece ressurgir em nossos dias. É uma miragem? As sociedades modernas se encontram dominadas pela rentabilidade tecnocrática da selfie, a autoindulgência (todos nós merecemos, especialmente se pagarmos) e o capricho. Significa fabricar um ego frágil e injustificadamente vaidoso. Uma situação que pode ser supostamente remediada com uma boa dose de estoicismo. Uma vez que não podemos controlar o que nos acontece e vivemos totalmente voltados para fora, atemorizados e estressados, uma vez que somos mais circunstância do que nunca, talvez essa antiga filosofia possa nos ajudar, ela que inspirou Marco Aurélio, imperador de Roma, um homem que, por sua posição, conheceu o estresse melhor do que ninguém.

Mas nesse deslocamento, nessa busca de inspiração no passado greco-latino, corre-se o risco de confundir, e isso de fato ocorre, estoicismo com voluntarismo, tão vigente e puritano. A cultura do esforço e a busca do sucesso dominam as sessões de coaching, que é, segundo seus proponentes, a arte de ajudar outras pessoas a cumprir seus objetivos e a “preencher o vazio entre o que se é e o que se deseja ser”. Não existe maior traição ao legado estoico. O voluntarismo resseca a alma e uma das finalidades do estoicismo é recriá-la. O que chamamos “desafios” e “metas” não são outra coisa a não ser viseiras que não nos permitem ver mais do que um único aspecto da realidade e a pessoa acaba batendo o avião contra a montanha, como aquele piloto da companhia Germanwings. fez nos Alpes da Suíça em 2015.

Essas metas nos trabalham por dentro e parecem projetadas para excluir a contemplação e a observação atenta e desinteressada. Contra a tirania da meta, os estoicos pretendiam se livrar de paixões muito urgentes e monopolizadoras. De fato, um dos sinais distintivos foi considerar a poesia como meio legítimo de conhecimento. A lírica nos mantém em uma atitude aberta e nada sabe de metas e objetivos. A poesia era aos estoicos, especialmente a de Homero, genuína paideia. Entender isso significa ganhar uma liberdade interior, não estar eternamente abduzidos pelo circo e as telas, uma independência moral, não a opinião geral e a gritaria do Twitter e transcender a dependência da pessoa em relação a sua parte animal (a suposição de que o homem é esse ser singular que, como dizia Novalis, vive ao mesmo tempo dentro e fora da natureza). Com esse “cuidado de si”, que Marco Aurélio chamava meditações, era possível conseguir uma autarquia ética que teria uma importância decisiva no pensamento político grego.

Alguns exemplos de estoicismo moderno não estão muito longe. O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein conta que quando jovem experimentou essa sensação de que “nada poderia acontecer com ele”. Era uma forma de dizer que, não importa o que acontecesse (uma bala perdida, um câncer), saberia aproveitar a experiência. Uma atitude que lhe permitiu assumir o posto de vigia em meio ao fogo cruzado durante a Primeira Guerra Mundial. Encontramos algo parecido na francesa Simone Weil, sempre se arriscando, seja na fábrica da Renault ou nos hospitais de Londres, com a humildade como valor supremo, que faz com que a chama do divino não se apague.

Curiosamente, a atitude desses dois grandes filósofos, nos quais revivem os velhos ideais greco-latinos, contrasta com algumas obsessões atuais. Do medo ao próprio corpo, que requer um exame contínuo, à obsessão pela segurança (to feel safe, to feel at home). Como se um scanner e um refúgio pudessem outorgar essa tranquilidade, como se fosse preciso se trancar para sentir-se seguro. Enquanto um mandatário recente se perguntava quanto dinheiro precisava para sentir-se seguro e, ao não encontrar o número, passou a acumular capital, Wittgenstein se expunha na trincheira e Weil na coluna de Durruti, o anarquista que combateu na guerra civil da Espanha.

O estoicismo implica, como disse a espanhola María Zambrano, a recapitulação fundamental da filosofia grega. Nesse sentido foi e é tanto um modo de vida como um modo de se estar no mundo. Zenão de Cítio, natural da colônia grega do Chipre, figura como fundador da escola. Tinham algo em comum com os cínicos, especialmente a vida frugal e o desprezo pelos bens mundanos, e refletiram sobre o destino e a relação entre natureza e espírito. Existiu um estoicismo médio (platônico, pitagórico e cético), mas os que deram fama à escola foram seus representantes romanos: um imperador, um senador e um escavo. Todos eles surgiram, como agora, sob a sombra do Império. Aquele império era militar, o de hoje é tecnológico. Imaginem Zuckerberg abraçando o estoicismo; pois bem, foi isso que fez o imperador Marco Aurélio. Sêneca nasceu na periferia do Império, na  Hispânia, mas foi uma figura fundamental da política em Roma, senador com Calígula e tutor de Nero. Epíteto chegou à cidade sendo um escravo. Quando foi libertado fundou uma escola e apesar de, seguindo o exemplo de Sócrates, não ter escrito nada, seus discípulos se encarregaram de transmitir seu legado.

Moralistas e contemplativos, todos eles defenderam a vida virtuosa, a imperturbabilidade e o desapaixonamento, sentimentos todos eles bem pouco rentáveis a uma sociedade do entretenimento. O estoicismo conquistou grande parte do mundo político-intelectual romano, se tornou uma regra de ação e sua influência chegaria a grandes filósofos como Plotino e Boécio. Não descreveremos sua lógica refinada, mas vale a pena lembrar que a subordinavam à ética. Ao contrário de hoje, pelo menos no mundo financeiro, onde o algoritmo domina a moral. Nela se destaca sua doutrina dos indemonstráveis, provavelmente de origem indiana.

Concebiam a alma como uma lousa onde as impressões eram gravadas. Delas surgem as certezas (se a alma aceitar a impressão) e os interrogantes (se for incapaz de localizá-la). Para os estoicos, o mundo era, como para nós, substancialmente corporal, mas sua física não nega o imaterial. Concebe a natureza como um contínuo dinâmico, coeso pelo pneuma, um sopro frio e quente, composto de ar e fogo. Herdaram de Heráclito o fogo como princípio ativo e primordial, de onde surgiu o restante dos elementos e para onde retornaram. Como o humor e o pranto, o pneuma não se movimenta e sim se “propaga”, contagiando com alegria e doença.

Hoje não seria exagerado colocar em prática alguns de seus princípios. O imperativo ético de viver conforme a natureza, que nosso planeta agradeceria. O exercício constante da virtude, ou eudemonia, que permite o desprendimento. E, por fim, o que Nietzsche chamou o amor fati, a aceitação e querença do próprio destino, remédio eficaz para tudo aquilo que produz desassossego. Não dá para dizer que esses princípios proliferam em nossos dias. Se um velho estoico pudesse vir ao nosso tempo, veria, nas grandes desigualdades propiciadas pela economia financeira, um descuido de si, um esquecimento dessa autonomia moral que evita que surjam emoções como o medo e a vaidade, que criam a cobiça. Emoções contrárias à razão do mundo que, em nosso caso, é a razão do planeta.]

Os três mandamentos da lei de Deus

Deus
Blog Espírita Canoro – (imagem alterada)

Deus veio me visitar ontem.

Isso mesmo. Em carne e osso, se é possível se referir a Deus dessa forma.

Eu estava na sala, sentado no sofá, tentando assistir TV.

O Senhor sentou-se ao meu lado.

– E aí, Marcião? Muita gente me chama assim, por que Ele não chamaria?

Tentei não acreditar. Me belisquei. Me dei tapa na cara. Gritei

– Não adianta,  disse-me Ele. Relaxa cara! Isto é só entre nós.

– Então o que o Senhor quer? – perguntei preocupado e assustado.

– Está surpreso? Não se preocupe. Vou lhe ditar os meus mandamentos – revelou.

– Mas o Senhor já não tinha feito isso antes? – ponderei.

– Aquilo foi uma experiência. Tanto que escolhi Moisés, o mais burro dos judeus – disse o Senhor.

– Judeu burro não existe Senhor – ponderei de novo.

– Deixe de ser puxa-saco – reagiu.

– Os caminhos de Deus são retos – pensei.

– É isso mesmo. Mas nem pense em me entender. Cuide da sua vidinha que já terá feito um grande negócio – avisou.

– Vidinha! – reagi.  O Senhor vem aqui e me escolhe para ditar as suas leis e chama a minha vida de vidinha! – reclamei.

– Preste atenção, idiota! Primeiro eu não vim aqui e o escolhi. Eu o escolhi e depois vim aqui. E não vim aqui ditar lei nenhuma. Vim ditar os meus mandamentos. Eu posso e Eu mando. Deu pra entender? – esbravejou.

– Tá bom, não precisa se irritar. Mas podemos conversar um pouco antes. Gostaria de saber algumas coisas – solicitei inseguro.

– Vá em frente. Tenho todo o tempo do mundo. Nunca se esqueça de que Eu sou o Senhor do tempo – esclareceu mais uma vez.

– Sim, Senhor, doutor… – brinquei provocativo.

– Olha o respeito. Na sua terra chamar alguém de doutor não é exatamente um elogio – disse, fuzilando-me com os olhos.

– Desculpe – roguei-lhe.

– Então vamos, pergunte – falou, impaciente.

– Onde o Senhor esteve estes anos todos depois que ditou as le… os mandamentos para Moises? Isso faz tempo pra cacete! – gaguejei.

– Eu não ditei coisa alguma. Eu escrevi numa pedra. Nunca se esqueça de que Eu sou o Senhor de tudo o que é sólido. Você não pensa não? – irritou-se de novo.

– E como eu iria ditar alguma coisa se o sujeito era analfabeto? – disse mais irritado ainda.

Compreendi o quanto Deus é sábio.

– E não faz tempo pra cacete coisa alguma. Foi agorinha mesmo – disse ainda bravo.

– Mas dizem que isso foi a sete mil, oito mil anos! – me admirei.

– Mas o que é o tempo para mim, Marcião? Nada! O tempo não existe. Eu sou o Senhor do tempo e posso dispor dele da forma que Eu quiser – disse mais compreensivo,

– Posso ser franco com o Senhor? – perguntei baixinho.

– Vá em frente – estimulou.

– Mas que merda é essa que o Senhor fez? Um mundo miserável. Cheio de gente pobre, doente, passando fome. Guerras. Futricas. Roubos… – açulei, destemido.

– Ah, quer dizer que sou o responsável por essa merda toda? – me interrompeu.

– Deixo dois caras pelados no Paraíso, debaixo de uma árvore cheia de frutos e uma cobra para eles brincarem, eles se enrolam todo e Eu é que sou o culpado? – esbravejou.

– Tá certo. O Senhor tem razão. Mas não poderia ter criado mais alguma coisinha. As roupas? Um automóvel? – ponderei contrito.

– Eu estava com pressa. Queria sair de férias. Fui dar uma voltinha. Uma desopilada. Uma espairecida. Ou você pensa que fazer o universo todo do nada é trabalho fácil? – reclamou, indignado.

– Concordo. Mas só não entendo porque demorou tanto tempo para voltar. Que férias longas – apontei com cautela.

– Já lhe disse que o tempo não existe. Pode até existir para você, que, aliás, nem sabe o que fazer com ele. Mas pra mim… – não concluiu acusador.

Achou que eu tivesse entendido, mas não entendi nada.

– Mais alguma coisa? – perguntou irônico.

– Depois que a gente morre… pra onde a gente vai? – perguntei, aflito e temeroso.

– Pra lugar nenhum. Vai ficar por aqui mesmo, apodrecendo em algum buraco. Isso se alguém não resolver lhe queimar o corpo e jogar suas cinzas num rio qualquer – esclareceu secamente.

– Poxa, mas isso não é justo – choraminguei.

– Quem decide o que é justo ou não sou Eu, o Todo Poderoso. Pois pra mim é justo. Justíssimo – rebateu tranquilo.

– Mas o que então a gente está fazendo na Terra?- inquiri surpreso.

– E eu sei lá! Vocês estão aqui e não sabem o que estão fazendo e querem ainda por cima que eu saiba – reagiu sem muita convicção.

– Mas não foi o Senhor que nos colocou aqui? – retruquei.

– Não coloquei vocês aqui coisa nenhuma! Coloquei apenas dois caras pelados e uma cobra no Paraíso– esbravejou retumbante.

– Tá bom. Pode ditar os seus novos 10 mandamentos – desisti.

– Obrigado por me permitir ditar meus mandamentos – aprendi que quando quer Deus sabe ser sarcástico.

– Mas não são 10, são 3 – emendou.

– Só!?!?- me surpreendi.

– Só! Pra que mais? Os mandamentos de Deus não são a constituição brasileira, com suas centenas capítulos, parágrafos, incisos… E, aliás, vocês nem sabem o que fazer com aquilo tudo – ironizou.

– É verdade – pela primeira vez eu concordava integralmente com Deus.

– Posso ditar? – perguntou inquisidor.

– Pode – respondi eufórico.

– Só uma coisa antes. Serão só três artigos, mas vão ter notas explicativas – esclareceu.

Eu estava gostando cada vez mais de Deus

– Mas eu posso acrescentar algumas observações, com a Sua anuência, naturalmente – e quando for necessário . O Senhor é quem decide se é ou não é oportuno ou não? – perguntei-lhe humilde e bajulador.

– Poder, poder, não pode. Mas como atrapalhei seu programa de TV vou lhe fazer uma concessão. Pode sim – concedeu, benevolente.

Agradeci e esperei embevecido.

– Primeiro Mandamento: trepar todos os dias.

– Trepar? – reagi. Não seria melhor fazer amor ou transar?

– NÃO! – trovejou.  Amor é outra coisa.  Vocês nunca entenderam isso direito. E transar é muito vulgar. Se fossem vocês e não Eu quem tivessem criado o mundo isto aqui já teria acabado numa grande esbórnia. Deixe trepar mesmo. É mais plástico – esclareceu, irritado.

– E a nota explicativa? – saí de fininho do puxão de orelhas.

– Nota Explicativa: use uma ou mais de uma das partes do corpo para trepar. Não se preocupe com o tempo, até porque o tempo não existe. Quanto mais tempo durar, melhor será – ditou, ensinando.

– Pode ser homem com homem, mulher com mulher? – perguntei, envergonhado.

– Pode ser homem com homem, mulher com mulher, homem com duas mulheres, duas mulheres com três homens… – esclareceu divinamente.

– Mas tem um problema. E se o sujeito estiver sozinho? Sem ninguém. Perdido num deserto? – tentei ser inteligente.

– Qual é o problema? Que trepe com ele mesmo. Que use as mãos. Pra que porra você acha que eu botei mãos em vocês? – lembrou com precisão.

Deus realmente é insuperável.

– Segundo Mandamento: durma depois do almoço.

– Peraí, Senhor. Tem milhões de pessoas, quiçá bilhões que nem têm o que comer; não têm emprego, não têm acesso aos direitos mais elementares… – tentei argumentar.

– PODE PARAR – reagiu, trovejante.

– Pode parar com esse seu papo de comunista. É no sentido figurado, seu ignorante. É uma licença poética – disse entre debochado e irritado.

Entendi, mas levantei outra questão – e se o sujeito tiver um trabalho daqueles que ocupam o dia todo, sem hora para nada? O patrão ou o chefe dele não vai gostar da história…

O Senhor não deu a menor confiança às minhas observações, mas esclareceu, ditando a Nota Explicativa :

– Caso seu patrão, seu chefe, seu dono, sua mulher, seu homem ou um idiota qualquer venha reclamar de sua dormidinha mande ele à merda ou à puta que o pariu e continue dormindo. Se você perder o emprego a natureza lhe proverá o sustento .

Pensei comigo que os caminhos do Senhor, às vezes, são tortuosos e intrigantes.

O Senhor olhou-me duramente.

– Posso continuar? – perguntou

– Sou o seu servo, Senhor – disse, sem saída.

– Terceiro Mandamento: Beba vinho.

– Gostei Senhor. Beber vinho realmente faz bem à saúde e alegra a vida – emendei, bajulador.

O Senhor não deu a menor confiança à minha observação e ditou a Nota Explicativa: Beba pelo menos um copo de vinho a cada hora.

– Mas, Senhor – argumentei escandalizado. No final do dia, ou até antes, um sujeito pode ficar completamente bêbado!

– E qual é o problema? O ser humano não sabe nunca quando está sóbrio ou ébrio mesmo – contra-argumentou com profunda sabedoria.

Deus é infinitamente benevolente e eu tinha mais uma questão.

– Mas Senhor, se dirigirmos bêbados podemos provocar acidente, ferir pessoas, matar. E se formos pegos numa blitz vamos ser multados, presos e podemos até ter o nosso carro apreendido pela polícia – argumentei, pesaroso.

O Senhor tem o mapa de todos os caminhos, a chave de todas as portas, a solução para todos os mistérios.

– Primeiro, seu estúpido – desta vez Ele não trovejou, só xingou – a maioria das pessoas nem carro tem. Estou admirado que um comunista como você não tenha se lembrado desse simples detalhe – espezinhou.

– Segundo, quem mais provoca acidente de automóvel é quem não sabe dirigir. E mais de 99% não pessoas não consegue distinguir a direção de um poste de luz. Então, beber ou não beber não fará a menor diferença – esclareceu.

– Terceiro, ao contrário do que dizem os idiotas dos médicos, beber faz bem à saúde. E se não fizer assim tão bem ao corpo, pelo menos faz bem ao espírito, e vai ajudá-los a enfrentar mais levemente essa existência miserável a que vocês foram condenados – sentenciou

O Senhor havia terminado. Estava resplandecente.

– Antes que o Senhor vá embora posso levantar mais duas questões? – perguntei sem temor.

– Claro. Sou todo ouvidos – disse, benevolente.

– Primeiro: se Adão e Eva tiveram apenas dois filhos homens e um, ainda, matou outro, como foi possível que o ser humano crescesse e se multiplicasse – perguntei sério.

– Boa pergunta – respondeu admirado. Não sei. Eu não estava lá. Não fiquei para ver.

– Mas o Senhor não é aquele que tudo sabe, que tudo vê, que tudo ouve? – eu estava perplexo.

– Só o que me interessa – respondeu, educado.

– Segundo: que história foi aquela de o Senhor fazer um filho numa mulher que continuou virgem depois do ato? – tirei uma casquinha.

– Não fui eu quem fez o filho e praticou o ato. Foi a pomba do Espírito Santo – defendeu-se.

– Mas por aqui pomba também tem outro sentido – insinuei.

– Então pense e tente decifrar o enigma – me desafiou.

E antes de ir, o Senhor voltou a me desafiar – você sabe o que vai fazer com isso?

– Isso o que? – me surpreendi.

– Com as leis que lhe ditei – disse quase desaparecendo.

– Não sei – confessei.

– Faça o que quiser com elas, mas não perca seu tempo enrolando as pessoas com essa conversa idiota sobre religião; não ande sobre as águas que você pode se afogar e nem tente fazer milagres que isso não funciona – e Deus desapareceu. (MTS)

“Os hippies soviéticos”

Hippie com
Cortesia de Soviet Hippies para Esquerda Net.

[Embora os militantes de esquerda veteranos fiquem incomodados com a ideia, na imaginação popular a cultura hippie continua associada a protestos políticos. Durante o auge da radicalização estudantil da década de 1960, a música, roupas e estética visual associadas ao movimento hippie permearam a cultura de protesto da Nova Esquerda. Esta imagem continua a animar nos dias de hoje as caricaturas de direita sobre a Esquerda.

Embora este tipo particular de rebelião cultural fosse mais proeminente nas sociedades fordistas do ocidente capitalista, esta atravessou o Atlântico e ganhou forma própria na cada vez mais estagnada União Soviética de Leonid Brezhnev. Aí, milhares de jovens descontentes reuniram-se numa rede underground de pessoas que se identificavam enquanto hippies, à qual chamaram Sistema. A história do movimento, maioritariamente esquecida, é o foco de um recente documentário intitulado Soviet Hippies, onde se capta esta parte cultural única da Guerra Fria, na qual um difuso sentimento antiautoritário ressoou com os jovens dos dois lados da Cortina de Ferro. Loren Balhorn falou recentemente com o realizador, Terje Toomistu.

O seu filme documenta a vida de uma rede de hippies chamada Sistema, concentrada, sobretudo nos Estados Bálticos, mas que se espalhou pela URSS. De onde surgiu o nome e por que se tornou na alcunha deste grupo de miúdos soviéticos rebeldes e de cabelos compridos?

De acordo com o que se diz, esta surgiu com um hippie carismático que vivia em Moscovo no final de 1960, chamado Sontse, que significa “ensolarado”. Os outros hippies referiam-se a ele como “o sol”, pelo que o grupo à sua volta começou aos poucos a ser chamado de “sistema solar”. É provável que o nome Sistema venha daí. De qualquer modo, nesta fase o Sistema ainda não funcionava como aquilo que viria a tornar-se mais tarde: uma rede auto organizada e autossustentável de pessoas que partilhavam certos valores e ideais, viajando pelo país e reunindo em casa das pessoas e em acampamentos temporários com muitas pessoas.

Quando surgiu esta rede?

A rede propriamente dita surgiu alguns anos depois, no início dos anos de 1970. O movimento começou entre algumas pessoas das maiores cidades da União Soviética que tinham acesso à música ocidental. Algum tempo depois, começaram a questionar-se sobre se existiriam outras pessoas como elas noutras partes do país, e rapidamente estabeleceram contacto com outras pessoas de cabelos comprimidos em cidades de grandes dimensões. Foi aí que o Sistema se começou a desenvolver enquanto cultura, com os hippies a viajar pela URSS e a fazer “couch surfing”, digamos assim, em casa de outras pessoas de cabelos compridos. Os membros do Sistema compilavam em cadernos os números de telefone de hippies de outras cidades, permitindo-lhes estabelecer contacto com pessoas com os mesmos ideais em Kaunas, Tallinn e outros sítios, durante as suas viagens de verão.

E a política do movimento hippie? Parece-me que estes se estavam a rebelar contra o mesmo tipo de atitudes conservadoras e normas sociais que no contexto ocidental, embora sob um diferente sistema socioeconómico e instituições políticas. Ao passo que, nos anos de 1960, muitos jovens rebeldes nos Estados Unidos da América idealizavam, por exemplo, a Revolução Cultural de Mao na China, muitos das pessoas no seu filme parecem idealizar tudo o que fosse estado-unidense. Porém, tal como o filme admite muitos dos primeiros hippies eram filhos da elite soviética. Quais os problemas e fatores que deram origem a este afastamento da sociedade soviética?

Existiram certamente algumas semelhanças entre o Leste e o Ocidente, mas também algumas diferenças. Na URSS o pacifismo não era puramente político – tinha também implicações a nível quotidiano. A sociedade soviética da altura era profundamente autoritária e altamente militarista. A maioria dos hippies rejeitava essas atitudes e tentavam modelar as suas vidas diárias em torno de valores como a “paz” e o “amor”.

Dito isto, a cena hippie começou com pessoas que tinham acesso a música e a jornais ocidentais e é claro que isso só poderia acontecer entre a elite – as únicas pessoas na União Soviética que tinham acesso a bens do Ocidente. Altos funcionários – membros do Partido Comunista, agentes do KGB, etc. – conseguiam obter autorização para viajar para países ocidentais, trazendo geralmente todo o tipo de presentes estrangeiros e exóticos para os seus filhos. Os filhos da elite também tinham mais dinheiro para comprar discos em contrabando, algo que era muito caro. Muitas vezes, as pessoas formavam pequenos clubes de quatro ou cinco amantes de música que reuniam dinheiro para comprar um disco que, depois, copiam à vez para cassete.

Nesse sentido, continha um aspeto de dissidência, mas também era uma questão de estatuto. Se se tinha uma boa coleção de discos, tinha-se muitos amigos. Por isso, pelo menos no início, os hippies eram filhos de famílias soviéticas poderosas. Em termos ideológicos, existia certamente uma idealização do Ocidente como sendo o “mundo livre” e, a um menor nível, uma idealização do mercado livre.

Então o movimento tinha um certo cunho pró-mercado livre?

Sim, porque associavam o mercado livre a boa música e a boas calças de ganga. Não é que fossem a favor do capitalismo per se, mas tinham uma noção idealizada da liberdade de consumo. Isto era mais ou menos verdade entre a população soviética em termos mais gerais: o consumo era reprimido e, em consequência, idealizado. As pessoas queriam usar calças de ganga como expressão desse desejo de liberdade. É difícil julgá-los por isso em retrospectiva: numa sociedade onde os bens são difíceis de obter, é compreensível que o consumo ganhasse esse significado.

Uma coisa que não surge no seu filme é a invasão soviética do Afeganistão em 1979. A guerra no Afeganistão teve algum efeito no movimento hippie? Cresceu ou teve alguma relação com o sentimento anti-guerra?

Bem, o Afeganistão não entra no meu filme porque o documentário concentra-se no surgimento do movimento hippie, que se tornou numa entidade social visível em 1971, quando os hippies se reuniram em Moscovo para protestar contra a guerra do Vietname. Esta ocasião foi escolhida por se alinhar com o posicionamento em termos de política externa do Governo soviético, bem como com o pacifismo prevalente entre a comunidade hippie. Foi também um momento importante para o movimento, sobretudo porque foram todos detidos e identificados pela polícia, o que de repente fez com que ser hippie na URSS fosse algo muito perigoso.

Desta forma, as autoridades mataram o elemento político do movimento – este se tornou muito mais underground, mais virado para si mesmo e talvez mais espiritual, mas também muito mais envolvido com drogas e álcool. Os aspetos sociais e políticos recuaram. Quando pergunto aos hippies mais velhos se estes se interessavam por política, estes respondem geralmente que viam a política como algo estagnado. Sentiam não ter como mudar algo na sociedade soviética e que seriam presos caso tentassem. De certa forma, acho que a sua rejeição da política era em si mesmo um protesto.

Existia alguma ligação entre o movimento hippie, ou o Sistema, e a intelligentsia de Leninegrado ou a dissidência soviética avant-garde, ou tratavam-se de meios separados? 

Existiam certamente ligações. Na Estónia, por exemplo – que era uma sociedade comparativamente livre em relação à maioria da URSS – as pessoas que trabalhavam na música e nas artes, literatura, etc., estavam sempre meio que entre estas esferas oficiais e não oficiais, produzindo a sua arte livre e radical ao mesmo tempo em que tentavam manter boas relações com as autoridades. Muitas pessoas também se aproximaram da cultura hippie quando eram jovens, antes de se tornarem artistas soviéticos “oficiais”, mais estabelecidos e respeitados. Foquei-me deliberadamente no Sistema, este grupo de hippies mais radicais que realmente “saíram” da sociedade soviética e viajaram pelo país como espíritos livres, mas existiram certamente ligações com artistas e a intelligentsia.

E o género? Não é bem um foco do filme, mas várias das pessoas entrevistadas fazem comentários ao de leve onde sugerem que as políticas de género na comunidade não eram particularmente progressistas. Existia um elemento feminista nestes meios? 

Os hippies soviéticos não tiveram uma revolução sexual comparável à que associamos aos hippies ocidentais – as comunas, o amor livre e tudo isso. Os hippies soviéticos apaixonavam-se, viajavam pelo país em casais, passavam de um parceiro para outro, etc., mas não existia esse elemento de “amor livre”. Havia, claro, muito sexo, mas mais sob forma de casos que ocorriam entre pessoas nas suas viagens pela União Soviética. Nesse sentido era muito convencional, mas ainda assim muito mais liberal que o resto da sociedade soviética!

Perguntei a várias mulheres hippies se se consideravam feministas, mas estas geralmente diziam que isso não se relacionava com as sua vidas (com algumas exceções, claro). Porém, ouvi falar de uma mulher chamada Ophelia que liderava um grupo de hippies de Moscovo e que se interessava muito por drogas psicodélicas. Teve vários namorados ao mesmo tempo e praticava uma forma consciente de “amor livre”. O movimento tinha mulheres fortes, mas em geral “os homens eram homens e as mulheres eram mulheres”, por assim dizer. Há que ter em mente que muitas mulheres eram socializadas no movimento quando se apaixonavam por homens hippies.

Em muitos países do Bloco de Leste houve certamente uma sobreposição entre políticas pró-democracia e um ressurgimento do nacionalismo. Houve uma dinâmica semelhante na comunidade hippie soviética? No documentário há pelo menos um hippie ucraniano que afirma “odiar a Rússia”, por exemplo.

Sim e não. Alguns hippies envolveram-se com o nacionalismo, sobretudo nos Bálticos onde as pessoas ainda viam a era soviética como uma era de ocupação, havendo assim um toque nacionalista desde o início. Ainda assim, o Sistema era multicultural e multinacional, com o russo servindo geralmente de língua comum. Os hippies que se envolveram mais com a espiritualidade não se relacionaram muito com o crescimento do nacionalismo nos anos de 1980, embora alguns dos protagonistas do filme, sobretudo os ucranianos, misturassem um pouco a cultura hippie com nacionalismo.

Tal como terá possivelmente visto no filme, os desenvolvimentos não foram iguais. Alguns hippies pós-soviéticos mantiveram-se comprometidos com o pacifismo e tentaram organizar manifestações contra a guerra no Leste da Ucrânia, por exemplo. A reunião anual de hippies em Moscovo, onde foi filmada a cena de encerramento do documentário, comemora o protesto anti-guerra de 1971 que tornou o movimento hippie visível aos olhos do público. Algumas das pessoas com quem falámos aí pareciam sentir uma certa continuidade entre o pacifismo dessa era e dos dias de hoje.

Há uma cena particularmente engraçada no filme, onde dois hippies mais velhos descrevem a um grupo de jovens espantados a forma como cultivavam o seu ópio e canábis. O conceito de uso destas drogas de forma recreativa foi importado do Ocidente ou estava relacionado com tradições locais? 

Essas drogas já lá estavam. Não é como se os hippies soviéticos tivessem pensado de repente “oh, os hippies do Ocidente fumam erva? Como é que podemos arranjar?”. Existiam campos de canábis em algumas partes da Rússia, Ásia Central e Ucrânia, geralmente para produção de cânhamo. Os hippies mais velhos contam histórias de mulheres hippies a correrem nuas pelos campos de canábis, recolhendo o pólen no seu suor e produzindo haxixe a partir disso.

Também fiquei surpreendido com as quantidades. A unidade de medida menor para a canábis era a de uma caixa de fósforos, depois uma chávena de chá e, depois disso, geralmente um cesto inteiro. As autoridades perceberam eventualmente que se estava a passar alguma coisa com a erva, mas ficaram mais preocupados com o aspeto do negócio que propriamente com o uso da droga.

Estavam mais preocupados com o envolvimento de cidadãos soviéticos em “especulação” que no facto de estes usarem drogas – suspeito que alguns agentes nem conseguisse compreender o conceito. Existem muitas histórias sobre rusgas da polícia a casas de hippies nas quais procuravam literatura proibida e ignoravam por completo as pilhas de canábis na mesa da cozinha. Muitos me contam que fumavam charros no Café Moscow, na baixa de Tallinn, pois ninguém reconhecia o cheiro ou sabia o que aquilo era. Para consumir ópio geralmente faziam chá de papoila. No entanto, o problema aqui se prendia com a dificuldade de medir a quantidade de ópio que ia com o chá, pelo que por vezes as pessoas morriam de overdose.

Uma coisa que noto na música rock da era soviética em geral é a sua mistura de estilos bastante eclética, onde combinam influências e géneros do cânone do pop-rock ocidental com as suas próprias criações e de formas bastante surpreendentes para os ouvidos mais habituados às cenas musicais americanas ou britânicas. Até que ponto é que estes músicos conseguiam promover o seu trabalho através de canais estatais e oficiais? Alguns dos telediscos que surgem no documentário parecem ter custos de produção particularmente elevados. Tocavam na televisão ou na rádio ou eram totalmente alternativos? 

Eram maioritariamente alternativos. Aqueles que conseguiam gravar a sua música de forma profissional geralmente descreviam-no como um “milagre”. A banda estonada Suuk, por exemplo, conseguiu gravar (link is external) o seu disco em 1976 num único dia numa “rádio móvel” do Estado. Este era o caso da Estónia, onde as pessoas tinham mais liberdades que no resto da URSS, motivo pelo qual o meio era mais vibrante aí que nos restantes sítios. Ainda assim, estas bandas não assinavam ou não eram promovidas pela Melodia, a editora musical do Estado. Ocorreram algumas exceções, mas eram muito raras e obscuras. É particularmente difícil encontrar gravações de boa qualidade de música alternativa russa desse período. Devido ao acesso limitado a materiais de gravação, estas bandas tinham de improvisar e de ser muito criativas na forma como produziam as sua música, o que lhes conferia um som único e muito específico.

O filme mostra um excerto de um noticiário soviético onde denunciavam os hippies por roubo de fios de cabines telefónicas para usarem nas guitarras, mas não são apresentados mais detalhes. Esta parece ser uma queixa comum e oficial em relação aos hippies na URSS. Que se passava?

Isso era porque na União Soviética muitas pessoas construíam as suas próprias guitarras, enquanto a maioria dos instrumentos disponíveis na URSS eram fabricados na antiga Checoslováquia. Os miúdos hippies da era soviética no final dos anos de 1960 usavam as bobines eletromagnéticas dos telefones nas guitarras elétricas, algo que, quando colocado debaixo das cordas da guitarra, transformava uma guitarra acústica numa elétrica. Como os materiais de captação não estavam acessíveis através dos canais oficiais, os miúdos faziam os seus próprios destruindo cabines telefónicas.

Muitas das pessoas que participam no documentário relatam terem sido enviadas para hospitais psiquiátricos pelos seus pais ou por outras figuras de autoridade, como retaliação pelo seu envolvimento na cena hippie. Era algo comum?

Um dos hippies do filme conta ter sido enviado pela sua mãe para uma ala psiquiátrica pois a sua resposta entusiástica a uma versão contrabandeada do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles fez com que ela pensasse que ele tinha enlouquecido. Este caso ilustra o poder das normas sociais na sociedade soviética da época, na qual, não apenas as autoridades, mas também grande parte da população, impunha uma cultura muito antiquada e conformista. Além do assédio policial, os hippies também se deparavam com o policiamento moral dos cidadãos comuns, que se referiram a estes de forma pejorativa como “os tipos de cabelo comprido”, os denunciavam à polícia ou os assediavam nas ruas.

É por isso que os hippies que eram vistos como líderes ou considerados demasiado visíveis para o gosto do Estado eram muitas vezes enviados para hospitais psiquiátricos ao invés de prisões. Um dos maiores receios dos hippies era o de serem enviados para os hospitais por doenças da pele ou infeções sexualmente transmissíveis, pois estes eram particularmente rígidos. Muitas vezes as autoridades identificavam ou simplesmente inventavam a presença de piolhos nos detidos, e usavam isso como argumento para forçá-los a cortar os cabelos. Isto era muito difícil para muitos deles a nível psicológico, pois os cabelos longos eram considerados como sendo “a bandeira da liberdade”, um grande símbolo de não conformismo na URSS à época.

Contudo, um aspeto interessante na dinâmica com os hospitais psiquiátricos era o facto de muitos hippies e outros dissidentes se internarem voluntariamente em alas psiquiátricas de forma a evitarem o serviço militar obrigatório. Cruzavam-se muitas vezes com outros artistas, músicos e pessoas “boémias” em geral, todos eles procurando evitar o serviço militar. Os funcionários do hospital foram percebendo gradualmente que esta era uma estratégia dos objetores de consciência, e então lhes era dado um diagnóstico e eram mandados embora. É importante notar que, embora muitos hippies tenham tido experiências horríveis e traumatizantes em alas psiquiátricas, estas também tiveram um aspeto positivo para muitos.

Em retrospectiva, como é que os hippies soviéticos que entrevistou refletiam sobre a sua experiência trinta ou quarenta anos depois? Estavam orgulhosos do que tinham feito? Tinham saudades?

Há mais de seis anos que trabalho neste projeto – organizámos há uns anos uma exposição num museu na Estónia e o filme foi exibido em cinemas do país durante vários meses. Foi uma importante contribuição para a revitalização de velhas amizades e ligações entre hippies, e de alguma forma trouxe o movimento de volta – ou pelo menos as memórias. Muitos dos hippies soviéticos que ainda são vivos esperam que o filme e a experiência que este documenta ajudem a inspirar a juventude dos dias de hoje – afinal, mesmo que o sistema sociopolítico dos países da antiga URSS tenham mudado muito desde os anos de 1970, a luta antimilitarista e o conformismo social permanecem iguais.]

Tradução: Érica Almeida Postiço. Artigo publicado na revista Jacobin (link is external).

In Esquerda Net

“Pós-verdade: filha do relativismo científico?”

Jardim
Imagem: Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas (detalhe), 1504

[A CTS não se destaca pela coesão, dividindo-se em várias linhagens em disputa. Para nossos propósitos, é suficiente caracterizá-la em termos gerais, dizendo que nela predominam, de uma forma ou de outra, posições relativistas, antirrealistas e irracionalistas. Relativistas porque negam o caráter objetivo do conhecimento científico, e desconstroem a ideia de verdade, passando a admitir o uso do termo apenas entre aspas. O antirrealismo figura da maneira mais direta e explícita na vertente construtivista, centrada na tese de que não apenas o conhecimento científico é uma construção social (o que ninguém de bom-senso contesta), mas também que o objeto do conhecimento, os fenômenos que a ciência procura explicar, são construções sociais. O irracionalismo, por sua vez, consiste na interpretação do desenvolvimento da ciência não como um processo dotado de certa racionalidade, mas como uma disputa de interesses, cujo resultado é fruto da correlação de forças.

As polêmicas entre adeptos da CTS e defensores de posições mais ortodoxas a respeito da ciência têm sido muito acirradas, a ponto de ficarem conhecidas em certa época como “as guerras da ciência”. A literatura produzida é gigantesca, e fortemente interdisciplinar, envolvendo elementos de todas as disciplinas que compartilham o mesmo objeto: a filosofia, a história, a sociologia e a economia – todas, ‘da ciência e da tecnologia’. No que se segue, o propósito não é, naturalmente, fazer um balanço dessa literatura; é algo bem mais restrito, a saber, estudar a CTS à luz de um fenômeno de grande atualidade: a ideia de que vivemos agora na era da pós-verdade.

Em fins de 2016, a empresa Oxford Dictionaries elegeu ‘pós-verdade’ (post-truth) como a palavra do ano. A definição sugerida foi a de que a palavra “tem relação com, ou denota circunstâncias em que fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que apelos a emoções ou crenças”. A escolha foi divulgada alguns dias após a vitória de Donald Trump na eleição de 8 de novembro, e reflete principalmente alguns aspectos de sua campanha – que se mantiveram, ou mesmo se acentuaram depois de sua posse como presidente. Um desses é seu hábito bem conhecido de contar mentiras deslavadas. De acordo com um levantamento jornalístico, de sua tomada de posse até o dia 11 de setembro, Trump proferiu nada menos que 588 mentiras.[1]Outra manifestação do mesmo espírito ocorreu num pronunciamento de uma assessora de Trump, Kellyanne Conway, que introduziu no debate o conceito – muito interessante – de fatos alternativos. Segue a mesma linha a proliferação de notícias falsas (fake news) divulgadas nas redes sociais e, inversamente, a pecha de fake news dirigida por Trump e sua equipe a matérias claramente verídicas publicadas na imprensa.


Muito antes da consagração da palavra, entretanto, já vinha se desenrolando um processo, ao qual o conceito de pós-verdade pode retrospectivamente se aplicar. Trata-se do processo mais relevante no presente contexto, que consiste na perda de credibilidade de itens bem estabelecidos do conhecimento científico aos olhos da população. Os casos mais importantes são o do aquecimento global, cuja existência, ou caráter antropogênico são contestados pelos negacionistas do clima; o da Teoria da Evolução, posta em dúvida pelos adeptos do criacionismo ou do design inteligente, e – com consequências nefastas muito diretas, particularmente nos Estados Unidos – o caso das vacinas, supostamente causadoras de autismo em crianças. Isso sem falar dos adeptos da teoria da Terra Plana, cujo número vem crescendo assutadoramente. Outro tipo de manifestação de perda de credibilidade da ciência é a proliferação de teorias conspiratórias e lendas urbanas, envolvendo total desrespeito pelas evidências. Quanto ao aquecimento global, às mudanças climáticas – ou, como prefere Georges Monbiot, ao colapso climático – creio ser desnecessário ressaltar a gravidade do problema: é o futuro da humanidade que está em jogo.

Voltemos agora à CTS. Um de seus traços, como vimos, é o relativismo, a desconstrução da ideia de verdade, o uso da palavra apenas entre aspas. Daí decorre uma série de questões. Não seria a CTS um movimento pós-verdade avant la lettre? Em outras palavras, não terá a CTS contribuído para o advento da era da pós-verdade? Não terá servido de apoio para o negacionismo do clima? Em tom mais provocativo, não seria a CTS em parte responsável pelo comportamento mentiroso de Trump?

Não me proponho a dar respostas conclusivas a essas perguntas. Vou me limitar a comentar rapidamente alguns textos em que a questão é discutida, para servirem como ponto de partida para uma reflexão mais aprofundada.

O primeiro texto é de autoria de Bruno Latour, foi publicado em 2004, bem antes, portanto, do advento da pós-verdade. Merece ser mencionado em parte pelo prestígio de Latour enquanto liderança do movimento CTS, mas também pela repercussão que teve, e por colocar de maneira muito incisiva as questões que acabei de levantar. Começo com uma citação:

[…] há programas inteiros de doutorado ainda em operação para assegurar que as crianças americanas aprendam, por um caminho difícil, que os fatos são fabricados, que não existe um acesso natural, não mediado, não tendencioso à verdade, que somos sempre prisioneiros da linguagem, que sempre falamos de uma posição particular, e assim por diante, enquanto perigosos extremistas usam o mesmo argumento da construção social para destruir evidências duramente estabelecidas que possam salvar nossas vidas. Será que eu estava errado ao participar da invenção do campo conhecido como estudos de ciência? Será suficiente dizer que não queríamos realmente dizer o que dissemos? Porque me queima a língua dizer que o aquecimento global é um fato, gostemos ou não? […]

Será que eu deveria me reassegurar simplesmente dizendo que os maus elementos podem usar qualquer arma que esteja à mão, fatos naturalizados ou construção social, conforme a conveniência? Deveríamos pedir desculpa por termos estado errados o tempo todo? (Latour, 2004, p. 227)

Latour não é um autor de maneira geral fácil de interpretar, e confesso ignorar se ele posteriormente reinterpretou o que disse nesse artigo. Mas a partir da citação, e de outras passagens do texto, creio poder dizer que ele responde afirmativamente às perguntas referentes à ciência levantadas acima, isto é, que aceita a responsabilidade pelas consequências, reconhecidas como nefastas, das ideias colocadas em circulação por ele e seus colegas da CTS. Cabe aqui o registro de uma ironia da história: depois da tragédia que representaram para Kuhn as interpretações equivocadas da Estrutura das Revoluções Científicas, com todo o impacto que tiveram, dando origem à CTS, atualmente são alguns adeptos da CTS que se veem no mesmo tipo de situação, lamentando as más interpretações de seus escritos, agora por parte de movimentos de direita. Parece um caso em que o feitiço virou contra o feiticeiro. Se Kuhn estivesse vivo, teria ainda mais razões para lamentar o impacto que tiveram suas ideias, claramente oposto a suas intenções.

O segundo texto é o editorial de uma das mais importantes revistas no campo da CTS, a Social Studies of Science, assinado por seu editor Sergio Sismondo. Foi publicado neste ano, já em plena era da pós-verdade. Seu título é simplesmente Post-truth? Divergindo de Latour, o autor nega que a CTS tenha contribuído para o advento da pós-verdade. Como elemento de uma explicação alternativa para o fenômeno, diz ele que “o twittter pode ser parte da dissolução do fato moderno.” (Sismondo, 2017, p. 4) Por outro lado, assim como Latour, ainda que em tom menos enfático, o editorial expressa recuo nas posições relativistas. Desrespeitando a norma de só usar a palavra verdade entre aspas, ele afirma:

Nós da CTS sabemos que a competição epistêmica diz respeito tanto à escolha de quais verdades podem ser consideradas salientes e importantes, quanto às quais alegações podem ser consideradas verdadeiras e falsas, e tais escolhas têm consequências importantes. (Sismondo, 2017, p. 4)

Há, por outro lado, adeptos importantes da CTS que não apenas veem o advento da pós-verdade com bons olhos, mas sustentam que a ciência em grande medida tem esse caráter. Estou me referindo a Steve Fuller, que, a um artigo de opinião de sua autoria publicado no Guardian, deu o título de ‘Science has always been a bit “post-truth” ’. Atribuindo o pioneirismo na defesa de posições relativistas da ciência ao Kuhn d’A estrutura das revoluções científicas (como é tradicional na CTS), diz ele:

O que faz a concepção de Kuhn ser ‘pós-verdade’ é que a verdade não é mais o árbitro do poder legítimo, mas sim a máscara de legitimidade usada por todo o mundo na conquista do poder. A verdade é apenas um recurso – embora talvez o mais importante – num jogo de poder sem fim. Desse ponto de vista, a ciência difere da política apenas pelo fato de que as máscaras dos jogadores raramente são tiradas. (Fuller, 2016a)

Na sequência do artigo no Guardian, publicado em dezembro de 2016, Fuller publicou vários textos acadêmicos sobre o tema, criticando Latour e Sismondi pelo recuo nas posições relativistas[2]. No plano teórico, ele defende, de um lado, a concepção da ciência como um jogo, valendo-se de comparações com o futebol americano. A seu ver, a atitude de pensar a ciência literalmente como um jogo poderá vir a ser a mais duradora contribuição da CTS ao panorama intelectual geral. (Fuller, 2017a) De outro lado, sustenta a concepção do mercado de ideias (marketplace of ideas) como modelo para a escolha entre teorias na ciência. Numa outra intervenção, publicada recentemente na Internet, tendo por título ‘Em defesa da pós-verdade’, Fuller escreve: a verdade “é uma marca (uma grife) sempre em busca de produtos que todo o mundo é forçado a comprar”. (Fuller, 2017c)

Para completar essas indicações, dois artigos de Eric Baker e Naomi Oreskes[3] (2017a e 2017b) contendo críticas das concepções da ciência como um jogo, e como um mercado de ideias, dirigidas particularmente a Steve Fuller. As posições defendidas correspondem bem a minha própria visão das questões em jogo, concordo com todas as teses neles sustentadas. Aprecio especialmente a primeira parte do segundo artigo, em que os autores defendem o veritismo – definido informalmente como a insistência no uso da palavra ‘verdade’ sem aspas. Trata-se de uma proposta de reabilitação, de reintrodução do conceito de verdade no discurso epistemológico, justificada por seu poder explicativo no entendimento da dinâmica dos processos científicos. A seguinte passagem dá uma ideia do teor da argumentação.

O veritismo também ajuda a explicar dois importantes aspectos do consenso científico que Fuller enfatiza. Fuller pensa que nos pegou em contradição por falarmos sobre a “construção” do consenso. Dificilmente. Ao contrário, é difícil entender o processo (social) de construção do consenso na ciência sem um sentido de busca-da-verdade enquanto atributo constitutivo. Se os cientistas não se orientam em relação a um mundo físico e social acessível a todos, a respeito do qual a verdade pode, pelo menos em certa medida, ser conhecida, porque dedicariam tantos esforços procurando persuadir seus colegas e tentando chegar ao consenso? Por que eles até mesmo consideram isso possível? E enfim, qual seria o projeto da ciência? (Baker & Oreskes, 2017b, p. 65-66)

As perguntas colocadas como tema deste ensaio dizem respeito à hipótese de a CTS ter contribuído para o advento da pós-verdade. As considerações apresentadas atestam que no plano abstrato das ideias a hipótese é perfeitamente plausível. Mas isso não significa que seja verdadeira, que a CTS tenha de fato desempenhado esse papel. Outra hipótese é a de que o relativismo da CTS e o fenômeno da pós-verdade sejam ambos fruto de um processo histórico mais profundo. Apenas investigações mais amplas e profundas poderão decidir a questão; no presente contexto, ela fica em aberto.]

Marcos Barbosa de Oliveira – bacharel em Física pela Universidade de São Paulo (USP) (1970). Doutor em História e Filosofia da Ciência pela Universidade de Londres (1981). Livre-docente pela USP (1997). Estágios de pesquisa no exterior nas Universidades de Essex (janeiro a março de 1987), de Bristol (outubro a dezembro de 1994) e na New School for Social Research (setembro a dezembro de 1999). Professor Associado da Faculdade de Educação da USP, Departamento de Filosofia da Educação e Ciências da Educação, até a aposentadoria, em agosto de 2014. A partir do mesmo ano, Professor Colaborador junto ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia, da FFLCH-USP. Vice-coordenador do Grupo de Pesquisa “Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia” do Instituto de Estudos Avançados da USP

Publicado em Outras Palavras.

Referências

Baker, Erik & Oreskes, Naomi. It’s no game: post-truth and the obligations of science studies. Social Epistemology Review and Reply Collective 6(8): 1-10, 2017a. https://social-epistemology.com/2017/07/10/its-no-game-post-truth-and-the-obligations-of-science-studies-erik-baker-and-naomi-oreskes/.

–––––. Science as a game, marketplace or both: a reply to Steve Fuller. Social Epistemology Review and Reply Collective 6(9): 65-69, 2017b. https://social-epistemology.com/2017/08/28/science-as-a-game-marketplace-or-both-a-reply-to-steve-fuller-erik-baker-and-naomi-oreskes/.

Fuller, Steve. Science has always been a bit ‘post-truth’. The Guardian, 15/12/2016a. (https://www.theguardian.com/science/political-science/2016/dec/15/science-has-always-been-a-bit-post-truth.

–––––. Embrace the inner fox: post-truth as the STS symmetry principle universalized. Social Epistemology Review & Reply Collective, 2016b. https://social-epistemology.com/2016/12/25/embrace-the-inner-fox-post-truth-as-the-sts-symmetry-principle-universalized-steve-fuller/.

–––––. Is STS all talk and no walk? Social Epistemology Review & Reply Collective, 2017a. https://social-epistemology.com/2017/04/26/is-sts-all-talk-and-no-walk-steve-fuller/.

–––––. What are you playing at? Use and abuse of games in STS. Social Epistemology Review & Reply Collective 6(9): 39-49, 2017b. https://social-epistemology.com/2017/08/21/what-are-you-playing-at-on-the-use-and-abuse-of-games-in-sts-steve-fuller/.

–––––. In defence of post-truth. 2017c. https://iainews.iai.tv/articles/in-defence-of-post-truth-auid-786.

Latour, Bruno. Why has critique run out of steam? From matters of fact to matters of concern. Critical Inquiry 30(2): 225-248, 2004.

Oreskes, Naomi & Conway, Erik M. Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming. Nova York: Bloomsbury, 2011.

Sismondo, Sergio. Post-truth? (Editorial). Social Studies of Science47(1): 3-6, 2017. http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0306312717692076

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[1]https://www.thestar.com/news/world/2017/09/18/daniel-dales-donald-trump-fact-check-updates.html . ‘Donald Trump’s 6 false claims about Asia bring total to 588’. Jornal The Star, do Canadá.

[2]. Fuller (2016b, 2017a, 2017b).

[3]. Em coautoria com Eric Conway, Naomi Oreskes publicou em 2011 Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to global warming. Trata-se de uma denúncia, conclusivamente fundamentada em evidências, das práticas desonestas das indústrias do tabaco e dos combustíveis fósseis. Infelizmente, o livro até agora não foi traduzido para o português. Baseado no livro, em 2014 foi lançado um documentário, dirigido por Robert Kenner. Disponível em https://archive.org/details/Mercadores.da.Duvida-Documentario.2014#. Acesso em 8/1/2018.

A “civilização” que não deu certo por aqui e nem tinha como dar

Havia uma garota na nossa turma da faculdade de jornalismo que eu sempre teimo identificá-la como Margarida, mas não creio que tenha sido este o seu nome.

Enfim, a história dela era a seguinte: a jovem se rebelava contra os dizeres “não pise da grama“, assim como defendia que os caminhos feitos pelos seres humanos em parque e bosques deveriam ser defendidos a qualquer custo, e não aqueles que o paisagista ou o administrador houvesse decidido que assim seria.

Renascer
Reprodução

Anos depois, no estado do Amazonas, conheci um sujeito que se orgulhava de ter ido à Disneylândia, com a esposa e os filhos, e não ter obedecido as filas disciplinadoras impostas pelo parque, ignorando-as e furando-as.

Não que neste caso não tenha outras recordações a respeito da nossa indisciplina, mas, pelo menos, isso foi o que me ficou de mais marcante.

É certo que exista uma miríade de texto sobre indisciplina (direta ou parcialmente), e como isso nos afeta como povos e como nação, mas gostaria, aqui e agora, de dar duas sugestões de leitura: a) “Por que as nações fracassam – as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (de Darom Acemoglu e James Robinson, editora Campus [está também em versão e-book no site Le Livros]) e b) “Civilização: Ocidente X Oriente” (de Niall Fergunson, Editora Planeta do Brasil Ltda., e também em versão digital).

Por que o Egito é tão mais pobre que os Estados Unidos? Quais são as restrições que impedem os egípcios de alcançar maior prosperidade? Será a pobreza do país imutável ou poderá ser erradicada? Uma maneira natural de começar a refletir a respeito é examinar o que os próprios egípcios dizem dos problemas que enfrentam e dos porquês de terem se insurgido contra o regime de Mubarak.” (in “Por que as nações fracassam”).

“… por que, começando por volta de 1500, algumas pequenas organizações políticas no extremo ocidental do continente eurasiático passaram a dominar o restante do mundo, inclusive as sociedades mais populosas e, em muitos aspectos, mais sofisticadas do Leste da Eurásia? Minha pergunta subsidiária é: se conseguirmos pensar em uma boa explicação para a supremacia do Ocidente no passado, será que seremos capazes, então, de fazer um prognóstico de seu futuro? Estamos realmente vivenciando o fim do mundo ocidental e o advento de uma nova época oriental?” (in “Civilização”).

São perguntas bastante oportuna e já bastante antigas.

‘ … a teoria econômica apresentada em A Riqueza das Nações (Adam Smith, tomos 1 e 2) é essencialmente uma teoria do crescimento econômico cujo cerne é clara e concisamente apresentado em suas primeiras páginas: a riqueza ou o bem-estar das nações é identificado com seu produto anual per capita que, dada sua constelação de recursos naturais, é determinado pela produtividade do trabalho “útil” ou “produtivo”— que pode ser entendido como aquele que produz um excedente de valor sobre seu custo de reprodução — e pela relação entre o número de trabalhadores empregados produtivamente e a população total.’

Há quem aponte para as religiões, especialmente para o cristianismo, aquilo que deferência o progresso do subdesenvolvimento.

Não seria tão crédulo assim, pois exatamente no cristianismo é que se dá a origem o Renascimento (1) e, podemos dizer ainda, a liberação das ciências dos destinos dos deuses – sejam eles quais forem.

A discussão sobre a “neutralidade” ou não da ciência é outra coisa antiga, mas que não cabe nesta discussão aqui.

Certamente não veremos essa recomposição ou redesenho da influência do mundo, que muita gente almeja e prega – mais por questões ideológicas do que por lucidez.

São ilusões, na verdade.

O correto é que estamos presos a algum tipo de amarra letárgica – seja ela cultural, seja ela ideológica, seja ela religiosa (provavelmente tudo isso junto), que não nos deixa evoluir e progredir, de forma que possamos tratar-se de beneficiar a todos nós.

Os exemplos citados no início do texto dão uma boa mostra disso.

Gostamos mais de contrariar e de discordar, e, porque não?, de nos rebelar (não se sabe bem contra o que e nem pra que) do que buscar uma evolução e um progresso consistente, ou seja, verdadeiramente revolucionário.

Pior para nós.

Nota

(1) O humanismo pode ser apontado como o principal valor cultivado no Renascimento. Baseia-se em diversos conceitos associados: neoplatonismo, antropocentrismo, hedonismo, racionalismo, otimismo e individualismo. O humanismo, antes que um corpo filosófico, foi um método de aprendizado que passava a dar um maior valor ao uso da razão individual e à análise das evidências empíricas, ao contrário da escolástica medieval, que se limitava basicamente à consulta às autoridades do passado, principalmente Aristóteles e os primeiros Padres da Igreja, e ao debate das diferenças entre os autores e comentaristas. O humanismo afirma a dignidade do homem e o torna o investigador por excelência da natureza. Na perspectiva do Renascimento, isso envolveu a revalorização da cultura clássica antiga e sua filosofia, com uma compreensão fortemente antropocêntrica e racionalista do mundo, tendo o homem e seu raciocínio lógico e sua ciência como árbitros da vida manifesta. (wp)

A lei Rouanet nasceu errada e continua equivocada

Arte plumária, relegada ao pé da história e dos incentivos fiscais do governo (crédito da foto: pib.socioambiental.org)
Arte plumária, relegada ao pé da história e dos incentivos fiscais do governo (crédito da foto: pib.socioambiental.org)

A Lei Federal de Incentivo à Cultura (8.313 de 23 de dezembro de 1991) foi criada no breve período do presidente de Fernando Collor de Melo, visando incentivar a cultura brasileira, via incentivos fiscais (renúncia).

Se a intenção era boa, os furos da lei Rouanet são inúmeros.

Quando Gilberto Gil foi ministro da Cultura de Luiz Inácio Lula da Silva, seu cabo de guerra lá dentro era o atual ministro, o também baiano, Juca Ferreira, que entende tanto de cultura quanto eu de física nuclear.

Acossado por alguma trupe de artistas que nunca descobri qual, Gil mandou Ferreira montar um grupo de notáveis para tentar remendar o que (nesta modestíssima opinião) não dá para ser sequer emendado.

É melhor jogar fora e criar outra coisa no lugar.

Na época fui chamado para participar dos notáveis. Aguentei duas reuniões (e nem sei se aconteceram mais algumas).

Era uma voz solitária lá dentro.

Enquanto eles queriam apenas dar uma mão de cal na Rouanet, a minha tese era a de que ela deveria ser simplesmente exterminada.

Os problemas

Como não apenas participei do grupo dos notáveis, mas também já aprovei diversos projetos na lei, tenho claro para mim (entre muitos outros) alguns problemas horrendos originados pela Rouanet:

– a concentração dos recursos no eixo Rio-São Paulo;

– a enorme renúncia fiscal;

– o incentivo ao surgimento de organizações não governamentais (sic) ligadas a grupos econômicos, partidos políticos, políticos em geral e empresas de comunicação (vocês todos conhecem umas 20 mil desse tipo).

O mais grave, no entanto, é que a lei Rouanet exclui, a priori, segmentos empresariais que poderiam muito bem participar do esforço, especialmente as pequenas e médias empresas, e especialmente aquelas dos primos-pobres do Nordeste, Norte e Centro-Oeste.

E por que excluiu: porque o fisco faz uma devassa enorme na contabilidade dessas empresas, o que, convenhamos, é uma maluquice, já que esse tipo de empresário vive a catar niqueis em fundos de gaveta.

Acrescente-se que a lei nas mãos dessa malandragem toda (grandes empresas e as suas fundações) gera uma outra disfunção: a lavagem de dinheiro.

Exemplifiquemos: você aprova seu livretinho de 100 mil reais na lei, o seu mecenas não vai lhe dar 100, mas sim 80 ou 70.

A diferença ele usa para lavar ou para tapar outros rombos de caixa

E você que se vire para dar conta do recado junto ao TCU e ao fisco.

E o problema do incentivo estatal à cultura foi agudizado nos governos Lula e Dilma com o surgimento de um sem-número de editais (de cultura) direcionados a alguns grupos sociais (negros ou afrodescendentes, como queiram) enquanto se escanteava (descaradamente) outros, como os indígenas.

A crítica

O secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do Minc, Carlos Paiva, faz hoje, na Folha de São Paulo, uma crítica à lei, mas a tangencia, ficando apenas a falar da concentração do incentivo no eixo Rio-SP.

Isso demonstra que ele não viu o problema na sua integralidade, ou se viu está se fazendo de morto, a não tocar nos outros aspectos (graves) da lei, ou seja, não quis sujar as mãos e nem queimar o seu filme.

A saída

A saída, só para variar, apenas virá via fundos (setoriais), e o governo federal até tem um: o Fundo Nacional de Cultura.

Minguadinho que só, o que quer dizer que ele não resolve nada, é burocrático e continua a favorecer o eixo.

Minha modestíssima (como sempre) opinião é que a cultura brasileira devesse receber seus caraminguás pelo sistema financeiro, via linhas de crédito subsidiadas, com as famosas e necessárias garantias e contrapartidas dos senhores e das senhoras autores/as e produtores/produtoras.

Aí a gente iria ver quem tem garrafa vazia pra vender na feira.

Quem tem, vende. Quem não tem vai vender coco gelado na praia.

Livro reúne ensaios sobre arte digital e cultura contemporânea

Em Garrafa de Suze (1912), Pablo Picasso apropria-se de elementos tipográficos de um jornal para compor a tela (imagem: Wikimedia Commons)/Agência Fapesp.
Em Garrafa de Suze (1912), Pablo Picasso apropria-se de elementos tipográficos de um jornal para compor a tela (imagem: Wikimedia Commons)/Agência Fapesp.

Os novos formatos e linguagens de expressão artística e cultural surgidos com o advento das mídias digitais são tratados no livro Limiares das redes: escritos sobre arte e cultura contemporânea, que reúne ensaios produzidos ao longo de 10 anos de pesquisas conduzidas por Marcus Bastos na Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A obra, publicada com apoio da Fapesp na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações, traz nove ensaios escritos por Bastos, entre 2004 e 2011, que refletem sobre como o surgimento de novas tecnologias transformou a arte e a cultura, abordando o conceito de “cultura remix”.

“Trata-se de uma tendência contemporânea que começa pela música eletrônica e que se expande, aparecendo no vídeo e na literatura. O remix consiste no uso de materiais preexistentes para a produção de novas obras, modificando suas características e, a partir disso, criando novas expressões artísticas, que deixam marcas das referências iniciais.”

Dessa forma, o livro aborda como as práticas de “copiar e colar”, nas palavras do autor, transformaram a música, a literatura, o audiovisual e outras expressões artísticas e culturais, tratando ainda de aspectos relacionados aos direitos autorais, especificamente quanto ao sentido de autoria.

“Essas práticas existem há algum tempo, mas o advento das mídias digitais facilitou o processo de apropriação de referências artísticas”, diz.

Como exemplos, Bastos cita as obras Garrafa de Suze (1912), de Pablo Picasso, que se apropria de elementos tipográficos de um jornal para compor a tela, e Fenómeno do Êxtase (1933), de Salvador Dalí, uma montagem com recortes de fotografias e frames de filmes.

“Com o computador, essa apropriação para fins artísticos cresceu em intensidade, tornando-se uma prática contemporânea bastante disseminada como consequência da digitalização. Os ensaios fazem uma tentativa de encontrar elementos para propor uma análise crítica do que, nessa cultura, tem mais ou menos pertinência.”

Os textos tratam ainda de novas plataformas para manifestações artísticas, como a game art, que utiliza jogos eletrônicos.

“Os ensaios sobre essa temática abordam novas tendências de design, avaliando, por exemplo, como um dispositivo como um iPad modifica uma série de noções da área. São analisados exemplos da game art de maneira provocativa, propondo o desafio de se pensar a linguagem dos jogos para além dos padrões instituídos, enriquecendo suas sintaxes, encontrando novos formatos e levando a experimentações de novas possibilidades.”

Há ainda um ensaio a respeito das linguagens artísticas em tempo real, como a performance audiovisual e o cinema ao vivo, relacionado a suas pesquisas mais recentes na área.

Os textos abordam também aspectos sociais transformados com o surgimento das redes de computadores, em especial a Internet.

“Uma série de características culturais, econômicas e políticas são típicas desse momento em que as pessoas têm uma capacidade de conexão maior entre elas, o que acaba mudando práticas de consumo, hábitos e a maneira como produzem linguagens.”

Para o autor, há uma volta à lógica da comunicação de massa nas redes sociais.

“Há uma reconfiguração do conceito de mídia de massa na cultura em rede, mas o elemento da audiência em canais de auto publicação acaba levando, em certa medida, a um regresso à ideia de grandes audiências dos meios tradicionais, como a televisão”, avaliou.

O livro abre espaço para ponderações sobre a velocidade com que as práticas nos meios digitais se transformam. Fazendo referência à obra Seis propostas para o próximo milênio, de Ítalo Calvino, o autor escreve Seis propostas para os próximos minutos, refletindo em especial sobre novos formatos audiovisuais.

“Quem pesquisa nessa área em que a cultura gera novas possibilidades e formatos fica com a sensação de uma certa vertigem, porque tudo muda muito rápido. Este texto procura fazer análises de certos trabalhos que investigam possibilidades em vídeos interativos, mas é necessária uma constante revisão de conceitos. Navegar é preciso, documentar é impreciso.”

Limiares das redes: escritos sobre arte e cultura contemporânea
Autor: Marcus Bastos
Lançamento: 2014
Preço: R$ 35
Páginas: 144

Mais informações: Editora Intermeios

Diego Freire – Agência Fapesp.