“A morte da privacidade”

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Ilustração: Epoch Times[
[Encontrei um artigo intitulado “A morte da privacidade“, escrito por Alex Preston e publicado no The Guardian (online), há quase quatro anos. Mantendo a sua actualidade e profundidade de análise, merece ser lido.

O resumo é este:

O Google sabe o que você procura, o Facebook sabe o que você gosta. A partilha é a norma e o sigilo não é tido em conta. Quais são as consequências psicológicas e culturais do fim da privacidade?

Eis algumas ideias fortes:

Chegámos ao fim da privacidade, as nossas vidas privadas, ao contrário das dos nossos avós, passaram para o domínio da vergonha e do segredo. 

Através de muitas pequenas concessões que fomos fazendo progressivamente, destruímos direitos e privilégios pelos quais gerações anteriores lutaram, minando, assim, as bases da nossa personalidade. 

Chegámos a um ponto em que a maioria de nós aceita que as interacções sociais, financeiras e, até, sexuais ocorram pela internet e que alguém, em algum lugar, assista. Na verdade, tudo o que fazemos aí é impulsionado por fórmulas matemáticas complexas, que são invisíveis e misteriosas. 

Quando tomamos alguma consciência disto, sentimos uma nova forma de inquietação: estamos a ser investigados, processados e manipulados por via de uma inteligência artificial que tem por trás a inteligência humana.

Um exemplo é o projecto DRIP (Retenção de Dados e Investigações) no Reino Unido, que obriga as empresas que recolhem informações dos seus clientes a retê-las e armazená-las, podendo a polícia e o governo solicitá-las.  

Em geral, a princípio, observamos horrorizados este tipo de iniciativas, mas depressa passamos ao cinismo, pois temos ideia de que qualquer protesto da nossa parte será inútil. 

Importa perguntar: qual é o impacto pessoal e psicológico dessa perda de privacidade? Que protecção legal é oferecida a quem deseja defendê-la? 

Talvez seja tarde demais para fazer essa pergunta, pois chegámos a um momento em que o nosso quotidiano ultrapassou a ficção, ultrapassou as distopias, ultrapassou o “e, se…”. 

Recordemos, Yevgeny Zamyatin que concebeu, no seu romance We, de 1921, um “one state”, uma sociedade transparente sem privacidade. Seguem-se Orwell, Huxley, Bradbury, Atwood e outros que elegeram a usurpação da privacidade como um dos principais “ingredientes” do futuro totalitário. O romance The Circle, de Dave Eggers publicado em 2013, pinta um retrato de uma América sem privacidade: um império assente na internet pesquisa e controla a vida de todos, confiando na adesão ao seu lema: “Segredos são mentiras, compartilhar é cuidar e privacidade é roubo”. A heroína acaba por se desintegrar sob a pressão do escrutínio, tornando-se uma das hordas obedientes e sem rosto. Um outro romance recente – Meatspace, de Nikesh Shukla, publicado em 2014 – que explora a fusão das esferas do privado e do público, começa com as seguintes palavras da personagem principal, um escritor solitário cuja única ligação ao mundo é a internet: “a primeira e última coisa que faço todos os dias é ver o que estranhos estão dizendo sobre mim”. 

O nosso pensamento vai no sentido de julgar como suspeita qualquer coisa que se mantenha longe do olhar público, de modo que, menos alguns de nós, não querendo ser vistos como suspeitos, aceitam “partilhar” o que é privado. 

Mas talvez haja a razão mais importante que nos leva a ceder a essa “partilha” não seja, como alguns defendem, sermos  dóceis  ou ignorantes, incapazes de ver a complexa teia de interesses, sobretudo comerciais, que nos enredam; talvez seja porque entendemos perfeitamente a transacção que está em jogo. Ou seja, queremos manter a internet gratuita e sabemos que as empresas ganham dinheiro com algo que estamos dispostos a dar em troca, a nossa privacidade. Trocamos a privacidade pela riqueza de informações que a internet nos oferece, pela conveniência das compras on-line, pela aldeia global dos media. 

Essa troca leva-nos a aceitar o efeito normalizador da vigilância. Há uma auto-verificação do nosso comportamento quando sabemos que estamos sendo vigiados. É o “panóptico” de Jeremy Bentham, um modelo para as cadeia onde um único guarda podia observar uma prisão inteira, não importava se o guarda estava ou não a observar, a mera possibilidade de estar seria suficiente para garantir o cumprimento da norma. 

É neste ponto que nos encontramos, sob uma vigilância que pode parecer benigna, mas que denota um poder sombrio e controlador sobre todos. 

A mensagem subliminar que passa é se queremos mesmo manter algo privado, devemos tratá-lo como um segredo, mas de um modo semelhante ao que a personagem de 1984, Winston Smith, fez: “Se quiser manter um segredo, deve escondê-lo de si mesmo”. 

Aqui reside o maior risco de invasão da privacidade, desvalorizado por aqueles que aceitam alegremente os tentáculos da corporação entre as empresas, os media e os estados. Recorrendo a Don DeLillo, no seu livro de 2010, Point Omega, “você precisa saber de coisas sobre si que os outros não sabem. É o que ninguém sabe sobre você que permite que você se conheça”. 

Negando-nos o acesso aos nossos próprios mundos internos, desistimos daquilo que nos eleva acima da mera sobrevivência, daquilo que nos torna humanos. 

Perguntei a Josh Cohen por que precisamos de privacidade na nossa vida, a sua resposta foi um aviso: “precisamente porque a privacidade garante que nunca somos totalmente conhecidos pelos outros ou por nós mesmos, a privacidade constitui um abrigo para a liberdade, para a imaginação, para a curiosidade e para a auto-reflexão. Portanto, defender o eu privado é defender a própria possibilidade de vida criativa e significativa”.]

Publicado em De Rerum Natura.

‘Não há mais desculpas, “pare de fazer”: o convite final de Gangaji’

Darma
Gangaji – Reprodução Dharmalog

[Para quem tem pressa e não quer perder mais nenhum tempo na vida, a recomendação espiritual “final” da autora americana Gangaji é bem simples: “Pare e desista!“. Num texto autobiográfico intitulado “O Fim de Todas as Desculpas“, publicado em seu site gangaji.org, ela conta resumidamente sua inspiradora história de vida e de busca espiritual, que culmina com o encontro com o mestre indiano Sri H.W.L. Poonjaji, o “Papaji“, que lhe disse exatamente a mesma coisa que ela recomenda agora a todos que lhe procuram por autoconhecimento: pare e desista. Ela conta sobre seu encontro com o mestre:

“Eu não queria perder nenhum tempo e (quando encontrei Papaji pela primeira vez) imediatamente disse, “Papaji, me diga o que fazer. Estou pronta pra fazer”. Ele ouviu a honestidade com a qual eu falava e riu, dizendo “Excelente. Você está pronta pra não fazer nada?”. Da primeira vez, não entendi o que ele quis dizer. Eu disse, “Sim, ok, estou pronta pra fazer nada, mas agora o que eu faço?”. Ele disse, “Não, eu digo que não faça nada”. Ainda assim implorei a ele, “Ok, entendo não fazer nada, mas o que eu faço?”. Ele riu de novo, batendo nas minhas costas, e disse, “Estou lhe dizendo para parar tudo. Pare todas as técnicas para alcançar o que quer que seja. Reconheça todas as suas estratégias para conquistar algo, e pare-as”. Claro que quando ouvi isso pela primeira vez, ouvi um nível relativamente superficial.”

Gangaji, “The End of All Excuses”

Provavelmente vai acontecer algo parecido quando você ler o texto abaixo, que é apenas um trecho do artigo completo dela — que apesar de ser um relato autobiográfico breve, é um texto longo. O texto é muito rico e inspirador, não somente porque é um convite importante e porque tem frases significativas e simples como “dedique esse momento a parar de fazer“, ou “esse não é um caminho que leva a algum lugar“, ou ainda, “finalmente, não há mais desculpas“, mas também porque Gangaji é uma “pessoa normal”, que tem marido, uma filha, vai ao cinema, gosta de caminhar etc. “Não tive nenhum nascimento auspicioso, (…) não fui criada por pais espiritualmente avançados nem em uma sociedade iluminada”. Tem uma vida “bem normal“, como ela mesma diz.

Gangaji nasceu no Texas em 1942 (tem 75 anos), com o nome de Merle Antoinette Roberson – o nome “Ganga” foi dado por seu mestre em 1990. Foi iniciada no Budismo, praticou meditação Zen e Vipassana, ajudou a administrar um Centro de Meditação de Budismo Tibetano, teve Kalu Rinpoche como um de seus mestres, e finalmente encontrou Papaji. Parece uma vida espiritual intensa, mas lendo o texto dela você vai ver que ela percorreu de maneira também “normal”, teve suas recaídas, até que finalmente encontrou o “fim da linha”. Vale a pena ler o texto inteiro, porque ler sobre a vida dela parece nos aproximar do nosso próprio parar e desistir (embora isso seja só um pensamento).

Para quem quiser ler o texto inteiro, em inglês, está neste link.
Gangaji também escreveu um livro autobiográfico, intitulado “Just Like You“, que pode ser adquirido (em inglês) na Amazon .

O Fim de Todas as Desculpas

Por Gangaji*

Estou lhe mostrando o que meu professor me mostrou, que é parar de fazer. Dedique esse momento a parar de fazer. Se você for agraciado com a capacidade de verdadeiramente ouvir essa profunda mensagem, mesmo que por um instante, você poderá reconhecer que isso já está feito. Qualquer pensamento de separação, com qualquer sofrimento que venha junto, ainda é apenas um pensamento. A separação deve ser mantida, deve ser pensada, deve ser provada e deve ser praticada para existir. Sem essa manutenção, a experiência da separação desaparece.

Seja como for que a vida diária se apresente, seja ela devotada à tarefas monásticas ou uma vida no meio do mundo, cada momento é uma oportunidade para perceber quem você é. A investigação profunda revela que quaisquer limitações prévias que você sente lhe impedem de ser quem você é, grande ou pequeno, são apenas conceitos, conceitos que, quando não mantidos pela atividade mental, não podem causar sofrimento. Esses conceitos podem ser liberados para que você, como você é, possa brilhar plenamente. Este é o convite que estendo a você.

Esse não é um caminho que leva a algum lugar. Esse é um caminho onde você reconhece que a tendência de ir a algum lugar é a tendência de seguir o pensamento. É o caminho que lhe para na sua rota para que você possa descobrir diretamente quem você é.

Finalmente, não há mais desculpas. Exatamente como você, sou uma criatura deste planeta. Não tive nenhum nascimento auspicioso, sob nenhuma grande estrela. Certamente não fui criada por pais espiritualmente avançados nem em uma sociedade iluminada. Sou casada. Tenho uma filha. Tenho vivido uma vida bem normal.

Gastei a maioria dessa vida procurando por felicidade de todas as maneiras que pude, até que encontrei uma força gigantesca que disse “Pare! Desista!”. Por alguma graça eu disse, “Okay”. Essa é a sua graça. Não é diferente. Desista de tudo e você verá imediatamente o que nunca pode ser perdido. Então você saberá onde é sua verdadeira casa, e finalmente você pode descansar.]

Nando Pereira (Dharmalog.com)

Tradução: Dharmalog.