É ingenuidade pensar que nesta semana tem outra coisa senão o julgamento do Lula

Lulalah
De esquerda? Quem? Eu?

Mas tenho algumas sugestões-alternativas. A morte da bezerra, por exemplo. Ou o flamejante início dos campeonatos estaduais em todo o Brasil – por que não? Ou, quem sabe, o sexo dos anjos ou a virgindade de Maria – não pode ser não?

Obviamente que ao contrário daquilo que dizem petistas e lulistas (existem diferenças entre eles sim) e simpáticos outros esquerdistas o mundo todo não está de olho no julgamento do dia 24, nem para cá virão miríades de chefes de estado, de sindicalistas importantes (sic) e de intelectuais e artistas badalados.

Isso tudo não passa de um enorme exagero, e como todo exagero há aí um bocado de alucinação.

Mas é correto dizer, porém, que para nós é o acontecimento mais importante das últimas décadas, se ombreando ao suicídio de Vargas e ao golpe militar de 1º de abril de 1964.

Estou exagerando?

Estou não!

Como costumo dizer por aqui e alhures, gostemos ou não de Lula e do PT ambos são as “coisas” mais importantes que aconteceram no país desde há muito e muito anos, quer dizer, há décadas.

É pouco provável que Lula seja o “maior estadista” que o Brasil já teve, ou que pelo menos Lula seja apenas um estadista, como defendem, irrefletidamente, lulistas e petistas.

Mas vá lá! Um exagerozinho aqui e acolá não fara mal a ninguém, até porque ninguém leva esse tipo de exagero a sério mesmo, nem os próprios exagerados.

Com o julgamento, em segunda instancia, lá em Porto Alegre (acho que POA é um bocado mais importante que o tribunal onde Lula será julgado, então a identificação fica com a capital gaúcha mesmo), mas voltando, com o julgamento de Lula lá em Porto Alegre estão em jogo varias coisas, algumas delas a morte precipitada de Lula e o fim do PT.

Nada disso vai acontecer: nem Lula vai morrer, ao contrário, vai permanecer na ativa, e nem o PT vai acabar.

Em tese Fernando Haddad, que coordenará a campanha de Lula à presidência, em 2018, tem um pouco de razão – apenas um pouco: as esquerdas deverão se repensar a partir de agora.

Na verdade já deveriam ter começado esse repensar há um bocado de tempo.

Estão demorando muito!

Outra coisa que se coloca a partir do julgamento é que sem Lula (trata-se de uma possibilidade, enfim) o PT perde força (o que é razoável pensar), abrindo espaço para uma eventual candidatura de direita (dita reacionária).

Não vai acontecer nada disso!

O máximo que pode ocorrer é um fortalecimento do tucanato, com (quem sabe, se sobreviver, o que não é muito provável) Geraldo Alckmin.

E para acabar, segundo ainda petistas e as esquerdas em geral, a justiça brasileira sairá arranhada do episódio.

Mais ou menos!

A justiça (com o inestimável apoio da Polícia Federal) realmente promoveu algumas conduções coercitivas desnecessárias, arbitrárias e espetaculosas, e, além disso, teve (a justiça, em primeira instância) reformadas várias de suas sentenças, e até alguma delas anuladas ou invertidas.

Mas falar que a justiça (eu detesto a justiça) brasileira terá uma espécie de crise de identidade após o julgamento do Lula é pura alucinação.

Enfim, como no caso do Lula e do PT, goste-se ou não do julgamento não se tem outra coisa para se discutir por aqui.

Então vá relaxando e se aquietando por aí que o mundo não terminará esta semana.

Leia também:

‘Com ou sem Lula, a esquerda terá de se repensar’, diz Haddad – O Estado de São Paulo

O plano do Agora para chegar ao poder: “Queremos influenciar os partidos, mas ficar livres” – El País

Como se perdeu a fórmula do starlite, material que supostamente resistiria até à bomba nuclear – BBC Brasil

Da Roma Antiga ao século 20, violência foi fator-chave para reduzir desigualdade, diz historiador –  BBC Brasil

Desconhecida desconstrói argumentos de ator global sobre Lula

oSMAR PRADOUma moça que discutiu com ator Osmar Prado, ontem no Rio de Janeiro, acabou por lhe dar uma lição de lógica, que parece ter sido esquecida pelo petista.

O ator disse que ela tinha de provar que Lula era o dono do Tríplex do Guarujá, no litoral de São Paulo.

Ela disse que não!

Que a justiça já havia condenado o ex-presidente e que agora o processo estava correndo em segunda instância. E, por consequência, ela não tinha de provar nada, até porque não é parte envolvida e/ou interessada no assunto.

Raciocínio perfeito, independente daquilo que as pessoas argumentem contra ou a favor de Lula da Silva.

30 anos depois ocorre novo julgamento sobre o assassinato do indigenista Vicente Canãs

Indios
Vicente Canãs, junto com pe. Thomaz Lisboa, fez os primeiros contatos com os Enawenê-nawê e os Mÿky. Era a presença dele junto aos povos, respeitando sua cultura e participando nas suas vidas o que era importante e não o que ele realizou (Foto cedida Aloir Pacini para o IHU On-Line)

“Vicente Cañas, jesuíta, trinta anos depois do assassinato, acontece um novo julgamento. Entrevista especial com Aloir Pacini”

[No dia de hoje, 29-11-17, depois de 30 anos do assassinato do Irmão Vicente Cañas, acontece em Cuiabá, no Mato Grosso, o segundo julgamento do assassinato do jesuíta espanhol que se dedicou à causa indígena no Brasil durante os anos 60, 70 e 80, antes de ser assassinado, aos 48 anos de idade, no barraco em que vivia, nas proximidades do território indígena dos Enawenê-nawê, em Mato Grosso. “O Irmão Vicente iniciou esta inculturação quando auxiliou a socorrer os Ivetin (Tapayuna); depois foi morar com os Pareci, na aldeia Rio Verde ainda próximo de Utiariti -MT. Com a intermediação dos jesuítas se conseguiram as primeiras identificações de terras para os Pareci e Rikbaktsa, em 1968. Em seguida, os amigos Thomaz (Lisbôa) e Vicente fizeram os primeiros contatos com os Mÿky (1971) e com os Enawenê-nawê (1974), com quem passaram a conviver, segundo os princípios do Vaticano II e as orientações da Companhia de Jesus e do Cimi”.]

Leia entrevista na integra de Aloir Pacini, a respeito no IHU On-Line.

[Aloir Pacini é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais  (UFMG) e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia  (Faje). Padre jesuíta, é mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro  (UFRJ) e doutor na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente é professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).]