“Ciclo progressista chegou ao fim e está em crescimento uma nova direita”

Rzaul
Raúl Zibechi | Foto: Susana Rocca – IHU

[O ciclo progressista na América do Sul chegou ao fim e está em crescimento uma nova direita, “mais ofensiva e militante que as anteriores”, entende o uruguaio Raúl Zibechi. Ele elenca três fatores para se chegar a esta conjuntura: citando Noam Chomsky, afirma que “os Estados Unidos já não possuem a força para impulsionar golpes e acabam por apoiar as direitas de cada país”; sob governos progressistas, as direitas se tornaram mais fortes; por fim, a incompreensão da esquerda após a crise de 2008 e a reativação dos movimentos populares, e, conforme Zibechi, “quando a esquerda não compreende, põe a culpa na direita, no império e nos meios de comunicação”.

Ao avaliar as possibilidades para um projeto político de esquerda, aponta que o principal limite é o Estado. “O poder estatal é um problema grave que transforma os revolucionários em uma nova burguesia de gestores, que não são proprietários dos meios de produção, mas, a partir do poder, os administram em benefício da nação e de si mesmos”, avalia em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. No seu entendimento, “as possibilidades da esquerda começariam a surgir se a derrota do 1% que está no topo fosse discutida seriamente. Sem isso, não há nada a ser feito”.

Na atual conjuntura, observa que “a esquerda necessita de um projeto de transformação da sociedade que não passe necessariamente pela ocupação do Estado”. Para Zibechi, “ser de esquerda é assentar as bases éticas e organizacionais para que os movimentos populares perdurem no tempo, ainda que sejam derrotados, o que não é algo negativo”. Ele sugere que a esquerda se desfoque “das agendas eleitorais, algo que está muito longe de passar pela mente dos dirigentes sindicais e dos partidos de esquerda”.

Para Zibechi, o ciclo progressista se caracteriza pelos altos preços das commodities, “que permitiu que os governos pudessem melhorar a situação dos pobres, sem tocar nos interesses dos ricos”. Durou pouco tempo. Ele estima que entre 2008 e 2010, “e a partir desse momento, com a queda dos preços das exportações, toda a estrutura começou a ranger, pois, não havendo mais superávits, os recursos para seguir melhorando a situação dos setores populares começam a ficar escassos, e a direita toma a dianteira”.

Na sua visão, uma nova direita está emergindo no mundo e também na América Latina. Ela “tem uma profunda rejeição a negros e pobres, ainda que aceite a maconha e os gays”. Seu projeto é “muito elitista, muito mais do que a direita de 64, porque aquela queria domesticar os pobres e esta – eles não comentam – quer exterminá-los”. De outro lado, “a esquerda não está nada preparada para enfrentá-la, nem no terreno militante, nem no ideológico”.]

Veja  entrevista especial na íntegra com Raúl Zibechi em IHU.Unisinos.

“A história na visão de anarquistas”

anarch

[Objetiva-se analisar como foi abordada a História por alguns pensadores e “teóricos” do anarquismo.[1] Para atingir este objetivo, foi feita uma revisão de alguns textos de anarquistas “clássicos”, que se destacaram como pensadores e filósofos do movimento anarquista internacional: Proudhon, Bakunin, Kropótkine e o historiador Rudolf Rocker. Parte-se do princípio de que uma das funções da História é servir de instrumento para a transformação da sociedade, e que é utilizada pelos mais variados “agentes sociais” como “guia para ação”. O trabalho inicia com uma definição de passado ontológico e epistemologia do passado. Logo se apresentam as discussões atualizadas sobre a produção do conhecimento histórico, sua “evolução”. Em seguida, constrói-se o cenário, como os historiadores vinham pensando e discutiam sobre seu oficio, ou seja, o cenário em que se inserem os escritos anarquistas sobre a história. Faz-se uma “analise de conteúdo” destacando trechos em que os autores citados acima dedicaram algumas linhas para escrever sobre a História. Para concluir, compara-se a analise com o contexto histórico e as discussões atualizadas.

  1. Introdução

É difícil saber se este trabalho é uma história da História a partir do pensamento anarquista ou se é uma história do pensamento anarquista e suas concepções de História. Talvez seja um pouco de cada. O que se pretende saber é como os anarquistas entendiam a História, tanto no sentido ontológico quanto no epistemológico. É importante destacar como e por que se faz o estudo da História no pensamento anarquista.

A história ontológica é o passado real e concreto, a História epistemológica significa a construção de um saber, uma disciplina, uma ciência (teoria e método) compreendendo também seu discurso (historiografia). Os procedimentos da analise seguirão a técnica da “comparação” dos modelos, e a relação ao contexto da produção literária.

Rodrigo Quesada Monge diz que, com o fim do projeto do Capitalismo de Estado (monopoliza), ocorre, principalmente após 1989, um crescente descrédito na teoria marxista para interpretação da história. Muitos historiadores utopistas e sonhadores ficam, assim, órfãos de um projeto teórico de uma filosofia da história. O historiador afirma que, se forem revisados os trabalhos investigativos dos grandes historiadores anarquistas como Nettlau, Paul Avrich, Rudolf Rocker, Murria Bookchin y Howard Zinn, somente para recordar alguns exemplos, aparece um exaustivo levantamento documental unido a um desmedido compromisso político e social com as implicações morais e políticas do seu ofício. (MONGE, 2006) Para saber no aspecto teórico e metodológico a prática historiográfica dos anarquistas, correto seria analisar as produções historiográficas destes. Escolher um período e conjuntura e estudar esta produção. Porém esta tarefa não é obra para nenhum pesquisador solitário. A intenção deste artigo é bem mais modesta e limitada ao discurso, ao que se afirma sobre “como deve ser” e não necessariamente ao que realmente é.

José Carlos Reis escreve que a história, assim como toda cultura ocidental, passou por uma transição entre o século XVIII e o século XX. Esta transição caracteriza-se pelo iluminismo (racionalista, globalizante e moderno), o estruturalismo e o pós-estruturalismo.

O projeto iluminista vê a história como “espírito universal”, que progressivamente vai “tomando consciência de si”. O projeto moderno e iluminista é extremamente otimista, crê no poder da razão. A hipótese iluminista é hegeliana, não pode não ter sentido. A história seria então governada pela razão. A história, segundo Carlos Reis, é a busca de sentido e não vontade de potência. O projeto iluminista legitima toda violência contra o passado-presente, que é considerado um entrave para o progresso e evolução. (REIS, 2000:178s)

No século XX, o movimento estruturalista veio desconfiar deste sujeito consciente em busca da liberdade. A convicção de que a razão governa o mundo foi posta sob suspeita. Passou-se a duvidar do progresso, do evolucionismo, do eurocentrismo, da razão racionalista. O homem não é totalmente sujeito e livre, e a sociedade não é guiada por uma teleologia. De acordo com José Carlos Reis, a história deveria dedicar-se mais ao repetitivo, cíclico, resistente, inerte e estrutural. Deveria dedicar-se à realidade empírica, produzindo um saber objetivo e conceitual. O estruturalismo ainda se diz racionalista, porém procura a razão a contrapelo, onde ela se esconde, acaba adotando um determinismo inconsciente. Os estruturalistas são contrários às utopias, pois discordam do fato de misturar a filosofia com a ciência. A utopia só faz sentido dentro de um raciocínio típico-ideal, uma abstração que permite conhecer a realidade. (Ibidem:182)

A segunda fase do estruturalismo, o pós-estruturalismo, não duvida da razão, isto é, não acredita na própria existência da razão. Não procuram mais verdades históricas, nem essenciais, nem aparentes, nem manifestas e nem ocultas. O universal não é pensável, a unificação é impossível. O conhecimento histórico pós-estrutural é antiestrutural, parcial, limitado, individual, em migalhas. Não se quer neutralidade, passividade, serenidade e universalidade. Não existe uma razão, moral, verdade universal. A partir dos anos 80, o homem não é mais o horizonte do historiador, a história deixou de ser análise do passado para produzir mudanças no presente etc.(Ibidem:183)

Acima foi transcrito como Carlos Reis descreve a relação e influencia da cultura ocidental na concepção de história e na prática historiográfica. Esta trajetória que ocorreu aproximadamente entre os anos 30 e 80 do século XX. Carlos Reis diz que uma bandeira que vem ganhando adeptos entre os historiadores é a proposta defendida pelo historiador francês F. Dosse. Este autor defende um retorno ao projeto inicial da Escola dos Annales, que se pode destacar: a mesma relação interdisciplinar com as ciências sociais, a mesma referencia à história problema, a mesma resistência e substituição do marxismo. (Ibidem: 187) A compreensão e o aprimoramento do saber histórico, absorvendo todo o avanço possível das ciências humanas e sociais, esta em gestação. Para Dosse:

A lógica mesma da ação mantém aberto o campo dos possíveis, em uma reabertura das potencialidades do presente alimentada pelos possíveis não averiguados do passado. A função da história continua, portanto, viva, e o luto das visões teleológicas pode se tornar uma chance para se repensar o mundo do amanhã. (DOSSE, 2003:16)

Enfim, procura-se entender como os anarquistas viam a história, enquanto o que ficou para trás, em que medida e como esta história influencia o presente e o futuro dos indivíduos e da sociedade. Também se procura saber em que medida a História, enquanto saber, se constitui em ciência e, se para os anarquistas, é possível uma previsibilidade e o estabelecimento de leis históricas.

  1. Historia e historiografia (de 1840 a 1940)

A delimitação temporal para trabalhar deveu-se ao fato de ser o período que abrange a produção dos “teóricos” que serão analisados. As produções de Proudhon que iniciam por volta de 1840 e a de Rudolf Rocker, em 1937. As discussões sobre filosofia e teoria da história da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX, serão o contraponto para análise e comparação da produção dos teóricos anarquistas. Cenário habitado por discussões de historiadores historicistas e a Escola Metódica como Leopold von Ranke, Taine e Fustel de Coulanges, Gabriel Monod, Charles Seignobos, Charles Langlois. Aparece a concepção de história enquanto ciência social com a transição entre Henri Berr e o movimento dos Annales com Lucien Febvre e Bloch.

Os principais historiadores antes de 1840 eram conhecidos como românticos. Produziam uma história com comprometimento político, como Michelet e Tocqueville. São eles que estão publicando suas histórias neste período, em defesa das experiências republicanas e democráticas liberais. Até aproximadamente 1860 vai a hegemonia dos historiadores românticos com forte ligação com a filosofia. O historicismo, ou a “Escola Metódica” e positiva, pretende elevar a história à categoria de ciência. Leopold von Rank defende a separação da filosofia da história, ele critica a metafísica hegeliana e acredita que a história constitui um saber cientifico na medida em que se detém no empírico, nos fatos e na individualidade histórica.(COLLIOT-THÉLENE, 1995:20) Emana um espírito positivo que abrange a história, e passa a predominar entre os historiadores, inicia-se uma luta contra a influência da filosofia da história na ciência da história. A ciência histórica quer ser objetiva, quer formular enunciados adequados ao seu objeto e que sejam válidos para todo tempo e lugar, como estimavam que faziam as ciências naturais. (REIS, 1996:07) A história procura encontrar fatos e descobrir verdades, a história é a ciência da observação. No final da década de 70 do século XIX, Gabriel Monod inicia uma produção voltada para o método histórico, empreitada levada adiante também por Charles Langlois e Seignobos. No final do século XIX, este esforço de criar uma história cientifica, dividiu-se em três proposições: A proposição rankiana, que aproxima a história das ciências naturais; a orientação de Dithey, que quer descobrir o que há de especifico no conhecimento histórico e cria a concepção de ciência social, lugar onde se destaca a história; e o marxismo.

Ao iniciar o século XX, ocorre um período transitório entre a “Escola Metódica” e a “Escola dos Annales”, onde Charles Péguy, F. Simiand, Dithey e Henrii Berr constroem uma concepção de história relacionada às ciências sociais. A história esta, então, entre as ciências sociais e não entre as ciências naturais. O objeto de estudo do historiador é o próprio homem, a sociedade humana. Dosse escreve que o projeto da Escola dos Annales é um projeto de espírito de “Frente Popular”, e para demonstrar isto ele traça o itinerário de alguns membros fundadores da Escola. No inicio da vida intelectual, Lucien Febvre era socialista fervoroso; segundo Dosse, ele escreve, entre 1907 e 1909, no Lê Socialiste Comtois, órgão semanal da federação do Doubs da SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária). No dia 21 de março de 1909, redige mais da metade da primeira página do jornal com quatro artigos: “Viva a vida! Abaixo a autoridade”. Em 1909, ele escreve em um artigo: “Ah querido velho Proudhon¹ E há pessoas que dizem que você está morto! Vai, esteja tranquilo: a personalidade humana se empertigará, enfim, ela que há tantos séculos vinha se corrompendo, imutável nessa degradação. Ela solta com uma voz ainda fraca, mas que não é mais tímida, o grito libertador que você mesmo soltava: nenhuma autoridade!” (DOSSE, 2003:92) François Dosse diz que Lucien Febvre vê no discurso marxista ao mesmo tempo uma concepção tão voluntarista e factual quanto à da história tradicional e também sua forma de espiritualismo econômico. (Ibidem:98) Portanto, a Escola dos Annales procura se constituir, por seus fundadores em 1929, numa alternativa à história tradicional e à história marxista, com a emergência do econômico e do social na História. Lucien Febvre e Marc Bloch veem na teoria das probabilidades, na teoria da relatividade da medida temporal e espacial, a possibilidade de a história aspirar, ao estatuto de ciência, contanto que critique os testemunhos do passado, elabore fichas de leitura, teste as hipóteses, passe do dado ao criado. Segundo Dosse, eles acreditam que a pesquisa histórica pode tomar emprestada a via das pesquisas causais a partir da crítica dos documentos, mesmo se aos olhos dos promotores dos Annales ela deva se precaver contra toda metafísica, contra todo monismo de causalidade. (Ibidem:55) Dosse escreve que o projeto dos Annales é indissociável de sua dimensão estratégica: Todo projeto cientifico é inseparável de um projeto de poder /…/. Vontade de convencer e vontade de poder estão unidas como a luz e a sombra. (Ibidem: 71)

  1. Anarquismo

O anarquismo pode ser entendido como uma ideologia, matriz de pensamento e teoria revolucionária. Como movimento político e social, com propósitos revolucionários aparece entre os operários na Associação Internacional dos Trabalhadores (A.I.T), também conhecida como “Primeira Internancional” (1864) e nos grupos de conspiradores revolucionários organizados por Bakunin, que seguiam as ideias federalistas e mutualistas de Proudhon.

Os anarquistas são também conhecidos como socialistas libertários, para distinguir-se dos marxistas, que são denominados de socialistas autoritários. Durante a Primeira Internacional, as teses anarquistas revolucionárias defendiam a proposta de uma revolução social, com a construção do socialismo a partir de bases federalistas, e com autogestão socioeconômica. Acreditavam que o socialismo só é possível com liberdade, e por isso defendiam a abolição do “Estado Moderno”. Os socialistas autoritários (marxistas) eram reformistas, defendiam a conquista do Estado para, através de reformas, irem transformando a sociedade. Enfim, os anarquistas defendem a ideia de uma sociedade sem classes, sem domínio, opressão e exploração. É importante destacar que as concepções de história dos anarquistas, carregam também este componente de disputa, tanto com as concepções conservadoras, quanto com as ideias marxistas. (WOODCOCK, 2002)

3.1. Proudhon: “O movimento da história”

Pierre-Joseph Proudhon, francês, nascido em 1809 e falecido em 1865, foi um dos grandes mestres do pensamento socialista do século XIX. Filho de camponeses, tornou-se gráfico e “livre pensador”; em 1837, conquista uma bolsa na Academia de Besançon para cursar letras ou ciência. O conjunto de sua obra se encontra num horizonte de afirmação da sociedade como realidade plural, dotada de forças coletivas, resultantes da união, da harmonia e da convergência de esforços. Este raciocínio é a arma que esgrime contra o capital e o Estado. (RESENDE, 1986) Para abordar aspectos do pensamento de Proudhon sobre a História, serão utilizados como fontes dois livros: “Proudhon”, de Paulo-Edgar Resende e “Proudhon e Marx”, de Georges Guvitch. Proudhon foi também como o “homem dos paradoxos”, e suas proposições, realmente, muitas vezes eram contraditórias. Para compreender melhor seu pensamento, seria interessante analisá-lo à luz do contexto de produção e encará-los como construção, o que não seria possível nas pretensões deste modesto trabalho.

Na seleção de textos organizada por Paulo Resende e Edson Passeti, a principal referência feita à História, na obra de Proudhon, foi quando Resende e Passeti escrevem: Proudhon afirma não ter um projeto de sociedade, postulando antes um método de análise que possibilite detectar o movimento da história. (Ibidem: 21) Não ficou claro, onde, quando e em que obra Proudhon teria feito esta afirmação, porém se buscou identificar nos textos publicados este “método que detecta o movimento da história”. Segundo os organizadores da obra, o “movimento da história” aponta na seguinte direção: anarquia industrial, feudalismo industrial (referência ao jacobinismo estatizante), império industrial e, finalmente, a república industrial (referente ao mutualismo). (Ibidem: 18) O “movimento da história’ vai na direção da afirmação econômica da autonomia do trabalho, da negação da apropriação do Capital e da “democracia operária”.(Ibidem: 21)

Proudhon escreve que, diante da complexidade do real, o pensamento humano, no início, apela para um principio de unidade transcendente. Aí, surge o dogma, que é a afirmação estática, por cima da diversidade histórica, em que a fé religiosa transparece como passividade. (Ibidem: 14) Segundo o pensamento de Proudhon, a metafísica significa a mesma coisa que Deus para as religiões e a procura por um “motor da história” em certas concepções “científicas”. Ao fazer a crítica a toda tentativa totalizadora, e de unidade dogmática, Proudhon opta por chamar sua busca por uma explicação do “movimento da história” de método e não de teoria (para fugir das Leis da metafísica científica). Ele faz questão de afirmar que sua proposta não é exterior, não é transcendente à pratica social, e que a “teoria da lei serial” é um método de conhecimento assentado no terreno movediço da realidade plural. Segundo o filosofo, este método estabelece-se na relação de revezamento com a prática.

Segundo Proudhon, este método é um processo bem-determinado de conhecimento, que acompanha o movimento da prática. No pensamento dele, quem diz movimento diz série, unidade diversificada. A série é a condição fundamental da ciência, na medida em que a divisão, e não a unidade, é a primeira condição do que existe. (Ibidem:15s) Para o anarquista, o conhecimento serial é um tipo de saber que se processa em decorrência de uma relação prática dos homens com o mundo e suas criações, ensejando o desenvolvimento integrado entre teoria e prática.” (RESENDE, 1986:16) Proudhon escreve que, na teoria serial, não existe continuidade, pois continuidade é sinônimo de identidade absoluta e é análoga à ideia de substância e de causa. Quem diz substância, fala de algo particular, limitado; portanto, não contínuo nem absoluto. Também ocorre que, se é contínuo, não tem início. Se não inicia, não tem causa. Proudhon diz que a continuidade apresenta-se de fato para nós, mas ela é uma ideia verdadeira somente no momento em que ela apresenta-se anterior à diferenciação dos seres e anterior a nós. A ideia de continuidade é legitima porque a hipótese que ela exprime é em virtude das leis de nosso entendimento, que é obtida da própria observação da série, que é sua contraditória. Assim, a coesão dos corpos e a sucessão dos fenômenos nos dão a ideia de continuidade, mas na verdade esta continuidade não existe em parte alguma.(Ibidem:43)

Pierre-Joseph Proudhon escreve que a natureza não faz nada bruscamente e nem procede por saltos, mas opera de maneira sucessiva e progressiva. Essa ideia de continuidade é, na verdade, “progresso seriado”.

As ideias de continuidade e de progressão parecem realmente se excluir: quem diz progresso diz necessariamente sucessão, transporte, crescimento, passagem, adição, multiplicação, diferença, série, enfim; de maneira que a expressão movimento continuo não é mais que uma metáfora. (Idem)

O autor diz que cada série encerra em si mesmo seu princípio, sua lei, sua certeza. Cada uma das séries é independente, e o conhecimento de uma não supõe nem engloba o conhecimento da outra. (RESENDE, 1986:45) O que produz nas ciências a diversidade da série é a diversidade do objeto. Ainda que se possa, por abstração de todo objeto, construir uma teoria geral da seriação, as diversas formas de séries não se explicam umas pelas outras. Não existe ciência universal, porque não há objeto universal. (Idem)

De todas essas considerações, resulta que a metafísica, ou teoria da lei serial, não é ciência, mas método; não é um método especial e objetivo, mas um método sumário e ideal; que ela não prejulga e não exclui nada, acolhe todos os fatos e os nomeia sem temor de ser desmentida por nenhum; que ela não pretende de modo algum produzir por si mesma o conhecimento e não se antecipa à observação: bem diferente dos pretensos sistemas universais, construídos com base na atração, expansão, causação, deificação e outros sistemas ontológicos, monumentos da preguiça e da impotência. (Idem)

Proudhon diz que a série é a antítese da unidade, que se forma pela repetição das combinações diversas da unidade. (Ibidem: 46) A unidade, por sua vez, é considerada elemento da série, se reveste de todas as formas possíveis: (…) Numa roda de engrenagem, a unidade de série é o dente; num tabuleiro de xadrez, essa unidade é a casa; num poliedro, ela é a pirâmide, tendo seu cume no centro do sólido e sua base na superfície. (Idem) Proudhon defende a ideia do “sistema”, que configura o conjunto. O sistema é a roda de engrenagem, o tabuleiro etc. Este sistema deve ser compreendido de maneira progressiva, nos termos que o próprio Proudhon define: Sem unidade, nada de verdade, nada de beleza, nem mesmo de moralidade. Um sistema sem unidade é uma contradição; uma dupla justiça é a própria iniquidade. (Ibidem: 83)

Para Proudhon : (…) a história nos apresenta, numa sucessão lógica e cronológica, os dois princípios – Autoridade e Liberdade –, os mesmos de onde procede todo mal “(Ibidem:70) Ele escreve que, durante todos os tempos e em todas as sociedades, quanto mais um organismo ganha em unidade perde em massa. E que, em toda coletividade, a potência orgânica perde em intensidade o que ganha em extensão e reciprocamente. (Ibidem:83) Acrescenta ele: Essa lei é universal, rege o mundo do espírito tanto quanto o dos corpos; ela se encontra na filosofia, na ciência, no direito, na literatura, na arte, na poesia, na história etc. (Idem) O escritor opõe-se a toda filosofia da história, seja a de Bossuet, de Condercet, de Saint-Simon, de Hegel ou de Herder. Para ele, a filosofia da história nega a responsabilidade do homem coletivo ou individual, na orientação do esforço voluntário, seja no sentido do progresso ou do regresso. (GURVITCH:89)

Para Georges Gurvitch, na obra de Proudhon está presente a concepção de saber instrumental. No livro “La Célebration du Dimache”, ele escreve que deve existir uma ciência social (sociologia) que guie a revolução social. (Ibidem:25) Para o anarquista, a ciência deve ser um instrumento para a transformação da sociedade. No livro La Création de l’Ordre, Proudhon escreve: As leis da economia política são as leis da história. (Ibidem:44) Nesta passagem, Proudhon acredita na existência de Leis na “ciência social”, e que, no caso da história, as leis seriam encontradas na economia política. Para Proudhon, a História não é uma ciência, mas matéria de uma ciência. (Idem) Ele recusa confiar na ciência histórica do seu presente, que, segundo ele, é uma reconstrução guiada por ideologias da sociedade existente. (Idem) Em poucas palavras, pode-se perceber que Proudhon acreditava ser possível um ciência social, e que a História não é uma ciência, mas se utiliza das ciências auxiliares e que, na metade do século XIX, a História era utilizada para fins políticos e ideológicos.

Para Proudhon, o progresso é esforço criador e revolução sempre renovada, é visto como a negativa do absoluto. O progresso é a permanente mudança, transformação. (Ibidem:87) Ele defende uma dialética realista e empírica por um lado, e da liberdade coletiva criadora por outro. Os resultados não são previsíveis, no sentido de não serem determinados. (Ibidem:43) A dialética proudhoniana prova que, na realidade social, a liberdade e o determinismo social se interpenetram, se completam, se implicam e se polarizam de diversas maneiras. (Ibidem:142)

A análise sobre a ideia de História no discurso de Proudhon ficou prejudicada na medida em que não se teve acesso às obras de Proudhon, mas a interpretações das mesmas. Boa parte das informações apresentadas aqui são frutos de leituras indiretas. Não é necessariamente o que ele disse, mas o que se disse sobre ele. Pelo exposto no texto, é possível afirmar que Joseph Proudhon não quer construir uma teoria absoluta que explique “toda” a história, mas procura compreender a “Conjuntura” capitalista, a partir da “Revolução Industrial” onde ele fala em quatro tipos de períodos ou estágios da sociedade industrial. Ele procura construir um “método que detecta o movimento da história”. Sua concepção é “progressista” e parte da economia política. O progresso para ele representa a continuidade da ruptura. Os fenômenos desenvolvem-se em unidades arranjadas de forma sistêmica, onde cada parte mantém relativa ou total autonomia em relação ao todo. A base da sociedade, para ele, é a “oficina”, por isso ele defende a economia política. Defende as particularidades na história, o empírico, e que não há determinismo na história. Do que foi escrito acima, fica nítido que Proudhon não reconhecia, na História, uma ciência, que a explicação só é possível a partir da economia política (ciência auxiliar). Para ele, a história é uma narrativa lógica, cronológica e que é utilizada de forma político-ideológica.

3.2. Bakunin: a história é a negação do passado.

Michael Alexandtovich Bakunin nasceu em 1814 e faleceu em 1876. Pertenceu a uma rica família proprietária de terras na Rússia. Foi na Europa que se converteu ao radicalismo político. Participou das rebeliões que ocorreram em Paris em 1848 e 1849. Era um conspirador nato, viveu a maior parte do tempo de sua vida organizando insurreições, rebeliões, organizações políticas revolucionárias e preso. Nos curtos espaços de tempo que possuía, quando não estava em “barricadas” e organizando revoltas, escrevia principalmente artigos para a imprensa revolucionária e operária. (BAKUNIN, 1999:05s)

Dos vários escritos de Bakunin, neste manuscrito, que, mais tarde, torna-se conhecido como Deus e o Estado, ele dedica algumas linhas ao estudo da História. A primeira edição de Deus e o Estado foi, em 1882, publicada em Genebra, o titulo da obra não é de autoria de Bakunin, mas dos organizadores dos textos: Carlo Cafiero e Eliseé Reclus. O texto original foi recolhido de trechos do manuscrito denominado “Império Knouto-germânico” de 1871. Bakunin inicia seus escritos afirmando que três elementos constituem na história, as condições essenciais de todo desenvolvimento humano: 1º) a animalidade humana; 2º) o pensamento; 3º) a revolta. À primeira corresponde propriamente a economia social e privada; à segunda, a ciência; à terceira, a liberdade. (Ibidem: 03)

Bakunin escreve que o homem, com toda sua inteligência, ideias sublimes e aspirações infinitas “é produto da vil matéria”. (Idem) O revolucionário russo define-se materialista e escreve: Sim, os fatos têm primazia sobre as ideias; sim, o ideal, como disse Proudhon, nada mais é do que uma flor, cujas condições materiais de existência constituem a raiz. Sim, toda a história intelectual e moral, política e social da humanidade é um reflexo da sua história econômica. (Ibidem: 04) Para Bakunin, a condição animal no homem é nata, o pensamento é uma faculdade e capacidade, a revolta uma necessidade. (Idem) A ação progressiva da história se constituiu em combinar a faculdade de pensar e de se revoltar. É a potência negativa no desenvolvimento positivo da animalidade humana e que constitui tudo o que há de humanidade nos homens. (Idem) Para Bakunin, a humanidade é um ato de revolta; assim escreve: O homem se emancipou, separou-se da animalidade e se constituiu homem; ele começou sua história e seu desenvolvimento especificamente humano por um ato de desobediência e de ciência, isto é, pela revolta e pelo pensamento. (BAKUNIN, 2008:06)

Para exemplificar a animalidade humana, Bakunin cita como exemplo a invasão da França pela Alemanha. No momento em que se aceita esta origem animal do homem, tudo se explica. A história consiste na negação progressiva da animalidade primitiva do homem pelo desenvolvimento de sua humanidade. Progredir é negar o passado. O autor acredita na “evolução” humana, ele é um evolucionista:

O homem, animal feroz, primo do gorila, partiu da noite profunda do instinto para chegar à luz do espírito, o que explica de uma maneira completamente natural todas as suas divagações passadas e nos consola em parte de seus erros presentes. Ele partiu da escravidão animal, e atravessou a escravidão divina, termo transitório entre sua animalidade e humanidade, caminha hoje rumo à conquista e a realização da liberdade humana. (Ibidem:10)

A antiguidade de uma crença ou ideia, longe de provar alguma coisa, deve, pelo contrário, torná-la suspeita entre nós. Justo porque, atrás de nós, está nossa animalidade, e, diante de nós, nossa humanidade; a luz humana, a única que pode nos aquecer e nos iluminar, a única que pode nos emancipar, tornar-nos dignos, livres, felizes, e realizar a fraternidade entre nós, jamais esta no princípio, mas, relativamente, na época em que se vive, e sempre no fim da história.(Idem)

Depois de afirmar que jamais devemos olhar para trás, que é necessário olhar sempre pra frente, aonde o autor chega falar em “salvação”, ele assim se refere ao estudo do passado:

(…) se nos é permitido, se é mesmo útil, necessário, nos viramos para o estudo de nosso passado, é apenas para constatar o que fomos e o que não devemos mais ser, o que acreditamos e pensamos, e o que não devemos mais acreditar nem pensar, o que fizemos e o que nunca mais devemos fazer. (Idem)

A História, também pode servir como “lição”, e como testemunho e recurso argumentativo, como nestes exemplos: (…) não faltam as provas da história (Ibidem:23); ou Numa palavra, não é difícil provar, com a história na mão (…) (Ibidem:25)

A contradição de Bakunin está no fato de que ele quer combater a “metafísica”, com outra “metafísica”, fazendo crer que existe um destino histórico. Esta contradição é expressa na passagem a seguir:

Ela sabe, enfim, quando não está viciada pelo doutrinarismo teológico ou metafísico, político ou jurídico, ou mesmo por um estrito orgulho, quando ela não é surda aos institutos e às aspirações da vida, e que o grande, o verdadeiro objetivo da história, o único legítimo, é a humanização e a emancipação, é a liberdade real, a prosperidade de cada indivíduo vivo na sociedade. (Ibidem:31)

Para tratar do estudo científico dos fenômenos sociais, Bakunin escreve que não são individualidades abstratas, mas indivíduos, agindo e vivendo, que fazem a história. Segundo ele, as abstrações só existem quando conduzidas por homens reais, e acrescenta: Para esses seres formados, não somente em ideias, mas em realidade, de carne e de sangue, a ciência não tem coração. (Ibidem: 32)

Bakunin escreve que a ciência jamais abdicaria de suas teorias eternas; para ele, isso é a “ciência”. Para ele, a ciência não se ocupa do concreto, ela só pode mover-se em abstrações:

Sua missão é ocupar-se da situação e das condições gerais da existência e do desenvolvimento, seja da espécie humana em geral, seja de tal raça, de tal povo, de tal classe ou categorias de indivíduos, das causas gerais de sua prosperidade, de sua decadência e dos meios gerais bons, para fazê-los progredir de todas as maneiras. Desde que ela realize ampla e racionalmente esta tarefa, ela terá feito todo seu dever e seria realmente injusto pedir-lhe mais. (Idem)

A crítica de Bakunin é posta no momento em que ele afirma que, até o presente momento, toda a história humana foi uma imolação perpétua e sangrenta de milhões de pobres seres humanos em nome de uma abstração impiedosa qualquer: Deus, Pátria, poder do Estado, honra Nacional, direitos históricos, liberdade política, bem-público. (Idem)

Bakunin discute a possibilidade da constituição de uma ciência histórica, e faz alguns questionamentos no sentido de saber o seu alcance: A verdadeira ciência da história ainda não existe; quando muito, começam-se a entrever, hoje, as condições extremamente complicadas. Mas suponhamo-la definitivamente feita, o que ela poderá nos dar?(Ibidem: 33) Ele escreve que esta História científica estabelecerá o quadro fiel do desenvolvimento das sociedades que tiveram história. Se ele diz: das sociedades que tiveram história, deixa implícito que em sua concepção existiram sociedades sem história. O ideólogo anarquista escreve: Mas este quadro universal da civilização humana, por mais detalhado que seja, jamais poderá conter, senão, apreciações gerais e, por consequência, abstratas. (Idem)

Sobre os bilhões de indivíduos que forneceram a matéria-prima viva e sofredora desta história, Bakunin diz que eles não encontrarão sequer o mínimo lugar nos anais. Desta forma, eles viveram e foram sacrificados pelo bem da humanidade abstrata, eis tudo! (Idem) Ele pergunta: Será preciso censurar a ciência da história? E responde: Seria injusto e ridículo. (Idem) A ciência é incapaz de abordar os indivíduos, pois estes são inapreensíveis pelo pensamento, pela reflexão, até mesmo pela palavra, que só é capaz de exprimir abstrações. Esta incapacidade, diz Bakunin, ocorre tanto no presente, quanto no passado. A ciência social, a ciência do futuro, continuará forçosamente a ignorá-los. No que podem contribuir as ciências sociais e a História:

Tudo o que temos direito de exigir dela é que nos indique, com mão fiel e segura, as causas gerais dos sofrimentos individuais, e, entre estas causas, ela sem dúvida não esquecerá a imolação e a subordinação ainda muito frequente, infelizmente, dos indivíduos vivos às generalidades abstratas; e, ao mesmo tempo, nos mostrará às condições gerais necessárias à emancipação real dos indivíduos vivendo na sociedade. Eis sua missão, eis também seus limites (…)” (Ibidem:33s)

Fica evidente que Bakunin é adepto da metafísica, chegando a afirmar: Todos os sistemas de metafísica nada mais são do que a psicologia humana se desenvolvendo na história. (Ibidem: 39) Ele escreve que a história é feita pelos homens, condicionados pelas condições históricas. Para fecundar os elementos históricos, para fazê-los percorrer uma série de transformações, é necessário um fato vivo, espontâneo, sem o qual podem permanecer muitos séculos ainda em estado de elementos improdutivos. (Ibidem: 40)

Neste texto de Bakunin, datado de 1871, Deus e o Estado é uma produção que possui como fundo o processo histórico. O autor inicia a exposição escrevendo sobre “estágios” ou “etapas” da história da humanidade. Bakunin proclama-se materialista, e escreve sobre as crenças e concepções ideológicas e filosóficas dos seres humanos na história. Trabalha com a ideia de progresso e evolução. Possui uma concepção metafísica da história, deixando transparecer que existe um “objetivo” na história, uma lei suprema etc. Para ele, o último estágio da evolução humana é a necessidade de revolta, que potencializa para a construção da sociedade mais humana. Michael Bakunin diz que não devemos estudar o passado, a História, para procurar exemplos positivos, mas sim exemplos negativos, de como não fazer. Justifica dizendo que atrás está nossa animalidade e é na frente que encontramos nossa humanidade. Fica evidente que, para ele, a humanidade não regride, que só existe progresso. Ele acredita que seria possível uma História ciência com suas leis correspondentes. Esta História científica não estudaria os indivíduos, pois somente trataria de generalidades. Teria como tarefa iluminar o caminho para libertação da sociedade e dos seres humanos. Para este anarquista, os indivíduos não apareceriam na História, somente os grandes conjuntos, grupos e classes. Bakunin afirma que existe algo exterior aos homens que condiciona o rumo da história, porém ele acrescenta que a história é feita pelos homens, condicionados, que fecundam os elementos latentes do devir histórico. Assim, percebe-se que Bakunin concorda com a criação de teorias científicas que expliquem o desenvolvimento da história. Ele possui uma concepção metafísica, hipotético-dedutiva e teórica para o estabelecimento da “ciência social” e da História.

3.3. Peter Kropótkine: A história no comportamento do homem.

Pedro Alekesyvich Kropotkine nasceu em 1842, na Rússia, e faleceu em 1921, no mesmo país. Era de família rica, descendia de nobres russos. Filho de um oficial de alta patente, Kropótkine não quis seguir a carreira militar e preferiu os estudos científicos. Tornou-se geógrafo, publicando várias obras importantíssimas, é ainda lembrado pelos geógrafos como o cientista que muito contribuiu para o conhecimento da história da terra. Vai para a Europa, onde se dedica ao estudo e produção intelectual, do que ele chama de “idealismo social”. A ciência passou a ser a serva de seus objetivos revolucionários. Na Suíça, participa ativamente de grupos de revolucionários e conspiradores, identificando-se com os anarquistas. Passou a produzir e publicar estudos de sociologia, procurando dar ao anarquismo o caráter de ciência. Para ele, a sociedade evolui no sentido da concretização da sociedade sem classes e sem o Estado. (WOODCOCK, 2002:212s) A obra escolhida para analisar-se, aqui, foi “A Questão Social”. No prefácio da edição francesa, de fevereiro de 1913, Peter Kropótkine agradece ao historiador (anarquista) “Dr. Max Nettlau”, pela ajuda na elaboração das Notas com o grande conhecimento deste último sobre a literatura socialista. (KROPÓTKINE, s/d:09)

Ao referir-se aos avanços da ciência, e a contribuição desta para a melhoria, reforma ou revolução da sociedade, Kropótkine cita, entre esses avanços, a “interpretação antropológica da história”. (Ibidem: 26) Depois de fazer uma avaliação da contribuição de Darwin para a interpretação dos fenômenos, Kropótkine escreve que a ideia de um contínuo desenvolvimento, da progressiva evolução e gradual adaptação dos indivíduos e sociedades às novas condições, a partir do momento em que estas se modificam, encontrou aplicação muito mais larga que a que, até então, pretendia explicar a origem das espécies. Assim escreve que, se fundamentando nesse principio, tão rico de consequência, foi possível reconstituir, não somente a história dos organismos, mas a própria das instituições humanas. (Ibidem: 40s)

Kropótkine afirma que os estudos de Darwin são os primeiros fundamentos sólidos e científicos da História. O evolucionismo fundamenta a história dos hábitos, dos costumes, das crenças e das instituições humanas. Essa fundamentação científica faltava para os cientistas sociais do século XVIII, e que, para ele, é um golpe contra a metafísica do século XIX:

Essa história – a das sociedades humanas, das várias instituições sociais e das religiões – podemos agora escrevê-la, norteando-nos pelo fecundo princípio da evolução, sem necessidade de recorrermos às formulas metafísicas de Hegel, sem ser preciso apelar para ideias inatas, para uma revelação exterior e superior ou ainda para a substância de Kant. (Ibidem:41)

Pedro Kropótkine diz que, graças aos trabalhos de naturalistas, que souberam aplicar o mesmo método científico aos estudos das instituições primitivas e das leis que delas derivam a sua origem, foi possível estabelecer a história do desenvolvimento das instituições humanas em bases tão firmes como hoje está a história do desenvolvimento de qualquer espécie vegetal ou animal. (Idem) Só foi possível obter resultados exatos, científicos, depois que os homens de ciência começaram a considerar os fatos históricos do mesmo modo por que um naturalista considera o desenvolvimento gradual dos órgãos de uma planta ou de uma nova espécie. (Ibidem: 42)

O cientista anarquista defende o método empírico para o estudo da história, relacionando a História à antropologia e não à economia política. Para ele, o estudo da antropologia, que o é o estudo da evolução fisiológica do homem e do desenvolvimento das suas instituições sociais e religiosas, auxilia e possibilita a compreensão da História. Só assim foi, enfim, possível traçar as linhas essenciais da história da humanidade, abandonando para sempre a metafísica, que, até então, só havia obstruído o estudo da História tal como a tradição bíblica obstruíra outrora o estudo científico e o progresso da geologia. (Ibidem:43)

Apresenta críticas aos marxistas, escrevendo: Em consequência da sua predileção pelo método dialético e pela metafísica econômica, em vez de se aplicarem aos estudos dos fatos concretos da vida econômica dos povos, bastaria referir os numerosos e crassos erros econômicos em que os marxistas incidiram. (Ibidem:43) Kopótkine diz que a metafísica só obstruiu o desenvolvimento e o estudo científico da história. Após criticar a metodologia dos economistas políticos, em relação ao que ele chama de metafísica (deduções) e elucubrações teóricas, Peter Kropótkine escreve: A questão unicamente pode ser resolvida estudando os fatos econômicos pelo mesmo método por que se estudam as ciências naturais. (Ibidem:152) Neste caso, o método empírico.

O cientista escreve que a estrutura da sociedade humana é algo que nunca está definitivamente constituído. As estruturas estão sempre transbordando de vida e vivem em continua mutação conforme as necessidades e aspirações de cada momento histórico. (Ibidem: 162) A história é feita pelos indivíduos, e acrescenta: (…) a nossa concepção de progresso está em uma ininterrupta aproximação do princípio do desenvolvimento da livre iniciativa individual e coletiva.(Idem)

Apresenta o papel político e ideológico do cientista e historiador, que, para ele, apresenta-se também na escolha dos temas de pesquisa: Pois que partido revolucionário somos, procuremos averiguar exatamente a gênese e a evolução das revoluções passadas, desembaraçando a sua história das falsas interpretações estatistas que os historiadores lhe têm atribuído até hoje. (Ibidem:163)

Kropótkine diz que, nas Histórias escritas até aquele tempo, das várias revoluções ocorridas, o que menos vemos nelas é a ação do povo. Afirma que, nestas Histórias, nada ficamos sabendo acerca de sua gênese. Ele afirma que as frases que se habituou ler na introdução dessas Histórias sobre o estado de desespero do povo, nas vésperas das sublevações, não nos elucidam em coisa alguma. Não sabemos como, no meio desse desespero, surgiu no espírito popular, e como se elaborou e desenvolveu a esperança de uma melhoria possível de situação, de uma aurora nova, que o redimisse da condição sofredora em que se achava. (Idem) O escritor incentiva a pesquisa história, ao escrever:

E assim é que, depois de havermos lido essas histórias, que nada esclarecem, se, porventura, quisermos encontrar alguma informação útil sobre a marcha das ideias e do seu despertar no seio do povo, a parte efetiva que este tomou nos acontecimentos, temos de recorrer às fontes históricas de primeira mão, sem o que ficaremos na mesma, como antes. (Idem)

Na conclusão do livro, Kropótkine afirma que os anarquistas optam pelo método indutivo-dedutivo para a apreciação das instituições humanas. (Ibidem: 170) Para ele, os anarquistas, usando do método indutivo-dedutivo da ciência, para reconstruir as instituições sociais e culturais, baseando-se nas modernas investigações etnológicas e antropológicas e utilizando-se dos documentos históricos que a ciência moderna tem vindo arquivando, oferece-se um caminho para uma interpretação da história. (Ibidem:171) A escolha pelo método indutivo-dedutivo é justificada por Kropótkine na medida em que previne e possibilita ao investigador corrigir possíveis erros nas descobertas e nos próprios métodos. Ele não concorda com a “metafísica alemã” e as “leis científicas”, pois, para ele, estas leis são tomadas como “verdades absolutas”; conforme Kropótkine, em primeiro lugar vêm os fatos, as realidades e a constituição de verdades provisórias, sempre críticas. (Ibidem:172)

Kropótkine diz que, entre os avanços da ciência, está a interpretação antropológica da história. Ele acredita que o evolucionismo confere cientificidade à História. Defende a utilização do método indutivo-dedutivo, que, para ele, é o verdadeiro método científico, partindo do empírico e confrontando com as teorias e generalizações. Defende que os fatos econômicos devem ser estudados com os mesmos métodos das ciências naturais, ou seja, caso a caso. Segundo Kropótkine, o historiador deve ser um agente político. Conforme o “cientista”, nas Histórias das revoluções escritas até aquele tempo, o que menos se vê é a participação do povo. Se por algum motivo, queira-se saber da participação do povo, seus projetos, suas ações, suas formas de organização e suas ideias, é necessário procurar nos documentos históricos.

3.4. Rudolf Rocker: a história como “vontade de potência”.

Rudolf Rocker nasceu em 1873 na Alemanha, e faleceu em 1958 nos E.U.A.; é reconhecido como historiador e ativista anarquista. Contribuiu muito para o pensamento anarquista do século XX, publicando mais de 30 obras. Sua principal obra é, sem dúvida, “Nacionalismo e Cultura”, obra em que assinala que o nacionalismo moderno é uma ruptura no processo geral da cultural. O primeiro capítulo desta obra, que será analisada a seguir, chama-se “La insuficiência del materialismo econômico” ou “A insuficiência de todas as interpretações históricas”, em algumas traduções. Rudolf Rocker acredita que seja impossível analisar a história com métodos científicos. (ROCKER, 2007)

Rocker escreve que o reconhecimento da significação das condições econômicas na conformação da sociedade é a essência do socialismo. (Idem) Para abordar as interpretações Históricas do marxismo, Rudolff Rocker diz que o erro fundamental da teoria marxista é equiparar as causas dos fenômenos sociais às causas dos fenômenos físicos. (Ibidem:02) Para ele, quanto mais profundamente se examina as influências políticas na história, mais se chega à convicção de que a “vontade de poder” tem sido, até agora, um dos estímulos no desenvolvimento das formas de sociedade humana. (Ibidem:01)

O historiador anarquista escreve que a ciência se ocupa exclusivamente dos fenômenos naturais, que está ligada ao tempo e espaço, sendo acessíveis aos cálculos do intelecto humano. (Ibidem: 02) Ele diz que grande parte das interpretações históricas se baseiam nesta noção errada das leis da existência e que estão na base de todo acontecimento social. Em outras palavras: porque confundieron las necesidades mecánicas del desarrollo natural con las intenciones y los propósitos de los hombres, que han de valorarse simplemente como resultados de sus pensamientos y de su voluntad. (Idem)

O historiador afirma que não nega a existência na História de relações internas que se pode atribuir à noção de causa e efeito, mas se trata de processos sociais, sempre de uma causalidade de fins humanos. As causalidades de natureza físicas se desenvolvem independentes do nosso consentimento; as causalidades históricas são manifestações de nossa vontade. (ROCKER, 2007) Toda finalidade humana preestabelecida é uma questão de fé, e escapa ao calculo cientifico. Assim, Rudolf Rocker diz que: En el reino de los hechos físicos sólo rige el debe ocurrir, en el reino de la fe, de la creencia, existe sólo la probabilidad: puede ser, pero no es forzoso que ocurra. (Idem)

Para ele, toda tentativa de previsão humana, de uma finalidade, é para a existência social de grande importância, porém deve deixar de considerar os acontecimentos sociais como manifestações forçosas de uma evolução naturalmente necessária. Semelhante interpretação tem levado aos piores sofismas e levado à perda total de todo verdadeiro entendimento da história. (Idem) Rudolf Rocker escreve sobre a incapacidade de prever os acontecimentos na história, a partir dos motivos e das causas:

Para el cálculo de motivos y propósitos humanos no hay ninguna medida exacta, porque no son accesibles, de ninguna manera al cálculo. Es imposible calcular y predecir el destino de pueblos, razas, naciones y otras agrupaciones sociales; ni siquiera nos es dado encontrar una explicación completa de todo lo acontecido. (Ibidem:04)

A definição de história, pelo historiador anarquista Rudolff Rocker, é a seguinte: La historia no es otra cosa que el gran dominio de los propósitos humanos; por eso toda interpretación histórica es sólo una cuestión de creencia, lo que, en el mejor de los casos, puede basarse en probabilidades, pero nunca tiene de su parte la seguridad inconmovible. (Idem) O escritor diz que toda interpretação da História pode conter ideias importantes para a explicação dos fatos históricos, isto é inquestionável, porém afirma que só não concorda com a afirmação de que a “marcha” da história esteja sujeita às mesmas e idênticas leis dos conhecimentos mecânicos e físicos da natureza. (Idem) Para ele, não existem leis na História, esta é sua afirmação categórica: No hay ninguna ley en la Historia que muestre el camino de cualquier actuación social del hombre. (Idem) As causas que originam os processos da vida social não têm nada de comum com as leis do devir natural físico e mecânico, pois estas causas são resultado das tendências finalistas dos homens, e que não se deixam explicar de modo puramente científico. (ROCKER, 2007)

Qualquer pessoa que pense de forma mediana sabe que é impossível conhecer um período histórico sem levar em consideração suas condições econômicas. Porém, é completamente equivocado querer que toda a história seja unicamente resultado das condições econômicas. (Idem) Sendo contrário ao monocausalismo econômico, Rudolf Rocker defende uma concepção pluricausal, ou multicausal:

Todos os fenómenos sociales se producen por una serie de motivos diversos que, en la mayoría de los casos, están entrelazados de tal modo, que no es posible delimitarlos concretamente. Se trata siempre de efectos de múltiples causas, que pueden reconocerse claramente, pero que no se pueden calcular de acuerdo con métodos científicos. (Ibidem:06)

O historiador anarquista destaca que a “vontade de poder”, que parte sempre de indivíduos ou de pequenas minorias da sociedade, é uma das forças motriz mais importante da história, porém que tem importância decisiva na formação da vida econômica e social inteira. (Idem) É um erro muito grave para os historiadores, quando os diversos estratos sociais de uma determinada época, são reduzidos a uma relação econômica, e completa: Una interpretación tal no sólo empequeñece el campo general de visión del investigador, sino que hace de la Historia entera una caricatura que ha de conducir siempre a nuevos sofismas. (Ibidem: 09)

Rudolf Rocker diz que as condições econômicas, por si só, não podem modificar toda uma estrutura social, se não existirem nos homens as condições psicológicas e espirituais que deem sentido e agrupem as forças sociais dispersas para uma obra comum. (Ibidem: 10) Segundo ele, todos sabem que as questões econômicas têm muita influência na transformação das condições sociais, mas é muito mais importante saber o modo como os seres humanos reagem, em seu pensamento e ação, sobre a influência e os passos que dão no sentido de implantar uma transformação na vida social considerada necessária. (Ibidem: 13) Para destacar o estudo dos fatores subjetivos na história, ele escreve: El valor y la cobardía no son determinados por las formas eventuales de la producción, sino que arraigan en los estratos psíquicos del hombre. (ROCKER, 2007)

Ao estudar as relações de poder, Rudolf Rocker destaca que é necessário analisar a “política de domínio”, sem se importar por quem esta seja movida e nem a que finalidade imediata sirva. (Ibidem: 16) Para o historiador, que escreveu este texto em 1937, o estudo da “vontade de poder” ou “política de domínio”, pode ser um instrumento para a interpretação da história, e assim completa: El triunfo o el fracaso de los planes de dominio capitalista-monopolistas determinará la nueva estructuración de la vida social en el próximo futuro. (Ibidem: 18)

Portanto, para Rudolf Rocker, o reconhecimento da importância do fator econômico é a essência do socialismo, porém não justifica o reducionismo e o determinismo econômico. Diz que não existe possibilidade do uso do método científico das ciências naturais para a interpretação da história. Para ele, não existem leis históricas, mas acredita no regime de causalidade. As causas em história são manifestações das vontades humanas. Acredita que seja interessante a busca por “previsão” na história. Escreve que, no máximo, pode-se falar em probabilidades em História, nunca em certezas. Defende a ideia de que, em história, não existe um mecanismo monocausal, mas sim pluricausal. O historiador acredita que a “vontade de poder” é um grande estimulador do desenvolvimento das formações sociais. Para ele, minorias, muitas vezes organizadas, possuem importância decisiva na formação da vida econômica e social de dadas sociedades. A “vontade de poder” ou a “política do domínio” deveriam ser mais bem estudadas na História, pois estas forças é que disputam e são deveras responsáveis pelas representações e construções sociais que existem. Rudolf Rocker, fazendo alusão às atividades políticas revolucionárias, diz que não são as condições econômicas que produzem o covarde.

  1. Conclusão

As discussões propostas por Proudhon em relação à história estão de acordo com o historicismo e o empirismo positivista e da Escola Metódica, na medida em que ele não pretende criar uma teoria que explique toda a história, mas um “método que detecta o movimento da história”. Pretende deixar de lado toda metafísica, a filosofia da história, porém o que mais vemos em suas obras são citações de historiadores românticos, como Michelet. As contradições aparecem, e o autor não as nega, uma vez que ele afirma o movimento teleológico da história, representado na continuidade da ruptura. Para ele, os fenômenos desenvolvem-se em unidades arranjadas de forma sistêmica, onde cada parte mantém relativa ou total autonomia em relação ao todo. Defende as particularidades na história, o empírico, e que não há determinismo na história. Para Proudhon, a História é uma narrativa lógica, cronológica e que é utilizada de forma político-ideológica, funcionando com o auxílio de “ciências auxiliares”, que, para ele, seria a economia política. O modelo de ciência, segundo ele, era a ciência natural; por isso, Proudhon não admitia que a História produzisse leis, portanto a História não seria ciência. Proudhon discutia com Marx a questão da constituição de “Ciências Sociais”. Marx buscava a construção de uma teoria, não pelo método empírico, mas pelo dedutivo. Proudhon acreditava que a constituição de teorias, principalmente se não fossem fundamentadas em experiências, seria a intromissão da filosofia e da ideologia na ciência. Em uma carta em resposta a Marx, Proudhon escreve: (…) faço profissão pública de um antidogmatismo econômico quase absoluto. Se o senhor quiser, investiguemos juntos as leis da sociedade. (…) Mas, por Deus! Depois de demolir todos os dogmatismos a priori, não sonhemos, de nossa parte, com a doutrinação do povo. (RESENDE, 1986: 20) Proudhon dizia que não é o econômico que determina a sociedade, mas a sociedade (conjunto de vários fatores) que produz a economia. Ele morreu dois anos antes da publicação de O Capital.

Bakunin tenta “desvendar” o processo histórico, descrevendo sobre “estágios” ou “etapas” da história da humanidade. Proclama-se materialista, e escreve sobre as crenças, as concepções ideológicas e filosóficas dos seres humanos na história. É um iluminista, acreditando na razão e na ideia de progresso e evolução. Possui uma concepção metafísica da história, deixando transparecer que existe um “objetivo”, um destino já traçado na história. Michael Bakunin desconfia do passado e possui fé no futuro. Defende uma ruptura com o passado, que o devir histórico é contra a história. Ele acredita que seria possível uma História ciência com suas leis correspondentes. A História científica, para Bakunin, não estudaria os indivíduos, mas somente os grandes grupos e classes. Teria como tarefa iluminar o caminho para libertação da sociedade e dos seres humanos. Bakunin afirma que existe algo exterior aos homens que condiciona o rumo da história; porém, ele acrescenta que a história é feita pelos homens, condicionados, que fecundam os elementos latentes do devir histórico. Ele possui uma concepção metafísica, hipotético-dedutiva e teórica para o estabelecimento da História ciência. Não se pode deixar de considerar que o texto de Bakunin é incompleto, foi interrompido. Sua análise histórica é muito fraca, metafísica, filosófica e muito idealista. Destaca-se que, no período em que ele escreveu seu texto, alguns historiadores já estavam procurando a constituição da história como ciência social, com suas teorias próprias e independentes. Ele procurou fazer o contraponto ideológico à produção de Marx, que escreveu sua tese fundamentando-se na economia política, enquanto Bakunin, embora se afirmando materialista, produziu o que hoje se chama “história das mentalidades”.

No inicio do século XX, antes da Primeira Guerra e da Revolução Russa, Kropótkine, também em oposição ao marxismo, diz que, entre os avanços da ciência, está a interpretação antropológica da história. Ele acredita que o evolucionismo confere cientificidade à História. Defende a utilização do método indutivo-dedutivo no estudo da História, que, para ele, é o verdadeiro método científico, partindo do empírico e confrontando com as teorias e generalizações antropológicas. Defende que os fatos econômicos devem ser estudados com os mesmos métodos das ciências naturais, ou seja, caso a caso. Defende também que o historiador deve ter compromisso político. Na historiografia das revoluções escritas, até aquele momento o que menos se vê é a participação do povo. Para saber da participação do povo na história, seus projetos, suas ações, suas formas de organização, lutas e ideias, é necessário procurar nos documentos históricos. Kropótkine pensava de acordo com os historiadores de seu tempo – procuravam uma história social, onde aparecesse a participação do povo. Defende uma concepção de história científica aliada às ciências sociais, principalmente a antropologia. Buscava provar que a “ajuda mútua” era o fator determinante no processo histórico, que conduzia a sociedade para o “reino” da igualdade e da liberdade. Apesar disso, no caso da História especificamente, foi bem coerente em termos teóricos e metodológicos.

O historiador Rudolf Rocker afirma que reconhecer a importância do fator econômico é a essência do socialismo, mas isso não justifica o reducionismo nem o determinismo econômico. Para ele, não existe possibilidade do uso do método científico das ciências naturais para a interpretação da história. Ele escreve que não existem leis históricas, todavia acredita no regime de causalidade. As causas em história são manifestações das vontades humanas. Não acredita em leis históricas, embora considere que, no máximo, seja possível falar em probabilidades em História, nunca em certezas. É contra a tese de um mecanismo monocausal, defendendo, sim, o pluricausal. Para Rudolf Rocker, a “vontade de poder” é um grande estimulador do desenvolvimento das formações sociais. As minorias, muitas vezes organizadas, possuem importância decisiva na formação da vida econômica e social de dadas sociedades. Os historiadores deveriam estudar mais a “vontade de poder” ou a “política do domínio”. Rudolf Rocker parece não estar acompanhando as transformações historiográficas que passam a surgir a partir da Escola dos Annales. O modelo de ciência que os historiadores vêm tomando desde o início do século não é o das ciências naturais e nomotéticas, mas as ciências sociais que vêm se desenvolvendo. Sua crítica ao determinismo econômico propõe uma historiografia contraria ao marxismo-leninismo. Em sua principal obra, denominada “Nacionalismo e Cultural”, aborda questões caras ao socialismo, como o Estado e o nacionalismo. O estudo de sua prática historiográfica merece mais dedicação nos termos da metodologia e da historiografia. A princípio, o que pôde ser observado é que, neste capítulo sobre metodologia da história escrito por ele, não exclui o político da história como faz a Escola dos Annales.

Resumindo: o único que apresenta um pensamento destoante é Bakunin. Ele se difere dos outros anarquistas por acreditar em um “destino na história”, na razão iluminista e na ciência. Defende que o principal fator determinante na história é o fator econômico, aposta na constituição da “Ciência histórica” e que sejam criadas leis históricas. O método de Bakunin é hipotético-dedutivo (metafísico). Proudhon, querendo criar um método e defendendo o empirismo, criou uma teoria. Kropótine misturou “ciência” e ideologia (filosofia), contudo foi capaz de formular orientação mais coerente para a prática historiográfica, para a construção do saber histórico ao relacionar a história com a antropologia. O único problema nas discussões de Rudolf Rocker é o fato de ele considerar somente o modelo das ciências naturais como sendo o verdadeiro método científico.

Considerando as observações acima, o pensamento anarquista em relação à história apresenta algumas características: a aposta na concepção de que os homens possuem autonomia relativa perante o devir; que a história é uma construção a partir da disputa de vários projetos e de diversos agentes sociais; que não existe determinismo; que existe uma continuidade de rupturas; que as causas em história são de caráter humano e social; que não existe um mecanismo monocausal, mas sim pluricausal e que não existem leis, em história. A história existe em diálogo com as ciências sociais. Os anarquistas defendem em primeiro lugar o estudo do empírico, as particularidades, individualidades e especificidades, articulando, estas, ao global e geral, à unidade e à teoria. No campo temático, os anarquistas em estudo apostam na história das ideias e mentalidades, uma história social da cultural.

A questão fundamental, para os tempos atuais, é que os projetos sociais de igualdade e liberdade não dependem da vontade da ciência. A ciência não tem vontade. As ideologias sim, estas podem construir, de acordo com as condições reais, seus projetos de socialismo e liberdade. A História pode contribuir, na construção dos discursos de identidade, nas memórias de lutas, no estudo dos processos reais, para a construção dos programas revolucionários. A busca do sentido que defende Dosse pode estar na possibilidade de trabalhar com a pluralidade serial, respeitando as particularidades e articulando de forma federativa e libertária os saberes e poderes em “combates pela história”.]

Anderson Romário Pereira Corrêa, em Anarkismo.net

  1. Bibliografia

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BAKUNIN, Mikhail. Deus e o Estado. http://www.culturabrasil.org/deuseoestado.html.26/06/20…10:25

COLLIOT-THÉLÈNE, Catherine. Max Weber e a história. São Paulo: Brasiliense, 1995.

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KROPÓTKINE, Peter. A Questão Social: O humanismo libertário em face da ciência. Rio de Janeiro, Ed. Mundo Livre. s/d.

MONGE, Rodrigo Quesada. Utopia y anarquia em el discurso historiográfico contemporâneo. Escaner Cultural. Santiago de Chile. Revista Virtual. Ano 8. Número 82, Abril de 2006. http://www.escaner.cl/escaner82/perfiles.html. 25/06/2008. 11:05.

REIS, José Carlos. Da “história global” à “história em migalhas”: o que se ganha, o que se perde? In: Questões de teoria e metodologia da história. Porto Alegre: Ed.Universidade/UFRGS, 2000.

REIS, José Carlos. A história entre a filosofia e a ciência. São Paulo. Ática, 1996
RESENDE, Paulo-Edgar e Edson Passeti. Pierre-Joseph Proudhon:Política. São Paulo. Ed. Ática, 1986.

ROCKER, Rudolff. La insuficiência de todas las interpretaciones históricas. In: Nacionalismo e Cultara.1ªEd.Londres, 1937. 1ª Ed. Cibernética, março de 2007. http://es.wikipedia.org/wiki/Rudolf_Rocker

WOODCOCK, George. História das idéias e movimentos anarquistas –v.2, O movimento. Porto Alegre, L&PM, 2002.

Obs.:Artigo integrante dos instrumentos avaliativos utilizados pelo Prof. Dr. Arno Alvarez Kern durante o Seminário: “Debates teóricos do tempo presente sobre a epistemologia do passado: teorias da história e da arqueologia.”. Mestrado em História – PUCRS.2008.

Publicado primeiramente no:

http://www.estrategiaeanalise.com.br/ler02.php?idsecao=…b2308

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Nota

[1] Durante as programações da I Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre, foi lançado o livro “A História por Anarquistas”. Com apresentação de Felipe Corrêa, que escreveu sobre o anarquismo contemporâneo/ a história para os anarquistas/ teoria e método de análise; O primeiro capitulo foi escrito por Bruno Lima Rocha, com o capitulo “organização política Anarquista e Democracia de Base Libertária. Bruno desenvolve seus argumentos “com exemplos e debates de fundo histórico e sob a perspectiva do anarquismo de matriz especifista.” O texto a seguir é o segundo capitulo “A História na Visão de Anarquistas”, de autoria de Anderson Romário Pereira Corrêa.

“No capitalismo só não há espaço para dois entes: o ser humano e a natureza”

O ponto final na curta história do projeto de estado de bem-estar social, iniciado no pós-guerra, parece ter sido colocado com a crise financeira mundial de 2008. Se o capitalismo atual, impulsionado pela financeirização, não encontra limites matemáticos, alcançando uma cifra 350% superior ao PIB mundial, defronta-se com a barreira que lhe confere alguma materialidade: o ser humano e a natureza. “É bem evidente hoje que os problemas ecológicos, tais como o aquecimento global, a poluição das águas potáveis, a acidificação dos oceanos, a destruição das espécies, etc. ameaçam o capitalismo porque ameaçam a própria continuidade da vida humana na Terra. Eis que a natureza, assim como o ser humano que faz parte dela, não está integrada ao capital; eis que ambos estão apenas subordinados e que, por isso mesmo, podem contrariar a lógica de expansão insaciável que caracteriza sobretudo o modo de existência da produção capitalista”, pontua Eleutério F. S. Prado, em entrevista por e-mail à IHU On-Line [1].

“No capitalismo contemporâneo, quase todos os setores estão dominados por oligopólios formados por grandes ou mesmo enormes empresas, as quais são administradas com base em uma visão financeira dos negócios”, descreve Prado. “A sua lógica é de curto prazo: obter o máximo lucro para repassá-lo aos juristas (os keynesianos usariam aqui a palavra ‘rentistas’). Há, ademais, um certo consenso no pensamento crítico de que a financeirização está associada a um capitalismo de crescimento rastejante, mas altamente concentrador de renda”, complementa.

O professor acrescenta que testemunhamos uma tentativa sistemática de supressão dos direitos dos trabalhadores, conquistados historicamente, em detrimento da proteção de instituições econômicas e ingerências políticas. “A democracia pressupõe o cidadão, mas o neoliberalismo quer transformar o humano em mero agente econômico. E este apenas compete dentro de regras que não cria e, por isso, não se junta a outros na luta pelo comum”, analisa. “Atualmente, os Estados pouco se preocupam com o bem-estar da população, pois se concentram em impor as normas e as leis que favorecem a financeirização, a competição generalizada e a globalização. Diante desse quadro, como sugerem Dardot e Laval   no livro Comum. Ensaio sobre a revolução no século XXI (São Paulo: Boitempo, 2017), não se pode mais depositar as esperanças progressistas na possibilidade de vir a usar o poder estatal”, critica o entrevistado.

Veja entrevista na íntegra em http://www.ihu.unisinos.br/575494-no-capitalismo-so-nao-ha-espaco-para-dois-entes-o-ser-humano-e-a-natureza-entrevista-especial-com-eleuterio-f-s-prado.

[1] Eleutério F. S. Prado realizou graduação e pós-graduação em Economia pela Universidade de São Paulo. Fez estágio pós-doutoral na Universidade de Yale, nos Estados Unidos e, mais tarde, livre docência na USP. Atualmente é professor aposentado.

 

Colapso do Capitalismo (?)

“Tenho três objeções a essa tese. A primeira é observacional: as evidências empíricas disponíveis não indicam que esse fenômeno tenha de fato ocorrido até o presente momento, mesmo se permanece como possível. Ao contrário, a globalização parece ter elevado fortemente a força de trabalho submetida à relação de capital nas últimas décadas. A segunda é teórica: a elevação da produtividade do trabalho que reduz o valor contido em um dado volume de produção sempre pode ser compensada, em princípio, por uma expansão do volume produzido. A terceira é que mesmo em condições de decadência, o capitalismo pode continuar se ele não é obstado pela luta social.”

(Eleutério F. S. Prado  professor de Economia, aposentado -USP)

Dos limites do capitalismo

“No livro III de O Capital, Marx afirma que ‘a produção capitalista tende constantemente a exceder os limites que lhe são imanentes, mas só o consegue fazer utilizando meios, que, mais uma vez, e agora em escala maior, recolocam depois perante si essas mesmas barreiras’. A questão posta é a de saber se a produção capitalista está agora se confrontando com barreiras que ela não pode mais ultrapassar, nem mesmo temporariamente. Estaríamos em presença de duas formas de limites intransponíveis, com implicações muito fortes para a reprodução do capital e a gestão da ordem burguesa, sobretudo para a vida civilizada. Uma delas, decorrente dos efeitos da automação, remonta ao século XIX e tem um caráter imanente, interno ao movimento do capital, sobre o qual Marx insistiu fortemente. A outra, decorrente da destruição pela produção capitalista dos equilíbrios ecossistêmicos, particularmente da biosfera, não foi prevista por Marx e foi inicialmente definida como um limite externo”.

(François Chesnais, professor francês de economia internacional na Universidade de Paris XIII)

O que o capitalismo fez para e com um país arcaico como o Brasil

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Crédito da foto: osul.com.br

Quando éramos adolescentes a maioria das mulheres não trabalhava.

Na verdade elas tinham algumas funções sociais bem (de)limitadas: ou casavam-se com algum “bom partido” (embora nem todos fosse bons), ou viraram professoras (o destino de uma boa parte delas, casadas ou não),  ou sequer se casavam (embora muitas pudessem ser professoras) e se transformavam nas famosas tias (“ficou pra titia”).

Isso num país rural, meio atrasadão e bastante arcaico e moralista, embora já existisse a pujança de São Paulo com suas indústrias.

Imagine o restante do país, exceção feita ao Rio de Janeiro, condenado à baixa produtividade e ao excesso de funcionários públicos.

A despeito de alguns esforços (sinceros), que nos empurraram para a modernidade capitalista  – como nas eras getulinas; no governo Juscelino, na ditadura militar e durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso -, ainda é possível encontrar boa parte da sociedade brasileira metida, por exemplo,  na prática do escambo (especialmente na Amazônia – mas não só nela: é possível encontrar em São Paulo, por exemplo, essa prática), a despeito de alguns esforços, repita-se, o país, como um todo, vive ainda uma êxtase pré-capitalista, e não atentou nada, nada para o que disse Marx, que não via alternativa para a ruptura com o mundo capitalista sem que o capitalismo estivesse (esteja) todo ele desenvolvido no mundo todo.

Nesse particular (e importante particular) somos gente que colabora imensamente para que o Brasil viva à margem da civilização e do desenvolvimento, nos confundindo com cunhadismos, com exploração de mulheres, com escambo e com corrupções e pequenos golpes que solapam a sociedade como um todo e não a deixam andar, que dizer, evoluir.

Havia quem acreditasse que o país pudesse contribuir imensamente com a revisão do modelo desenvolvimentista, colocando na linha de frente do desenvolvimento não os interesses do capital, mas sim, como vanguarda, a questão ambiental e social – após praticamente 500 anos de exploração intensiva de ambas.

Qual o que? Não vimos nada disso!

Ao contrário, o que vimos foi uma agudização de práticas nefastas, que, como sempre, privilegiaram os grupos sociais que souberam “ler o futuro” (podemos dizer assim, estiveram mais preparados, se preparam melhor) para continuar explorando uma massa enorme de trabalhadores e de não-trabalhadores e destruindo a natureza e, por consequência, as riquezas naturais do país.

É possível que minha geração e as gerações vindouras não consigam enxergar uma mudança substancial em uma população que  teima de continuar explorada e que, em outra ponta da escala social,  teimam em subalternizar os trabalhadores (sejam eles quem forem) com a complacência daqueles que têm a petulância de afirmar lutar por eles – os pobres e os miseráveis deste país.

“Sistemas de inteligência artificial, seus desafios e suas perspectivas”

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Claudio Jung (Foto: Arquivo pessoal) / reprodução IHU/Unisinos

(“Sistemas de inteligência artificial – Desafios e perspectivas. Entrevista especial com Claudio Jung” , por Patrícia Fachin, 30 Junho 2017. IHU/Unisinos.) [A demarcação entre as atividades que poderiam ser solucionadas por uma máquina e por um humano eram claramente definidas há alguns anos, entretanto, hoje, essa diferença já não é tão evidente em algumas tarefas, diz Claudio Jung, especialista em sistemas de inteligência artificial de reconhecimento de imagem, à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone. “Hoje, se colocarmos duas fotos, a de um círculo e a de um quadrado, com mais ou menos o mesmo tamanho, e perguntarmos a uma máquina e a um humano qual é maior, certamente a máquina vai responder com mais precisão a essa pergunta do que o humano. Então isso já é verdade numa classe de problemas”, relata.

Segundo ele, as máquinas também estão avançando em tarefas mais complexas, como o reconhecimento facial. “Nesse tipo de atividade o humano sempre foi muito melhor que a máquina, mas nos últimos anos os novos algoritmos de inteligência artificial têm conseguido taxas de acerto equivalentes ou superiores ao humano”. Como consequência desse avanço, diz, “algumas tarefas que envolvem simplesmente o operador humano, como analisar imagens para extrair informação, serão automatizadas em um futuro bem próximo — se já não estão automatizadas”.

Na avaliação de Jung, a automatização de processos que hoje são desenvolvidos por pessoas não pode ser vista como “uma via de mão única, porque quando se tira emprego de um lado, se ganha emprego de outro lado. Isso acaba forçando uma especialização da sociedade, e cada vez mais as tarefas que requerem pouca habilidade vão ser substituídas por robôs ou algoritmos computacionais”. Para ele, o avanço da tecnologia não representa uma catástrofe para o mundo do trabalho, porque “a tendência é que — como aconteceu na revolução industrial —, em vez de aprender a apertar parafusos, as pessoas terão de aprender a manipular máquinas que apertam parafusos. A sociedade vai acabar, inevitavelmente, se adaptando a isso”.

Como contraexemplo para refletirmos sobre o impacto dessas tecnologias no mundo do trabalho, Jung propõe o seguinte caso hipotético: “Vamos imaginar que um cientista descubra a cura do câncer, e com isso vai se desempregar uma cadeia de profissionais que hoje trabalham com remédios relacionados ao tratamento do câncer. A questão é que se trata de uma escolha que para mim é óbvia: tudo bem que algumas pessoas vão perder seu emprego ou vão ter que se adaptar, mas o benefício dessa tecnologia é muito maior”.

Claudio Jung é mestre em Matemática Aplicada e doutor em Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e é professor de Ciência da Computação da UFRGS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line — O que são os sistemas de inteligência artificial? Como surgiram e por qual razão?

Claudio Jung — Primeiro é preciso dizer que a minha área principal de atuação é a que trata de imagem, porque na computação existem dois grupos de pesquisa: um que trabalha com inteligência artificial e outro que trabalha com imagens, embora exista uma convergência muito forte entre essas duas áreas. Não sou a melhor pessoa para responder sobre temas de inteligência artificial, mas a ideia dos sistemas de inteligência artificial é, basicamente, desenvolver sistemas computacionais que consigam aprender algumas tarefas, em geral com base em um conjunto de dados de treinamento. Isto é, esses sistemas observam um problema e tentam aprender para poder resolver problemas parecidos com dados que eles nunca viram antes. Redes neurais artificiais desse tipo estão no mercado científico há várias décadas, mas se tornaram populares nos últimos anos por conta das redes profundas ou o que costumamos chamar de deep learning. Essas redes com camadas mais profundas se popularizaram bastante a partir de 2010, ou seja, nos últimos cinco, sete anos elas se tornaram bastante populares.

IHU On-Line — Qual o panorama atual dos sistemas de inteligência artificial? Em que estágio as pesquisas sobre o tema se encontram?

Claudio Jung — A maioria dos sistemas de técnicas de inteligência artificial com mais sucesso nos últimos anos — vou falar sobre as imagens, que é a minha área — está relacionada ao processamento de linguagem natural, processamento de fala. Essas redes neurais profundas têm tido, em algumas tarefas, desempenhos equivalentes à interpretação humana, o que era, na área de imagens, impensável há alguns anos.

Essas redes precisam de uma grande quantidade de dados de treinamento. Por exemplo, se eu quero desenvolver um algoritmo para detectar um veículo em uma imagem, preciso informar para o meu algoritmo, em uma etapa de treinamento, um conjunto de imagens com carros já anotados. Então, existe um trabalho de anotação para o algoritmo saber o que ele precisa detectar e a partir daí, após o treinamento, ele consegue executar essa tarefa de modo razoavelmente rápido. O gargalo desses algoritmos, e um dos focos de pesquisa atualmente, é como reaproveitar treinamentos que foram feitos para um contexto no sentido de reutilizar esse treinamento para resolver outro problema, com amostras de imagens conhecidas; esse é um dos desafios atuais desses sistemas de inteligência artificial.

IHU On-Line — Como funcionam, especificamente, os sistemas de inteligência que têm a capacidade de reconhecer imagens? Como essa tecnologia surgiu e como tem se desenvolvido desde então?

Claudio Jung — Dentro da área de visão computacional de processamento de imagens tem uma série de algoritmos; o cientista pensava em um problema específico, desenhava alguns filtros específicos para aquele tipo de problema e fazia o design de classificadores específicos para o problema. Como isso começou a convergir? Com base nessas redes neurais convolucionais — que são redes neurais onde existe uma relação de vizinhança entre os pixels de uma imagem — e com base em um conjunto de dados de treinamento, os sistemas aprendem essas relações que existem entre os pixels vizinhos. O interessante dessas redes é que uma mesma rede consegue aprender e resolver problemas com uma natureza bastante diversa. Então, se eu treino essa rede com imagens de face, ela vai aprender a reconhecer faces; se tenho esse mesmo esqueleto e treino com imagens para reconhecer veículos, o sistema vai aprender a reconhecer veículos.

IHU On-Line — O senhor já declarou que as profissões que trabalham com imagens serão afetadas por essa tecnologia. Que tipo de alterações estão ocorrendo e ainda ocorrerão nessas profissões?

Claudio Jung — Essa proliferação das técnicas de inteligência artificial em imagens afeta potencialmente qualquer problema que envolve análise de imagens, desde a manipulação de imagens com Photoshop, por exemplo, até tarefas que são resolvidas por algoritmos hoje em dia. Sem dúvida, algumas tarefas que envolvem simplesmente o operador humano, como analisar imagens para extrair informação, serão automatizadas em um futuro bem próximo — se já não estão automatizadas. Um exemplo bem simples disso é o controle de acesso a um estacionamento usando reconhecimento e detecção de placas. Se o critério para acessar um estacionamento é o reconhecimento da placa do veículo cadastrado, por meio de uma câmera, um computador e um algoritmo eficiente, isso pode ser automatizado hoje em dia.

As tarefas que vão demorar um pouco mais para serem desenvolvidas por esses sistemas são aquelas que envolvem informações temporais, análises de vídeos, a detecção de eventos suspeitos em câmeras de vigilância, mas tarefas mais objetivas, que envolvem reconhecimento facial ou acesso biométrico, já têm uma taxa de acerto equivalente ao operador humano.

IHU On-Line — De que modo esses sistemas tendem a alterar a lógica de funcionamento das redes sociais?

Claudio Jung — Há muitas questões envolvendo análise semântica de textos, ou seja, sistemas tentam identificar tendências como, por exemplo, se uma mensagem desperta comentários bons ou ruins com base no que os usuários estão escrevendo nas redes sociais. Muitas dessas análises automatizadas são feitas hoje e esse realmente é um dos interesses de companhias como o Facebook e similares.

Agora, com relação à questão da avaliação de imagens, a grande verdade é que empresas como o Facebook basicamente têm acesso a uma quantidade quase inesgotável de imagens, que são aquelas que todo mundo posta no site. Então, por exemplo, nós postamos imagens e marcamos as pessoas que aparecem nas fotos e com isso estamos oferecendo para o Facebook e para as empresas imagens de treinamentos para que elas possam desenvolver os algoritmos de inteligência. Se eu marcar você numa das minhas fotos, o sistema vai aprender a te identificar em outras fotos.

Para que eles podem usar essas informações? Bom, para uma aplicação inocente, que talvez seja útil para o usuário no sentido de tentar organizar os álbuns de fotos por pessoas, por categorias ou por diferentes aspectos pelos quais esses álbuns podem ser organizados automaticamente, como, por exemplo, organizar todas as fotos em que aparecem cachorros, as fotos em que aparecem o papa etc. Isso pode ser feito de maneira automatizada e isso já vem sendo feito.

De outro lado, a detecção de imagens de pornografia e conteúdo impróprio é um problema que vem sendo estudado há algum tempo.

IHU On-Line – Especificamente sobre essa questão, aí entra um outro nível de julgamento no sentido de identificar se as imagens são artísticas ou se são pornografia?

Claudio Jung — Exatamente, porque não sei o quão objetivo pode ser formulado esse problema para uma técnica de inteligência artificial no sentido de um sistema conseguir diferenciar o que é uma obra de arte do que é uma foto essencialmente pornográfica. Entretanto, diferenciar uma pintura de uma foto real já é possível, dadas as características das imagens. Tem um aplicativo que permite, inclusive, fazer upload de uma foto e ele gera uma imagem que parece uma pintura, a qual tem as características de um determinado pintor.

IHU On-Line — Alguns especialistas em sistemas de inteligência de reconhecimento de imagens afirmam que os robôs criados com essa tecnologia verão coisas que o olho humano não tem capacidade de enxergar. Essa é a tendência? Quais os efeitos disso?

Claudio Jung — Algum tempo atrás havia uma diferenciação muito clara entre classes de problemas que as técnicas computacionais podem resolver versus o conjunto de atividades que o humano pode fazer. Mas hoje, se colocarmos duas fotos, a de um círculo e a de um quadrado, com mais ou menos o mesmo tamanho, e perguntarmos a uma máquina e a um humano qual é maior, certamente a máquina vai responder com mais precisão a essa pergunta do que o humano. Então isso já é verdade numa classe de problemas. O que está migrando agora é a questão de tarefas de mais alto nível, como reconhecimento facial. Nesse tipo de atividade o humano sempre foi muito melhor que a máquina, mas nos últimos anos os novos algoritmos de inteligência artificial têm conseguido taxas de acerto equivalentes ou superiores ao humano.

Outro problema diz respeito ao reconhecimento de emoções: alguns estudos demonstram que em alguns contextos as emoções são detectadas por robôs, quando eles veem uma foto em que a pessoa está triste e outra em que a pessoa está feliz. O que chamamos de robô na verdade é uma câmera; o robô é um fator secundário, porque o importante é o sistema de visão e análise através da imagem. Então, com essas técnicas podemos alimentar um sistema desse tipo com uma quantidade imensa de imagens a que o ser humano não tem acesso. Os avanços das técnicas de inteligência artificial têm derrotado os melhores enxadristas humanos, porque esses sistemas têm acesso a um conjunto de treinamentos gigantesco. Então, a tendência é ocorrer uma migração, e as máquinas vão desempenhar tarefas que os humanos não conseguem.

IHU On-Line – Hoje vivemos numa sociedade altamente vigiada e, mesmo assim, com um alto grau de insegurança. Nesse sentido, imagino que os agentes de segurança e especialistas nesse tema devem estar muito atentos aos avanços tecnológicos relacionados a imagens e inteligência artificial.

Claudio Jung — Sim, eu inclusive tenho um projeto nessa área de vigilância eletrônica. Na área específica de vigilância de ambientes externos por câmeras, existem várias técnicas para fazer contagem de pessoas. Por exemplo, amanhã [30-06-2017] tem greve geral. Nessas situações de greves ou manifestações, os manifestantes dizem que cem mil pessoas participaram e a polícia diz que dez mil participaram. As notícias dos jornais mostram que as informações são desencontradas e ninguém vai ficar contando o número de pessoas que participou da manifestação, mas hoje já existem técnicas que fazem essa contagem com uma acurácia muito maior do que as estimativas visuais.

Obviamente já são desenvolvidas tecnologias para rastreamento de pessoas e veículos, e já se usam câmeras embarcadas, como nos veículos autônomos, mas existem áreas que ainda não foram muito desenvolvidas em casos de eventos não usuais. Várias empresas, como a IBM, vendem sistemas baseados em câmeras para vigilância. Existem sistemas comerciais para monitorar áreas em que não deve entrar ninguém. Se alguém entrar nessa área, o sistema emite um alerta.

IHU On-Line — Uma preocupação com o avanço das tecnologias é a possível crise que isso pode gerar no mundo do trabalho, provocando, por exemplo, desemprego em massa. Como essa questão tem sido discutida entre os especialistas da área de tecnologia?

Claudio Jung — Vou confessar que no meio acadêmico, pelo menos com as pessoas com quem converso, não se tem muito esse tipo de discussão. O que se percebe, entretanto, no mercado de trabalho é uma migração do perfil das pessoas. Se olharmos os EUA em particular, onde há uma série de startups que trabalham com imagens, há uma busca absurda por talentos de jovens que ainda estão na graduação. Vários pesquisadores que são pioneiros nessa área estão trabalhando em empresas, como o Yann LeCun, que trabalha no Facebook. Claro que a tendência desse tipo de trabalho, em que o trabalhador fica simplesmente olhando uma imagem e anotando informações, será substituído por técnicas automatizadas. Mas, por outro lado, isso abre campos de trabalhos mais especializados.

IHU On-Line – Na área de automação, por exemplo, um robô provoca o desemprego de seis, sete pessoas na indústria automobilística. Há uma preocupação no campo da tecnologia com essas questões ou os esforços se concentram mais nas questões tecnológicas?

Claudio Jung — Vou responder com base na minha experiência pessoal: com as pessoas com quem converso, o foco é desenvolver ciência e desenvolver aplicações. Claro que se pensa muito em automatizar processos, mas isso não é uma via de mão única, porque quando se tira emprego de um lado, se ganha emprego de outro lado. Isso acaba forçando uma especialização da sociedade, e cada vez mais as tarefas que requerem pouca habilidade vão ser substituídas por robôs ou algoritmos computacionais. Um exemplo simples são aqueles robôs que limpam o chão; isso é muito comum no exterior. A tendência é que as pessoas que hoje fazem esse tipo de tarefa, amanhã terão outro emprego.

Essa é uma discussão relevante, mas normalmente o meio acadêmico pensa mais na questão científica e tenta melhorar a qualidade de vida das pessoas. Agora, o que acontecerá com as pessoas que potencialmente perderão o emprego? A tendência é que — como aconteceu na revolução industrial —, em vez de aprender a apertar parafusos, as pessoas terão de aprender a manipular máquinas que apertam parafusos. A sociedade vai acabar, inevitavelmente, se adaptando a isso.

IHU On-Line — Muitas das funções desempenhadas hoje pelos sistemas de inteligência artificial, como carros que circulam sem motorista, pareciam ficção científica há alguns anos. Considerando que o senhor pesquisa o tema, até que ponto esses sistemas tendem a se desenvolver? O que se pode esperar para o futuro em termos de novas tecnologias?

Se o robô está numa situação em que ele vai atropelar uma pessoa ou um grupo de pessoas, no caso de um acidente, a culpa é de quem?

Claudio Jung — Eu pessoalmente era um cético. Já trabalho há algum tempo com monitoramento de ambientes usando câmeras e sempre fui muito cético com esses veículos autônomos, mas essa realidade chegou. Claro que nesse tipo de operação que envolve algum risco, surgirão problemas de outra ordem para serem resolvidos. Já aconteceu, por exemplo, de um motorista utilizar a direção autônoma e o carro entrar embaixo de um caminhão. Num caso como esse, de quem é a culpa? Essa é uma questão: até que ponto podemos deixar a máquina tomar conta de um veículo completamente? Se o robô está numa situação em que ele vai atropelar uma pessoa ou um grupo de pessoas, no caso de um acidente, a culpa é de quem? Nesse caso, o que ele faz? Tem uma série de tarefas em que o operador humano é responsabilizado pelos seus atos. Um exemplo clássico é esse da direção. Vamos imaginar que se coloque um veículo autônomo numa estrada brasileira que não tem sinalização, e ele sai da estrada. A culpa é do motorista que optou por deixar o carro autônomo, ou é da companhia que fez um sistema que não é robusto, ou então é do governo ou da concessionária que deveriam manter a estrada em condições de uso?

Esses dias vi uma reportagem sobre um agente policial robótico, como uma versão do RoboCop. Vamos imaginar que exista um RoboCop e que por alguma razão ele acabe matando alguém. Quem é responsabilizado por isso? Tem uma série de discussões sobre isso, porque às vezes temos uma base tecnológica que permite avanços, mas as implicações éticas e legais são muito grandes. Se existe uma tarefa em que um humano é responsável e trocamos a pessoa pelo robô, quem passa a ser responsável? A empresa que fez o robô? Porque o robô não vai ser o responsável. Até pode se optar por aplicar pena de morte ao robô e desmontá-lo, mas isso não serve para resolver os problemas.

IHU On-Line — Nas ciências humanas, especialmente na Filosofia e na Sociologia, tende-se a refletir sobre os possíveis impactos dessas tecnologias para a vida humana. Que aproximações são necessárias entre as ciências que desenvolvem essas tecnologias e as ciências humanas, quando se trata de analisar os avanços das tecnologias? Esse diálogo é necessário?

Claudio Jung — Certamente é, porque esses exemplos que acabei de relatar são exemplos clássicos disso. As perguntas anteriores que você fez têm a ver com isso: primeiro, o que acontece com os empregos que são substituídos pelas novas tecnologias? Isso já vem acontecendo há algum tempo, mas quais mudanças em termos de ensino e sociedade têm que ser feitas para que uma nova tecnologia seja inserida de forma massiva? A questão é que essas tecnologias são inseridas pouco a pouco, e não é de uma hora para a outra que todos os carros vão virar autônomos.

Uma discussão que está sendo feita em algumas prefeituras do Brasil é se é bom ou ruim substituir o cobrador de ônibus por sistemas biométricos. Essa é uma pergunta complicada de fazer. Do ponto de vista dos custos, um sistema automatizado, assumindo que ele seja eficiente, é melhor do que ter um cobrador, mas o que acontece com esse cobrador? Na minha visão quem tem que se preocupar com essas implicações são as pessoas que vão implementar essas tecnologias no dia a dia, porque a academia em geral desenvolve a base teórica que permite desenvolver esse tipo de tecnologia.

Vamos supor que exista um algoritmo que substitua completamente o médico humano por um médico robótico. Você acha que valeria a pena usar uma tecnologia dessas? Sem dúvida alguma, porque essa tecnologia vai ajudar a salvar vidas, mas isso vai implicar em tirar o emprego de muitos médicos. Acho que num futuro próximo isso não vai acontecer, embora existam muitos avanços na área de imagens para auxiliar diagnósticos. Mas vamos imaginar que um cientista descubra a cura do câncer, e com isso vai se desempregar uma cadeia de profissionais que hoje trabalham com remédios relacionados ao tratamento do câncer. A questão é que se trata de uma escolha que para mim é óbvia: tudo bem que algumas pessoas vão perder seu emprego ou vão ter que se adaptar, mas o benefício dessa tecnologia é muito maior.

Leia mais

Cidadania vigiada. A hipertrofia do medo e os dispositivos de controle. Revista IHU On-Line, Nº. 495

O Ser Humano na Idade da Técnica. Artigo de Umberto Galimberti. Cadernos IHU ideias, Nº. 218

Neurofuturos para sociedades de controle. Artigo de Timothy Lenoir. Cadernos IHU ideias, Nº. 221

Um guia para compreender a quarta Revolução Industrial

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“Indignamo-nos com FBI por causa de um celular, mas o Facebook sabe tudo sobre nossas vidas”

A “civilização” que não deu certo por aqui e nem tinha como dar

Havia uma garota na nossa turma da faculdade de jornalismo que eu sempre teimo identificá-la como Margarida, mas não creio que tenha sido este o seu nome.

Enfim, a história dela era a seguinte: a jovem se rebelava contra os dizeres “não pise da grama“, assim como defendia que os caminhos feitos pelos seres humanos em parque e bosques deveriam ser defendidos a qualquer custo, e não aqueles que o paisagista ou o administrador houvesse decidido que assim seria.

Renascer
Reprodução

Anos depois, no estado do Amazonas, conheci um sujeito que se orgulhava de ter ido à Disneylândia, com a esposa e os filhos, e não ter obedecido as filas disciplinadoras impostas pelo parque, ignorando-as e furando-as.

Não que neste caso não tenha outras recordações a respeito da nossa indisciplina, mas, pelo menos, isso foi o que me ficou de mais marcante.

É certo que exista uma miríade de texto sobre indisciplina (direta ou parcialmente), e como isso nos afeta como povos e como nação, mas gostaria, aqui e agora, de dar duas sugestões de leitura: a) “Por que as nações fracassam – as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” (de Darom Acemoglu e James Robinson, editora Campus [está também em versão e-book no site Le Livros]) e b) “Civilização: Ocidente X Oriente” (de Niall Fergunson, Editora Planeta do Brasil Ltda., e também em versão digital).

Por que o Egito é tão mais pobre que os Estados Unidos? Quais são as restrições que impedem os egípcios de alcançar maior prosperidade? Será a pobreza do país imutável ou poderá ser erradicada? Uma maneira natural de começar a refletir a respeito é examinar o que os próprios egípcios dizem dos problemas que enfrentam e dos porquês de terem se insurgido contra o regime de Mubarak.” (in “Por que as nações fracassam”).

“… por que, começando por volta de 1500, algumas pequenas organizações políticas no extremo ocidental do continente eurasiático passaram a dominar o restante do mundo, inclusive as sociedades mais populosas e, em muitos aspectos, mais sofisticadas do Leste da Eurásia? Minha pergunta subsidiária é: se conseguirmos pensar em uma boa explicação para a supremacia do Ocidente no passado, será que seremos capazes, então, de fazer um prognóstico de seu futuro? Estamos realmente vivenciando o fim do mundo ocidental e o advento de uma nova época oriental?” (in “Civilização”).

São perguntas bastante oportuna e já bastante antigas.

‘ … a teoria econômica apresentada em A Riqueza das Nações (Adam Smith, tomos 1 e 2) é essencialmente uma teoria do crescimento econômico cujo cerne é clara e concisamente apresentado em suas primeiras páginas: a riqueza ou o bem-estar das nações é identificado com seu produto anual per capita que, dada sua constelação de recursos naturais, é determinado pela produtividade do trabalho “útil” ou “produtivo”— que pode ser entendido como aquele que produz um excedente de valor sobre seu custo de reprodução — e pela relação entre o número de trabalhadores empregados produtivamente e a população total.’

Há quem aponte para as religiões, especialmente para o cristianismo, aquilo que deferência o progresso do subdesenvolvimento.

Não seria tão crédulo assim, pois exatamente no cristianismo é que se dá a origem o Renascimento (1) e, podemos dizer ainda, a liberação das ciências dos destinos dos deuses – sejam eles quais forem.

A discussão sobre a “neutralidade” ou não da ciência é outra coisa antiga, mas que não cabe nesta discussão aqui.

Certamente não veremos essa recomposição ou redesenho da influência do mundo, que muita gente almeja e prega – mais por questões ideológicas do que por lucidez.

São ilusões, na verdade.

O correto é que estamos presos a algum tipo de amarra letárgica – seja ela cultural, seja ela ideológica, seja ela religiosa (provavelmente tudo isso junto), que não nos deixa evoluir e progredir, de forma que possamos tratar-se de beneficiar a todos nós.

Os exemplos citados no início do texto dão uma boa mostra disso.

Gostamos mais de contrariar e de discordar, e, porque não?, de nos rebelar (não se sabe bem contra o que e nem pra que) do que buscar uma evolução e um progresso consistente, ou seja, verdadeiramente revolucionário.

Pior para nós.

Nota

(1) O humanismo pode ser apontado como o principal valor cultivado no Renascimento. Baseia-se em diversos conceitos associados: neoplatonismo, antropocentrismo, hedonismo, racionalismo, otimismo e individualismo. O humanismo, antes que um corpo filosófico, foi um método de aprendizado que passava a dar um maior valor ao uso da razão individual e à análise das evidências empíricas, ao contrário da escolástica medieval, que se limitava basicamente à consulta às autoridades do passado, principalmente Aristóteles e os primeiros Padres da Igreja, e ao debate das diferenças entre os autores e comentaristas. O humanismo afirma a dignidade do homem e o torna o investigador por excelência da natureza. Na perspectiva do Renascimento, isso envolveu a revalorização da cultura clássica antiga e sua filosofia, com uma compreensão fortemente antropocêntrica e racionalista do mundo, tendo o homem e seu raciocínio lógico e sua ciência como árbitros da vida manifesta. (wp)

“Esquerda e progresso são hoje coisas diferentes na América Latina”

GuiPartidos ligados à esquerda, na América Latina, inauguraram, de alguns anos a esta parte, uma espécie de nova “modalidade” de desenvolvimento que é antagônico ao progresso.

Eduardo Gudynas diz que há um conflito claro entre esquerdismo e progressismo, o que denota um caráter reacionário e arcaico da (suposta) esquerda.

[Nos últimos anos, a América Latina viu diversos de seus países serem governados por partidos progressistas e ligados à esquerda: o Partido dos Trabalhadores no Brasil, o kirchnerismo na Argentina, os bolivarianos na Bolívia, no Equador e na Venezuela, e a Frente Ampla, no Uruguai. Embora tenham suas raízes na esquerda, porém, esses governos “são um tipo de esquema político diferente da esquerda que lhes deu origem. Esquerda e progressismo são hoje, na América Latina, duas coisas diferentes”. Essa é a visão expressa pelo ambientalista e pesquisador uruguaio Eduardo Gudynas, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Gudynas, especialista em temas relacionados ao meio ambiente e desenvolvimento, afirma que os governos progressistas justificaram o processo de extração de recursos naturais na América Latina como “necessários para o progresso e para os planos de assistência social”, apesar de seus impactos ambientais. Segundo ele, “o progressismo está focado no crescimento econômico por meio de desenvolvimentos convencionais, tolera e encoraja empreendimentos de alto impacto como os extrativismos, e acredita que a pobreza se resolve pelo assistencialismo ou mais consumismo”.

Em sua avaliação, “a ideia do progressismo de se converter numa nova esquerda que fosse efetiva para proteger as classes populares e o meio ambiente não se concretizou”. Para ele, o Brasil, que “é o maior extrativista do continente”, está “muito atrasado” em comparação com os países vizinhos no debate sobre um modelo econômico alternativo.

Segundo ele, é preciso “uma autocrítica de vários dos meus amigos nas grandes ONGs que ficaram deslumbrados com o Brasil potência global e com as empresas campeãs nacionais. Estavam mais interessados em discutir questões sobre o papel do Brasil nos BRICS e eram mais frágeis na busca de alternativas à Vale e outras empresas mineradoras, ou para entender que a discussão sobre o pré-sal não era apenas sobre onde investir os royalties”.]

Leia a entrevista na integra com Eduardo Gudynas em IHU/Unisinos.

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Socialismo irá repetir o destino do feudalismo e ser derrotado pelo capitalismo?

Socialismo
Credito: o dia a história – blogger

Minha frase preferida nos anos 60 e 70 era “o avanço do capital é inexorável” – ou seja, é aquilo que “não cede ou se abala diante de súplicas e rogos; inflexível, implacável; cujo rigor, severidade, não pode ser amenizado”.

Enfrentei poucas e boas por conta disso, desde acusações de ser um radical marxista (sic) até um capitalista empedernindo.

Gostemos ou não dessa história temos de reconhecer, no entanto, o avanço do capital sobre a natureza e os seres humanos, não lhes respeitando nem fronteiras e nem limites; e nem súplicas ou rogos.

É uma questão de lógica.

Sistematicamente e a rigor, o capitalismo vinha derrotando o socialismo desde os primórdios deste último, assim como já havia derrotado o feudalismo, não apenas na Europa como também no Japão e na China.

O elo mais fraco desse confronto era justamente o socialismo.

Portanto, tudo era uma questão de tempo.

Dos avanços

Todos os setores da vida (assim como a natureza) foram impactados pelo avanço implacável do capital, muito especialmente o setor produtivo, e é aí que eu coloco meu pai nessa história.

Meu pai “virou” metalúrgico por volta dos 50 anos. Era um tempo em que se investia fortemente na mecanização do setor.

Anos mais tarde (como era de se esperar) chegou a vez da robotização.

Como todo “peão” de fábrica meu pai reagiu, temendo perder seu emprego e reclamando do PDV (Plano de Demissão Voluntária).

Achei exagerados tanto o medo quanto a reclamação.

Disse que eles deveriam enfrentar a realidade, pois, mais cedo ou mais tarde, parte da “peonada” iria para o olho da rua.

Então que fizessem um acordo com os patrões: eles garantiriam seis meses de treinamento (para que os peões conhecessem e se atualizassem na tal da robótica); quem se saíssem bem, ficava trabalhando na empresa; quem não fosse lá essas coisas, seria demitido (lembra-se do PDV?) e pelo menos sairia mais qualificado, podendo tentar vaga em outra empresa, ou até mesmo abrir uma pequena empresa, e mais importante: com um bom dinheiro no bolso.

A lógica do capitalismo (se não me falha a memória) continua sendo o capital (pouco ou muito, não interessa).

Do capital

Uma das mágicas do capitalismo é continuar resistente às ameaças e às intempéries, e mesmo assim continuar avançando, sem dar sinais de esmorecimento.

Aliás, no seu artigo de hoje, para o jornal El PaísAs distrações do senhor Adam Smith –, Mario Vargas Llosa fala exatamente disso, lembrando pensador o escocês, em “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações (1776)”.

“O economista escocês explicou melhor que ninguém por que certos países progridem e outros retrocedem e qual é a autêntica fronteira entre a civilização e a barbárie”, diz Llosa.  “Viveu fascinado por averiguar o que mantinha a sociedade unida e estável, sendo os seres humanos tão egoístas, desobedientes e pouco solidários, por saber se a história seguia uma evolução coerente e o que explicava o progresso e a civilização de alguns povos e a estagnação e selvageria de outros” e “… no essencial, nenhum outro conseguiu explicar melhor por que certos países progridem e outros retrocedem e qual é a autêntica fronteira entre a civilização e a barbárie.”

Para quem ainda não tomou contado com a obra de Smith, os dois tomos (ao todo 900 páginas) estão disponíveis em PDF, que podem ser baixando apenas colocando o nome da obra.

Há ainda “Porque nações fracassam”, de Daron Acemoglu e James Robison (também disponível em versão PDF).

Como complemento de leitura, sugere-se (todos no site Outra Palavras) A nova onda de automação e suas consequências, O Brasil e o Mercosul perdidos na Era Trump e Para entender o fascismo.