Autores que escrevem em blog são reféns do senso comum e dos estereótipos

Espoerando
Cena de Esperando Godot (1953), do irlandês Samuel Beckett – foto: ofogareu.blogspot.com

Claro que o título deste texto é, provavelmente, injusto, pois nem todos os autores usam do senso comum e das frases ou palavras estereotipadas.

Mas a observação vale, principalmente, para os autores jovens (meninos e meninas) que arriscam suas “primeiras letras” numa mídia na qual não vão gastar mais nada a não ser o próprio tempo.

Boa parte desses/as escritores/as não vai a lugar algum. Muitos/as já desistiram, outros/as desistirão mais cedo ou mais tarde.

Aqueles que conseguirem vencer essa etapa (árdua) poderão, por óbvio, seguir em frente. Talvez não venham a ser reconhecidos como bons escritores, mas, mesmo assim, não terão perdido seus tempos e nem feito outros perderem os deles.

Já se disse em algum lugar ou em alguns lugares que depois dos filósofos gregos ninguém mais escreveu nada que merecesse ser lido; o mesmo raciocínio valeria, na ficção, para o pós-Shakespeare.

Trata-se, claro, também de um estereótipo, de um senso comum. A vida é um bocado complexa para que vivamos presos a épocas e a grupos sociais e/ou indivíduos.

Dos sinais

Eu sempre desconfio de quem inicia o texto com um “olá”, “aí galera”, “eu vim hoje aqui falar de…”.

Parece papo de bar ou de estudantes que se encontram no pátio da escola na hora do intervalo.

Dificilmente textos iniciados assim vão nos levar a algum lugar interessante.

Essa despretensão pode parecer “legal”, “jovem”, “moderna” e “descolada” em algum momento, mas não passam disso: “parecer”.

Ninguém por certo espera encontrar nos blogues novos Chico Buarque de Holanda ou Machado de Assis, que trataram das banalidades de seus tempos com muita arte e competência; ou uma nova metafísica aos moldes de Jorge Luiz Borges ou a sofrência de Franz Kafka.

Como se dizia na minha meninice: “é preciso comer muito feijão antes”.

Das profundidades

Nos “anos 60” (um estereotipo) parecia que o cinema europeu (sic), especialmente o francês, o italiano e o alemão, iria colocar a pique Hollywood (a tal “meca do cinema” – outro estereótipo) – por conta de suas obras engagé[1], um contraponto ao comercialismo norte-americano.

São várias as explicações do porque o cinema norte-americano não apenas não se exauriu como praticamente exterminou o cinema internacional, que, nos últimos anos, anda se reerguendo.

Deixo um pouco do lado as argumentações ideológicas, o poderio financeiro dos EUA e as sucessivas crises econômicas da Europa (e do restante do mundo) para ir por um outro caminho mais simplesinho: a extraordinária capacidade que “as artes” (cinema, teatro, música, jornalismo etc.) norte-americanas têm para tratar das tais banalidades da vida.

Os heróis norte-americanos (no teatro, no romance, no cinema, no jornalismo) não “morreram de overdose”.

Eles são a overdose: a dona casa neurótica, o executivo ganancioso, o soldado psicopata, os jovens desajustados, as crianças com instinto assassino.

São eles quem fazem chover o maná consumido por escritores, produtores, editores, artistas, diretores e jornalistas.

A magia está em como usar esse maná caudaloso, sem que se caia no pieguismo, na mesmice, na esteriotipação.

Pegar o “real” e simplesmente transportá-lo para a escrita e/ou para a arte sem nenhuma expertise que o faça se distinguir da banalidade, do senso comum é como jogar reboco na parede, deixando-o lá sem que um pedreiro experiente e competente venha trabalhá-lo e alisá-lo.

Nota

[1] Engajado (no francês), ideológico.

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2 comentários sobre “Autores que escrevem em blog são reféns do senso comum e dos estereótipos

  1. Bom Post, apesar do título ser bastante injusto e algumas opiniões tendenciosas. Chico Buarque, apesar de ser “Chico Buarque” já foi duramente criticado qndo premiado pelo musical Saltimbancos e o Kafka morreu muito menos famoso do q é atualmente.
    É uma escalada dura, primeiros passos como foi mencionado no texto e devemos ter disciplina e teimosia tbm. Parabéns!

    Curtir

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