Esquerda midiática tenta transformar Manuela d’Avila na nossa Joana d’Arc

Manu
TV Cultura / Reprodução

Começo invertendo a proposição do texto e perguntando: ancorado em argumentos frágeis,  de precária aceitação, o jornalismo militante de esquerda vai vencer a batalha por corações e mentes dos brasileiros?

É bastante improvável!

Pois então  vamos aos fatos.

A participação de Manuela d’Avila no Roda Viva (TV Cultura de São Paulo), na última segunda-feira, provocou uma reação descabida do jornalismo militante de esquerda, coisa da qual nem mesmo a política gaúcha tomou parte.

Não é difícil saber de onde partiu a raivosidade (dos petistas) e nem o por que da raiva (de a TV ser uma estatal comandada por um governo – estadual – tucano).

Colocadas essas premissas todas resta-nos saber se as tais das interrupções a que esteve submetida a política do PCdoB gaúcho foram exageradas e descabidas e uma demonstração de machismo e de misoginia por parte da bancada de jornalistas, alguns não necessariamente jornalistas, mas isso é uma constante que se vê desde que o programa foi criado em 1986.

Desatenta, ou propositalmente desatenta, a esquerda – que trocou o jornalismo pela militância política –  também acusou a emissora desse pecadilho.

Aliás, já estão pedindo (e só podia ter partido do site petista 247, como partiu)  até que a emissora “peça desculpas” (SIC) à entrevistada.

Se a moda pega, nenhum jornal, revista, TV ou rádio vai mais correr o risco de entrevistar quem quer que seja.

A militância esquerdo-midiática também  abusa do direito de tergiversar.

Desde que o mundo é mundo espera-se que o(s) jornalista(s)  inquira(m) sim o entrevistado, o acue, e se for o caso, acrescento, sem dó e nem piedade.

Aliás, este que lhes fala (ou melhor, escreve) fez da entrevista uma constante em apertar,  amassar o entrevistado, e colocá-lo contra a parede.

Entrevistado não  é amiguinho de jornalista e vice e versa.

O papel do jornalismo é exatamente esse: não dar tréguas ao entrevistado e explorar e expor as suas contradições.

E de mais a mais, acrescente-se (portanto trata-se de mais uma mentira da militância esquerdo-midiática) o Roda Viva surgiu exatamente com essa proposta:  a de não permitir sequer que o entrevistado tome fôlego.

Se a bancada do Roda Viva fez alguma coisa diferente disso (e deve ter feito) o erro, o equívoco esteve nessa tibieza, e não no apertão que se deu na política gaúcha.

Por fim, a acusação de machismo e de misoginia é apenas uma muleta que muita gente (não só a militância esquerdo-midiática) anda usando com certo desassombro e destemor.

Não perceberam ainda que foram essas “modinhas” politicamente-corretas que levaram à derrocada do petismo que eles defendem com certa cegueira.

Márcio Tadeu dos Santos

Onde estávamos enquanto a ditadura nos matava?

Bolsobra
Reprodução

Os veículos de comunicação e a academia estão correndo para ajustar a nossa história após a revelação da CIA (a agência norte-americana) dando conta de que Ernesto Geisel não apenas estava ciente como ainda autorizava a morte de opositores ao “regime”.

Estava essa gente aonde, pois no quarto livro (“ditaduras”) de Elio Gaspari a informação já estava contida.

Mais desatentos ainda estão alguns (supostos) esquerdistas que esperam vivamente ansiosos para o tempo em que a CIA irá revelar o que eles chamam de golpe que levou Lula à prisão em Curitiba.

Trata-se de uma espera no mínimo esdrúxula, pois não são esses mesmos (supostos) esquerdistas quem denunciam as tramóias (seriam golpes ou fraudes também?) da CIA “contra os interesses nacionais” (sic).

Não devemos, no entanto, nos vexar com essas contradições todas, até porque tanto os meios de comunicação quanto a academia são bastante preguiçosas, ao ponto de sempre esperarem por alguém que lhes derrube no colo algumas informações relevantes, capazes de alterar os rumos dos acontecimentos históricos.

Mas aqui vamos, igualmente, reservar um cantinho para as nossas próprias benevolências, lembrando que sempre soubemos, embora não tivéssemos provas, de que a ditadura não apenas estava ciente como autorizava as matanças e as torturas.

Quem mais faria isso?

Éramos meio avoantes, ou como diria minha mãe, andávamos no mundo da lua (portanto, bem antes dos americanos), mas ninguém poderia nos chamar de ingênuos e de desinformados.

Para ficar na mesma história, desde sempre sabíamos das operações da marinha norte-americana na costa brasileira, dando apoio explícito à ditadura militar, e pronta (a marinha norte-americana) para entrar em ação a qualquer momento.

Nos ofendiam vivamente, dizendo que éramos comunistas (veja como o mundo dá voltas para cair sempre no mesmo lugar comum!) e antiamericanos (sic).

Realmente não tínhamos provas da presença da marinha dos EUA, como não tínhamos provas das autorizações de matanças e torturas, mas ninguém poderia nos chamar de ingênuos e de desinformados.

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“O ‘anti-imperialismo’ dos idiotas”

Antiimperial

[Uma vez mais, o movimento “antiguerra” ocidental se despertou para mobilizar-se em torno da Síria. Esta é a terceira vez desde 2011. A primeira foi quando Obama contemplou atacar a capacidade militar do regime sírio (mas não o fez) após os ataques químicos em Ghuta em 2013, considerados uma ‘línha vermelha’. A segunda vez foi quando Donald Trump ordenou um ataque que atingiu uma base militar vazia em resposta aos ataques químicos contra Khan Sheikhun em 2017. E hoje, quando os Estados Unidos, o Reino Unido e a França tomam medidas militares limitadas (ataques seletivos contra os ativos militares do regime e instalações de armas químicas) depois de um ataque com armas químicas em Duma que matou ao menos 34 pessoas, incluídos muitos menores que se refugiavam dos bombardeios nos porões.

O primeiro que devemos ressaltar das três principais mobilizações da esquerda “antiguerra” ocidental é que tem pouco que ver com que se acabe a guerra. Mais de meio milhão de sírios foram assassinados desde 2011. A grande maioria das mortes de civis se produziu mediante o uso de armas convencionais e 94% destas vítimas foram assassinadas pela aliança sírio-russa-iraniana. Não há indignação nem se finge preocupação por esta guerra, que seguiu à brutal repressão do regime contra manifestantes pacíficos e em favor da democracia. Não há indignação quando se lançam bombas de barril, armas químicas e napalm em comunidades democraticamente auto-organizadas ou em hospitais e trabalhadores de resgate. Os civis são prescindíveis; as capacidades militares de um regime genocida e fascista não o são. De fato, o lema “Mãos fora da Síria” realmente significa “Não tocar Assad” e geralmente se brinda apoio para a intervenção militar da Rússia. Isto foi evidente ontem em uma manifestação organizada por Stop the War UK, onde se exibiram vergonhosamente várias bandeiras do regime e russas.

Esta esquerda mostra tendências profundamente autoritárias, aquela que coloca aos próprios estados no centro da análise política. Portanto, a solidariedade se estende aos estados (vistos como o ator principal na luta pela liberação) em lugar de grupos oprimidos ou desfavorecidos em qualquer sociedade, sem importar a tirania desse estado. Cegos à guerra social que ocorre dentro da Síria, os sírios (ali onde existam) são vistos como simples peões em um jogo de xadrez geopolítico. Repetem o mantra ‘Assad é o governante legítimo de um país soberano’. Assad, que herdou uma ditadura de seu pai e nunca realizou, e muito menos ganhou, uma eleição livre e justa. Assad, cujo “exército árabe sírio” só pôde recuperar o território que perdeu graças ao respaldo de uma miscelânea de mercenários estrangeiros e com o apoio de bombas estrangeiras, e que estão lutando, em geral, contra rebeldes e civis nascidos na Síria. Quantos considerariam legítimo a seu próprio governo eleito se começassem a realizar campanhas de violação em massa contra os dissidentes? Tal posição só é possível pela desumanização completa dos sírios. É um racismo que vê aos sírios como incapazes de conseguir, e muito menos de merecer, algo melhor que uma das ditaduras mais brutais de nosso tempo.

Para esta esquerda autoritária, o apoio se estende ao regime de Assad em nome do “anti-imperialismo”. Assad é visto como parte do “eixo de resistência” tanto contra o império estadunidense como contra o sionismo. Pouco importa que o próprio regime de Assad tenha apoiado a primeira guerra do Golfo, ou tenha participado no programa de entregas ilegais dos Estados Unidos onde os supostos terroristas foram torturados na Síria em nome da CIA. O fato de que este regime provavelmente tenha a duvidosa distinção de massacrar a mais palestinos que o estado israelense é constantemente ignorado, como o é o fato de que está mais decidido a utilizar suas forças armadas para reprimir a dissidência interna que a liberar o Golã ocupado por Israel.

Este ‘anti-imperialismo’ de idiotas é um que equipara o imperialismo somente com as ações dos Estados Unidos. Parecem ignorar que os Estados Unidos bombardeou a Síria desde 2014. Em sua campanha para liberar Raqqa do Daesh, abandonaram todas as normas internacionais de guerra e considerações de proporcionalidade. Mais de 1.000 civis foram assassinados e a ONU estima que 80 por cento da cidade seja agora inabitável. Não houve protestos contra esta intervenção de parte das organizações que dirigem o movimento contra a guerra, nem chamadas para assegurar a proteção dos civis ou da infraestrutura civil. Ao invés disso, adotaram o discurso da “Guerra contra o Terrorismo”, outrora domínio dos neoconservadores e agora promulgada pelo regime, de que toda oposição a Assad é terrorismo jihadista. Fizeram vista grossa quando Assad enchia seu gulag com milhares de manifestantes seculares, pacíficos e pró-democracia para matá-los por tortura, enquanto liberava militantes islamistas do cárcere. Do mesmo modo, ignoraram os contínuos protestos em áreas opositoras liberadas contra grupos extremistas e autoritários como Daesh, Nusra e Ahrar Al Sham. Não se considera que os sírios possuam a sofisticação necessária para ter uma ampla gama de opiniões. Os ativistas da sociedade civil (incluídas muitas mulheres surpreendentes), os jornalistas cidadãos e os trabalhadores humanitários são irrelevantes. Toda a oposição se reduz a seus elementos mais autoritários ou é vista como um mero correio de transmissão de interesses estrangeiros.

Esta esquerda pró-fascista parece cega a qualquer forma de imperialismo que não seja de origem ocidental. Combina a política identitária com o egoísmo. Tudo o que acontece se vê através do prisma do que significa para os ocidentais: só os homens brancos têm o poder de fazer história. Segundo o Pentágono, atualmente há ao redor de 2.000 tropas estadunidenses na Síria. Pela primeira vez na história da Síria, os Estados Unidos estabeleceu uma série de bases militares no norte controlado pelos curdos. Isto deveria preocupar a quem quer que apoie a autodeterminação síria, ainda que seja pouco em comparação com dezenas de milhares de tropas iranianas e milícias xiitas respaldadas pelo Irã que agora ocupam grande parte do país, ou os criminosos bombardeios realizados pela força aérea russa em apoio à ditadura fascista. Agora, a Rússia estabeleceu bases militares permanentes no país e lhes outorgaram direitos exclusivos sobre o petróleo e o gás da Síria como recompensa por seu apoio. Noam Chomsky uma vez sustentou que a intervenção da Rússia não podia ser considerada imperialismo porque foi convidada a bombardear o país pelo regime sírio. Segundo essa análise, a intervenção dos Estados Unidos no Vietnã tampouco foi imperialista, convidada como o foi pelo governo sul vietnamita.

Várias organizações pacifistas justificaram seu silêncio sobre as intervenções russas e iranianas argumentando que “o inimigo principal está em casa”. Isto os desculpa de empreender qualquer análise de poder séria para determinar quem são realmente os principais atores que impulsionam a guerra. Para os sírios, o principal inimigo está realmente em casa: é Assad o que comete o que a ONU chamou ‘crime de extermínio’. Sem ser conscientes de suas próprias contradições, muitas das mesmas vozes se proclamaram opostas (e com razão) ao ataque atual de Israel contra manifestantes pacíficos em Gaza. Claro, uma das principais formas em que funciona o imperialismo é negar as vozes autóctones. E assim, as principais organizações ocidentais contra a guerra fazem conferências na Síria sem convidar a nenhum palestrante sírio.

A outra tendência política mais importante por ter apoiado o regime de Assad e organizar-se contra os ataques dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França contra a Síria é a extrema-direita. Hoje, o discurso dos fascistas e estes “esquerdistas anti-imperialistas” é praticamente indistinguível. Nos Estados Unidos, o supremacista branco Richard Spencer, o produtor de podcasts da direita alternativa (alt-right) Mike Enoch, e a ativista anti-imigração, Ann Coulter, se opõem aos ataques norte-americanos. No Reino Unido, o ex-líder do BNP (Partido Nacional Britânico), Nick Griffin, e a islamófoba Katie Hopkins se unem ao clamor. O lugar onde convergem com frequência o alt-right e o alt-left (esquerda alternativa) é em torno à promoção de várias teorias de conspiração para absolver o regime de seus crimes. Afirmam que as matanças químicas são bandeiras falsas ou que os trabalhadores de proteção civil são Al Qaeda e, portanto, objetivos legítimos de ataques. Aqueles que difundem tais informes não estão no terreno na Síria e não podem verificar independentemente o que reclamam. Geralmente dependem dos meios estatais de propaganda russos ou de Assad porque “não confiam na mídia” ou nos sírios diretamente afetados. Às vezes, a convergência destas duas correntes aparentemente opostas do espetro político se converte em uma colaboração aberta. É o caso da coalizão ANSWER, que está organizando muitas das manifestações nos Estados Unidos contra um ataque a Assad. Com frequência, ambas as linhas promovem narrativas islamofóbicas e antissemitas. Ambos compartilham os mesmos argumentos e os mesmos memes.

Existem muitas razões válidas para opor-se à intervenção militar externa na Síria, seja por parte dos Estados Unidos, da Rússia, do Irã ou da Turquia. Nenhum destes estados está atuando no interesse do povo sírio, da democracia ou dos direitos humanos. Atuam unicamente por seus próprios interesses. Hoje, a intervenção dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França não pretendem tanto proteger os sírios das atrocidades massivas mas sim fazer cumprir uma norma internacional de que o uso de armas químicas é inaceitável, por temor a que algum dia se utilizem contra os próprios ocidentais. Mas bombas estrangeiras não trarão paz nem estabilidade. Há pouca intenção de expulsar Assad do poder, o que contribuiria para terminar com a pior das atrocidades. No entanto, ao opor-se à intervenção estrangeira, alguém tem que encontrar uma alternativa para proteger os sírios da matança. É no mínimo moralmente repreensível, esperar que os sírios calem e morram para proteger o princípio superior do “anti-imperialismo”. Os sírios propuseram muitas vezes alternativas à intervenção militar estrangeira, que foram ignoradas. E então fica a pergunta, quando as opções diplomáticas falharam, quando um regime genocida está protegido da censura por poderosos apoios internacionais, quando não se consegue deter os bombardeios diários, pôr fim aos cercos por inanição ou liberar os prisioneiros torturados em escala industrial, o que se pode fazer?

Não tenho respostas. Sempre me opus a toda intervenção militar estrangeira na Síria, apoiei o processo liderado pela Síria para livrar seu país de um tirano e respaldei procedimentos internacionais baseados em esforços para proteger os civis e os direitos humanos e garantir a prestação de contas de todos os atores responsáveis de crimes de guerra. Um acordo negociado é a única maneira de terminar esta guerra e isso ainda parece tão distante como sempre. Assad (e seus protetores) estão decididos a frustrar qualquer processo, buscar uma vitória militar total e esmagar qualquer alternativa democrática que sobreviva. Centenas de sírios estão sendo assassinados todas as semanas da maneira mais bárbara imaginável. Os grupos extremistas e as ideologias estão prosperando no caos criado pelo Estado. Os civis continuam fugindo de milhares a medidas que se implementam como mecanismos legais. Como a Lei Nº 10, para garantir que nunca regressarão a seus lares. O sistema internacional em si mesmo está em colapso sob o peso de sua própria impotência. As palavras ‘Nunca mais’ soam ocas. Não há um movimento popular importante que se solidarize com as vítimas. Ao contrário, são caluniados, seu sofrimento é negado ou objeto de burla, e suas vozes, ausentes dos debates ou postas em dúvida por pessoas que estão longe, que não sabem nada da Síria, da revolução ou da guerra, e que arrogantemente creem que sabem o que é melhor. É esta situação desesperada a que faz com que muitos sírios deem as boas-vindas à ação dos Estados Unidos, Reino Unido e França, e que agora veem a intervenção estrangeira como sua única esperança, apesar dos riscos que sabem que isso implica.

Uma coisa é certa: não vou perder o sono pelos ataques dirigidos contra as bases militares do regime e as fábricas de armas químicas que podem proporcionar aos sírios um breve respiro da matança diária. E nunca serei uma aliada daqueles que põem os discursos rimbombantes acima das realidades vividas, que apoiem regimes brutais em países longínquos, ou que promovam o racismo, as teorias da conspiração e a negação das atrocidades./

Leila Al Shami é uma ativista síria britânica que luta pelos direitos humanos e justiça social na Síria e no Oriente Médio desde 2000. Ela foi membro fundadora da rede Tahrir-ICN, ligada às lutas antiautoritárias em todo Oriente Médio, Norte da África e Europa.

Fonte: https://leilashami.wordpress.com/2018/04/14/the-anti-imperialism-of-idiots/

Tradução: Sol de Abril

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Agência de Notícias Anarquistas (ANA)

As famílias são cercadas de mentiras, de invenções e de distorções da realidade

FLONA de Ipanema
Fotografo Osvaldo Cristo – Acervo Floresta Nacional de Ipanema – http://www.ipero.sp.gov.br/floresta-nacional-de-ipanema/

Meu pai deveria ter lutado na segunda guerra mundial com a FEB (a Força Expedicionária Brasileira), mas não lutou.

Conta a lenda familiar que um sujeito graduado, dentro do exército, o protegeu, impedindo-o que fosse ao front, pois seria amigo de meu avô, o seu pai, obviamente.

As famílias sempre são cheias de histórias sem sentido e de um bocado de invencionice

Do lado de minha mãe era certo que meu avô materno, ou seja, o pai dela, tivesse nascido na Itália. Conta-se, em família, que ele teria vindo para cá com dois anos e depois teria voltado, sem os pais e sem os irmãos, à Itália aos 18 anos.

Eles eram paupérrimos, gente tosca e de pouca instrução. Com que dinheiro ele, meu avô, iria voltar para Itália, para em seguida mudar de ideia e voltar ao Brasil aos 19 anos, como também se conta?

De meu pai, do tempo do exército, diz-se que ele “serviu” por longos cinco anos, exatamente por conta da guerra, mas que teria passado boa parte desse tempo preso, pois bebia um bocado.

A história das bebedeiras até faz sentido e não é de todo mentirosa, já que ele próprio reconhece que gostava da “marvada”. Já fazendo as contas da guerra, essa conta não fecha.

Meu pai nasceu em 1924 e alistou-se (sabe-se lá por que, já que ele era primogênito, e portanto não teria a obrigação de alistar-se) com 18 anos, o que quer dizer que chegamos ao ano de 1942.

Ora , a segunda guerra mundial começou de 1939 e estendeu-se até 1945. Então, por que cargas d’água meu pai ficaria até 1947 servindo a pátria amada, idolatrada, salve, salve?

História mal contada esta.

Há outro problema aí. Minha mãe e ele teriam namorado (segundo essas mesmas ilibadas fontes familiares) por 5 anos. Eles se casaram em 1948 e eu nasci em 1949 – acho que eles estavam com pressa.

Retrocedendo de 1948, eles teriam começado o namoro em 1943.

Essa versão sobre o tempo de namoro não veio no chip dos registros familiares.

Família é um troço difícil. Elas sempre têm um bocado de histórias para contar, histórias de difícil checagem.

Mas voltando à história de meu avô materno, aquele que teria nascido na Itália, a história absolutamente não faz sentido.

Ela nasceu num lugarejo chamado Ipanema, nas proximidades de Sorocaba, hoje município de Iperó.

Quem nasceu na Itália (segundo os registros), em Rimini, na região da Emília-Romanha, foi o seu pai, que se casou, pouco antes de vir para o Brasil, com uma também italiana.

Ipanema

Aproveitando o ensejo, falo abaixo da floresta nacional de Ipanema, citando de passagem o site da prefeitura de Iperó :

Floresta Nacional de Ipanema – berço da siderurgia americana

A Floresta Nacional de Ipanema, que ocupa uma área da antiga Fazenda Ipanema, em Iperó, foi criada em 20 de maio de 1992 e abriga os remanescentes da primeira siderúrgica americana. Jazidas de ferro foram encontradas no morro Araçoiaba há cerca de 428 anos. A Flona de Ipanema é um dos maiores ecossistemas de Mata Atlântica existentes hoje no Brasil. As atividades relacionadas ao ferro naquela região, desde o século XVI, contribuíram para a origem de várias cidades da região de Sorocaba e o desenvolvimento do Brasil.

O morro Araçoiaba

O morro Araçoiaba (Ybiraçoiaba na escrita primitiva) é comumente chamado “morro de Ipanema”, mesmo nome do rio cujas “águas ruins” eram utilizadas na indústria de ferro. Os indígenas e, posteriormente, os bandeirantes, notaram que o sol se punha atrás daquela cadeia de montanhas. É possível perceber isso, por exemplo, quando passamos pela estrada Iperó-Sorocaba num fim de tarde. Foi assim que adotaram o nome Araçoiaba, significando “coberta do dia”, “esconderijo do sol”. Alguns escritores também se referem ao conjunto de montanhas como sendo o “cerro Araçoiaba” ou, incorretamente, como “serra Araçoiaba”.

A Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema

Após tentativas fracassadas entre os séculos XVI e XVIII, o maior esforço a fim de se implantar definitivamente uma siderúrgica em Ipanema surgiu no início do século XIX, quando o ministro Conde de Linhares ordenou o reinício das explorações no morro Araçoiaba. Com a chegada da Família Real ao Brasil, em 1808, Linhares autorizou a fundação de duas fábricas de ferro: uma em Minas Gerais e outra em Ipanema. O principal objetivo era libertar Portugal da dependência da indústria estrangeira.

Frederico Guilherme de Varnhagen (que servia o exército português) foi trazido da Europa e o conselheiro Martim Francisco ficou encarregado de demarcar a área para os trabalhos de mineração, além de fazer estudos relacionados à instalação e operação da fábrica de ferro. A fábrica de Ipanema foi reconstruída e em 4 de dezembro de 1810 nasceu a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, ratificando o pioneirismo da siderurgia no Brasil e na América Latina. Mas ao invés de Varnhagen, foi contratado o sueco Carl Gustav Hedberg para dirigir o empreendimento.

Uma época de esplendor era sonhada pelos idealizadores. Engano. A Suécia não enviou técnicos verdadeiros, mas sim pessoas que se envolveram em desvios de materiais, dinheiro e diversos escândalos. Hedberg trouxe uma colônia de operários e construiu as forjas suecas para o tratamento do ferro, mas era um sistema precário que só preparava o metal para a fabricação de pequenos instrumentos de lavoura. Esse sistema não funcionava para a fundição de peças que exigiam grande resistência.

Hedberg ocupou o cargo entre 1810 e 1814, gastou mais de 8 mil contos de réis e produziu apenas 14,7 toneladas de ferro, enquanto a fábrica havia sido projetada para produzir 588 toneladas. Ele foi o responsável pela construção da represa no rio Ipanema, primeiro rio brasileiro a ser represado. Mas foi demitido devido aos problemas em sua administração. Varnhagen substituiu Hedberg e construiu os altos-fornos através dos quais fundiu três cruzes em 1 de Novembro de 1818, comprovando o êxito da manipulação do ferro. Uma está na sede da Floresta Nacional de Ipanema, outra no morro Araçoiaba e a última no Zoológico Municipal Quinzinho de Barros em Sorocaba.

Para recompensar esses serviços, Dom João VI elevou Varnhagen ao posto de coronel. Em 1821, devido a desentendimentos de ordem ideológica, Varnhagen pediu demissão, utilizando-se do pretexto de ter a necessidade de voltar à Europa para educar o filho. O Conselho Administrativo pediu a Varnhagen que indicasse um oficial para substituí-lo. Dois nomes foram indicados, mas não aceitos pelo Conselho. Voltando para a Europa, Varnhagen levou o filho (futuro Visconde de Porto Seguro) em sua companhia. A fábrica iniciou um processo de decadência, até que em 1834 o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, presidente da Província de São Paulo, nomeou o major João Blóem como diretor da fábrica.

Blóem trouxe da Europa uma colônia alemã que prestou serviços e deu grande impulso à fabricação de ferro em Ipanema. Mas em 1842, quando parecia começar uma nova era de prosperidade, uma crise política paralisou a fábrica mais uma vez. Com o início da Revolução Liberal de Sorocaba, em maio, Blóem apoiou os rebeldes chefiados pelo brigadeiro Tobias e não impediu a retirada de três canhões que haviam sido fundidos em Ipanema. Os canhões foram levados a Sorocaba pelos envolvidos na revolução e dois deles se encontram até hoje na praça Arthur Fajardo ou “Praça do Canhão”, local onde foram posicionados originalmente. Dessa forma, Blóem foi preso por ordem do Duque de Caxias e destituído do cargo de diretor. A fábrica caiu em abandono novamente.

O capitão Antonio Ribeiro de Escobar foi nomeado diretor interino. Em 2 de novembro de 1842 foi nomeado o tenente-coronel Antônio Manuel de Melo de forma efetiva, que não conseguiu impedir a decadência do local. Ficou durante três anos no cargo. Os 20 anos seguintes, entre 1845 e 1865, foram de declínio ainda maior. Cinco diretores passaram por Ipanema nesse período, sendo o Barão de Itapicuru, o major Joaquim José de Oliveira, o general Ricardo José Gomes Jardim, o major Francisco Antonio Raposo e o tenente Francisco Antonio Dias.

Para complicar a situação, em 1860 a fábrica foi dissolvida e o governo ordenou que se fundasse outra no Mato Grosso. Para lá foram enviados os técnicos, os oficiais e os escravos, ficando em Ipanema apenas alguns funcionários mais velhos. Não era conhecida a existência de minério de qualidade no Mato Grosso. Tanto que, após cinco anos de pesquisas sem sucesso, não houve descoberta e nem a fundação da outra fábrica. Parte dos equipamentos que seriam transportados de Ipanema ao Mato Grosso ficaram pelo caminho e, por fim, muitos se enferrujaram em Santos.

Veio a guerra do Paraguai em 1865 e o plano da mudança foi abandonado de vez. Havia a necessidade de se colocar o maquinário em funcionamento com urgência para produzir material bélico. Essa foi a época em que Ipanema mais produziu ferro. O capitão de engenheiros Joaquim de Sousa Mursa, posteriormente promovido a coronel, foi nomeado para o cargo de diretor em 6 de setembro de 1865. Aos poucos ele conseguiu recompor o estabelecimento, onde permaneceu até 1890. Para ilustrar o prestígio que a fábrica conseguiu durante a administração de Mursa, basta citar que a primeira locomotiva da Estrada de Ferro Sorocabana, quando inaugurada a 10 de julho de 1875, recebeu o nome de “Ipanema”.

Em 1895, já sob o governo republicano, as atividades siderúrgicas foram definitivamente encerradas. A fábrica foi fechada oficialmente pelo presidente Hermes da Fonseca, conforme o Decreto nº 9.757, de 12 de setembro de 1912.

Ipanema após o fim da Real Fábrica de Ferro

Em 1895 a propriedade foi transferida para o Ministério da Guerra e se transformou em quartel e depósito. A partir de 1926 foi iniciada a exploração de apatita no morro, perdurando até 1943. Na década de 1950 iniciou-se a exploração de calcário para produção de cimento, cujas atividades foram encerradas no fim da década de 1970.

Toda a área de Ipanema foi transferida para o Ministério da Agricultura em 1937 e o Centro de Ensaios e Treinamento de Ipanema (CETI/CENTRI) iniciou os estudos com sementes e máquinas agrícolas. O Centro Nacional de Engenharia Agrícola (CENEA) foi criado em 1975 e deu continuidade às atividades do CETI/CENTRI, sendo desativado no início da década de 1990 durante o governo Collor.

Em meados da década de 1980, mesmo sob protestos em toda a região, a Marinha do Brasil instalou um centro de pesquisas em parte das terras da “Fazenda Ipanema”, visando o desenvolvimento de reatores para o submarino nuclear. O CTMSP – ARAMAR foi inaugurado em 4 de abril de 1988 e continua desenvolvendo as atividades. Numa área ao lado de ARAMAR será construído o Reator Multripropósito Brasileiro (RMB), que é a mais importante iniciativa para a pesquisa nuclear no Brasil atualmente e permitirá o desenvolvimento de novos radiofármacos. Os investimentos brasileiros na área nuclear permitirão ainda que o RMB seja o núcleo de um novo grande centro de pesquisa e desenvolvimento.

Ainda em 1988 foi apresentada a proposta para se criar uma estação ecológica, por iniciativa do Ministério da Agricultura, numa área de 2.450 hectares ao longo do morro Araçoiaba. Quatro anos depois, em 16 de maio de 1992, parte da área foi ocupada pelo “Movimento dos sem terra”.

Visando a preservação de todo o complexo (fauna, flora e remanescentes históricos), a Floresta Nacional de Ipanema foi criada quatro dias depois da ocupação pelo MST, em 20 de maio de 1992, numa área delimitada em 5.069,73 hectares. A administração passou para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA). A partir de 2007, com a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Flona de Ipanema e todas as unidades de conservação federais passaram a ser administradas pelo órgão.

Da fase siderúrgica de Ipanema restam hoje alguns monumentos restaurados, como a Casa de Armas Brancas, o casarão da sede, a serraria, o portão homenageando a maioridade de Dom Pedro II, as primeiras cruzes fundidas em 1818, o monumento a Francisco Varnhagen e os fornos de Frederico Varnhagen e Joaquim Mursa. Em contrapartida, ainda há prédios que precisam de recuperação.

Para mais informações sobre a Flona de Ipanema acesse www.cidadedeipero.com.br/ipanema.html

Em tempo: meu avô ou meu bisavô paterno teria(m) trabalhado na siderúrgica, o que também é informação bastante duvidosa (que eu vou checar em outros tempos).

E a moça provocou e concluiu: você é um teleguiado, um alienado pela TV

Batebioca
Credito da ilustração: Blog Drall

No ultimo dia 14 de março, em segunda mão, disse nas redes sociais que:

“Deu uma subidinha a abertura de postos de trabalho. Mais do que as que fecharam.
Uma boa notícia, pois desde 2015 que a barca da geração de emprego havia emborcado.”

Foi o que bastou para uma singela pessoinha – nas redes sociais –, e que nunca havia antes falado comigo, me perguntar em que canal de TV eu tinha “visto” a informação.

Isso não tem nada de inocente, não se enganem!

A maioria das pessoas desse tipo gostaria que eu tivesse respondido “rede Globo”, obviamente para espezinhar o alienado aqui.

Ocorre que eu sequer tenho um mísero aparelho de TV. Não gosto muito de TV, embora assista as vezes caroneando de alguma casa ou de um bar, e, pra falar a verdade, até já gostei em outros tempos.

A pessoinha em questão, como não me conhece, e não tem como saber se tenho ou não um aparelho de TV, por isso mesmo deveria perguntar onde foi que eu arrumei essa informação, e não determinar, a priori, que eu deveria ter “visto” em alguma emissora de TV.

É uma questão de dignidade, de respeito e de demonstração de um mínimo que seja de inteligência.

E explico o de “segunda mão” acima: normalmente tomamos conhecimento de alguma informação pela imprensa. Eu não dispenso nenhum delas e delas não tenho preconceito algum. Por acaso, no caso, ”vi” a notícia na Rede Brasil (site) que não é exatamente um site de direita, muito pelo contrário.

Mas normalmente vou procurar a fonte primária da informação, no caso o IBGE. E fui!

Como sou jornalista (mesmo que por hora apenas um blogueiro) faço isso sempre, até para não ser surpreendido com interpretações equivocadas da informação.

O acirramento dos conflitos político pelos quais o Brasil atravessa (e isso deve demorar um bocado de tempo ainda) levou a um descalabro descomunal com o qual não estávamos acostumados; mesmo na época da ditadura militar, pois até aqueles que a apoiaram não se mostravam dispostos a defendê-la, e, tenho para mim, se envergonhariam caso o fizesse.

Ocorre que a partir de 2013 para cá o Armagedon está à solta (se é que posso usar dessa construção) e não poupa ninguém, à esquerda e à direita.

E pior: quem buscar manter uma postura ética e equilibrada será sempre a primeira vítima dos intolerantes à esquerda e à direita.

Não há mais diálogo possível.

Os ouvidos estão moucos.

Os insanos venceram esta queda de braços.

Esquerda e direita se digladiam em contagens e para ver quem mente mais

Lula PT
Lula aproveita protestos para fazer campanha por sua própria volta à presidência da república. Foto: Partido do Trabalhadores (PT).

Há quem tenha lembrado de dizer que apenas na avenida Paulista havia mais de 300 mil pessoas nas manifestações de ontem, já indo para a casa das 400 mil.

Exagero dos exageros, e como a gente aprende (ou deveria aprender) em casa, mentir é feio.

Doutro lado houve quem tenha rebaixado ao máximo as manifestações de ontem (não só na avenida Paulista) a meia dúzia de gatos pingados.

É a Globo comandando a massa.

Juntamente com as publicações da editora Abril, o jornal O Estado de São Paulo e (muitas vezes) a Folha de São Paulo, a rede Globo (incluindo as publicações) funciona à base de um conservadorismo extremado, careta e um bocado reacionário.

Mais ou menos a exceção é a GloboNews que consegue (seja com relação a quem for) subir um pouco do tom das críticas, inclusive contra a própria população que é merecedora de todos os apupos e vaias.

A contra face dessa história são as novelas globais reconhecidas como agentes de modernização da sociedade brasileira.

O que não é exatamente uma coisa difícil de fazer, pois o brasileiro é um bocado atrasado e arcaico, e qualquer coisa de se faça já vai parecer um grande avanço, quase um revolução.

Trata-se de um paradoxo, especialmente pensando que o cinema nacional não desempenha esse papel, como deveria fazer, na contramão da maioria absoluta dos países, especialmente os Estado Unidos.

Do teatro não se dá muito para falar (e cobrar) posto ele continuar inacessível à maior dos nacionais, por conta a sua carestia.

Voltando ao cinema, aqui troca-se a crítica mais abrangente pela militância política (sempre se fez isso), o que é um equivoco enorme.

Dos protestos

Se os protestos iniciados em 2013, que culminaram com a deposição de Dilma Rousseff e o quase extermínio do Partido dos Trabalhadores (PT), se caracterizaram pelo seu caráter difuso e conflituoso (cada um falava um coisa e, pior, reivindicava outra), este, destes dias, sob a desculpa de ser contrário as reforma trabalhista e a da previdência, a rigor é tão somente uma um campanha pela volta de Lula da Silva à presidência da república.

Isso é indisfarçável.

Na falta de tato para com as coisas e as pessoas, esta é uma boa maneira de não se conseguir arregimentar mais ninguém para os protestos, inclusive muita gente que até votou no petismo, mas que hoje anda num ressabio danado com o partido.

Creio – ou pelo menos assim espero – que Lula da Silva, o PT e a militância saibam o que estejam fazendo, caso contrário, quando outubro (de 2018) chegar, será uma decepção extraordinária – com os naturais chororôs e as vitimizações de praxe.

‘A “reforma” da Previdência é ineficiente, imoral e inútil’

Preidencia

[O governo diz que o déficit da Previdência este ano será R$ 149,7 bilhões de reais. É mentira. É uma ficção contábil que tem dois objetivos: garantir aos bancos e especuladores o pagamento dos juros mais altos do planeta, e privatizar a previdência no Brasil. Não tem nada a ver com viabilizar a aposentadoria dos brasileiros no futuro. Nem com “fechar as contas”. Não se trata de ser a favor ou contra Temer, não tem nada a ver com Dilma, não é questão partidária. É questão de matemática. De justiça. E de levarmos a sério o futuro do país.

Primeiro: não há porque a Previdência “fechar as contas”. É como dizer “a conta da escola pública não fecha”. Ou “a conta de aplicar vacina em bebês não fecha”. Não é para fechar, muito menos para “dar lucro”. A vida das pessoas não é um negócio. Aposentadoria não é um custo. É um reinvestimento do imposto na própria sociedade que pagou o imposto. Investimento no bem-estar dos brasileiros, que deve ser prioritário, acima de qualquer outro. Com impacto direto na saúde, na educação, na segurança.

Segundo: a “reforma” é ineficiente. Se o governo quiser de fato botar as contas do país no azul, precisa é pagar menos juros e aumentar a arrecadação. O Brasil pagará mais de R$ 500 bilhões de juros esse ano! Derrubar os juros deveria ser a prioridade zero deste e qualquer outro governo, mas sempre encontram uma razão para que eles continuem nas alturas. Quem sabe é porque nossos governos sempre terceirizam a administração da economia para funcionários dos bancos, Meirelles, Ilan, Levy etc. Afinal, são os próprios bancos os maiores credores do governo, e são os bancos que ficarão com a maior parte desses R$ 500 bilhões.

Quanto a aumentar a arrecadação, ajudaria bem acabar com tanta desoneração e tanta sonegação, inclusive os sonegadores da previdência. Ajudaria cobrar o que as empresas devem para o governo. E aproximar dos padrões internacionais o imposto de renda e o imposto de herança, e, como se faz em todo o mundo, taxar os dividendos que as empresas pagam a seus acionistas. Nossa elite é a menos taxada do planeta.

Terceiro: o brasileiro normal, os 99% de nós que pouco apitamos, paga imposto pra caramba. Quanto mais pobre, mais paga, proporcionalmente, porque tudo que a gente compra embute imposto, do feijão ao remédio à eletricidade, todos os produtos e todos os serviços. Essa grana deveria ser reinvestida na própria população, e não em pagar juros e outras tantas bandalheiras. É imoral Meirelles e companhia dizer que não há dinheiro pra nossos velhos, quando existe dinheiro para construir estádios bilionários (que hoje estão apodrecendo), enriquecer empreiteiros corruptores e toda aquela lista de sujeiras que estamos cansados de saber.

Quarto: se aprovada essa lei, todo mundo que tiver o mínimo de condição vai para a previdência privada. O que o governo vai exigir pra gente se aposentar vai ser muito difícil de cumprir, e em troco de uma porcaria de dinheiro na velhice. A economista Denise Gentil, da URFJ, levantou um número impressionante: entre janeiro e outubro de 2016, os bancos venderam 21% a mais de planos nos fundos privados. Isso só por causa da perspectiva de aprovação dessa nova lei. Aprovada, vai gerar um lucro gigante para os bancos.

Finalmente, é inútil qualquer mudança na Previdência que não leve em consideração as projeções para o mercado de trabalho nas próximas décadas. Essa proposta do governo vai na exata direção contrária do que há de mais moderno em termos de política social: a Renda Mínima. Ou, como se fala em inglês, Universal Basic Income, UBI. Trata-se de simplificar a burocracia e dar dinheiro diretamente para os cidadãos. Em vez de um monte de programas para combater a pobreza, um chequinho todo mês.

É a discussão do momento nos círculos mais informados, da direita, da esquerda, do libertário Vale do Silício à vanguarda futurista-socialista da Europa. Está sendo testada, de diversas maneiras, em diversos lugares do mundo. Em vez de o governo pegar o imposto que o povo paga, e emprestar a juro amigo para os empresários “gerarem emprego”, a Renda Mínima ataca o problema direto na veia. Do berço ao túmulo. Uma graninha garantida que garante sua sobrevivência, e não muito mais que isso. Quer algum luxo, tem que trabalhar.

A Terra vai ganhar dois bilhões de pessoas nas próximas três décadas. Com a tecnologia destruindo empregos no ritmo atual, há quem diga que metade –metade! – dos empregos que existem hoje não existirão em 2050. Simplesmente não vai ter gente suficiente na força de trabalho para bancar os aposentados.

Isso não precisa ser um problema, e precisa ser uma solução. Se computadores e máquinas fazem o trabalho, melhor pra gente – SE, e esse se é a chave, esse ganho de produtividade for dividido de maneira equânime entre todos nós, e não concentrado nos bolsos dos donos do capital. Eles não vão abrir mão de lucros cada vez maiores, claro. Se dependesse dos donos do dinheiro e do poder, não teria sido nem abolida a escravidão, muito menos existiria voto, salário mínimo etc. e tal.

É utopia? Bem, o Brasil vai pagar esse ano mais de R$ 500 bilhões em juros. Se em vez disso, a gente pegasse essa grana e dividisse igualmente por 205 milhões de brasileiros, cada um levaria R$ 2440 por ano, uns duzentos reais por mês. Parece pouco? É mais que o Bolsa Família, que comprovadamente tirou milhões de pessoas da miséria.

Vamos olhar de outra maneira. O salário médio do brasileiro é menos de dois mil reais. O salário mínimo é R$ 937. E de cada três aposentados, dois ganham isso, o mínimo, R$ 937. Então o impacto de um programa de Renda Mínima como esse seria gigantesco. E seria para todos os brasileiros, inclusive crianças. Em uma família de quatro pessoas, somaria quase dez mil reais por ano!

Estamos muito longe de tomarmos para nós os recursos públicos, que são nossos por direito? O sábio lá dizia que toda jornada começa com um primeiro passo. “Direito” não é uma coisa que possa ser dada. Direito é sempre conquistado, tomado, arrancado na marra. E é seu enquanto você conseguir defende-lo. Os brasileiros têm pouquíssimos direitos, e o governo de Michel Temer quer tirar esse pouco que temos. Resistir e derrotar a proposta de Temer é só o primeiro passo. Avançar para um novo modelo, de Renda Mínima, é o passo seguinte e necessário.]

(Saiba mais sobre os programas internacionais de Renda Básica Universal neste artigo, em português, da BBC. E para se manter atualizado sobre o assunto, o melhor site, em inglês, é www.basicincome.org).

André Forastieri – Diretor de Novos Negócios – Superintendência de Estratégia Multiplataforma / R7.com, Record TV

Via Linkedin

“Os patrulheiros da credibilidade promovem nova ética na internet”

[No final de julho passado, a revista Columbia Journalism Review (CJR, 30/7), publicada a cada dois meses, identificou um desenvolvedor de software que vem checando fotos e fatos no Twitter e atraindo a atenção de estudiosos da imprensa desde o ano passado. Ele atende no Twitter por @PicPedant, e seu nome é Paulo Ordoveza, um filipino desenhista da web e desenvolvedor de software de 37 anos da área de Washington, a capital dos Estados Unidos.

Ele verifica origem, propriedade, fonte original e outras informações sobre fotos que encontra no Twitter e corrige os erros que encontra, a despeito dos donos das contas. Muita gente já bloqueou o atrevido verificador que trabalha de graça e com muito entusiasmo. Outros usuários do Twitter agora procuram o verificador para conferir dados e créditos de fatos e fotos com regularidade.

Primeiro ele apareceu na revista para fotógrafos Imaging Resource (17/2) em 2014. No mesmo ano, o tabloide Mirror, da Inglaterra (23/3) entrevistou o checa-fatos do Twitter. Depois chegou a vez do diário francês Le Monde (27/5) apresentar ao mundo o novo verificador informal do microblog, com um título bastante elogioso: “Pic Pedant, creditador (atribuidor de créditos) sério e caçador de fraudes” (PicPedant, serial crediteur et chasseur de fakes).

O diário francês informou que Ordoveza trabalha duas horas por dia (fora finais de semana) e não é nenhum tipo de “vigilante solitário”. Outros profissionais na rede, como o jornalista Tom Phillips, do BuzzFeed, ou Matt Novak, do Webzine Gizmodo costumam desmontar rumores e boatos em redes sociais, adicionou a revista da Universidade de Columbia. Os sites Snopes, nos Estados Unidos, e o Hoaxbuster, na França, também fazem o mesmo trabalho. Ordoveza pensa em formar uma rede de verificadores na web, adicionou o jornal francês.

Os 30 maiores proprietários de mídia

Não é má ideia, e nós, aqui no Brasil, também temos bons exemplos de examinadores do conteúdo da web que poderiam fazer parte dessa rede. Recebem críticas por estragarem a diversão de muitos, mas são fundamentais para o público da web. O Brasil tem um excelente verificador de farsas, rumores e notícias falsas. É o Gilmar Henrique Lopes que administra o site E-farsas e também atua como verificador de fatos na web há 10 anos. Ele é analista de sistemas e em 2008 apareceu no Programa do Jô (3/4). Gilmar é um amador que cresceu na web graças a sua habilidade não só em apontar erros e farsas, mas por fazer correções de conteúdo. Seu site é bastante visitado; é mais popular que o da CJR. Não tenho dúvidas que Gilmar Henrique seria parte importante de uma rede mundial de verificadores de fatos duvidosos e farsas na web.

Os franceses do Monde entenderam o trabalho de Paulo Ordoveza no Twitter como o de um campeão da luta pelos créditos na mídia. Percebi um toque de ironia no jornal francês ao descrever o esforço que o programador e web designer faz na rede. Ele foi chamado de “caçador dos créditos perdidos”, no periódico gaulês. O filipino faz trabalho jornalístico melhor que muitos periódicos e portais da web. Sua presença e de outros como ele na rede é fundamental. Principalmente na mídia social. No final do mês passado o absurdo abaixo foi publicado no Facebook, e muita gente acreditou. Nem que fosse por algumas horas. O atrevimento foi grande:

Fonte: Facebook
Fonte: Facebook

Isto foi publicado no Facebook no dia 30 de julho de 2014: a Rede Globo seria vendida em segredo para a BBC. Quem conhece um pouco sobre a mídia sabe que a Globo é uma corporação maior que a BBC. A emissora carioca do Jardim Botânico é a 17ª maior proprietária de mídias do planeta. O Google é a primeiro e a Globo está na frente do Yahoo e da Microsoft. A BBC não está entre as 30 maiores do planeta na lista anual da Zenithoptmedia:

Posição dos 30 maiores proprietários da Mídia Mundial

Posição Proprietário da Mídia Posição Proprietário da Mídia
1 Google 16 Asahi Shimbun Company
2 Walt Disney Company 17 Grupo Globo
3 Comcast 18 Yahoo!
4 21st Century Fox 19 Fuji Media Holdings
5 CBS Corporation 20 CCTV
6 Bertelsmann 21 Microsoft
7 Viacom 22 Hearst Corporation
8 Time Warner 23 JC Decaux
9 News Corp 24 Yomiuri Shimbun Holdings
10 Facebook 25 Mediaset
11 Advance Publications 26 Axel Springer
12 iHeartMedia 27 ITV plc
13 Discovery 28 ProSiebenSat.1
14 Baidu 29 NTV
15 Gannett 30 Sanoma

Fonte: site ZenithOptmedia, maio de 2015. Metodologia: renda de mídia de cada corporação em diferentes meios de transmissão e comunicação

A carta-renúncia de Dilma

A maior emissora de televisão privada do Brasil jamais poderia ser vendida à BBC porque empresas estrangeiras não podem, de acordo com a nossa Constituição, comprar empresas nacionais de telecomunicações e radiodifusão (o Gilmar que descobriu isso primeiro e publicou). Por outro lado, a BBC é muito querida na Inglaterra. Funciona sob autorização de Carta Régia da Coroa Britânica e não pode ser vendida quando o mercado assim o decidir. Qualquer negociação envolvendo as duas gigantes e a negociação de propriedades seria manchete em qualquer publicação do planeta. Isso ficou óbvio desde o primeiro momento. A “notícia” nunca fez sentido em momento algum. Mas enganou muita gente. As farsas noticiosas da web, com todos os seus recursos, exploram a verossimilhança de notícias que poderiam existir em um universo de ficção, mas não são fatos que resistam a conferências e verificações.

A Globo, junto com a chinesa CCTV, são as únicas organizações da mídia de países emergentes entre os trinta maiores conglomerados de mídia do planeta, segundo o relatório da ZenithOptmedia. A hegemonia americana é incontestável, com nove entre os dez maiores proprietários de meios de comunicação do planeta. A rede de TV inglesa melhor colocada é a concorrente da BBC na Inglaterra, a ITV plc, que está dez posições abaixo do grupo Globo. A BBC não está no grupo e a falsa notícia durou pouco. Mais uma vez, o caça-farsas brasileiro acabou com a piada. Foi por outros caminhos, procurou a mídia internacional, usou lógica simples, fez uma boa pesquisa e explicou bem o absurdo da ideia. Que pareceu verossímil a muitos, no calor do momento.

O nosso verificador de mentiras na web também registrou uma farsa mais recente e mais audaciosa: “a carta-renúncia de Dilma Rousseff já está preparada e escrita” (7/8, o grifo é meu).

“A notícia apareceu no dia 7 de agosto de 2015 e se espalhou rapidamente nas redes sociais e em diversos sites e blogs. De acordo com o texto, Dilma Rousseff já teria preparado uma carta-renúncia com a ajuda de dois dos seus ministros mais próximos, Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardozo. De acordo com fontes do Palácio – segundo a manchete – com a renúncia da presidente, o vice-presidente Michel Temer assumiria imediatamente o comando do Executivo.”

O destruidor de mentiras na rede

O checa-fatos brasileiro descobriu que a notícia partiu de Claudio Humberto, ex-porta-voz de Fernando Collor de Mello e pessoa não muito amiga dos fatos como eles são. Por regra, costumo resumir o pensamento dos autores ou fontes e evitar longas citações, mas neste caso faço exceção; quero mostrar o trabalho do Gilmar, seu estilo de escrita e sua capacidade de apurar fatos em seu estilo pessoal. Ele conta tudo como aconteceu em seu site. O nosso verificador de fraudes na mídia foi implacável com o ex-companheiro de Fernando Collor de Mello:

“Cláudio Humberto, que não dá nenhuma prova de onde ele teria tirado essa informação (ele apenas afirma que “fontes do Palácio” teriam dito que havia uma carta-renúncia), foi assessor de imprensa de Fernando Collor de Mello e se tornou seu porta-voz quando ele assumiu a presidência. Conhecido por fazer oposição ao governo do PT, Humberto passou a publicar no seu Diário do Poder notícias com alguns… digamos… problemas de apuração jornalística.

Conforme lembrado pelo jornal Diário de Pernambuco, em 2015, por exemplo, Cláudio Humberto chegou a afirmar que Renata Campos, viúva do ex-candidato a presidente Eduardo Campos, seria vice de Lula nas eleições presidenciais em 2018 (notícia essa que foi desmentida pela ex-primeira-dama de Pernambuco).

Cláudio Humberto também foi um dos disseminadores do boato que afirmava que a presidente Dilma teria tentado suicídio! Na ocasião, desmentimos essa mentira em primeira mão aqui no E-farsas!

Em junho de 2013, o jornalista do Diário do Poder também ficou famoso na web após “noticiar” que Dilma Rousseff teria comprado uma casa de 5 milhões em frente ao Lago Guaíba, em Porto Alegre. O jornalista Políbio Braga foi investigar essa história na época e não encontrou nenhuma prova – nem com os antigos donos e tampouco no cartório de imóveis da cidade – da compra.”

Brilhante trabalho de apuração do Gilmar! O destruidor de mentiras na rede foi além da denúncia do embuste: explicou sua origem e desmascarou a falsa fonte. Mostrou o que ele (Claudio Humberto) publica hoje e depois voltou no tempo para mostrar mais invenções do jornalista em seu Diário do Poder. Gilmar fez um bom trabalho.

Uma ética informal nas redes sociais

Há gente que acredita que os verificadores da web tiram a graça das brincadeiras na rede, mas eu discordo. Desinformação é um lixo perigoso e deve ser denunciado e eliminado da web. Mas a grande questão aqui é o significado da ação destes agentes da verificação na web. São eles apenas uma extensão da cultura jornalística em direção a uma nova ética da informação na web? Podemos ver a coisa deste modo, mesmo quando a realidade mostra que nem todos os que conferem fatos na web são jornalistas.

O que são eles, então? Um avanço da cultura do jornalismo cidadão? É possível. Essas pessoas, por outro ângulo, são também, de certo modo, curadores de mídias em geral. Ninguém os nomeou para a tarefa, mas eles estão lá, na web, por insistência pessoal e dedicação quase profissional. Em sentido amplo, eles forçam a redistribuição de conteúdo corrigido. Sentem-se responsáveis pela integridade dos conteúdos na web e sua motivação tem base em uma narrativa moral que é sustentada pela capacidade do indivíduo em trabalhar a informação e fazê-la melhor em nome do benefício da comunidade da rede.

Quem melhor trabalhou a questão do verificador do Twitter foi a revista da Universidade de Colúmbia (CJR). Anna Clark, a autora do artigo, descreve o trabalho dele como o de um “educador da mídia social”. Paulo Ordoveza, com 19 mil seguidores, junto com o usuário @HistoryinPics, com 2.53 milhões atrás dele no Twitter, fazem parte de uma minoria que “quer adotar uma nova ética na mídia social”, onde os retweets e os comentários do tipo “tomara que seja verdade” não são mais o bastante, após a publicação.

A jornalista acredita que quem partilhar qualquer informação ou mídia na web vai ter que enfrentar gente que aposta na verificação da autenticidade de fotos e na verificação da informação difundida nas redes sociais. Em outras palavras, cada um vai ter que ser responsável por aquilo que posta na web. O que representa um grande avanço na consolidação de uma ética informal de comportamento e ação nas redes sociais. Todos nós seremos beneficiados por ela.]

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 11/08/2015 na edição 863, no Observatório da Imprensa.

Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor.