“O Brasil perdido, num mundo em transe”

Beuzzo
Fotomontagem CartaMaior

[No jogo econômico e geopolítico global de hoje, as principais cartas estão colocadas por um gigante do Oriente. “A escalada da China não tem como ser contida. A não ser que se tente fazer uma coisa de enorme violência“, diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo.

O que a China fez foi se encaixar de maneira adequada na globalização, proposta pela expansão americana financeira e produtiva”, diz. Prova disso é que os chineses estão comprando empresas em todo o mundo. Inclusive no Brasil, nos setores estratégicos de energia e petróleo.

Por outro lado, os Estados Unidos continuam a possuir uma carta fundamental no jogo da economia e finanças globais: o dólar. “É o ativo em que o mercado confia.” O resultado da complexa disputa pelo protagonismo mundial ou por posições estratégicas não está claro, considerando que o mundo passa por uma transição que parece apontar para o fim da hegemonia neoliberal, mas sem horizontes muito claros.

Acho que estamos num momento de passagem, não sabemos bem para onde. Eu diria que o arranjo internacional está moribundo, está sendo fundamentalmente sustentado pela exceção chinesa, que é uma parte do conjunto”, diz Belluzzo. “Acho que esse arranjo proposto lá atrás, nos anos 80, que o pessoal chama de neoliberalismo, está moribundo, mas não morre.

Enquanto isso, o Brasil é hoje apenas formalmente parte integrante do Brics – bloco em que está ao lado de Rússia, Índia, China e África do Sul –, pois na prática perdeu completamente o protagonismo e caminha por uma opção geopolítica equivocada, ao reaproximar-se da esfera norte-americana.

Estamos fazendo uma aproximação geopolítica errada. Os chineses estão entrando aqui e não estamos exigindo ou negociando nada com eles.” E, no Brics, o Brasil de Michel Temer “não faz nada”.

Principalmente porque, segundo Belluzzo, sob o governo de Michel Temer e seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o país está sem comando. “Eles não têm noção de nada, não têm noção do que estão falando”, diz o economista. “Conheço bem o presidente da República. Ele tem uma inteligência bem restrita”, garante Belluzzo.

Leia a entrevista:

Recentemente o FMI informou que a dívida global chegou a 225% do PIB mundial, com valor de U$ 164 trilhões. Como interpreta esse dado? 

Depois da crise de 2008-2009, os bancos centrais entraram firmemente para impedir que a crise se espalhasse de maneira incontrolável e bloqueasse os mercados interbancários, que ficaram paralisados. Sem a presença dos bancos e dos mercados financeiros numa economia como a de hoje, haveria um colapso de grandes proporções. Vamos olhar as dívidas públicas. A do Japão, por exemplo, é de mais de 200% do PIB, o que já vem dos anos 90 pelas operações que fizeram, para segurar a economia japonesa, depois da crise iniciada em 1989.

Em 2006, antes da crise, a dívida pública dos Estados Unidos estava em torno de 60% do PIB, e hoje está em torno de 110%. Por que subiu a dívida pública? O governo americano gastou mais em infraestrutura, obras públicas? Não. Foi porque o tesouro foi obrigado a socorrer os bancos, com títulos da dívida pública, o título considerado mais seguro, a cúspide do sistema financeiro internacional. É o ativo em que o mercado confia. Quando há insegurança maior, todo mundo corre para o título da dívida pública americana.

Então aumentou a dívida pública americana por causa dessa operação. Em seguida, por causa das taxas de juros muito baixas, os fundos e bancos de investimento começaram a se re-alavancar. Há uma tremenda expansão do crédito intra-financeiro e também para as empresas transnacionais.

O excesso de liquidez – muito dinheiro considerado confiável, o dólar americano – forçou o endividamento das empresas da periferia. No Brasil, por exemplo, as empresas privadas começaram a tomar muita dívida em dólar, sobretudo porque era barato, a taxa de juros baixa. Então há um endividamento elevado das empresas brasileiras em dólar. Isso foi percebido agora, porque o dólar começou a ficar caro e isso afeta o estoque de dívida das empresas.

Isso globalmente…

Globalmente: Turquia, Brasil, Índia, vários países que fizeram endividamentos altos. Quando se desvaloriza o dólar, o Federal Reserve (banco central americano) deu sinal de que poderia começar a diminuir a compra de ativos privados, o seu papel de market maker, como comprador e vendedor nos mercados secundários. Quando ele começou a dar o sinal, correu todo mundo pra sair das posições nos países que estavam com moeda valorizada. Esse é o fenômeno da extrema dependência que os países têm dos movimentos da política monetária americana. Ela dá um soluço lá, isso afeta todo mundo.

Essa discussão não é feita no Brasil, porque os economistas de bancos não querem saber dessa história. Eles querem dizer que o Brasil tem essa vulnerabilidade, a despeito das reservas altas (U$ 380 bilhões), porque a situação fiscal é ruim. A situação fiscal é ruim no mundo inteiro, porque todas as moedas se desvalorizaram em relação ao dólar. Todas. Menos algumas, como o yuan chinês, porque eles têm uma política de controle de câmbio.

Está existindo uma fuga de investidores de países emergentes?

Isso é um pouco mais complicado, porque você opera nos mercados futuros. Você muda a posição de estar vendido em dólar para ficar comprado. É uma mudança de posição dos seus estoques de riqueza. Por exemplo, quando o investidor percebe que vai haver uma desvalorização do real ele deixa de apostar no real e passa a apostar no dólar…

Mas está acontecendo isso?

Claro que está. Mas o Brasil tem uma proteção (as reservas). A questão central é que você não pode ter um preço tão fundamental, como o câmbio, sujeito a essas flutuações, a essas incertezas. Quem fez um projeto de aumento da produção em cima do aumento das importações, quando dá uma paulada dessa no dólar, ele fica a perigo, da mesma maneira que o exportador, quando faz um projeto de exportação com uma taxa de câmbio a R$ 3,70 e ela cai para R$ 3,20, por exemplo, os planos dele ficam ameaçados. Essa volatilidade do câmbio, uma característica da economia atual, sempre nos deu problema, e nos deu mais problemas quando estávamos mais desprotegidos.

Vamos lembrar do Fernando Henrique Cardoso, que ninguém lembra. Ele fez a estabilização com câmbio fixo, destruiu uma parte da indústria brasileira. Lembro do (José) Mindlin me falando que ia vender a Metal Leve, porque não aguentava mais. Hoje ninguém fala nada, eles (os empresários) levam na cabeça e devem achar bom, viraram rentistas também. Mas o Fernando Henrique fez essa aposta, valorizou o câmbio, destruiu uma parte da indústria brasileira importante, sobretudo as cadeias produtivas, danou o setor de bens de capital e carregou isso ao longo dos anos 90, meados de 94 até 98, quando houve uma sucessão de crises cambiais – México em 94, Ásia em 97, depois Rússia, Brasil e Argentina. Mas para os economistas da banca não aconteceu nada, era só para os países que estavam com suas situações domésticas ruins.

Viemos de uma dívida pública, que Collor deixou, de aproximadamente 30%, e chegou a cerca de 70% do PIB. A economia cresceu pouco, taxa média de 2,5%, e só fomos nos recuperar a partir de 2003…

Com Lula…

Com Lula. Na época, houve um choque brutal de commodities e de demanda na economia mundial. Isso beneficiou muito os países que tinham um setor de agronegócio muito forte, como Argentina e Brasil. A Argentina cresceu até mais que o Brasil, 8,5%, 9% nesse período. Lula pegou esse momento e fez as políticas corretas de inclusão, foi muito hábil nisso. Colocou 40 milhões de pessoas para dentro da economia, não é pouca coisa, é um prodígio. Mas isso tem a ver com ciclo de commodities, ainda que ele tenha mantido a tendência de valorização do câmbio. A indústria continuou a perder peso. A indústria brasileira tinha uma participação de 25% do PIB no início dos 80 e passou a ter 12% (dados recentes do IBGE).

Passamos a década de 80 inteira, a “década perdida”, tentando resolver o problema dos efeitos da dívida externa, efeitos fiscais – porque houve estatização de dívida pelo Tesouro –, incapacidade  de pagamento, várias cartas de intenção com o FMI. A economia tinha momentos de crescimento e queda sucessivos. Saímos da crise em 94, com o Plano Real. Por quê? Porque tínhamos 40 bilhões de reserva.  Aí começa o negócio de privatização. A economia mundial já estava se tornando o que ela é hoje, muito inclinada a tirar proveito da propriedade, que é o rentismo, em vez da produção. Vieram para cá e compraram as empresas brasileiras.

Mais ou menos como hoje?

Sem dúvida. Dizem: “vamos melhorar a eficiência das empresas”. Mentira. Pergunta se o setor elétrico melhorou a eficiência ou se aumentou as tarifas brutalmente. Não tem nada a ver com eficiência.

Na verdade, no caso da energia elétrica, é a produção de um insumo universal. Todo mundo usa. Na China e nos países asiáticos, os setores que produzem insumos universais são públicos para ajudar o setor privado, permitir custos baixos. Aqui não se faz a discussão das inter-relações entre privado e público. Isso é que é o capitalismo!

O Brasil ainda está no pré-capitalismo, então?

O Brasil já fez capitalismo em alguns momentos (risos). Tentou fazer com Getúlio, Juscelino, até com os militares, independentemente das tropelias que eles fizeram.

Como a economia de um país grande como o Brasil pode se sustentar com a indústria na situação atual?

Virou uma espécie de consenso entre os economistas do mercado ou próximos a ele que a indústria não é importante. Você pode produzir banana e produzir computadores que é a mesma coisa. Não é só uma regressão na estrutura produtiva, é uma regressão mental, achar que tudo é a mesma coisa.

Os chineses disseram em Davos que “quem acredita que vai fazer dinheiro se houver uma crise na China está equivocado”. Eles estão bastante seguros de sua posição, não?

Eles estão crescendo em torno de 6,5%, 7%. A taxa média de crescimento deles era 10% nos anos 90 e mesmo no começo dos 2000. Mas eles fizeram agora um Congresso do Partido Comunista. São muito prudentes, administram de acordo com as circunstâncias. Estão fazendo uma transição, saindo de uma economia que era muito dependente do saldo da balança de transações correntes. Quando você vende mais do que compra, essa diferença é importante. Quando esse saldo é positivo, você vende mais do que compra, injeta demanda na economia.

O resultado das exportações menos as importações teve um papel muito importante no crescimento deles. Eles tinham uma capacidade de estímulo ao investimento muito grande, com bancos públicos e taxas de juros muito baixas. Tinham taxas de juros muito baixas porque não tinham que prestar contas ao capital de curto prazo que queria especular. É como disse um chinês: “nós abrimos, mas botamos uma tela, para só entrar o que interessa, não entrar mosquito”.

Eles têm projetos importantíssimos tanto na área financeira quanto na produtiva, articulando as duas coisas. As finanças para eles são muito importantes, uma coisa importante do capitalismo, desde que controlada, para financiar o gasto produtivo. É o contrário dos emergentes, onde o sistema financeiro é perverso, só serve pra perturbar.

A chamada nova rota da seda está assustando os Estados Unidos, por exemplo…

Sim. Para ser claro: essa escalada da China não tem como ser contida. A não ser que se tente fazer uma coisa de enorme violência. O capitalismo é um sistema autotransformador. Se você tiver a embocadura certa no momento em que a transformação está ocorrendo, você vai se beneficiar. O que a China fez foi se encaixar de maneira adequada na globalização, proposta pela expansão americana financeira e produtiva. Eles se beneficiaram porque perceberam a articulação necessária.

Agora eles estão na segunda etapa. Na primeira, até meados de 2000, até a crise, eles tinham 4 trilhões de dólares de reservas, que acumularam com as exportações líquidas e com a entrada de capitais produtivos. Hoje eles têm 3 trilhões. Mas eles não jogaram reservas fora. Eles precisam também diminuir a pressão que tinham no seu mercado financeiro da entrada de dinheiro estrangeiro, que não era especulativo, e em segundo lugar estão mudando a composição da riqueza deles, do portfólio. Eles saíram dos títulos e estão comprando empresa em tudo quanto é lugar. Veja quantas empresas de energia eles estão operando hoje no Brasil.

E na área de petróleo…

Sim, mas não é só no Brasil. Compraram empresas na Europa, na África…

No futuro vamos ser todos chineses?

Se deixar, vamos.

E a questão do Brasil nos Brics hoje?

Estamos no Brics, mas o Brasil não faz nada. Conheço bem o presidente da República. Ele é um provinciano, para não dizer outra coisa. O mínimo que ele pode dizer é o seguinte: que nós regredimos 20 anos em dois (risos). Ele tem uma inteligência bem restrita. Frequentava meu grupo político no tempo da faculdade. Não era capaz de dizer uma coisa interessante, e continua do mesmo jeito. Nunca teve protagonismo. Virou presidente da República. São os fenômenos brasileiros.

Temos presença nos Brics, mas não temos projeto, não apresentamos nada. O Banco Central fez o favor de tirar o nosso vice-presidente lá, o Paulo Nogueira Batista, que tem capacidade de entender essas coisas, porque eles acham que têm que fazer uma aproximação com os Estados Unidos, que não é uma economia desprezível nem decadente, mas não promete dinamismo para nós. O Trump nunca se referiu ao Brasil.

Estamos fazendo uma aproximação geopolítica errada. Os chineses estão entrando aqui e não estamos exigindo ou negociando nada com eles.

Como comparar os países ibéricos Espanha e Portugal, que está fazendo políticas mais sociais do que a Espanha e está dando certo?

Portugal fez uma trajetória de um compromisso de centro-direita e centro-esquerda que está levando ao abandono das políticas de austeridade, que melhorou muito a situação nos últimos anos. Já a Espanha sofreu uma crise imobiliária muito grave em 2007 e 2008. Continua com uma taxa de desemprego altíssima. Está mais ou menos estagnada. Portugal é um país peculiar, porque é muito pequeno, tem dez milhões de habitantes. A Espanha tinha um superávit fiscal de 2,5% nominal e uma dívida pública de 25% do PIB. É nada. Em compensação, uma tremenda dívida privada que vinha pelo lado imobiliário.

Quem financiava a Espanha eram os bancos alemães e franceses. Para ver como são essas conexões. Então, a Espanha tinha superávit fiscal, um endividamento privado brutal, maior que o dos EUA, se medir per capita, e um déficit em conta corrente de 8% do PIB. Ou seja, virou uma importadora líquida. Quando deu a crise global, levou uma paulada, o déficit público subiu às alturas, os endividados espanhóis quebraram.

Como vê a situação argentina? O Brasil pode ir pelo mesmo caminho?

O Brasil está mais defendido, com o colchão (das reservas), que não impede que você tenha flutuações indesejáveis no câmbio. A volatilidade do câmbio é tão danosa quanto o câmbio valorizado, que deixamos durante anos, inclusive no período de bonança que tivemos entre 2002 a 2010. O Brasil reagiu muito bem à crise de 2009, conseguiu se colocar numa posição melhor que muitos outros países. Mas a Argentina tem uma recorrência de crises cambiais. Eu citaria várias. A crise da divida externa dos anos 70, por exemplo, quando o país viveu de maneira imprudente porque não sofreu tanto como o Brasil com o choque do petróleo, já que a Argentina era produtora de petróleo. Mas o Martínez de Hoz, um economista bem convencional, resolveu endividar a Argentina.

Tensões geopolíticas, como no Oriente Médio, por exemplo, poderiam desencadear uma crise econômica global grave?

Acho que estamos num momento de passagem, não sabemos bem para onde. Eu diria que o arranjo internacional está moribundo, está sendo fundamentalmente sustentado pela exceção chinesa, que é uma parte do conjunto. Então, acho que esse arranjo proposto lá atrás, nos anos 80, que o pessoal chama de neoliberalismo, está moribundo, mas não morre. Do ponto de vista geopolítico e geoeconômico, que são inseparáveis, as transformações da economia global foram muito importantes e tiveram implicações geopolíticas. E o que aparece agora como geopolítico é o protagonismo da China, mas isso nasce de um arranjo geoeconômico.

Não há como não aparecer essa dimensão política. Não existe a economia tal como os economistas a concebem hoje, como um conjunto de abstrações; a economia está colada ao social e ao político. Essa coisa do Oriente Médio está inscrita dentro disso. Na verdade os Estados Unidos produziram o Estado Islâmico, ao dizimar o Iraque, dizimar a Síria. Isso é uma coisa de hospício, uma coisa absurda, você destruir as estruturas sem saber qual a sua história, sua natureza.

Quando se vê Michel Temer e Meirelles falarem da economia, não dá impressão de que eles estão fora da realidade?

Mas isso é típico do Temer e do Meirelles. Eles não têm noção de nada, não têm noção do que estão falando. Isso acontece na história da humanidade. Você está na mão de dois sujeitos que estão no planeta Netuno, não têm nada a ver com a realidade do seu país.

Mas não existem forças por trás deles?

Claro, é evidente que existem. Falo disso num livro que escrevi com o Gabriel Galípolo, que chama Manda quem Pode, Obedece quem tem Prejuízo. É a estrutura de poder concentrada exatamente nos mercados financeiros. Temer e Meirelles são a expressão física disso, que eles refletem sem saber. Veja o que a imprensa diz o tempo inteiro dos atuais candidatos à presidência. “Fulano de tal será bem recebido pelos mercados?” Onde está o poder real?

As pessoas não percebem, mas são vitimadas por um sistema que concentra o poder e entrega a esses cidadãos que estou mencionando, que são provincianos, têm uma visão tola de como as coisas funcionam. Se tivessem uma visão mais clara, mais profunda, eles não proporiam essas coisas que propõem. Outro dia o Meirelles disse que a economia voltou a se expandir. Em que mundo ele está? Não sei.]

Por Eduardo Maretti, da RBA – Em Outras Mídias

“Entrevista especial com Paul Singer”

[Para a revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda. Conduzida por Luiz Bernardo Pericás e Paulo Barsotti, a entrevista foi realizada em São Paulo, no dia 5 de março de 2016, e contou com a transcrição e o apoio técnico de Silvia Letícia Marques. Abaixo, o texto integral; o leitor também tem a opção de baixar a entrevista completa diagramada em PDF clicando aqui.]

Leia na integra no Blog da Boimtempo.

Paul

Com ou sem o lulismo o Brasil continua e continuará pobre

Pobreza
Navegações nas fronteiras do Pensamento

Temos várias maneiras de checar o índice de pobreza de um país como o Brasil, por exemplo.

Índice que dizem ter aumentado ou crescido (como se queira) em alguns milhões de pessoas após o final melancólico do período lulo-petista.

Eu não acredito muito nessa história, nesse discurso do petismo salvacionista, não porque não ache que o não houve crescimento no período, mais sim porque com o lulo-petismo ou sem o lulo-petismo continuamos o que sempre fomos, qual seja, não conseguimos sair de nosso misere que me parece eterno.

O que houve durante o lulo-petismo, além de muita roubalheira (às vezes justificável), foi uma espécie de encantamento de serpentes, com empregos precários e vagabundos (daqueles que você mal ganha um salário mínimo) e uma farta distribuição de benesses financeiras, via facilitação do crédito– carro, casa, roupa, relógio, telefones celulares etc. e tal –, o que, na prática, apenas beneficiou as indústria, os serviços e o comércio (que, diga-se, continuaram pagando salários precários, miseráveis a seus funcionários), enquanto nós, os pobres consumidores, tivemos e teremos de pagar a salgada e custosa conta.

Vamos todos parar, mais cedo ou mais tarde, no SPC.

Acabaremos por ter de entregar nossos carros e nossas casas (ambos já detonados pelo uso por nós mesmo).

Mas como lembrei acima, há várias maneiras de checar nosso índice de pobreza.

Podemos nos socorrer dos sofisticados (mas não isentos de manipulações) estudos acadêmicos.

Ou dos claramente manipulados e manipuláveis números e índices oficiais do governo, via IBGE, IPEA, Banco Central etc. e tal.

Se quisermos algo mais objetivo e preciso, no entanto, devemos observar o comportamento assustado e indignado das donas de casa nas feiras livres e nos supermercados.

Eu prefiro, porém, uma metodologia própria.

Observo aquelas pessoas, independente de suas idades, que vão a bares e padarias atrás de “comer um salgado”.

Salgado é aquele troço no qual quituteiros e padeiros acrescentam um bocado de sal: pasteis, coxinhas, rissoles, pedaços de pizza etc. e tal.

Repare que muita gente antes pergunta “quanto custa” para depois avaliar se tem capital (pois se trata mesmo de se fazer investimento para aplacar a fome) para comprar a guloseima.

Quase sempre essa gente não tem ou, quando muito, possui recurso para “apenas um salgado”.

E repare também que as pessoas nem pensam em tomar um café ou um refri, porque aí já seria demais para as suas parcas finanças.

Quando muito, e se o balconista ou atendente for simpático e condescendente, se arranja um copo de água torneiral.

Agora, fale sério: em sã consciência você acha mesmo que a situação financeira do brasileiro “melhorou” no período lulo-petista para depois despencar no interinato de Temer, ou o que se viu então, como cantou Paulinho da Viola, “foi um rio que passou em minha vida”?

E parece que levou tudo embora tal qual uma tsunami.

Leia também

O precariado e a luta de classes – Openedition

O que é o precariado? – Blog da Boitempo

‘Precariado’ tende a se alastrar no Brasil como nunca antes, diz sociólogo – Folha de São Paulo

“Surpresa: vêm aí os novos economistas rebeldes”

Cepal
Pedro Rossi e Esther Dweck, dois dos “jovens cepalinos” mais destacados (Outras Palavras)

[Em fevereiro de 1948, há pouco mais de setenta anos, a Organização das Nações Unidas adotou uma importante resolução, estabelecendo a criação da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). A conjuntura geopolítica do período posterior á Segunda Guerra Mundial envolvia a adoção de um conjunto de políticas voltadas à reconstrução dos países destruídos pelo conflito bélico, com medidas inspiradas em estratégias que poderiam ser qualificadas genericamente como keynesianas e desenvolvimentistas.

A constituição e o fortalecimento da Cepal ocorrem exatamente nesse movimento que incorporava algumas ideias-força importantes, tais como o planejamento econômico-social, os modelos de desenvolvimento e a afirmação do protagonismo do Estado para promover a redução de desigualdades. As duas primeiras décadas da existência da Comissão combinaram-se ao fortalecimento de teses de industrialização e de superação dos obstáculos estruturais ao desenvolvimento autônomo dos países da região.

Intelectuais de grande destaque e competência, como o brasileiro Celso Furtado e o argentino Raúl Prebisch, tiveram atuação relevante no interior da Cepal e deixaram um grande legado para a própria vida da instituição e para o pensamento crítico nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Iniciando uma trajetória que acabou por ser a marca da própria Comissão, ambos combinaram uma imensa vitalidade de produção acadêmica e uma atuação estratégica em termos de formulação e implementação de políticas públicas em seus respectivos países e no continente de forma geral.

Cepal e o sonho desenvolvimentista.

É importante registrar a impressionante capacidade de resistência da instituição sediada em Santiago do Chile ao longo de todo esse período, desde sua fundação. Apesar dos momentos de ambiente bastante hostil às ideias originais que foram a base de seu surgimento, a Cepal não desistiu de sua missão e nem capitulou às pressões para se adaptar às orientações do centro do poder. Superou a fase das ditaduras militares que foram instaladas em vários de seus países membros ente os anos 1960 e 1980. Sobreviveu ao período de maior força das ideias hegemônicas e esmagadoras do neoliberalismo e do Consenso de Washington. E segue ainda hoje firme na defesa de políticas para superar as desigualdades, o subdesenvolvimento e os entraves estruturais ainda existentes na América Latina e no Caribe.

Os eventos patrocinados pela Comissão e os documentos elaborados e divulgados por seus responsáveis e dirigentes marcaram uma espécie de trilha de insubmissão relativa às recomendações de políticas governamentais orientadas pelo viés da ortodoxia. Nos tempos em que conceitos como “planejamento” e “desenvolvimento” haviam sido substituídos por outros como “mercado” e “Estado mínimo”, a Cepal tornou-se o repositório das esperanças de retomada da agenda presente em seu próprio DNA.

A incapacidade do receituário liberal conservador em dar conta da crise por que passa a região e o Brasil em particular é flagrante. A ruptura da ordem institucional e a trama do golpeachment sobre Dilma Rousseff é uma das faces mais trágicas dessa tentativa desesperada de recuperar o poder político de forma ilegítima e autoritária, com o único intuito de colocar em marcha uma agenda de governo que vinha sendo sistematicamente derrotada nas urnas desde 2002. O fracasso do austericídio só veio confirmar os equívocos de diagnóstico e de proposições do campo liderado pelo financismo.

Nova geração de jovens cepalinos

Mas a sociedade brasileira é impressionante por seus mecanismos internos de geração de energia positiva e transformadora. Assim, ganham espaço no interior das novas gerações de intelectuais e formuladores algumas das sementes que estavam na base do pensamento crítico da Comissão. Refiro-me aqui à recuperação de debates importantes, tais como: i) a desindustrialização de nossa estrutura produtiva; ii) a destruição patrocinada pela dominância financista; iii) os riscos de retorno acentuado ao cenário das desigualdades; iv) o fim das ilusões com a inserção internacional irresponsável, tal como proposta pelo liberalismo; v) preocupação com a heterogeneidade estrutural que ainda marca nossa sociedade e nossa economia; vi) convergência para uma pauta que recupera a necessidade do protagonismo do Estado como indutor de políticas públicas; entre tantos outros assuntos.

O escritório da Cepal em Brasília identificou acertadamente esse movimento de recuperação da análise crítica e decidiu conferir a ele papel de destaque. Afinal, trata-se de uma nova geração de jovens cepalinos, que assumem a missão de dar continuidade aos trabalhos e aos sonhos daqueles que dedicaram suas vidas à redução das desigualdades e à melhoria das condições da vida da população latino-americana. Assim, temas que passaram a ser considerados verdadeiros tabus para a elite – como a chamada relação “centro-periferia”, por exemplo – voltam ao centro da discussão.

O evento “Aportes de uma nova geração para a mudança estrutural com igualdade”, realizado no início de abril, foi um importante marco para a coordenação a discussão ampliada de tais ideais. Além disso, o encontro ofereceu aos participantes a reafirmação de que ainda existe vida inteligente no universo de economistas e demais pensadores críticos nas ciências sociais. Diversos professores e pesquisadores de várias universidades e instituições públicas exibiram toda sua competência no debate e na proposição de aspectos essenciais de um projeto estratégico de país. A abordagem crítica ali presente com certeza encheria de orgulho as principais figuras fundadoras do pensamento estruturalista.

Olhar para o futuro com as ferramentas do desenvolvimentismo.

A intenção primeira do seminário era “reunir jovens professores e pesquisadores que compartilham de diagnósticos minimamente convergentes, nos quais a crise brasileira se explica por razões estruturais, e se enfocará em debater alternativas para o futuro, em que a superação da crise envolva enfrentar problemas de longo prazo, ao mesmo tempo em que contém no centro da agenda a temática do desenvolvimento com igualdade.” Ao final do segundo dia, o clima de balanço entre os participantes era de muita esperança quanto ao cumprimento de tal missão.

A publicação próxima de um livro contendo um conjunto de artigos desses jovens autores servirá como alicerce importante para a estruturação deste pensar crítico renovado de temas como o desenvolvimento e a superação das desigualdades. Trata-se de uma contribuição essencial da nova geração de pensadores brasileiros para consolidar a comemoração merecida e necessária das sete décadas do sonho de Prebisch, Furtado e tantos outros.

Uma verdadeira lufada de oxigênio para renovar e revitalizar o pensamento desenvolvimentista no Brasil e na América Latina. A mudança estrutural de nossas sociedades continua como item prioritário na ordem do dia. A iniciativa da Cepal vem oferecer os instrumentos para compreender e interpretar a realidade que pretendemos transformar.]

Por  Paulo Kliass , para Outras Palavras

Ajuda mas não muito

FHC
CGM

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou, em entrevista à Rádio Eldorado, que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está certo quando disse, durante o Fórum Estadão, na terça, 27, que “quem for o candidato de mercado vai perder a eleição” de outubro. “Ele (FHC) está certo. Quem é candidato só do mercado tem apoio (em número de votos) proporcionalmente pequeno. Mas, a questão é que a importância do mercado não é o número de votos. Quem ganha eleição tem apoio de todas as classes sociais e de todo o Brasil”, afirmou Meirelles. (O Estado de São Paulo)

Colapso do Capitalismo (?)

“Tenho três objeções a essa tese. A primeira é observacional: as evidências empíricas disponíveis não indicam que esse fenômeno tenha de fato ocorrido até o presente momento, mesmo se permanece como possível. Ao contrário, a globalização parece ter elevado fortemente a força de trabalho submetida à relação de capital nas últimas décadas. A segunda é teórica: a elevação da produtividade do trabalho que reduz o valor contido em um dado volume de produção sempre pode ser compensada, em princípio, por uma expansão do volume produzido. A terceira é que mesmo em condições de decadência, o capitalismo pode continuar se ele não é obstado pela luta social.”

(Eleutério F. S. Prado  professor de Economia, aposentado -USP)

Dos limites do capitalismo

“No livro III de O Capital, Marx afirma que ‘a produção capitalista tende constantemente a exceder os limites que lhe são imanentes, mas só o consegue fazer utilizando meios, que, mais uma vez, e agora em escala maior, recolocam depois perante si essas mesmas barreiras’. A questão posta é a de saber se a produção capitalista está agora se confrontando com barreiras que ela não pode mais ultrapassar, nem mesmo temporariamente. Estaríamos em presença de duas formas de limites intransponíveis, com implicações muito fortes para a reprodução do capital e a gestão da ordem burguesa, sobretudo para a vida civilizada. Uma delas, decorrente dos efeitos da automação, remonta ao século XIX e tem um caráter imanente, interno ao movimento do capital, sobre o qual Marx insistiu fortemente. A outra, decorrente da destruição pela produção capitalista dos equilíbrios ecossistêmicos, particularmente da biosfera, não foi prevista por Marx e foi inicialmente definida como um limite externo”.

(François Chesnais, professor francês de economia internacional na Universidade de Paris XIII)

A corda no pescoço dos pobres e desvalidos

“A corda no pescoço”

Eslpais
ElPaís

[Trecho do estudo de mais de 100 especialistas pelo mundo, cujo relatório afirma os graves riscos da concentração de riqueza recorde que o mundo está vivenciando (os destaques são meus):

“o primeiro estudo sobre a evolução da desigualdade no mundo desde 1980, realizado por uma centena de economistas, entre eles Thomas Piketty, autor de um dos maiores best sellers da história da literatura econômica, O Capital no Século XXI, de 2013. Este estudo − que reúne dados de 70 países de todos os continentes, incluindo o Brasil − ratifica para o mundo todo o funcionamento do paradigma da desigualdade observado no polêmico livro. a parcela de 1% das pessoas mais ricas do mundo capturou nestas quase quatro décadas um terço da renda mundial, enquanto os 50% mais pobres ficaram com apenas 12%. As classes médias mundiais, ao contrário do que se proclamava, foram as que tiveram sua renda mais estagnada e as que menos ganharam com a globalização.

O estudo não estabelece uma pauta universal nem uma regra de comportamento homogêneo. As diferentes velocidades de crescimento das desigualdades no mundo ressaltam o papel das políticas nacionais e das instituições de governo. Mas em todos os casos é corroborada a tese de Piketty sobre a regra capitalista que, se não houver políticas públicas que corrijam a tendência, conduz inevitavelmente ao acúmulo crescente e irrefreável da riqueza nas mãos de uma elite cada vez menor.

o relatório sobre a desigualdade global 2018, além de oferecer um retrato do aumento da desigualdade mundial, permite observações comparativas entre países e continentes, e levanta uma espécie de mapa geopolítico dos desequilíbrios de riqueza e renda. as cifras, reunidas por essa centena de economistas, ajudam a compreender a evolução política do mundo desde o fim da guerra fria e até a estabelecer algumas correlações com a crise da democracia representativa, o surgimento dos populismos e as dificuldades de governança mundial. rasgam, de certa forma, o véu de uma visão ingênua da globalização e permitem pensar em um inquietante horizonte de instabilidade mundial caso continuem crescendo desenfreadamente as desigualdades entre países e dentro deles.

um mundo mais desigual é um mundo mais instável. o mapa das desigualdades apresenta correspondências também com o mapa da violência, seja na forma de guerras civis, seja na forma de al violência política ou urbana. assim como assinalou Martin Wolf, o aumento da desigualdade que estamos vivenciando em nível mundial “é um péssimo presságio, não só para a paz social, mas até mesmo para a sobrevivência das democracias estáveis baseadas no sufrágio universal que emergiram nos séculos 19 e 20 nos países atualmente de major renda” (financial times, 19 de dezembro).]

Postado em A procura por Assis Ribeiro  

“1% mais rico dos EUA, os grandes vencedores da reforma fiscal de Trump”

[A reforma fiscal de Donald Trump reforça uma das sociedades mais desiguais entre os países mais ricos do planeta, na qual 1% dos mais ricos acumulam 20% da renda, enquanto metade da população tem de se conformar com 12,5%. Embora a reforma tenha sido apresentada como uma redução de impostos que favorecerá a classe média, o único certo da legislação aprovada em dezembro pelo Congresso dos EUA é que encherá os bolsos das empresas, principalmente imobiliárias, e das pessoas com maior renda, e prejudicará, por outro lado, a reforma da saúde promovida pelo ex-presidente Barack Obama, a educação pública e até mesmo os programas de investimentos em infraestrutura, que serão limitados por um aumento de 1,3 trilhão de dólares (4,2 trilhões de reais) no déficit orçamentário nos próximos 10 anos.

A política fiscal de Trump se enquadra no paradigma da desigualdade crescente que se verifica há pouco mais de três décadas no mundo mais desenvolvido. Acabou uma excepcional época de equilíbrio de riqueza e renda, produto do Estado de bem-estar europeu, da generalização da educação, da alta tributação e dos pesados investimentos públicos. A propaganda da Casa Branca fala do maior corte de impostos desde Ronald Reagan, precisamente o presidente que inaugurou a atual época de crescente acúmulo de riqueza nas mãos de poucos, reforçada agora pelos efeitos da reforma de Trump, também por seu efeito negativo nas políticas que mais contribuem para reduzir a desigualdade. O debate legislativo em Washington sobre a reforma fiscal coincidiu com a publicação do primeiro estudo sobre a evolução da desigualdade no mundo desde 1980, realizado por uma centena de economistas, entre eles Thomas Piketty, autor de um dos maiores best sellersda história da literatura econômica, O Capital no Século XXI, de 2013. Este estudo − que reúne dados de 70 países de todos os continentes, incluindo o Brasil − ratifica para o mundo todo o funcionamento do paradigma da desigualdade observado no polêmico livro. A parcela de 1% das pessoas mais ricas do mundo capturou nestas quase quatro décadas um terço da renda mundial, enquanto os 50% mais pobres ficaram com apenas 12%. As classes médias mundiais, ao contrário do que se proclamava, foram as que tiveram sua renda mais estagnada e as que menos ganharam com a globalização.

O estudo não estabelece uma pauta universal nem uma regra de comportamento homogêneo. As diferentes velocidades de crescimento das desigualdades no mundo ressaltam o papel das políticas nacionais e das instituições de governo. Mas em todos os casos é corroborada a tese de Piketty sobre a regra capitalista que, se não houver políticas públicas que corrijam a tendência, conduz inevitavelmente ao acúmulo crescente e irrefreável da riqueza nas mãos de uma elite cada vez menor.

O Relatório sobre a Desigualdade Global 2018, além de oferecer um retrato do aumento da desigualdade mundial, permite observações comparativas entre países e continentes, e levanta uma espécie de mapa geopolítico dos desequilíbrios de riqueza e renda. As cifras, reunidas por essa centena de economistas, ajudam a compreender a evolução política do mundo desde o fim da Guerra Fria e até a estabelecer algumas correlações com a crise da democracia representativa, o surgimento dos populismos e as dificuldades de governança mundial. Rasgam, de certa forma, o véu de uma visão ingênua da globalização e permitem pensar em um inquietante horizonte de instabilidade mundial caso continuem crescendo desenfreadamente as desigualdades entre países e dentro deles.

Um mundo mais desigual é um mundo mais instável. O mapa das desigualdades apresenta correspondências também com o mapa da violência, seja na forma de guerras civis, seja na forma de violência política ou urbana. Assim como assinalou Martin Wolf, o aumento da desigualdade que estamos vivenciando em nível mundial “é um péssimo presságio, não só para a paz social, mas até mesmo para a sobrevivência das democracias estáveis baseadas no sufrágio universal que emergiram nos séculos XIX e XX nos países atualmente de major renda” (Financial Times, 19 de dezembro).

O cúmulo da desigualdade está no Oriente Médio, onde o desnível de riqueza é duplamente sangrento: entre os países produtores de petróleo do Golfo e o resto, e dentro deles, entre os cidadãos dos países do Golfo e os trabalhadores sem cidadania que fazem funcionar seus serviços e seu sistema produtivo. Só no Brasil e na África do Sul se encontram níveis de desigualdade comparáveis. Não é de estranhar que o Oriente Médio seja atualmente a região do mundo com mais zonas de guerra e maior fluxo de refugiados.

O mapa das desigualdades aponta os Estados Unidos e Ásia como as regiões de maior crescimento nestas quatro décadas, embora a Ásia, principalmente a China, também seja a região em que mais pessoas saíram da pobreza e as classes médias mais se beneficiaram com a globalização. Onde a desigualdade cresceu com mais moderação foi na Europa, que continua sendo o continente mais igualitário, no qual se mantém a essência do Estado de bem-estar construído no pós-guerra. Este é o território onde 10% dos mais ricos acumulam menos riqueza, 37%, em comparação com o Oriente Médio, onde eles ficam com quase o dobro, 61%. Em seguida vêm a Índia e o Brasil, com 55%, África subsaariana, com 54%, EUA e Canadá, com 47%, Rússia, com 46%, e China, curiosamente a mais próxima da Europa, com 42%.

Não há Governo sem estatísticas nem há Governo democrático sem debate público com base nas estatísticas. E isso é particularmente certo quando as estatísticas são sobre a distribuição da riqueza e, portanto, afetam as políticas de redistribuição, ou seja, os sistemas fiscais, a educação e os investimentos públicos em infraestrutura. Os trabalhos de Thomas Piketty nos anunciam um futuro muito próximo no qual o processamento e a análise dos dados estatísticos globais, graças ao big data, abrirão caminhos para o conhecimento que hoje nem sequer suspeitamos, principalmente com relação à distribuição de renda e patrimônio.

São cifras para o conhecimento, mas também há cifras para a propaganda. O primeiro resultado que a reforma fiscal de Trump quer alcançar é precisamente que as cifras demonstrem os supostos benefícios para a classe média pregados pela propaganda republicana. O presidente sabe que as boas cifras − que não necessariamente serão boas para seus interesses − não chegarão até 2019 e já não poderão influir na campanha para as eleições de meio de mandato de novembro de 2018. Ele terá de se limitar, portanto, à propaganda. Logo chegarão os pesquisadores que poderão demonstrar facilmente como Trump reforça com suas políticas – assim como fez Reagan há 40 anos − a tendência de acúmulo de riqueza em poucas mãos inerente às economias de mercado.]

Texto original em https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/22/internacional/1513965275_403017.html